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Apego Emocional, Dependência e Carência Afetiva: Como Cuidar e Superar

1 de agosto de 2025 by Eduarda Moro Deixe um comentário

O apego emocional, a dependência afetiva e a carência emocional são padrões psicológicos complexos que afetam profundamente a qualidade dos relacionamentos e o bem-estar emocional. Compreender esses fenômenos é fundamental para desenvolver relações mais saudáveis e construir uma vida emocional equilibrada, livre dos padrões disfuncionais que muitas vezes se repetem ao longo da vida.

Mapa clínico: apego emocional vira problema quando restringe a vida

Em resumo: apego, saudade e necessidade de vínculo são humanos. O alerta aparece quando a relação passa a organizar toda a autoestima, gerar medo constante de abandono, tolerância a situações prejudiciais, isolamento, ciúme intenso ou sofrimento que impede estudo, trabalho, sono e outras relações.

Diagrama diferenciando vínculo afetivo, medo constante de perder e prejuízo de rotina ou limites.
O problema não é gostar muito; é perder margem de escolha e autocuidado.
Fluxo visual para cuidar de dependência emocional com gatilhos, rotina própria e apoio profissional.
Recuperar autonomia é diferente de se tornar frio ou indiferente.
SinalO que pode indicarAção útil
Ansiedade intensa quando não há respostaMedo de abandono ou intolerância à incerteza.Criar pausas e outras fontes de regulação.
Aceitar humilhação, controle ou violênciaRisco emocional e físico.Procurar rede de apoio e orientação segura.
Abandonar amigos, estudo ou trabalhoO vínculo está estreitando a vida.Retomar compromissos pequenos e consistentes.
  • Anote situações que disparam urgência de mensagem, vigilância ou reconciliação a qualquer custo.
  • Diferencie pedido legítimo de cuidado de tentativa de controlar outra pessoa.
  • Busque ajuda imediata se houver ameaça, violência, risco de autoagressão ou sensação de não conseguir se manter seguro.

Nota de segurança: dependência emocional não deve ser usada para culpar a vítima em relações abusivas. Segurança, rede de apoio e avaliação profissional vêm primeiro quando há risco.

Para continuar no tema: Psicologia | Psiquiatria | Ansiedade nos relacionamentos | Como diminuir a ansiedade

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Apego Emocional, Dependência e Carência Afetiva: Como Cuidar e Superar”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Em dependência afetiva, o foco útil é transformar sofrimento em limites observáveis: padrões de controle, medo de abandono, isolamento, ciúme, tolerância a desrespeito e dificuldade de pedir ajuda. Relações com violência ou ameaça exigem plano de segurança.

Compreendendo o Apego Emocional

O apego emocional é um padrão de relacionamento que se desenvolve desde a infância e influencia profundamente como nos conectamos com os outros ao longo da vida. Baseado na teoria do apego de John Bowlby, esse conceito descreve as formas como buscamos proximidade, segurança e conforto em nossos relacionamentos significativos.

???? Os Quatro Estilos de Apego

???? Seguro
Confiança, autonomia, intimidade saudável
⚡ Ansioso
Medo de abandono, necessidade constante de validação
????️ Evitativo
Medo de intimidade, independência excessiva
????️ Desorganizado
Padrões inconsistentes, trauma relacional

Dependência Emocional: Quando o Amor Se Torna Vício

A dependência emocional é caracterizada pela dificuldade extrema em manter autonomia emocional, levando a pessoa a se sentir excessivamente ligada e dependente do outro para sua segurança e bem-estar. É como um vício emocional onde o parceiro se torna uma “droga emocional”.

???? Mecanismos Neurobiológicos

Pesquisas em neurociência mostram que o sentimento amoroso ativa as mesmas vias neurais das substâncias psicoativas, criando verdadeiros sintomas de dependência quando o relacionamento se torna disfuncional.

???? Características Principais

  • Necessidade constante de aprovação
  • Medo intenso de abandono
  • Falta de autonomia
  • Priorização excessiva do relacionamento

???? Crenças Disfuncionais

  • “Não posso ser feliz sozinho”
  • “Preciso da aprovação do outro para valer”
  • “Se for rejeitado, não sobrevivo”
  • “Sou responsável pela felicidade do outro”

Carência Afetiva: O Vazio que Não Se Enche

A carência afetiva é a sensação persistente de falta de amor e afeto, muitas vezes acompanhada pela dificuldade em se conectar emocionalmente com os outros. É como um vazio interno que parece insaciável, independentemente da quantidade de atenção recebida.

???? Origens da Carência Afetiva

???? Infância Conturbada
Pais ausentes, disciplina rígida, conflitos familiares
???? Abandono Emocional
Falta de demonstração de afeto, negligência afetiva
???? Traumas Afetivos
Experiências negativas, violência, rejeições repetidas

Sintomas e Consequências no Cotidiano

Tabela de Sintomas e Impactos na Vida Diária
Área de Vida Sintomas Comuns Impactos Concretos Consequências
Relacionamentos Ciúmes excessivos, possessividade, dificuldade em estabelecer limites Conflitos frequentes, rotatividade de parceiros Isolamento social, relacionamentos tóxicos
Saúde Mental Ansiedade constante, depressão, insonia Uso de antidepressivos, crises de ansiedade Transtornos de humor, burnout emocional
Autoestima Autodepreciação, necessidade de validação externa Dificuldade em tomar decisões, medo de errar Paralisia na vida profissional, submissão
Comportamento Comportamentos compulsivos, dificuldade em estar só Vícios em relacionamentos, trabalho excessivo Dependência de substâncias, comportamentos de risco

Tratamentos Eficazes: Caminhos para a Cura

???? Abordagens Terapêuticas Comprovadas

A ciência psicológica oferece diversas abordagens eficazes para tratar apego emocional, dependência e carência afetiva, com resultados comprovados através de pesquisas.

???? Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Objetivo: Modificar pensamentos e comportamentos disfuncionais

  • Identificação de crenças limitantes
  • Reestruturação cognitiva
  • Treinamento de habilidades sociais
  • Exposição gradual a situações desafiadoras
Duração: 12-20 sessões | Eficácia: 70-80% de melhora

???? Terapia de Esquemas

Objetivo: Tratar padrões emocionais profundamente arraigados

  • Trabalho com o “criança interior”
  • Diálogo interno terapêutico
  • Visualização guiada
  • Técnica da cadeira vazia
Duração: 6-12 meses | Eficácia: 75-85% de melhora sustentada

???? Mindfulness e Terapias Baseadas em Atenção Plena

Objetivo: Desenvolver autoconsciência e regulação emocional

  • Meditação de atenção plena
  • Técnica de respiração consciente
  • Escaneamento corporal
  • Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
Duração: Contínua | Eficácia: Redução significativa da ansiedade

Opções Terapêuticas Não-Cirúrgicas

Tabela de Tratamentos Não-Cirúrgicos e Suas Aplicações
Tratamento Indicação Principal Metodologia Resultados Esperados Cuidados Especiais
Psicoterapia Individual Todos os tipos de apego e dependência Sessões semanais de 50 minutos Autoconhecimento, mudança de padrões Comprometimento com o processo
Terapia de Casal Dinâmicas relacionais disfuncionais Sessões conjuntas quinzenais Comunicação saudável, limites claros Ambos os parceiros devem participar
Grupos de Apoio Isolamento social, validação Encontros semanais em grupo Rede de apoio, compartilhamento de experiências Sigilo e confidencialidade obrigatórios
Medicamentos Ansiedade, depressão associadas Acompanhamento psiquiátrico Alívio dos sintomas, estabilização emocional Monitoramento de efeitos colaterais
Práticas Corporais Regulação emocional, conexão consigo Yoga, dança, arteterapia Integração mente-corpo, autocuidado Orientação profissional adequada

Cuidados Essenciais no Processo de Cura

⚠️ Sinais de Alerta que Exigem Atenção Imediata

É fundamental reconhecer quando a situação requer intervenção profissional urgente para garantir a segurança e bem-estar emocional.

???? Emergência Emocional

  • Pensamentos suicidas ou automutilação
  • Isolamento social total
  • Uso abusivo de álcool/drogas
  • Comportamentos de risco extremos

⚠️ Sintomas Graves

  • Sintomas psicóticos (alucinações)
  • Mania ou hipomania
  • Síndrome do pânico frequente
  • Depressão incapacitante

???? Sinais de Alerta

  • Deterioração do funcionamento social
  • Problemas graves no trabalho/estudos
  • Violência em relacionamentos
  • Abandono de atividades essenciais

Estratégias de Autocuidado e Fortalecimento Emocional

???? Plano de Autocuidado Integral

???? Mental

  • Meditação diária (10 min)
  • Diário emocional
  • Leitura terapêutica
  • Terapia regular

???? Corporal

  • Exercícios regulares
  • Sono adequado (7-8h)
  • Alimentação balanceada
  • Massagens relaxantes

???? Emocional

  • Expressão de sentimentos
  • Limites saudáveis
  • Relações de qualidade
  • Tempo de qualidade só

???? Social

  • Grupos de apoio
  • Amizades saudáveis
  • Atividades em grupo
  • Voluntariado

Prevenção e Manutenção dos Avanços

????️ Estratégias Preventivas

A prevenção do recaída é tão importante quanto o tratamento inicial. Manter os avanços requer comprometimento e prática constante.

???? Monitoramento Constante

  • Diário de humor e gatilhos
  • Avaliação mensal de progresso
  • Identificação precoce de sinais de alerta
  • Ajustes terapêuticos quando necessário

???? Metas Realistas

  • Estabelecimento de objetivos alcançáveis
  • Celebração de pequenas vitórias
  • Tolerância com os próprios limites
  • Flexibilidade diante dos desafios

???? Fortalecimento Contínuo

  • Práticas de autocuidado regular
  • Manutenção de rede de apoio
  • Desenvolvimento de novas habilidades
  • Busca por crescimento pessoal

Conclusão

O apego emocional, a dependência e a carência afetiva são desafios complexos que afetam milhões de pessoas, mas que podem ser compreendidos, tratados e superados com as abordagens adequadas. A ciência psicológica oferece ferramentas comprovadas para transformar esses padrões em relacionamentos mais saudáveis e uma vida emocional mais equilibrada.

O processo de cura requer coragem para enfrentar medos profundos, paciência para construir novos padrões e comprometimento com o autocuidado e crescimento pessoal. Com o suporte profissional adequado e o investimento em estratégias terapêuticas eficazes, é possível desenvolver apego seguro, autonomia emocional e relacionamentos verdadeiramente satisfatórios.

???? Lembre-se Sempre:

✓ Você não está sozinho
Muitas pessoas enfrentam desafios similares
✓ A mudança é possível
Com tratamento adequado e dedicação
✓ Busque ajuda profissional
Terapeutas podem guiar seu processo
✓ Pratique o autocuidado
Seu bem-estar é prioritário

Perguntas Frequentes sobre Apego Emocional e Dependência

O que é apego emocional e como ele difere do amor verdadeiro?

O apego emocional é um padrão de relacionamento baseado no medo e na necessidade de segurança, enquanto o amor verdadeiro é construído sobre confiança, liberdade e crescimento mútuo. O apego gera sofrimento quando há separação, o amor permite individualidade e respeito mútuo.

Como identificar se tenho dependência emocional?

Os sinais incluem: dificuldade extrema em estar sozinho, necessidade constante de aprovação do outro, medo intenso de abandono, abandono de próprios interesses pelo relacionamento, tolerância a comportamentos prejudiciais e sensação de que não pode viver sem a pessoa.

A carência afetiva pode ser curada completamente?

Sim, com tratamento adequado é possível curar completamente a carência afetiva. O processo envolve psicoterapia para entender as origens, desenvolver autoestima, estabelecer limites saudáveis e construir relacionamentos mais equilibrados. A cura requer tempo e comprometimento.

Quanto tempo leva para superar a dependência emocional?

O tempo varia de pessoa para pessoa, mas geralmente requer 6 meses a 2 anos de trabalho terapêutico consistente. Fatores como gravidade do problema, histórico de traumas, comprometimento com o tratamento e qualidade do suporte afetam a duração do processo.

Posso tratar sozinho ou preciso de terapia?

Embora práticas de autocuidado sejam importantes, a dependência emocional geralmente requer acompanhamento terapêutico profissional. O terapeuta ajuda a identificar padrões profundos, trabalhar traumas e desenvolver estratégias eficazes de mudança de forma segura e estruturada.

Como o apego da infância influencia os relacionamentos adultos?

O estilo de apego formado na infância torna-se um modelo mental que guia como nos relacionamos. Apego seguro gera relacionamentos saudáveis, apego ansioso cria dependência, evitativo leva ao distanciamento emocional e desorganizado resulta em padrões inconsistentes e caóticos.

Medicamentos são necessários para tratar dependência emocional?

Medicamentos não tratam diretamente a dependência emocional, mas podem ser indicados quando há ansiedade, depressão ou outros transtornos associados. O tratamento principal é psicoterápico, com medicamentos usados apenas para alívio de sintomas quando necessário.

Como estabelecer limites saudáveis em relacionamentos?

Estabelecer limites envolve: conhecer suas próprias necessidades, comunicar claramente o que é aceitável ou não, aprender a dizer “não”, respeitar os limites do outro, manter individualidade e não se sentir culpado por priorizar seu bem-estar emocional.

É possível ter um relacionamento saudável após a cura?

Sim, absolutamente! Após o tratamento, as pessoas desenvolvem apego seguro, conseguem estabelecer limites saudáveis, comunicar necessidades de forma assertiva e construir relacionamentos baseados em respeito mútuo, confiança e crescimento conjunto.

O que fazer quando o parceiro não quer participir da terapia?

Você pode iniciar o trabalho individual para desenvolver sua autonomia e estabelecer limites. Muitas vezes, quando uma pessoa muda seus padrões, o relacionamento também se transforma. Se o parceiro continuar resistente, avalie se o relacionamento é saudável para você.

Como identificar se estou em um relacionamento tóxico?

Sinais incluem: manipulação emocional, controle excessivo, humilhação, isolamento de amigos e familiares, ciúmes doentios, ameaças de abandono, culpabilização constante, falta de respeito aos seus limites e sensação de estar “caminhando em ovos”.

É normal sentir medo de ficar sozinho durante o tratamento?

Sim, é completamente normal. O medo da solidão é uma das características centrais da dependência emocional. O tratamento ajuda a desenvolver autossuficiência emocional e mostrar que estar consigo mesmo pode ser enriquecedor, não assustador.

Como ajudar um ente querido com dependência emocional?

Ofereça apoio sem julgamento, incentive a busca por ajuda profissional, evite reforçar padrões dependentes, estabeleça limites claros, seja paciente com o processo e cuide da sua própria saúde emocional. Lembre-se que você não pode salvar a pessoa sozinho.

Quais são os primeiros passos para iniciar a mudança?

Os primeiros passos incluem: reconhecer o problema, buscar ajuda profissional, começar um diário de autoconhecimento, praticar pequenos momentos de independência, estabelecer micro-limites e investir em atividades que tragam prazer individual.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Fontes de apoio: NIMH: cuidado em saúde mental | NIMH: quando buscar ajuda

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Insatisfação corporal: padrões sociais e apoio

30 de agosto de 2023 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Insatisfação corporal: padrões sociais e apoio merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Comece por aqui…

Distúrbios de Imagem e Pressão Social

Como visto anteriormente, a questão dos padrões sociais e estéticos atravessam nossa relação com o mundo e com nosso próprio corpo, o que por vezes pode acabar tornando-se um agravante, resultando em adoecimento psíquico.

Mesmo não havendo uma causa única e definitiva, os distúrbios e transtornos de imagem tem relação direta com as noções de norma e padrão social. Indivíduos afetados por problemas psicológicos de imagem tendem a perceber sua aparência de forma distorcida, muitas vezes concentrando-se em imperfeições ou falhas que podem nem ao menos ser evidentes ou importantes para os outros. A anorexia nervosa e a bulimia, por exemplo, são manifestações extremas da pressão social para atender aos padrões estéticos e de beleza. Sabe-se que a sociedade muitas vezes recompensa a magreza extrema com elogios e admiração, incentivando comportamentos prejudiciais em busca desse ideal inatingível.

Segundo o Instituto de Psicologia Aplicada (INPA):

“O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é um transtorno psicológico em que a pessoa tem uma distorção da sua própria imagem. O paciente fica preocupado com pequenos detalhes e defeitos em seu corpo, causando uma forte uma angústia […].

O TDC está no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) desde 1987. Dessa maneira, estima-se que o transtorno afeta de 1,7% a 2,4% da população, tornando-o um transtorno bem comum.

Não há uma causa específica para o Transtorno Dismórfico Corporal. No entanto, alguns pesquisadores acreditam que fatores genéticos e histórico familiar estejam relacionados com o desenvolvimento de TDC. O ambiente em que a pessoa está inserida pode afetar no aparecimento do transtorno. Ademais, pacientes com TOC, transtornos de ansiedade ou depressão têm mais chances de desenvolver o TDC.”

Considerando as informações do INPA, podemos perceber que há uma correlação entre a ansiedade e depressão com os transtornos de imagem. Dado que o entendimento de que a imagem corporal está inadequada à sociedade, não é só o corpo externo que sofre com isso, mas tudo aquilo que constitui nosso corpo interior também. Contudo, existem muitos casos de sofrimento psíquico que não chegam a somar ao índice de pessoas com transtorno, mas que também deve nos colocar em alerta.

Uma matéria de Taise Spolti, na coluna Viva Bem da Uol, demonstra como o uso das redes sociais pode acabar potencializando o sofrimento psíquico derivado do pensamento de inadequação do corpo:

“Um gatilho para o transtorno dismórfico corporal é a perfeição que a internet nos traz constantemente. Somos atacados segundo a segundo por perfeições, que incluem: corpos, rostos, vidas, carros, rotinas, famílias, roupas, estilo de vida e perfis motivacionais. Os últimos, por exemplo, constantemente tentam mostrar que sua vida pode melhorar a todo custo, que onde você está não é seu lugar e que você pode ficar melhor se seguir as dicas que eles têm para vender por poucas parcelas mensais (de dinheiro, mas também de vida, que se esvai).”

Taíse, ainda faz um alerta sobre os filtros de embelezamento usados em redes como o Instagram que propagam uma imagem irreal nas postagens cotidianas, reforçando a ideia de que o natural não é bem-vindo. O uso de filtros tornaram-se tão normais que quando o usuário posta uma imagem sem filtro é acompanhada da hashtag “sem filtro”, soando quase como um reforço de que é possível algo de belo existir sem o embelezamento artificial.

Falei em outro texto sobre como nossa vida parece ser balizada pelas redes sociais e nosso “eu virtual”. Vivemos em uma era na qual só existimos se postamos e quando postamos, porém o que é publicado deve ser sempre feito a partir de um crivo estético e de um falseamento da realidade. É como se, mesmo quando queremos parecer reais e compartilhar nossa vida por meio das redes, isso só é possível quando artificializamos o momento, seja por meio de filtros, poses, etc. Estamos diante de um problema complexo, visto que urge a necessidade de ser visto e de ser mostrado, mas não de uma forma real e natural. É preciso estar dentro dos padrões estéticos e instagramaveis, caso contrário o “like” não vem!!!

Dar-se conta dessa teia causal é urgente, pois consumimos o que postamos e assim estamos conjuntamente alimentando noções padronizantes e corpos idealizados.

A construção de identidades muitas vezes envolve a internalização de mensagens e normas sociais, o que pode levar a conflitos entre o eu autêntico e o eu moldado pelas expectativas externas. É importante entender que os distúrbios de imagem não são meramente problemas individuais, mas sim resultados de um sistema social que valoriza de forma distorcida a conformidade estética.

Ao questionar as normas sociais e estéticas que contribuem para os distúrbios de imagem, podemos criar uma base para a cura e a transformação. Isso envolve o reconhecimento de que a beleza e a identidade não podem ser definidas por padrões unidimensionais, mas sim devem ser exploradas e celebradas em sua diversidade.

Devemos criar caminhos alternativos às normas opressivas da sociedade. Isso implica explorar novas formas de identidade, expressão e relacionamento com o corpo e a imagem. Um exemplo inspirador de promover transformações a partir das redes sociais o movimento Body Positive, que celebra corpos de todas as formas, tamanhos e cores. Essa abordagem desafia as normas estéticas convencionais e promove a aceitação do corpo como ele é. Através do Body Positive, as pessoas podem reconstruir uma relação mais saudável e compassiva com seus próprios corpos, rompendo com padrões hegemônicos que potencializam o surgimento dos distúrbios de imagem.

Esse tipo de movimento é importante principalmente por nos aproximar e nos lembrar que o padrão é baseado e alimentado pelo sistema capitalista, que através da propagação de corpos idealizados vende a imagem de vidas perfeitas. Desse modo, promover a aceitação e a diversidade dos nossos corpos também é um moimento de luta social, que desafia as estruturas de poder buscando subverter as normas estabelecidas.

Mas para que esse movimento se torne ainda mais expressivo é necessário que continuemos a questionar tudo aquilo que se institui como norma e padrão. A aceitação da pluralidade de corpos depende da promoção da educação e da consciência crítica em relação aos padrões sociais e estéticos. Ao entender como essas normas são construídas e mantidas, podemos resistir à sua influência e trabalhar para desafiá-las. A educação sobre a manipulação das imagens na mídia, por exemplo, pode capacitar as pessoas a questionar as representações idealizadas que frequentemente causam insatisfação e distúrbios de imagem.

Ao desafiar a conformidade e questionar as normas, podemos trabalhar para criar uma cultura mais inclusiva, diversificada e compassiva. Através dessa análise crítica, somos convidados a reconhecer a complexidade das relações entre corpo, identidade e sociedade, e a cultivar um espaço de transformação e autenticidade.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

sobrepeso obesidade
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Insatisfação corporal: padrões sociais e apoio, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Padrão social: por que estamos insatisfeitos com nossos corpos?

30 de agosto de 2023 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Resposta direta: Pode ser apenas desconforto com a aparência, mas a insatisfação corporal não deve ser ignorada quando passa a comandar alimentação, exercício, roupas, fotos, vida social ou autoestima. O ponto clínico é diferenciar pressão social comum de transtorno alimentar, dismorfia corporal, depressão ou ansiedade.

“Padrão” sempre é um termo a ser questionado… Mas você sabe o porquê disso e a importância de questionarmos aquilo que a sociedade institui como padrão?

Insatisfação corporal: quando deixa de ser incômodo comum

Quase todo mundo vive algum desconforto com aparência em certos momentos, mas a preocupação merece atenção quando passa a controlar roupa, comida, fotos, vida social, exercício, intimidade ou humor. O padrão social pesa mais quando vira regra interna rígida: “só posso sair quando meu corpo estiver de tal jeito” ou “meu valor depende da aparência”.

SinalPor que observar
Evitar fotos, praia, encontros ou consultasMostra que a imagem corporal está reduzindo experiências importantes.
Checagem constante no espelhoPode alimentar ansiedade e sensação de defeito.
Dietas extremas ou exercícios punitivosAumentam risco de relação desorganizada com comida e corpo.
Vergonha intensa ou isolamentoQuando sofrimento limita rotina, apoio profissional pode ajudar.

Como conversar sobre isso

  • Troque “preciso mudar meu corpo” por “o que essa cobrança está me impedindo de viver?”.
  • Observe gatilhos: redes sociais, comentários familiares, comparação ou fases de estresse.
  • Procure ajuda se houver restrição alimentar intensa, compulsão, purgação, uso de remédios sem orientação ou sofrimento persistente.

Padrão social: Tudo é construção social…

É necessário lembrar que: tudo é construção social! Como falado acima, um exemplo notável é a construção de papéis de gênero. A sociedade frequentemente estabelece expectativas rígidas sobre como homens e mulheres devem se comportar, o que podem desejar e como devem se apresentar. Esses padrões sociais criam uma pressão esmagadora sobre os indivíduos para se conformarem a essas normas, levando a conflitos internos e distorções da identidade quando não correspondemos com o esperado.

A estética desempenha um papel fundamental na perpetuação dos padrões sociais. As representações de beleza, muitas vezes filtradas pela indústria da moda, publicidade e mídia, moldam nossa percepção de como um corpo “ideal” deve ser. Essa estética da conformidade promove um conjunto restrito de características, frequentemente inatingíveis, que levam a distúrbios de imagem e à insatisfação corporal.

De modo que se torna tarefa difícil e cada vez mais complexa o sentimento de pertencimento à sociedade e aceitação do corpo. A inadequação continuará existindo se continuarmos a nos colocar em comparação. É preciso lembrar, mesmo que pareça tão óbvio, que não há corpo ou pensamento que possa ser considerado idêntico, em algo sempre iremos diferir, dada nossa constituição social, corpórea, genética…

Devemos nos atentar que a inadequação parece constante principalmente porque os padrões sociais não são universais ou imutáveis, mas sim construções sociais – que podem e devem ser questionadas e desafiadas – que estão mudando conforme a mídia e o consumismo nos apresentam novos corpos e produtos a serem almejados. Ou seja, quando chega-se perto de atingir determinado padrão estético ele logo se renova.

Questionar a estética dominante e buscar entender como ela é construída e mantida pode ser uma das saídas que nos levem a aceitação de quem somos. A indústria da moda, por exemplo, muitas vezes impõe padrões rígidos de magreza e juventude, excluindo corpos diversos e envelhecimento natural. Ao revelar a arbitrariedade dessas normas estéticas, podemos encontrar espaços para desafiar a narrativa da conformidade e celebrar a diversidade de corpos e estilos.

É importante destacar que a estética não se limita apenas à aparência física, mas também se estende à estética comportamental. A sociedade muitas vezes valoriza a conformidade comportamental, marginalizando aqueles que se desviam das normas estabelecidas. Quando falamos de padrão social falamos de padrões que dizem não só como devemos parecer, mas também como devemos ser e como devemos pensar.  

Ao reconhecer padrões normativos como contingentes e fluídos, podemos criar linhas de fuga que nos permitem explorar identidades e expressões diversas e autênticas. Isso é fundamental para aqueles que lutam com distúrbios de imagem relacionados à pressão para se conformar com padrões de beleza e comportamento.

Compreender o valor da diversidade e explorar as diferentes maneiras pelas quais as pessoas podem se expressar e interagir com o mundo pode nos aproximar de nós mesmos, fazendo assim com que as normas sociais e estéticas impactem cada vez menos nossa saúde mental.

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Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

Padrão social: por que estamos insatisfeitos com nossos corpos?
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando a insatisfação vira sinal de cuidado

Comparação social, filtros, comentários familiares, bullying, dietas restritivas e idealização de corpos podem aumentar desconforto com a aparência. Isso não significa que toda pessoa insatisfeita tenha um transtorno, mas alguns padrões merecem atenção porque passam a organizar a rotina.

SinalPor que importa
Checagem repetida do corpoEspelho, balança, fotos ou medidas começam a ocupar muito tempo mental.
Restrição alimentar ou compensaçãoPode indicar risco de relação adoecida com comida e peso.
Evitar praia, roupas, fotos ou encontrosMostra prejuízo funcional, não apenas preferência estética.
Vergonha intensa ou isolamentoPode coexistir com depressão, ansiedade ou dismorfia corporal.

Uma leitura útil não culpa o indivíduo nem promete autoestima instantânea. O foco é observar impacto funcional, segurança alimentar, sofrimento, uso de procedimentos por angústia e necessidade de suporte psicológico ou médico.

Como saber se a insatisfação precisa de ajuda

O sinal mais importante é prejuízo. Se a pessoa deixa de comer com segurança, treina para compensar culpa, evita encontros, checa o corpo muitas vezes ao dia ou sente vergonha persistente, o tema deixou de ser apenas opinião estética.

Padrão observadoLeitura clínica
Restrição alimentar progressivaAumenta risco de compulsão, desnutrição ou transtorno alimentar.
Checagem ou comparação constantePode manter ansiedade e percepção distorcida do corpo.
Procedimentos por sofrimento intensoExigem triagem de expectativa, segurança e saúde mental.

Fontes e leituras úteis

O NIMH descreve sinais de transtornos alimentares e preocupação com peso/forma corporal. A OMS também discute saúde mental, normas sociais e influência da mídia.

Se algo pode ser enquadrado dentro de um padrão issoimplica concomitantemente na existência de um espaço que existe fora e que diverge do que se entende por padrão. O uso do termo está imbricado com a noção de norma, ou seja, o que é considerado normal/padrão em determinado contexto.

A sociedade moderna é permeada por padrões sociais e estéticos que ditam como devemos nos comportar, como devemos nos vestir, o que devemos dizer ou não dizer e como devemos nos apresentar ao mundo. Essas normas, muitas vezes implícitas e opressivas, moldam nossa percepção da realidade e influenciam nossas escolhas diárias. Mas não é tão fácil reconhecer esses padrões na vida cotidiana, até porque na maioria das vezes são questões tão normativizadas que não se faz possível questioná-las se não as colocarmos em análise.

Com a vida acontecendo e a correria do dia-a-dia, quase não há tempo para pensarmos nos motivos que nos levam a considerar algo como normal ou padrão. Ainda assim, eles estão ali, nos acompanhando e moldando nossos comportamentos e pensamentos…

Um exemplo disso é a noção de que a vida deve seguir um caminho: estudar, trabalhar, conhecer alguém do sexo oposto e casar, ter um filho. Em determinadas culturas, prevalece uma convicção enraizada de que o matrimônio e a paternidade são fases intrínsecas e vitais na trajetória de cada pessoa.

Esse pensamento pode desencadear pressões discretas ou evidentes, mas que definitivamente instituíram na sociedade ocidental um padrão de vida; frequentemente relacionados a uma noção de “relógio biológico” que insinua uma redução da fertilidade com o avanço da idade.

Contudo, existem padrões sociais que, para além de uma noção de comportamento normativo, imbuem preocupações e pensamentos dismórficos sobre o próprio corpo, e isso é bem mais comum do que se pode imaginar.

Você já fez alguma dieta por achar que está “acima do peso”, considerando apenas a questão estética? Deixou de usar alguma roupa que gosta por medo do que possam falar? Fez algum tipo de procedimento estético para “parecer menos velha”?

Se sua resposta foi sim para alguma dessas perguntas, você faz parte de um grande número da população que se sente insatisfeito com seu eu. É cômico pensar que o padrão estético é formado por um ideal de corpo que representa um número pouco expressivo quando pensamos na população em geral. Somos um país miscigenado, com corpos de diferentes cores, estaturas e medidas, mas que busca por um ideal de beleza que nada tem a ver com nosso povo.

Se sentir-se fora do padrão não fosse pesaroso o suficiente, existem distúrbios de imagem e pensamentos de inadequação social que se agravam e se tornam mais comuns conforme se idealiza um corpo perfeito.

Nesse texto, convido você a explorar as normas e padrões sociais para repensar a maneira como a sociedade molda nossas percepções sobre beleza, corpo e identidade, com o intuito de desconstruir esses padrões, expondo as estruturas de poder que os sustentam.

Fontes úteis

  • NIMH: Eating Disorders
  • Mayo Clinic: Body dysmorphic disorder

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Vida online e offline: impactos na saúde mental

30 de agosto de 2023 by Eduarda Moro Deixe um comentário

vida digital afeta sono, atenção, comparação social, ansiedade, relações e trabalho de modos diferentes. O problema não é apenas “usar internet”, mas perder controle, dormir pior, evitar vida presencial ou usar telas para regular sofrimento o tempo todo.

A vida online pode afetar a saúde mental quando muda sono, comparação social, atenção, autoestima e qualidade das relações fora da tela. O ponto principal não é separar internet e vida real como mundos isolados, mas observar quando o uso digital aumenta ansiedade, reduz descanso ou substitui vínculos presenciais importantes.

Texto escrito em colaboração com Kelly Gomes – Psicóloga clínica, especialista em psicologia atendimento e intervenções on-line

As fronteiras entre o real e o ficcional estão cada vez mais comprometidas. O eu real, outrora ancorado na vivência offline, agora se encontra em constante interação com o eu digital, aquele que habita os espaços online. Diante de um mundo onde a tecnologia tece uma teia cada vez mais intrincada entre a realidade e a representação, a distinção entre esses dois eus parece diminuir, dando espaço a uma relação de complementaridade que redefine nossa noção de identidade.

A primeira evidência dessa dissolução das fronteiras entre o real e o digital é visível nas redes sociais, em especial no Instagram. Nessa plataforma, as pessoas buscam compartilhar não apenas momentos de suas vidas, mas também partes de sua intimidade. Essa exposição da vida pessoal é motivada pela busca incessante por experiências autênticas e genuínas, mesmo que, por vezes, o que vemos seja uma mera performance.

Em um cenário em que a busca por conexão e autenticidade guia ações e decisões, torna-se notável a evolução do conceito de identidade pessoal. A era digital proporciona um palco global onde as pessoas podem compartilhar suas vidas, opiniões e aspirações, redefinindo a maneira como se expressam e se relacionam.

O fenômeno das redes sociais exemplifica essa fusão de maneira gritante. Plataformas como o Instagram, que inicialmente serviam como espaços para compartilhar momentos do cotidiano, evoluíram para uma arena onde a linha entre o eu pessoal e o eu público é borrada. A busca por autenticidade levou ao surgimento do conceito de “influenciadores”, indivíduos que transformam sua vida em um espetáculo para atrair seguidores ávidos por experimentar um pouco daquilo que é mostrado, a partir da experiência como espectador.

No entanto, é preciso questionar a verdadeira autenticidade dessas representações. Muitos influenciadores cuidadosamente selecionam os aspectos de suas vidas que desejam compartilhar, criando uma narrativa que pode ser performada e editada para se adequar à estética e aos interesses de sua audiência. O que é apresentado como “real” nem sempre é uma reflexão precisa da vida offline; em vez disso, é uma encenação cuidadosamente elaborada para atender às expectativas virtuais.

A citação de Sibilia (2008) ressalta como essa mudança impactante está em jogo: “a vida real é convidada a se tornar um espetáculo, a ser executada no palco das redes sociais”. Nesse cenário, as fronteiras entre os eus real e digital começam a desvanecer-se, criando uma fusão onde a própria noção de autenticidade é colocada em xeque. A espetacularização da vida cotidiana torna-se um meio de conquistar seguidores, likes e, em última instância, um tipo de capital social.

É pertinente questionar se a linha que separa esses dois eus é realmente necessária ou se pode ser substituída por uma compreensão mais fluida e integrada da identidade. Afinal, ao tentarmos demarcar rigidamente o eu real e o eu digital, podemos perder de vista a riqueza da experiência humana na era digital. Em vez de resistir à fusão inevitável desses dois aspectos, é crucial explorar como eles podem coexistir de maneira mais saudável e significativa.

Tal exploração pode começar com uma análise sincera dos nossos próprios comportamentos online e offline. Você já notou diferenças marcantes entre esses dois estados? É provável que, em algum grau, a persona digital seja uma extensão do eu offline, mas é importante reconhecer até que ponto você está moldando conscientemente essa representação. Isso não implica necessariamente que você esteja sendo inautêntico, mas sim que está se adaptando a um novo ambiente de interação social.

Encontrar um equilíbrio entre essas duas dimensões requer autorreflexão constante. Ao se conscientizar das motivações por trás das postagens e compartilhamentos, é possível alinhar melhor a persona digital com os valores e a autenticidade do eu real. Em vez de se submeter a uma espetacularização cega, você pode escolher conscientemente os aspectos da sua vida que deseja destacar e compartilhar, sem comprometer sua integridade pessoal e sem moldar-se de acordo com o que dá mais likes. Dado que nossa sociedade é moldada por forças culturais e estruturais, e nossa interação com a tecnologia é parte integrante desse panorama.

Vida online: redes sociais e aumento da ansiedade

As redes sociais podem desempenhar um papel significativo no surgimento da ansiedade. Em um mundo cada vez mais digital, onde as interações online se tornaram uma parte integral da vida cotidiana, é crucial entender como essa dinâmica influencia nosso bem-estar emocional.

As redes sociais, embora tenham o potencial de conectar as pessoas de maneiras nunca antes imaginadas, também podem contribuir para o aumento de sentimentos relacionados a ansiedade devido a vários fatores. Um dos principais é a constante comparação social que ocorre nesses espaços virtuais. Ao percorrer feeds repletos de fotos cuidadosamente selecionadas e atualizações positivas, muitas vezes esquecemos que essas representações não contam a história completa da vida das pessoas. Essa comparação pode levar a uma sensação de inadequação, onde nos sentimos pressionados a alcançar padrões inatingíveis de sucesso, beleza e felicidade.

Além disso, a natureza da validação online também pode ser uma fonte de ansiedade. O número de curtidas, comentários e seguidores muitas vezes se transforma em uma medida de autoestima e aceitação. Quando nossas postagens não recebem a atenção esperada, isso pode gerar sentimentos de rejeição e desvalorização. A ansiedade pode se manifestar à medida que nos perguntamos por que não somos tão populares ou admirados quanto os outros.

A sensação de estar sempre “ligado” às redes sociais também pode aumentar os níveis de ansiedade. A constante disponibilidade para responder a mensagens, atualizar status e verificar notificações pode criar uma sensação de urgência e agitação. Isso pode dificultar a desconexão e o relaxamento, impactando negativamente na saúde mental.

A natureza instantânea e viral dessas plataformas significa que somos bombardeados por uma ampla gama de informações, nem sempre positivas. Isso pode levar a um aumento do estresse e da preocupação, especialmente quando nos sentimos impotentes diante dos problemas do mundo. Para minimizar esses efeitos negativos, é importante cultivar uma abordagem consciente no uso das redes sociais. É essencial estabelecer limites saudáveis para o tempo gasto nas redes sociais e praticar a desconexão regularmente.

Fomentar relacionamentos offline também é fundamental para combater a ansiedade relacionada às redes sociais. Investir tempo em interações cara a cara ajuda a criar conexões mais profundas e autênticas, reduzindo a dependência das validações virtuais. Além disso, é útil lembrar que é perfeitamente normal desconectar-se e não estar sempre disponível para responder imediatamente às mensagens online.


Referência: SIBILIA, P. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. 218. Galaxia, p. 201-218, [s.d.].

Sugestão de conteúdo: Entrevista com Paula Sibilia – o show do eu

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

Síndrome da Visão do Computador
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Vida online e offline: impactos na saúde mental, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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A vida adulta: pressão e comparação com outras vidas

28 de agosto de 2023 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Ouço muito a comparação da vida adulta que vivemos agora para a vida adulta em que viviam nossos pais, há 30, 40 anos atrás. Com trinta anos meus pais já eram casados, tinham dois filhos, empregos estáveis e casa própria. Quase completando 31 anos não posso dizer que de algum modo me assemelho a realidade que eles viviam com a mesma idade, e estou longe de gabaritar suas conquistas. Muita coisa mudou de lá pra cá. Já não temos as mesmas preocupações, o estilo de vida e a relação com o trabalho mudaram muito.  

Mapa clínico: comparação na vida adulta precisa virar cuidado, não cobrança

Em resumo: comparar a própria vida adulta com pais, amigos ou redes sociais pode gerar sensação de atraso, vergonha e pressão. Isso não significa fracasso. O ponto de atenção aparece quando comparação vira ruminação, tira sono, paralisa decisões, aumenta isolamento ou apaga conquistas possíveis no contexto real de trabalho, renda, vínculos e saúde mental.

Fluxo visual sobre comparação na vida adulta com trabalho, renda, moradia, família e recorte das redes sociais.
Comparar resultado sem comparar contexto costuma machucar mais do que orientar.
Diagrama de sinais de desgaste na vida adulta com sono, apetite, decisões paralisadas, isolamento e culpa.
A pergunta útil é qual próximo passo pequeno ainda é possível.
Pensamento comumLeitura mais cuidadosaPróxima pergunta
Estou atrasado.Talvez o roteiro comparado não exista mais do mesmo jeito.Qual meta é minha e qual veio de fora?
Todo mundo avançou.Você vê recortes, não bastidores.Que dado real sustenta essa conclusão?
Não consigo começar.Pressão alta demais paralisa.Qual passo de 15 minutos reduz dano hoje?
  • Observe se comparação está tirando sono, apetite, vínculo, trabalho ou estudo.
  • Reduza exposição a gatilhos digitais quando eles pioram ruminação.
  • Procure ajuda se houver desespero, isolamento persistente ou ideia de autoagressão.

Nota de segurança: sofrimento emocional com ideia de morte, autoagressão, desesperança intensa ou incapacidade de se manter seguro exige ajuda imediata.

Para continuar no tema: Psicologia | A falta que a falta faz | Ansiedade em relacionamentos

Pressão, comparação e sinais de desgaste

Na vida adulta, comparação não aparece apenas como inveja. Ela pode surgir como sensação de atraso, cobrança por produtividade, medo de não ter escolhido bem, vergonha financeira ou impressão de que todos estão “andando” menos você. O cuidado começa quando a comparação deixa de orientar escolhas e passa a impedir descanso, vínculo e ação possível.

Tipo de pressãoPergunta útil
Carreira e dinheiroEstou comparando bastidores da minha vida com vitrine da vida dos outros?
RelacionamentosMinha régua vem do que eu valorizo ou do que pareço precisar provar?
Corpo e aparênciaEssa cobrança está mudando alimentação, sono, humor ou isolamento?
Tempo perdidoExiste uma próxima ação pequena, concreta e possível nesta semana?

Quando procurar apoio

  • Quando a comparação vira ansiedade diária, tristeza persistente ou autocrítica agressiva.
  • Quando decisões são adiadas por medo de parecer atrasado.
  • Quando surgem pensamentos de inutilidade, desesperança ou vontade de desaparecer.

Fontes e leituras úteis

A Organização Mundial da Saúde descreve como estresse excessivo pode afetar saúde física e mental. Para jovens e adultos jovens, a OMS também discute saúde mental, normas sociais e influência da mídia.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “A vida adulta: pressão e comparação com outras vidas”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Escaras não são apenas problema de pomada. Mudança de posição, alívio de pressão, pele limpa e seca, nutrição, controle de umidade e avaliação de profundidade são partes centrais do cuidado.

À medida que os 30+ vão somando aniversários, somos confrontados com um conjunto complexo de expectativas, pressões e mudanças sociais que impactam profundamente nossa jornada pessoal. Em um mundo em constante transformação, as estruturas sociais, econômicas e culturais têm contribuído para a complexidade das experiências de vida adulta, tornando mais difícil alcançar uma sensação de estabilidade emocional e financeira.

A ideia de alguns teóricos, como Deleuze e Foucault, sobre a sociedade de controle é particularmente relevante nesse contexto, pois nos levam a compreender como as estruturas disciplinares do passado, que moldavam indivíduos por meio de regras rígidas, deram lugar a uma sociedade em que o controle opera de maneira mais sutil e difusa. Na vida adulta contemporânea, isso se manifesta através da necessidade constante de se adaptar, reconfigurar e se autogerir em um ambiente volátil e em constante mudança.

Um dos principais desafios que enfrentamos é a pressão para ter sucesso em todas as áreas da vida, incluindo carreira e relacionamentos pessoais. Nos desdobramos em diferentes papéis sociais: somos filhos, companheiros, amigos, trabalhadores, etc. E em todos eles sentimos a cobrança para desempenhar a função social da melhor maneira possível. Nossas vidas tem se baseado na ideia de que em tudo é necessário atingir a melhor performance, dado que a sociedade atual valoriza a ideia de ser multitarefa e produtivo em todos os momentos, o que pode levar a um estado de exaustão constante. A busca pela estabilidade financeira é uma preocupação subjacente a essa pressão, pois a precarização do trabalho e a incerteza econômica tornam difícil alcançar segurança material.

Além disso, a sociedade de consumo exacerba esses desafios. Somos inundados por uma cultura de consumo que nos lembra constantemente do que falta em nossas vidas, estimulando desejos insaciáveis e a constante busca por mais. Contudo, a busca pelo mais fica sempre nesse lugar da aquisição material e melhor desempenho profissional, poucas vezes buscamos mais quando o assunto é a saúde mental... E é claro que o resultado não poderia ser diferente, essa dinâmica de buscar padrões inatingíveis, e ser cada vez mais e mais produtivos, interfere diretamente em nossa estabilidade emocional, já que a comparação constante pode levar à insatisfação crônica e à sensação de inadequação.

A tecnologia também desempenha um papel central nesse cenário. Embora a conectividade digital tenha o potencial de criar redes de apoio e oportunidades de aprendizado, ela também contribui para uma cultura de autoexibição. As redes sociais, por exemplo, muitas vezes mostram uma versão idealizada da vida dos outros, levando à percepção de que todos os outros estão indo melhor do que nós, o que acaba por engatilhar sentimentos de ansiedade e angústia.

A flexibilidade exigida pela sociedade contemporânea também tem implicações profundas para os relacionamentos. A necessidade de se mudar para seguir oportunidades de carreira, a pressão para manter uma presença constante nas redes sociais e a dificuldade em encontrar tempo para o cuidado de si podem dificultar o estabelecimento e a manutenção de conexões profundas e significativas.

Nesse cenário, a busca pela estabilidade financeira também se torna mais difícil. A natureza do trabalho mudou drasticamente nas últimas décadas. Muitos jovens adultos enfrentam trabalhos temporários, falta de benefícios e uma sensação geral de precariedade. Isso não apenas afeta a estabilidade financeira, mas também contribui para um ambiente de incerteza que permeia todas as áreas da vida.

Como lidar com os desafios da vida adulta

Uma abordagem prática para lidar com os desafios diários dos 30+ é aquilo que já falamos por aqui: psicoterapia. Diferente do que pode-se pensar sobre a psicoterapia, ela não acontece apenas na sessão com psicóloga. Estar em processo terapêutico requer análise cotidiana e um olhar atento para si. Isso envolve cultivar práticas regulares de autocuidado, como meditação, exercícios, expressão criativa e tempo para relaxar.

Outra estratégia é buscar uma relação saudável com a tecnologia. Isso pode envolver períodos de desconexão, limitar o tempo gasto nas redes sociais e ser seletivo sobre as informações que consumimos. Ao reduzir a exposição a conteúdos que alimentam a comparação e a insatisfação, podemos cultivar uma visão mais realista e positiva de nossas próprias vidas.

Além disso, é importante repensar nossos valores e objetivos. A sociedade contemporânea frequentemente nos empurra em direção a padrões de sucesso que podem não estar alinhados com nossas verdadeiras aspirações e desejos. Ao refletir sobre o que realmente valorizamos e buscamos em nossas vidas, podemos tomar decisões mais conscientes e autênticas, mesmo que isso signifique desafiar as normas predominantes.

A vida adulta em uma sociedade complexa é repleta de desafios que requerem uma abordagem crítica e resistente. Em última análise, sempre é importante questionar a os ideais dominantes em voga, que sempre estão pautados por normas e regras sociais que na maioria das vezes não tem relação alguma com nossos valores, necessidades e aspirações. Ao reconhecer as pressões sociais e culturais que contribuem para a dificuldade de alcançar estabilidade emocional e financeira, podemos adotar uma postura mais consciente e empoderada na busca por uma vida que cria mecanismos para voltar-se para si.

É assim que concluo esse texto, com a intenção de fazer pensar sobre a necessidade de criarmos uma vida que entende o quanto pode ser frustrante tentar viver de acordo com as vidas que vieram antes que as nossas. Ou mesmo, como pode ser limitante viver de acordo com quaisquer outras vidas que não a nossa própria. Comparações só nos dizem do outro e não são justas, pois dificilmente abarcam a complexidade que cada vida-vida vive.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental
  • MedlinePlus: escaras e úlceras por pressão
  • MedlinePlus: prevenção de úlceras por pressão

Fontes de apoio: MedlinePlus: stress | NIMH: do I need help?

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Término de relacionamento: apego e idealização

28 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Término de relacionamento: apego e idealização merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Diante do término de um relacionamento muita coisa vem à tona. São emoções e pensamentos repetitivos que misturados resultam em uma confusão psíquica. É difícil saber por onde começar quando se termina. Somos inundados por sentimentos que se tornam físicos, é como se a ansiedade tomasse uma forma concreta que reverbera no corpo. A barriga dói, a cabeça dói, o enjoo chega. O corpo dá sinais de que sabe que algo não está bem. E não está. Mesmo quando o término parece a única saída, ainda assim, terminar um relacionamento é uma tarefa complexa, pois demanda um ato de reaver questões pessoais que, em muitos casos, foram deixadas de lado para dar seguimento a relação. Sempre me questiono: por que continuamos então? Das tantas respostas possíveis, o apego emocional parece sempre estar envolvido ante a essa situação.

Conversando com um amigo que há poucos dias terminou um relacionamento, pedi a ele que, livremente, escrevesse algo sobre o final. Não tinha a pretensão de escrever sobre apego emocional, minha questão era com o término, queria esmiuçá-lo, analisar o que se repete na cabeça de quem acabara de acabar, mas parece ficar evidente a conexão do apego em sua escrita.

Vamos ao relato:

“ – ‘Ela não é a única pessoa do mundo’, disse um amigo quando falei sobre o sentimento de que nunca encontraria alguém com as qualidades e com a compatibilidade de valores que tinha a pessoa da qual eu estava acabando de me separar.

Ele ainda complementou: “Sei que parece assim agora, mas isso já aconteceu comigo duas vezes e eu continuei encontrando pessoas maravilhosas”. Aí fiquei parado nesse vácuo do tempo esperando e querendo que o tempo passasse logo pra curar toda aquela dor que eu estava sentindo.

É meio ridículo ter que esperar e acho que desaprendi, já esperei muito na vida, me considero um ser com bastante paciência, pois sendo filho de agricultores sei que hora a safra não vai bem e é necessário esperar 1 ano para tentar de novo. Planejamento a médio e longo prazo são coisas que aprendi desde pequeno, quando eu deixava de brincar com meus primos para ficar na cozinha durante a o café da tarde de domingo, fingindo que estava brincando enquanto estava, na verdade, ouvindo os assuntos dos adultos.

Achava meio mágico tudo aquilo, parecia uma outra vida, um outro tempo, coisa mágica, então óbvio que eu queria ser adulto. A adolescência foi péssima e depois de alguns natais celebrados em família, e outros que eu fugi pedalando de bicicleta, os anos se passaram. Agora estou com 30 anos, me separando de um relacionamento de 1 ano e alguns meses, que sinto com uma intensidade que parece ter sido de uma vida inteira. E claro que a dor deve ser proporcional a intensidade toda…”

Muitas questões se apresentam aí, que não dizem só do término. Esse relato parece, de algum modo, representar a confusão psíquica que é experimentada por vários outros sujeitos diante do fim da relação. O que, em suma, poderia resultar em um método prático para viver o fim –  já que são sentimentos e pensamentos que se repetem em diversos casos de término –, acompanhado de respostas prontas e frases que guiam a um recomeço, mas isso não é possível. E não é possível porque terminar com um outro demanda um reencontro, esse que é muito particular, e que é vivido por cada um de modo diferente.

Término e apego emocional: sobre idealização do outro e o medo do novo

Quando uma relação acaba sentimos que algo de nós acaba também. E de fato acaba, porque o término cinde com a idealização que fazíamos do parceiro e do casal que se formava junto deste.

A idealização é um processo psíquico pelo qual projeta-se aquilo tudo que se deseja em um parceiro, que sempre é da ordem do ideal e sem espaço para falha. É um arquétipo que se organiza entorno de uma imagem, que representa o que consideramos bom e adequado para nós e que precisa ser atendido pelo outro da relação. É junto da idealização que se produz pensamentos como o do relato acima: “nunca vou encontrar alguém igual a essa pessoa”. E de fato, não vai. Mas não vai porque aquela pessoa estava vinculada a um ideal, era nosso desejo refletido e materializado.

A idealização não reflete apenas nossa demanda urgente de que alguém atenda todos nossos desejos e expectativas, mas diz também sobre uma outra idealização: a construção da família. Daí a importância de que alguém corresponda ao nosso ideal de par, dado que estamos buscando um outro para realizar um ato grandioso que é a construção de uma nova família. Essa então, que precisa dar conta de preencher aquilo que “faltou” na família de origem.

A construção de uma nova família com o par idealizado cria uma noção de urgência, de pressa, principalmente quando isso tudo carrega o peso da idade cronológica, que nesses casos é sentida como cobrança. Nos cobramos por não termos encontrado ainda alguém ideal para constituir uma família, porque nossa concepção de vida adulta está frequentemente atrelada a isso: a união com um outro, que comigo irá inaugurar uma nova família.

Precisamos considerar isso tudo quando enfrentamos a dor do término. A dor é real, sentimos falta da presença do outro, da rotina e dos desejos construídos com o par. A intensidade descrita na fala citada também é real. Não há como apressar a dor. Todos os sentimentos e pensamentos que resultam da experiência do término são também decorrentes do apego emocional. Cabe lembrar que o apego emocional não está conectado apenas ao outro e aquilo que foi vivido com esse outro; o apego emocional refere-se também a idealização do par e tudo aquilo que se projetou nessa relação.

Sobretudo, os sentimentos que experimentamos ante a um término são derivados do que está por vir. Até então estávamos acostumados com o outro, com o que éramos junto desse outro, com a rotina. Quando uma relação termina, essas certezas que se construíram terminam também. Não há como saber o que vem depois da dor, depois de um fim. O novo assusta tanto quanto o final. Mas uma certeza podemos ter: existem outras pessoas no mundo.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

termino de relacionamento
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Término de relacionamento: apego e idealização, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Finitude: como pensar a vida e o cuidado emocional

28 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Finitude: como pensar a vida e o cuidado emocional merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Resposta direta: pensar sobre finitude pode ser saudável quando ajuda a reorganizar valores, prioridades e vínculos. O sinal de cautela aparece quando o tema vira medo constante, desesperança, isolamento, perda de sentido ou vontade de desaparecer.

Texto escrito em coautoria da psicóloga Maria Carolina da Silveira Moesch. Mestra em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais

Muitas notícias têm sido veiculadas sobre a saúde mental, ou mais especificamente a falta dela, na pós pandemia, ou na sindemia (termo que vem sendo utilizado para o momento que estamos vivendo, já que sindemia, significa um conjunto de problemas de saúde interligados). Aponta-se para um aumento significativo do sofrimento humano decorrente dos diferentes efeitos da Pandemia, sejam eles efeitos físicos, sociais, culturais e psicológicos.

Sabe-se que a emergência humanitária sanitária que vivemos, acabou descortinando outras fissuras da humanidade: as violências de gênero aumentaram, as violências contra as crianças e adolescentes, a fragilidade atual das diferentes políticas públicas, em especial a educação, assistência social e saúde. Isso sem falar das questões socioeconômicas, a falta de comando dos governos para uma melhor gestão da pandemia, e ainda as questões de saúde e saúde mental que já existiam e que se tornaram mais agudas. Vivemos agora momentos de desastres dentro do desastre.

Enquanto profissionais da psicologia, atuamos como psicólogas em situações de desastres. Maria Carolina de forma mais efetiva do que Eduarda. Contudo, podemos dizer que, profissionalmente e pessoalmente, nossas vidas foram perpassadas por situações de desastres. Ainda assim, não de forma tão expressiva como agora, não de modo tão visível e exposto como os dias que vivemos. Talvez, enquanto humanidade, nos demos conta, de forma muito intensa, da finitude da vida, da finitude dos processos de trabalho, das relações sociais, das relações familiares, do cotidiano conhecido, de nós mesmos. 

Também, muito foi ponderado dentro dos grupos que trabalham com o sofrimento humano (psicólogos, terapeutas, médicos) sobre os processos de perdas, os lutos legitimados e não legitimados, nos atravessaram com intensidade. Não pudemos deixar de olhar para a importância dos rituais fúnebres para as famílias e amigos, para as perdas do cotidiano de ir a escola, de estar juntos a mesa para compartilhar, da vida, do alimento, do abraço que ficou suspenso, do trabalho que mudou de lógica e intensificou-se, perdendo-se em termos de temporalidade e misturando-se com a intimidade do lar.

Viorst (2005) nos diz que o modo como experienciamos nossas perdas, diz muito sobre o modo como vivemos. O que nos leva a reflexão, sobre a presencialidade nos processos afetivos que passam por nós.

Como vivemos e experienciamos nossas perdas? Há experienciamos nesta atualidade fluída? De um compromisso adoecedor por uma felicidade constante que não existe?! Perguntas que cabe a cada um a reflexão.

Cabe aqui, resgatar de forma menos teórica e mais visceral sobre como compreendemos os processos de morte e o enlutar-se. E o que é esse luto?  Partimos das palavras da escritora Chimamanda, de que o luto é uma forma cruel de aprendizado. Para a autora com o luto,

“Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca de palavras” (NGOZI ADICHiE, 2021, p. 14).

Ou ainda:

“O Luto é uma estrada não pavimentada e imprevisivelmente sinuosa. Ele é inflexível e parece desordenado ou “incivilizado”, sobretudo para aqueles que aderem ao “culto da felicidade”. O luto é um antiestabilizador, um processo que viola regras, sendo resistente à contenção. O luto se recusa a seguir protocolo. É um território sagrado que pertence a cada indivíduo” (LUZ, 2021.p. 19-20).

De fato, essa imprevisibilidade atrelada à inflexibilidade nos rouba a falsa sensação de segurança. Não cabe aqui uma explicação teórica sobre o processo da morte, o morrer e o luto. Cabe a nós a reflexão sobre a finitude de processos vividos, e o novo/velho que pode se abrir, já que o mesmo não deixa de ser (uma cruel) aprendizagem, e um caminho que trilhamos só.

Sobre o luto: finitude(s) da vida e de vidas

Nos é estranha a tarefa de pensar, ler, dizer da morte. A morte, do modo como a concebemos conceitualmente, representa o fim da vida orgânica. Refere-se a um processo que não conhecemos por experiência própria, ainda. Da morte, temos apenas a concepção daquilo que se constrói a partir do imaginário coletivo e da observação que ronda a morte de um outro. Somos sujeitos marcados pelas experiências, são elas quem nos conduzem à consciência, das coisas e das coisas da vida. Por isso, talvez, dizer da morte seja tarefa árdua. Enquanto permanecermos vivos, da experiência da morte orgânica não saberemos.

Contudo, a morte não está atrelada apenas ao corpo físico…

Morte é também finitude, mas não é na morte que moram todas as finitudes da vida. Diferente da morte, a finitude é um fim passível de experimentação durante a vida. A finitude comporta a vida, dá contorno a ela e mesmo quando encerra algo, também inaugura. É, inclusive, por sabermos da finitude que nos confortamos com a morte de alguém, compreendendo que também cabe finitude no sentimento e na experiência da dor da perda.

Há muito começo que só é inaugurado pela finitude. Seja de um dia ruim, de um término, de um processo, ou até mesmo de um emprego. Enfrentamos finais mesmo quando não os nomeamos assim. Talvez, não passemos ilesos desta experimentação do fim, a finitude também há de doer, mas certamente, é um final que nos conduz a um novo início. Por isso mesmo a finitude é demarcada por um sentir que é agridoce, vivê-la é sempre encontrar com o amargo e com a doçura, tal como é com a vida.

Nós só sabemos o que é doce porque experimentamos o amargo. Ainda assim, parece não haver mais espaço para viver o que não faz da vida alegre, nos tempos atuais. Buscamos métodos, terapias, vídeos e cursos que de algum modo nos conduzam a um aceleramento do processo do sentir a finitude. A cultura ocidental parece ter vinculado a ideia de produção ao sentimento de fim, de modo que, passar por um processo de finitude nos tornaria improdutivos devido as emoções atreladas aos finais. Sofrer o fim seria então estar contraproducente àquilo que se espera da vida. Justamente por isso, precisamos atentar para a compreensão do que se espera da vida contemporânea.

A vida é perpassada de finitudes. Sejam essas as finitudes orgânicas, emocionais, de experiências. O fim é uma certeza que temos diante de todos os processos de vida. Quando buscamos apressar aquilo que é da ordem do fim, não estamos de modo algum ilesos das emoções que advém das finitudes, mesmo quando acreditamos nisso. Viver o fim é o que nos aproxima da própria vida, e de um viver que se conecta com o mais íntimo do que ainda está vivo em nós.    


Referências:

VIORST, J. Perdas Necessárias. 4ªed. São Paulo. Editora Melhoramentos, 2005. Tradução: Aulyde Soares Rodrigues.

LUZ, R. O luto é outra palavra para falar de amor. 1º Ed. Editora Ágora. 2021

NGOZI ADICHiE, C.. Notas sobre o luto. Tradução Fernanda Abreu. 1º ed. São Paulo, Companhia das  Letras, 2021.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

finitude
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando refletir sobre finitude ajuda

Refletir sobre finitude pode aproximar a pessoa do que é concreto: relações, tempo, escolhas, despedidas e limites. Em saúde mental, essa reflexão é diferente de ruminação. A reflexão abre espaço para decisão; a ruminação repete medo, culpa ou desespero sem produzir cuidado.

ExperiênciaLeitura útil
Tristeza ao lembrar perdasPode fazer parte do luto e da elaboração.
Medo constante de morrerPode indicar ansiedade, pânico ou trauma.
Perda de sentido persistentePede avaliação se reduz vida social, sono ou autocuidado.
Vontade de sumir ou morrerÉ sinal de risco e precisa de ajuda imediata.

Como conversar sobre o tema sem romantizar sofrimento

A pergunta não deve ser “como transformar dor em aprendizado” a qualquer custo. Uma formulação mais cuidadosa é: que parte dessa experiência pede apoio, que parte pede descanso e que parte pede mudança de ambiente? Nem todo sofrimento precisa ser produtivo para ser levado a sério.

Em luto, doença grave, perda de função ou crise familiar, a pessoa pode precisar de escuta, rotina mínima, suporte prático e acompanhamento profissional. Falar de finitude com seriedade é reconhecer limites, não exigir força permanente.

Quando buscar apoio estruturado

Em Finitude: como pensar a vida e o cuidado emocional, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Educação escolar: sobre o fracasso escolar

27 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

A primeira parte desse texto você encontra clicando aqui.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Educação escolar: sobre o fracasso escolar”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Para Sanches (2002), o fracasso escolar é entendido como um processo que só existe no circuito do desânimo, acometendo apenas os setores populares, e se expressa por meio do baixo rendimento, da repetência, e da desistência – desistência esta não do aluno pela escola, mas da escola pelo aluno; uma forma de “expurgá-lo”.

Contudo, se o fracasso escolar de fato existisse tal como é concebido, poderíamos facilmente desmistifica-lo a partir dos dados que comprovam que a desigualdade escolar começa antes mesmo da criança ingressar na escola. A verdade, ao menos para mim, é que o que existe não é um fracasso escolar por parte do aluno, mas sim, um fracasso escolar do sistema de ensino. Sistema esse que pouco permite e conduz a criança a um pensamento crítico, pois segue de maneira rígida apostilas e livros conteudistas que pouco chamam a atenção dos alunos. O que torna pouco interessante o conteúdo que se aprende, fazendo com que a criança não consiga refletir e absorver o que vê em sala de aula.

As crianças que repetem tem o dobro de probabilidade de não terminar sua escolaridade básica. Mas, por que elas repetem? Porque seus professores acreditam que elas não aprenderam o que deveriam ter aprendido no ano letivo. As crianças que repetem são as que não se alfabetizaram no tempo e da forma que os professores consideram que elas deveriam ter feito. Os repetentes são provenientes dos setores mais vulneráveis da sociedade. O fracasso escolar depende da sua condição socioeconômica. O que prova que o fracasso escolar é na verdade decorrente do próprio sistema de ensino…

educacao na escola

Mesmo entendendo o fracasso escolar como uma ideia fajuta do sistema capitalista – afim de culpabilizar o aluno e não ao sistema educacional que não está preparado para lidar com as realidades encontradas em sala de aula –, é necessário pensar como prevenir que isso continue acontecendo.

Para Sanches, a prevenção do fracasso escolar deve passar pela promoção e uso eficiente da leitura e da escrita. Vale lembrar que estar alfabetizado não quer dizer saber ler e escrever. “Saber ler é compreender o que se lê, e saber escrever é saber esculpir as ideias segundo as convenções da escrita; saber escrever não é simplesmente por no papel as coisas tal como se diz falando.” (p. 23).

Desde a invenção da escola, a responsabilidade desta é a de alfabetizar seus alunos. Mas quantos de nós podemos nos considerar, de fato, aptos a ler o mundo e escrever sobre ele?

No ano de 2019, o IBGE apresentou resultados de pesquisa sobre escolarização revelando que “no Brasil, a proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade que finalizaram a educação básica obrigatória, ou seja, concluíram, no mínimo, o ensino médio passou de 47,4%, em 2018, para 48,8%, em 2019”. Índices baixíssimos e que podem se tornar ainda mais alarmantes se colocássemos nessa conta o que nomeia-se de analfabetos funcionais.

Esse termo é utilizado para se referir aos adultos que são alfabetizados mas que possuem grande dificuldade na compreensão e aplicação de textos e conceitos.

Educação escolar: os desafios que ainda precisamos enfrentar

A democracia na educação não deve estar relacionada apenas a garantia ao acesso à escola, mas a garantia a um sistema de qualidade e a permanência nesse sistema, só assim será possível proporcionar uma real igualdade de oportunidade para as crianças que vivem de modo precário. Não obstante a isso, é preciso considerar como a pandemia afetou o processo de escolarização.

Com a pandemia do covid-19 as problemáticas relacionadas ao processo educativo se agravaram. Quem tem criança em casa sabe que a tentativa de dar continuidade às aulas com o ensino remoto não só foi complicada em termos de adaptação, como também, sobrecarregou famílias, professores e mostrou a discrepância que vivem os alunos de escolas públicas e privadas.

O método de ensino e as aulas expositivas têm sido frequentemente rechaçados por quem acredita que o ensino precisa de renovação. Atrelado a esse discurso está a noção de que devemos nos amparar na tecnologia para melhor receber as crianças que chegam, e que desde muito cedo são mediadas pelas telas. Mas aí também mora um problema…

O filósofo Christoph Turcke analisa essa questão ao comparar a dificuldade de concentração de crianças e adolescentes àquilo que se nomearia de déficit de atenção. Sobre alunos de ensino fundamental e ensino médio, o filósofo pontua que:

“São crianças que não conseguem se concentrar em nada, nem se demorar em algo, nem construir uma amizade, nem persistir em uma atividade coletiva, crianças que não concluem nada que começam. Elas são impelidas por uma agitação motora constante, não acham nenhum refúgio, nenhuma válvula de escape, e se transformam em estorvos constantes para escola, família e colegas. Não obstante, há um meio muito eficiente para deixá-las quietas. “Quando crianças que não podem ficar quietas, que movem os olhos para a direita e para a esquerda, procurando alguma coisa e evadindo-se, sentam-se diante de um computador, seus olhos tornam-se claros e fixos”, escreve o terapeuta infantil Wolfgang Bergmann. Elas se movimentam nos jogos e contatos on-line “com uma segurança de que não dispõem na chamada ‘primeira realidade’, no dia a dia de sua vida”.”

O que fica evidente após essa observação é que crianças e adolescentes, em idade escolar, tem sido hiper estimulados através do uso constante das telas: celulares, televisão, computador, tablet. Isso nos interessa aqui porque, em muitos casos, o diagnóstico que se faz de estudantes com transtorno de déficit de atenção é baseado na dificuldade de concentração do aluno em sala de aula. O mesmo aluno que em casa pode passar horas em frente ao computador jogando, por exemplo. Perceba que então não se trata de dificuldade de concentração, já que quando ambiente e estímulo são modificados, a criança consegue estabelecer o foco.

Não há como negar que existem sim muitos casos de TDAH, mas existem também muitas crianças sendo medicadas devido a um diagnóstico raso. Tendo isso em vista, precisamos entender que a tecnologia e a hiper estimulação em sala de aula, não são a saída do problema; eles nos arrastam de volta para a crise educacional, visto que o que precisamos de fato estimular nos alunos é a capacidade de concentração e foco, produzir e encorajar os estímulos que só acontecem a partir da interação humana, para que então consigamos vislumbrar um futuro melhor.

O processo de ensino-aprendizagem deve ser uma preocupação de todos nós, psicólogos, mães e pais, educadores, familiares. A escola é ainda uma das melhores possibilidades pelo meio da qual se faz possível desenvolver sujeitos críticos, pensantes e capazes de compreender e analisar os problemas do mundo.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Referências

SANCHES, Carlos. A escola, o fracasso escolar e a leitura. In: LODI, Ana Claudia Balieiro et al. (Orgs). Letramento e minorias.  Porto Alegre, Mediação, 2002, p. 15-26.

TURCKE, Christoph. Cultura do déficit de atenção. Disponível em: https://www.revistaserrote.com.br/2015/06/cultura-do-deficit-de-atencao/

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Educação escolar: desafios e saúde emocional

27 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Educação escolar: desafios e saúde emocional merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Educação escolar: desafios e saúde emocional: conecte comportamento, ambiente e prevenção. Em temas de saúde pública, a decisão prática depende de risco real, frequência, contexto social, acesso a informação confiável e medidas simples que reduzem dano sem criar medo desnecessário.

Desafios escolares podem envolver aprendizado, atenção, sono, saúde emocional, ambiente familiar, método de ensino e acesso a apoio. Antes de rotular uma criança ou adolescente, é melhor entender o padrão das dificuldades e como elas aparecem na escola e em casa.

Muito tempo se passou desde que começamos a discutir o problema da educação escolar. Porém, anos passam, crianças entram e saem das escolas, e as críticas quanto ao processo de escolarização continuam as mesmas. As recomendações para uma possível mudança também continuam sendo similares, mesmo quando já se mostraram ineficazes. Os investimentos feitos nesses anos de luta não foram suficientes ou eficientes, pois se perdeu o foco do problema.

Mas afinal, existe um foco?

Pensar no foco do problema não seria acreditar em uma causalidade circular, onde existe começo, meio e fim. Ou simplesmente culpabilizar o método de ensino com o qual nossos professores trabalham. O problema da educação escolar é mais complexo que isso…


Precarização do ensino e aprendizagem

importancia educacao escolar

Não é novo o discurso acerca da democratização do ensino como uma garantia de mudança real na educação. A democratização pode ser entendida como um processo que consiste em garantir o acesso à educação básica para todas as crianças, e posteriormente, facilitar o ingresso nas universidades. Mas, de qual democracia se fala? Apenas garantir o ingresso à escola não é garantia de oportunidades iguais. É necessário refletir sobre as condições em que esse acesso se dá e principalmente, refletir sobre a existência de duas realidades presentes em nosso contexto social.

Duas realidades tão discrepantes que basta passar em frente a uma escola particular e a uma escola pública para perceber as diferenças gritantes, que refletem também no modo de conduzir e pensar o planejamento das aulas. Duas realidades tão desiguais, que para cada uma existe um diferente modo de conceber a educação escolar, é o que Sanches (2002) vai nomear de: o ensino de excelência – para os setores privilegiados, e o de baixa qualidade – para os setores populares.

Mas por que não se fala sobre essas duas realidades quando o problema da educação é discutido? Uma suposição é a de que para considerar estas distintas realidades, seria necessário abandonar o discurso da meritocracia, visto que já se nasce em uma realidade desigual ou muito privilegiada, e não se pode culpabilizar o sujeito por isso.

Na escola, estas duas realidades se apresentam como o “circuito da excelência” e o “circuito do desânimo” (Sanches, 2002). E se as diferenças no modo de se vestir, de dialogar, diferenças que são visíveis a olhos pouco treinados e que chamam atenção de quem não estuda sobre o tema, a diferença existente no método de ensino é ainda maior e mais preocupante. Se o espaço físico de ambas as escolas não fosse discrepante o suficiente, a própria equipe que ampara o professor é diferente em cada um destes circuitos. O circuito de excelência conta com equipe preparada, formada para estas especificidades, que subsidiam e complementam o trabalho do professor. Já no circuito do desânimo, o que se vê por vezes é uma direção que não auxilia os professores diretamente no trabalho educacional, e que funciona mais na lógica de “punir alunos” (ex: aluno vai para direção quando atrapalha as aulas).

No circuito de excelência não existe fracasso escolar, desistência ou repetência, estes alunos desde muito cedo precisam apenas se preocupar em estudar para entrarem em universidades de alta exigência, federais, estaduais, para cursar, as já destinadas, carreira de prestígio. Vale ressaltar que 90% dos alunos destas escolas, ingressam sem problemas nas universidades, e os cursos mais procurados entre estes alunos estão geralmente relacionados a carreiras notórias, como a medicina, as engenharias, etc..

A realidade do circuito do desânimo é absurdamente inversa… Composto por escolas públicas – e escolas particulares, cujo único objetivo é o lucro do dono destas escolas, essas instituições sofrem com o descaso e a verba mínima repassada pelo Estado. Se no circuito de excelência estuda-se para chegar a grandes universidades, aqui, encaramos uma outra realidade. Porém, isso não se deve ao insucesso dos alunos, mas sim a defasagem do ensino público quando comparado a redes de ensino privadas.


Dados sobre fracasso escolar

Existem duas realidades em que a educação se situa, como acima colocadas: circuito de excelência e circuito do desânimo. Até este ponto, deve ter ficado claro que os alunos destas realidades são diferentes, e não falo aqui apenas da diferença subjetiva, mas provenientes de condições socioeconômicas diferentes. Essa diferença se constitui como um fator determinante no acesso a um ensino de qualidade para uns e um ensino precário para outros.

O próprio estímulo familiar das crianças do circuito de excelência é diferente. Enquanto estes têm um ambiente que instiga a leitura, fácil acesso a informações e a instrumentos culturais e novas tecnologias, muitos alunos do circuito do desânimo enfrentam uma realidade desigual desde a infância, seja pela pobreza em si, seja pela falta de tempo dos pais que batalham diariamente para sobreviverem no sistema capitalista.  

Essa diferença mostra-se principalmente no ingresso destes circuitos na escola, na alfabetização destas crianças. A alfabetização é aqui entendida como um processo que começa por volta do segundo ano de vida, tem a duração de quatro anos em média, e acontece em três períodos: pré-fonético, silábico e alfabético. É um processo cognitivo, produto da interação da criança com materiais escritos.

Quase 100% das crianças que entram na educação básica do circuito de qualidade já estão alfabetizadas. Crianças alfabetizadas do circuito do desânimo não chegam a 10%, e mais de 50% se encontram nos níveis iniciais de alfabetização (pré-fonética), e irão demorar de um a dois anos para alfabetizarem-se. De modo que a alfabetização do circuito de qualidade se dará na primeira série, já o circuito do desânimo, apenas na metade da terceira série. Mas ainda assim insiste-se em propagar a ideia de “fracasso escolar”, como forma de culpabilizar a própria criança.

Falaremos mais sobre a questão do fracasso escolar na continuação do texto, clicando aqui.



Referência:

SANCHES, Carlos. A escola, o fracasso escolar e a leitura. In: LODI, Ana Claudia Balieiro et al. (Orgs). Letramento e minorias.  Porto Alegre, Mediação, 2002, p. 15-26.

Quando buscar apoio estruturado

Em Educação escolar: desafios e saúde emocional, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Quando procurar avaliação

Procure apoio quando o sofrimento interfere em sono, apetite, estudo, trabalho, vínculo, autocuidado ou segurança. Pensamentos de morte, violência, uso de álcool ou remédios para aguentar o dia, crises repetidas ou isolamento importante exigem rede de cuidado mais próxima.

Como acompanhar a evolução

  • Monte uma linha do tempo curta: início, evolução, fatores de piora e melhora.
  • Separe sintoma principal, sinais associados e impacto nas atividades.
  • Defina quando reavaliar se a melhora esperada não acontecer.

Como decidir sem alarmismo

Informação útil deve aumentar clareza, não culpa ou medo. Para Educação escolar: desafios e saúde emocional, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

CamadaPergunta útil
Risco realQual dano a orientação tenta reduzir?
FrequênciaÉ um evento raro ou uma exposição cotidiana?
AmbienteO contexto facilita ou dificulta a escolha saudável?
Ação simplesQual medida prática melhora segurança sem alarmismo?
Evite concluirPrefira perguntar
“Risco raro não importa”Gravidade do dano e facilidade de prevenção.
“Informação basta”Ambiente, acesso e comportamento real.
“Medo muda hábito”Medidas simples e repetíveis funcionam melhor.

A melhor orientação é a que cabe no cotidiano: reduzir exposição, melhorar ambiente, criar lembretes, facilitar escolhas seguras e evitar medidas complicadas que ninguém mantém.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: WHO: health promotion.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Ego e realidade: quando a autoimagem pesa

26 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Ego e realidade: quando a autoimagem pesa merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Texto escrito em coautoria de Tuanny de Paula, Jornalista e Especialista em Comunicação e Marketing Digital

Narciso tinha um magnetismo fora do comum. Dotado de uma beleza única, sabia disso e desprezava todas as declarações apaixonadas que batiam à sua porta. Ninguém era bonito ou bom o suficiente para suprir as suas necessidades carnais e espirituais. O ego falava mais forte. Parecia que a solidão era mais agradável do que dividir com alguém que não era belo o suficiente para ele.

Entre os inúmeros rejeitados pelo jovem, esteve Eco. Amaldiçoada a repetir as palavras de quem se dirigia a ela, aproximou-se de Narciso apaixonada e sofreu uma rejeição tão grande que foi mais dolorosa do que sua penitência. Por fim, morreu de fome e sede, pois a beleza da vida lhe foi tirada.

Mas, Narciso pagou por seu egocentrismo. Foi amaldiçoado por Nêmesis, a deusa da vingança, que levou o rapaz a visualizar e apaixonar-se pelo próprio reflexo no fundo de um lago. Não conseguia desviar os olhos da perfeição que ele sempre desejou e, por fim, morreu de amor por algo que não poderia ter: ele mesmo.

É irônico pensar que na vida cruzamos com diversos Narcisos, atraídos pelo magnetismo de suas belezas. E essa ilusão é tão superficial, como uma água parada que, ao ser tocada, cria ondas que revelam o conteúdo real ao fundo.

Porém, essa definição não está apenas no outro, está em nós mesmos também. O ego de Narciso encontra-se na construção do nosso eu, primitivo no início, depois limitado pela imposição das demais realidades que interagimos.

É possível pensar na seguinte situação: Sonia buscava um emprego ligado aos seus valores, ao que acredita e ao que busca para o seu crescimento profissional e pessoal. Após uma entrevista para uma vaga que parecia perfeita, mas que ela entendia que era um grande desafio, as expectativas estavam altas para o desejado sim.

Veio a rejeição. “Será que eu não sou boa o suficiente?”, perguntou-se. O ego, onde se encontra o centro de tudo o que Sonia é, estava em sofrimento. E isso é errado?

Meu ego não é egoísta. Ou é?

Quando nascemos, as nossas interações com o mundo se dão de forma mais instintiva. Ainda não estamos limitados pela realidade imposta pela convivência em sociedade, então somos movidos pelos impulsos que nos causam prazer, aquilo que Freud denominou de pulsão.

Conforme crescemos, esses impulsos se tornam cada vez menores, pois tomamos consciência do espaço que ocupamos, nos limitando pelas interações e identificações que encontramos no caminho. A realidade do mundo passa a impor limites ao nosso ego.

Não podemos negar que ter um ego bem estruturado é importante para que se construa aquilo que nomeamos de autoestima, mas há quem mergulhe fundo nisso, tal como Narciso, submergindo no pântano das ilusões egóicas, nas águas profundas de um ego que se converge em um eu ensimesmado. Espaço no qual não existe lugar para um outro, para um não, para o limite.

Retomando a história de Sonia, as ilusões criadas por ela para a vaga inflaram o seu ego e a fizeram criar ilusões sobre o futuro naquela vaga. Mas será que ela estava realmente preparada para encarar a realidade daquela vaga? É preciso reconhecer que o domínio de conhecimento é algo que estamos sempre em busca, e que talvez, ela não tivesse o suficiente para aquele momento. Ou seja, Sonia precisa olhar o próprio reflexo no lago e tocá-lo, para que assim as ondas criadas pelo toque mostrem a realidade do que o eu pode, naquele espaço-tempo.

Sobretudo, a grande questão do ego talvez seja sobre sua capacidade de encarar a frustração e lhe atribuir um novo significado, para que o que é experimentado como prejuízo possa ser convertido em aprendizado.

O ego em sofrimento

Quando o ser humano está imerso em seu próprio ego, fecha-se para o universo, assim como Narciso preso em seu próprio reflexo. Por um momento parece existir só aquilo que sente, como se o mundo ao redor se dissipasse. A dor demanda uma certa urgência, desperta algo no eu que exige uma espécie de atenção inebriante. Isso acontece com certa frequência ante ao sentimento de sofrimento, a dor parece consumir qualquer tentativa de conexão com o que é externo a ela.

Que é doloroso, a gente sabe que é. Não vamos deixar de invalidar a dor, pois ela é concreta, real e diz algo sobre nós mesmos. O importante aqui é saber para onde podemos levá-la, dando a ela um formato de sublimação. É claro que a dor pode ter fim nela mesma e não há nada de errado nisso, mas para produzir diferença na jornada de autoconhecimento e descoberta do eu, faz-se necessária a tentativa mínima de aprender com ela.

A ideia de sublimação refere-se a um processo psíquico, que a partir da experimentação da angústia, ou de um episódio de sofrimento, atribui um novo sentido ao acontecimento, dando a esse uma destinação mais consciente e contornada pelo aprendizado. Isso não só é benéfico para o ego que se encontra machucado, mas possui magnitude para subverter também a noção egóica de um eu demarcado pela solitude.

Quando a dor é compartilhada, expressa pela fala, pela arte ou qualquer outra via pela qual se faz possível de partilhá-la, existe algo que se soma ao eu. O eu encontra o outro. A equação do eu + eu do outro, torna viável a compreensão de que não há existência que não seja demarcada pelo rompimento de idealização do ego.

Susan Sontag (2003) explica que ao nos depararmos com o outro em sofrimento, temos dois caminhos a seguir: o da empatia; e o da falta dela. No entremeio das duas vias está o ego. Quando se compreende que o outro sofre como eu, que o ego do outro também o acusa de falha, questões como aquela citada anteriormente pela personagem Sônia, podem ganhar outro sentido. Invertemos assim a questão: “Será que eu não sou boa o suficiente?”, para: “Será possível que algum eu seja bom o suficiente para dar conta da idealização do ego?”.

A resposta é tão óbvia quanto a própria pergunta sugere. Não há possibilidade de existência narcísica que se sustente diante da noção de que nenhum ego é bom o suficiente para ele próprio.


Referência:

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

realidade ego
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Ego e realidade: quando a autoimagem pesa, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Desenvolvimento infantil: marcos, variações e alertas

25 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Desenvolvimento infantil: marcos, variações e alertas muda conforme idade, ciclo menstrual, gestação, amamentação, crescimento, medicamentos e doenças associadas. Em crianças, adolescentes e gestantes, sinais leves podem ter decisões diferentes das de adultos saudáveis.

Texto escrito em parceria com Raica Moterle – CRP 07/36515. Psicóloga e Pós-Graduanda em Psicanálise com Crianças e Adolescentes

Existe muita coisa que não cabe mais nos tempos em que vivemos, mas que ainda insistimos em cultuar e, de algum modo, preservar, principalmente no que tange o desenvolvimento infantil. Quando uma criança chega à família, junto de sua “chegança”, parece reacender nos familiares que a recebem desejos que são particulares desses. Adjacente a isso, esses mesmos familiares tornam-se responsáveis por traduzir e apresentar o mundo ao bebê. Assim, constrói-se um entorno, que é composto por concepções acerca da vida, crenças e ideologias, que é repassado ao novo membro familiar.

Na infância, esse processo de tradução do mundo é feito de forma mais sutil, mas não menos prejudicial. A criança que chega é recebida com um universo de coisas cor-de-rosa ou de cor azul. Os brinquedos que ganha, costumam ser definidos por seu sexo biológico. De modo que, sua chegada, serve também como um propósito de atualização de crenças e costumes familiares. Funciona tal como um rito, e é do desejo da família que a criança integre esse processo, para que então possa integrar à família.

Integrar é um verbo importante para compreender a complexidade das relações familiares. Integrar é sobre fazer parte de algo, incluir-se em um grupo ou espaço, compor com outros. A família, como sabemos, é o primeiro grupo no qual somos integrados e é neste meio que, pouco a pouco, vamos constituindo nossa identidade. É também a partir do núcleo familiar que aprendemos, primeiramente, sobre o que é considerado característica de um homem e de uma mulher. Não porque, de fato, existam características determinantes, mas porque a sociedade as constrói e a família então repete.

A importância de refletir sobre esses processos, que se repetem nas famílias quando um bebê chega, relaciona-se com o entendimento de que os primeiros anos do desenvolvimento infantil merecem mais atenção. Durante os primeiros anos, tem-se o costume de infantilizar a criança. Isso parece estar correto, certo?! Mas não é bem assim que funciona. Infância e infantilização não são termos complementares, ou ao menos, não deveriam ser.

Tal como ocorre no processo de alfabetização, no qual a criança é inserida na linguagem, é preciso compreender que seu processo de integração à família perpassa pela mesma via. Tomar consciência da criança em sua integralidade, trata-se também de validá-la enquanto um sujeito que está aprendendo sobre o mundo, a partir do que lhe é ensinado. Dado que é a partir do imaginário e das concepções sociais da família que a criança descobre o mundo e então passa a significá-lo, é de suma importância que a família entenda sua influência nessa etapa do desenvolvimento. Nessa fase se introjeta aquilo que vê, que ouve e percebe, traduzindo isso em uma leitura do mundo.

Desenvolvimento infantil: a criança enquanto indivíduo

criancas


Há algumas coisas nas quais precisamos nos colocar a pensar:

– O que falha na família na hora de receber novos integrantes?

– De que modo reafirmamos funções sociais no desenvolvimento infantil e como evitar que aconteça?

– Quais mitos, comportamentos e concepções têm sido repassados, de geração para geração?

Para que a criança possa se desenvolver de forma saudável e íntegra, não importa a ela de que modo se configura a família. Se são dois pais ou duas mães, se são pais biológicos ou adotivos, ou qualquer outro rearranjo familiar que se componha. O que importa e produz diferença nessa fase é que seja respeitada enquanto sujeito.

Tendo isso em vista, vale também questionar: qual e como é o mundo que apresentamos para as crianças? Se o que é ensinado é traduzido como primeira concepção da sociedade, a família está ativamente imbricada no modo como a criança constitui-se subjetivamente. Quando se sugere que a menina brinca de casinha e o menino pode aventurar-se, está se ensinando sobre o papel social do homem e da mulher. É nesse espaço-cronológico que se produz mitos e irrealidades, que tornam-se reais pela ênfase e repetição de discursos e ações. É também aí que se inventam narrativas como a do instinto materno, por exemplo, quando se ensina uma menina a cuidar de uma boneca, amamentá-la, trocar sua fralda.

O sujeito é sempre constituído a partir do encontro com outro humano. Considerando isso, pode-se dizer que a linguagem é o que emancipa esse novo sujeito, a partir do intermédio entre linguagem, criança e o outro. Esta tem papel fundamental nesse encontro, do sujeito com o mundo, e é quem ampara, estrutura, e condiciona a subjetividade humana. Reafirmamos assim a noção de que a inscrição da criança na sociedade, experimentada primeiramente por meio da integração à família, é também carregada pelo que lhe é atribuído culturalmente, de forma muito particular e diversa nos inúmeros modos de existir e se relacionar no mundo. É nesse lugar, na relação com um Outro que nos atravessa a existência, que atribuímos sentidos, significados e que nomeamos as coisas do mundo.

Conclui-se então que o desenvolvimento infantil depende de um contexto familiar que tenha consciência de seu papel ativo na tradução e na apresentação da sociedade e de tudo que compõe a vida humana. É necessário, sobretudo, que seja concebida, como já citado anteriormente, enquanto um indivíduo, assim como pontua Winnicott:

“Desde o início é possível a um observador perceber que a criança já é um ser humano, uma unidade. Com um ano, a maioria das crianças já adquiriu de fato o status de indivíduo. Em outras palavras, a personalidade tornou-se integrada. É claro que isto nem sempre é verdade, mas pode-se dizer que, em certos momentos, ao longo de certos períodos e em certas relações, a criança de um ano é uma pessoa inteira. Mas a integração não é algo automático, é algo que deve desenvolver-se pouco a pouco em cada criança individual. Não é mera questão de neurofisiologia, pois, para que seu processo se desenrole, há a necessidade da presença de certas condições ambientais […] (2011, p. 6)”

Por fim, cabe dizer que acreditamos que a criança não pode ser tomada pelo significado que já lhe foi atribuído nos tempos antigos, como o “infan”, termo que se refere àqueles que não tem voz ou lugar de fala. O desenvolvimento infantil está inteiramente relacionado as condições sociais e humanizadoras a que a criança é exposta, não basta somente um, tampouco outro. Há necessidades básicas que precisam ser supridas para que eticamente se possa viver e se desenvolver.  


Referência:

D.W. Winnicott. A família e o desenvolvimento individual. Martins Fontes, 2011.

Cuidados em ciclos, gestação e infância

Em Desenvolvimento infantil: marcos, variações e alertas, idade e fase de vida mudam a leitura. Crianças, adolescentes, gestantes, puérperas e pessoas em amamentação têm limites diferentes para sintomas, remédios, exames e espera. O ciclo menstrual, crescimento e histórico obstétrico também alteram a interpretação.

ContextoPor que muda a orientação
Criança ou adolescenteCrescimento, puberdade e dose por peso precisam ser considerados.
GestaçãoAlguns sintomas e medicamentos têm risco diferente.
Ciclo menstrualPadrão, duração, fluxo e dor ajudam a separar variação de alerta.
Doenças préviasAnemia, diabetes, pressão alta e imunossupressão reduzem margem de espera.

Anote datas, intensidade, medicamentos usados, exames anteriores e mudanças recentes. No atendimento pediátrico ou ginecológico, essa sequência costuma ser mais útil que uma descrição genérica do sintoma.

Fontes úteis

  • CDC: desenvolvimento infantil
  • HealthyChildren.org
  • MedlinePlus: saúde infantil

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Como Diminuir a Ansiedade

25 de outubro de 2022 by Dra. Celia Yunes Portiolli Deixe um comentário

A ansiedade, muitas vezes, está associada a uma preocupação excessiva e antecipação de uma ameaça futura, que pode ainda trazer efeitos grandes e negativos em nossas vidas diárias, afetando os relacionamentos, trabalho e privação do lazer.

A ansiedade envolve um determinado medo e se manifesta como um estado de humor focado no futuro que consiste em um complexo sistema de resposta cognitiva, afetiva, fisiológica e comportamental. É um dos distúrbios psiquiátricos mais comuns, mas um fato interessante é que sua verdadeira prevalência não é conhecida, pois muitas pessoas não procuram ajuda terapêutica ou então os médicos não conseguem realizar o devido diagnóstico.

Quem nunca teve uma crise de ansiedade diante de algum evento estressante? Muitas pessoas lidam com a ansiedade diariamente em razão de fatores que envolvem trabalho, conflitos familiares, preocupações com a saúde e questões financeiras. Reduzir e limitar os elementos estressores da vida diária é de extrema importância para a saúde geral.

A ansiedade manifesta-se a partir de sintomas emocionais e físicos. Emocionalmente, a ansiedade pode causar irritabilidade, ataques de pânico, inquietação, concentração diminuída, distúrbios do sono, entre outros. Fisicamente, causa dor de cabeça, dores musculares e articulares, aumento da frequência cardíaca, falta de ar, sudorese, dor no peito e problemas gastrointestinais.

Sintomas comuns de ansiedade incluem

ApreensãoSensação de asfixiaFadiga
AgitaçãoTonturaTensão muscular
Frequência cardíaca rápidaInsônia Dormência ou formigamento
SuandoIrritabilidade Falta de ar
TrêmuloPreocupação excessiva 

Quando a ansiedade não é controlada, essa condição pode afetar nossas vidas de forma muito negativa, interrompendo a vida diária, causando isolamento, aumentando o risco de depressão e suicídio, bem como o risco de sintomas físicos desagradáveis. Além, claro, de afetar o indivíduo mentalmente, levando-o a tomadas de decisões malfeitas e má comunicação.

Neste artigo, você irá encontrar algumas dicas que poderão ensiná-lo a como diminuir a ansiedade.


Exercícios físicos

O exercício físico é capaz de aliviar a ansiedade por reduzir os níveis de hormônios do estresse no corpo e por permitir que o indivíduo se concentre na tarefa de se exercitar, distraindo-o de pensamentos estressantes.

O exercício regular ajuda a reduzir os sintomas de ansiedade, como coração acelerado, falta de ar e inquietação. Também libera endorfinas, que são conhecidas por reduzir o estresse e melhorar o humor. O exercício também oferece uma oportunidade de fazer uma pausa nos pensamentos ansiosos e mudar o foco para a atividade física. Além disso, pode ajudar a desenvolver um sentimento de realização e aumentar a autoconfiança.

Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine analisou os efeitos dos exercícios físicos na ansiedade através de oito ensaios clínicos randomizados que compararam o exercício com os tratamentos padrão de ansiedade. Os resultados revelaram que o exercício, por si só, foi menos eficaz do que os tratamentos padrão de ansiedade, como a medicação ou terapia de fala. Em contrapartida, o exercício combinado com esses tratamentos mostrou ser mais eficaz do que os tratamentos sozinhos.

6 Benefícios do exercício para diminuir ansiedade

  1. Reduz o estresse: o exercício é uma maneira eficaz de reduzir o estresse e a ansiedade. Aumenta os níveis de endorfinas, substâncias químicas naturais do cérebro que promovem uma sensação de bem-estar.
  2. Melhora o humor: o exercício pode melhorar o humor e reduzir os sintomas da depressão. Também pode ajudá-lo a se sentir mais confiante e enérgico.
  3. Aumenta o foco: o exercício pode melhorar sua concentração e facilitar o foco nas tarefas.
  4. Fornece distração: O exercício pode proporcionar uma distração agradável das preocupações e tensões da vida.
  5. Melhora o sono: o exercício regular pode ajudar a melhorar a qualidade do sono e reduzir a insônia.
  6. Melhora a auto-estima: Praticar atividade física pode melhorar a auto-estima e ajudá-lo a se sentir melhor consigo mesmo.


como diminuir a ansiedade


Exercícios de respiração diafragmática

A respiração diafragmática é uma técnica de respiração profunda que contrai o diafragma e ajuda a reduzir os níveis de cortisol em adultos saudáveis. Para aliviar a ansiedade, o indivíduo pode praticar o exercício de respiração diafragmática por 10 minutos várias vezes ao dia.

Para realizar a técnica, a pessoa deve deitar de costas com os joelhos dobrados e as solas dos pés no chão. Em seguida, deve colocar uma mão na parte superior do tórax e a outra mão no estômago, logo abaixo da caixa torácica.

Deve-se respirar profundamente pelo nariz, puxando a respiração para baixo em direção ao estômago. A expiração deve ser lenta e feita com os lábios franzidos, puxando o umbigo para baixo em direção ao chão. A mão no estômago deve retornar à sua posição original, enquanto a mão no peito permanece imóvel.


Mindfulness

A atenção plena pode ser uma ferramenta eficaz para controlar a ansiedade. Mindfulness envolve estar ciente de seus pensamentos e sentimentos no momento presente sem julgamento. Pode nos ajudar a tomar consciência de nossos pensamentos e sentimentos ansiosos sem sermos dominados por eles. Ao praticar a atenção plena, podemos aprender a observar nossos pensamentos e sentimentos ansiosos sem reagir a eles. Isso pode nos ajudar a ficar menos sobrecarregados por nossos pensamentos e sentimentos ansiosos e mais capazes de lidar com eles.

A atenção plena também pode nos ajudar a nos tornar mais conscientes de nossos gatilhos e respostas à ansiedade. Ao prestar atenção aos nossos pensamentos e sentimentos no momento presente, podemos nos tornar mais conscientes das coisas que desencadeiam nossa ansiedade e as maneiras pelas quais respondemos a ela. Isso pode nos ajudar a desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis para controlar nossa ansiedade.

Além disso, a atenção plena pode nos ajudar a ficar mais conscientes de nossos pensamentos e sentimentos em geral, o que pode facilitar a identificação de quando estamos nos sentindo ansiosos e tomar medidas para lidar com isso.

A atenção plena também pode nos ajudar a ficar mais conscientes das reações físicas do nosso corpo à ansiedade, como aumento da frequência cardíaca e respiração superficial. Ao nos conscientizarmos dessas reações físicas, podemos aprender a administrá-las e reduzir nossa ansiedade.


Ioga

Uma revisão publicada no Journal of Psychiatric Research analisou os efeitos da ioga no sistema nervoso. Nos 25 estudos abordados na revisão, comprovou-se que a ioga reduziu a frequência cardíaca, a pressão arterial e os níveis de cortisol – o famoso “hormônio do estresse”, envolvido na resposta ao medo de lutar ou fugir. Quando os níveis de cortisol estão altos na corrente sanguínea, a ansiedade pode ficar acentuada.

Outros estudos revelam que a ioga, além de reduzir os sintomas de ansiedade, também reduz de depressão, bem como os níveis de citocinas no sangue, liberadas pelo sistema imunológico em resposta ao estresse.


Tablela: Benefícios da Ioga na Ansiedade

Benefícios da ioga para ansiedadeExplicação
RelaxamentoO yoga usa respiração profunda, meditação e posturas físicas para relaxar o corpo e a mente, ajudando a reduzir os níveis de estresse e ansiedade.
Atenção plenaA ioga incentiva a atenção plena ou a consciência do momento presente, o que pode ajudar a reorientar a mente e desviar a atenção de pensamentos e preocupações ansiosos.
Melhora do sonoA ioga promove o relaxamento e ajuda a reduzir a fadiga mental e física, o que pode melhorar a qualidade e a duração do sono.
Aumento da autoconsciênciaA ioga pode ajudar a aumentar a autoconsciência, o que pode ajudar a identificar e entender as causas da ansiedade e como gerenciá-la melhor.


como diminuir a ansiedade


Terapia de Fala

É importante procurar a ajuda de um psicólogo caso a ansiedade se torne persistente e comece a interferir na sua vida. Essa opção de tratamento refere-se à terapia de fala, que envolve conversar com um profissional de saúde que cuida da mente.

Algumas terapias de fala que tratam a ansiedade incluem aconselhamento, psicoterapia e terapia cognitiva comportamental (TCC).


Desafiar ou combater pensamentos negativos

Desafiar pensamentos negativos pode ser uma ferramenta importante para controlar a ansiedade. Os pensamentos negativos podem ser um dos principais contribuintes para a ansiedade, pois podem nos tornar mais propensos a nos sentirmos ansiosos em diferentes situações. Ao desafiar os pensamentos negativos, podemos nos tornar mais conscientes de como nosso pensamento está afetando nossos níveis de ansiedade. Isso pode nos ajudar a identificar os pensamentos que estão causando nossa ansiedade e tomar medidas para resolvê-los.

Desafiar pensamentos negativos também pode nos ajudar a ficar mais conscientes de como nossos pensamentos estão afetando nossas emoções e comportamento. Isso pode nos ajudar a identificar padrões em nosso pensamento que podem estar contribuindo para nossa ansiedade e tomar medidas para mudá-los. Ao fazer isso, podemos começar a pensar de forma mais positiva, o que pode ajudar a reduzir nossos níveis de ansiedade.

Finalmente, desafiar os pensamentos negativos pode nos ajudar a desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis para controlar nossa ansiedade. Ao reconhecer nossos pensamentos negativos, podemos aprender a desafiá-los e substituí-los por pensamentos mais positivos. Isso pode nos ajudar a gerenciar melhor nossa ansiedade em diferentes situações e pode nos ajudar a desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com nossa ansiedade.


Medicamentos

Associado à terapia de fala, às vezes o médico pode prescrever medicamentos para controlar a ansiedade. A buspirona, por exemplo, é um tranquilizante suave de ação lenta que funciona aumentando a atividade de serotonina – que por sua vez eleva o humor e diminui sentimentos de ansiedade. Os benzodiazepínicos são utilizados para o controle da ansiedade a curto prazo, sendo bastante eficazes na promoção do relaxamento e no alívio da tensão muscular, bem como em outros sintomas.

Quando a ansiedade exigir o uso de medicamentos, lembre-se de que apenas um médico especializado poderá prescrever o tratamento, a dosagem e a duração adequados para cada caso!


Opções medicamentosas iniciais incluem:

AntidepressivoIndicação
ISRS (Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina)Transtorno de ansiedade generalizada
SNRI’s (inibidores da recaptação de serotonina-norepinefrina)Transtorno de ansiedade social
Antidepressivos tricíclicosTranstorno do Pânico
MAOIs (inibidores da monoamina oxidase)Transtorno Obsessivo-Compulsivo


como diminuir a ansiedade


Alimente pensamentos positivos. Organize melhor o seu dia. Distraia a mente com coisas que gosta. Durma bem. Essas são atitudes que podem parecer simples, mas são determinantes para prevenir crises de ansiedade.

Tentar apenas uma vez não será suficiente, então desenvolva esses hábitos a longo prazo. Dessa forma, você conseguirá gradualmente reeducar seu cérebro e suas emoções e controlar a ansiedade!


Referências:

CHAND, S. P.; MARWAHA, R. Anxiety. National Library of Medicine. StatPearls, 2022.

JAYAKODY, K.; GUNADASA, S.; HOSKER, C. Exercise for anxiety disorders: systematic review. British Journal of Sports Medicine, v. 48, n. 3, p. 187-196. 2014.

PASCOE, M. C.; BAUER, I. E. A systematic review of randomised control trials on the effects of yoga on stress measures and mood. Journal of Psychiatric Research, v. 68, p. 270-282. 2015.

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Falta emocional: por que dói e quando buscar ajuda

19 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Para Luiz Felipe

Mapa clínico: falta, saudade e sinais de sofrimento

Em resumo: sentir falta pode fazer parte de luto, saudade, transição de vida ou vínculo importante. O cuidado muda quando a falta toma o dia inteiro, reduz sono ou apetite, paralisa trabalho, estudo e relações, aumenta culpa ou vem com ideias de não querer viver. Nesses casos, a questão deixa de ser “superar rápido” e passa a ser criar apoio e segurança.

Fluxo visual sobre saudade e falta com mudanças de sono, apetite, isolamento, trabalho e estudo.
Sentir falta é humano; ficar sem funcionamento merece cuidado.
Diagrama de apoio emocional com falar com alguém confiável, manter rotina mínima e buscar ajuda se houver risco.
Apoio não apaga a falta, mas reduz isolamento.
SinalPor que importaCaminho possível
Ruminação o dia todoA mente fica presa no mesmo tema.Criar horários de pausa e conversa.
Isolamento persistenteDiminui proteção social.Combinar contato simples com alguém seguro.
Ideias de não querer viverÉ sinal de risco, não fraqueza.Pedir ajuda imediata.
  • Observe sono, apetite, higiene, trabalho, estudo e vontade de se isolar por mais de duas semanas.
  • Escolha uma pessoa para avisar quando a tristeza estiver difícil de manejar sozinho.
  • Procure atendimento imediato se houver risco de autoagressão ou sensação de que não consegue se manter seguro.

Nota de segurança: sofrimento emocional com ideia de morte, autoagressão, desespero intenso ou perda de controle exige ajuda imediata e presença de alguém de confiança.

Para continuar no tema: Psicologia | Pressão na vida adulta | Ansiedade em relacionamentos

Quando a falta merece mais atenção

Sentir falta de alguém, de uma fase da vida ou de uma versão antiga de si mesmo pode ser uma experiência humana normal. O cuidado muda quando essa falta começa a ocupar todo o dia, compromete sono, apetite, trabalho, estudo, vínculos ou leva a isolamento persistente. Nesses casos, vale observar a rotina com cuidado e buscar apoio, sem tratar a leitura como diagnóstico fechado.

Sinal observadoPor que importa
Oscilações de sono e apetiteMostram que a tristeza deixou de ser apenas uma lembrança e passou a afetar funções básicas.
Isolamento progressivoEvitar contato pode aliviar no começo, mas piora a chance de ficar sem apoio.
Culpa ou ruminação constanteRepetir a mesma cena mentalmente pode aumentar sofrimento e impedir elaboração.
Ideias de não querer viverExigem ajuda imediata e contato com alguém de confiança ou serviço de urgência.

Como transformar a leitura em próximo passo

  • Nomeie o que está fazendo falta: pessoa, rotina, segurança, reconhecimento, descanso ou pertencimento.
  • Observe se o sofrimento diminui, oscila ou aumenta ao longo das semanas.
  • Considere psicoterapia quando a falta vira paralisia, culpa contínua ou isolamento.

Fontes e leituras úteis

Para sinais de sofrimento e estresse, consulte a página da Organização Mundial da Saúde sobre estresse. Em situações de risco imediato, procure atendimento de urgência ou uma pessoa de confiança.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “A falta que a falta faz”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Em saúde emocional, o ganho para o leitor vem de exemplos concretos: padrões repetidos, impacto na rotina, limites possíveis, busca de apoio e sinais de risco. Evite transformar sofrimento em culpa ou conselho genérico.

Fui consumidora fiel do canal da jornalista Julia Tolezano, o JoutJout, prazer, por muitos anos. Aprendi, por intermédio dela, sobre autossabotagem, autoestima, erros que insistimos em cometer… Dia desses, na casa de um amigo querido, encontrei um livro que me remeteu a um vídeo específico do canal. Vídeo esse que trata da questão daquilo tudo que entendemos faltar em nós, intitulado de: A falta que a falta faz. 

A descrição entrega um pouco mais sobre a concepção do vídeo, que foi produzido a partir da leitura do livro A parte que falta (de autoria de Shel Silverstein):

“não sei quanto a você, mas sempre falta um trocinho. às vezes falta muita coisa, às vezes só uma coisinha que parece um mundo de faltas. pra muitos falta o indispensável e aí o que falta pra você parece nada, mas é demais de onde você tá olhando. o negócio é que vai faltar, e depois não vai mais. depois vai faltar de novo e lutar contra a falta parece uma luta cansativa demais pra entrar. então que tal entender a falta, andar com ela, fazer de tudo pra preenchê-la, mas sabendo que ela volta. e que volte! porque saber que vai voltar é um belo de um carinho.”

O vídeo é um convite para pensarmos sobre aquilo que nomeamos e sentimos como falta.

Do significado da palavra, no dicionário, encontramos traduções do termo falta, para: privação, carência, morte, ausência de coisa precisa, útil ou agradável. A falta parece estar, sobretudo, conectada a noção de supressão, de algo ou alguém. 

Na visão da psicanálise, a falta é necessária para que o sujeito possa desejar. E, mais do que isso, é na falta que se assume a posição de busca, de procura, de impulsionamento. Existem faltas que são decorrentes de questões menos complexas, tal como é com o sentimento atrelado a falta de um objeto de consumo, ou até mesmo a falta de uma condição profissional melhor. 

Tem quem sente como falta aquilo que é de ordem estética, buscando um ideal de beleza, de corpo, de um modo de vida que o conduza ao lugar onde a falta já não possa existir e a idealização é concretizada. 

Existe muita coisa na nossa vida que sentimos como falta, e só quando colocamos essas coisas nesse lugar, daquilo que falta, é que somos impulsionados (ou não) a buscar a parte que falta. Esta que pode ser de alguém, de uma situação, de um lugar, do corpo perfeito, de um bem material, de um trabalho melhor… A falta é uma condição intrínseca ao sujeito contemporâneo, e que é demarcada pelo modelo socioeconômico em que estamos inseridos: o capitalismo. 

A falta e o que usamos para preenchê-la

É difícil imaginar uma sociedade de vida mais simples, na qual nada falta. Até porque é a falta nossa motriz. 

Há tempo atrás, escrevi sobre um livro intitulado de “Ideias para adiar o fim do mundo”, de autoria do líder indígena Ailton Krenak. A obra faz parte de uma coletânea que se complementa e que denuncia nosso modo, sucateado, de encarar a vida moderna. 

Em “A vida não é útil”, Krenak, atenta para como nossa concepção de progresso está conectada com a produção de tecnologia. De modo que, somos constantemente apresentados a diferentes e novos aparatos tecnológicos-mercadológicos. Isso não só cria uma falsa ideia do que é necessário para viver, mas também nos conduz a experimentar uma falta que, por vezes, parece ser suprida pelo consumo, por meio da aquisição de materialidades. 

Tenho certeza de que você já ouviu falar sobre pais que suprem sua falta através de compensação (aqui uma matéria interessante sobre a temática). Ou seja, apoiam-se na via material para compensar o filho pela falta, seja essa de afeto, cuidado, amor, diálogo, atenção, etc. 

Mas, será mesmo possível suprimir a falta de afeto por intermédio de um objeto material? 

Convite ao exercício de pensamento:

  • Quantas vezes você já tentou suprir com materialidades a falta de alguém ou de algo que, acredita, faltar? 
  • Nessas situações, qual foi o sentimento que surgiu após a compensação? Quanto tempo durou? 
  • O sentimento de algo que estava faltando cessou? 

A falta que a falta faz

Sobretudo, uma certeza podemos ter: o sentimento, atrelado a noção de falta, há sempre de retornar. Sempre vai faltar.

Nicolau (2021, p. 38), se ampara na teoria psicanalítica para nos mostrar que:

“Na análise, o encontro com a falta implica em que o sujeito renuncie aos ideais e à completude com o Outro, aceitando que é castrado. É com sua falta-a-ser que deverá se encontrar, pois ele está em permanente contato com o vazio que o constitui e com sua divisão estrutural, o que constitui um fator gerador de angústia, colocando o sujeito em constante busca de um significante que possa criar a ilusão de preenchimento e completude. O objeto, segundo Lacan (1988), vem no lugar do ser que foi perdido, suprindo aquilo de que o sujeito foi privado simbolicamente. Isso marca a impossibilidade em eliminar a falta, pois o objeto ausente que completaria o sujeito jamais é encontrado, estando para sempre perdido, o que confere ao desejo sua permanência de para sempre insatisfeito. E isso move o sujeito em direção a novos objetos, na tentativa de obter plena satisfação, que jamais será alcançada.”

Esse trecho nos apresenta questões centrais para compreendermos nossa própria condição, enquanto sujeitos modernos e da conexão dessa condição com a ideia de falta. 

Sobre a falta, entendemos que: 

  • Está, primeiramente, relacionada a uma ideia de que não somos inteiros, completos. Como se fosse necessário buscar o que falta, para então nos constituirmos como um indivíduo completo. 
  • Não pode e não será “saciada”, pelo menos não de forma integral. Quando aquilo que falta é alcançado, realizado, o sujeito sente (não de forma consciente, é claro) que há outras lacunas que faltam. 

Por fim, o que nos conduz em direção a uma vida que se movimenta, que busca, que traça objetivos, não é o que nos preenche. Muito menos aquilo que é preenchido com materialidade. Nada há de nos preencher. Somos indivíduos faltantes, e por isso mesmo, é que desejamos e seguimos. 

Contudo, é preciso atentar-se a isso. Tem coisas acontecendo no aqui e agora. A vida é uma delas. Como diz Jout Jout, vai faltar e depois não vai mais, mas depois vai faltar de novo. E é nesse percurso que a vida acontece, com aquilo que falta… 

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Referência citada: NICOLAU, Roseane Freitas. Quem quer saber da falta? A psicanálise em tempos sombrios. Trivium,  Rio de Janeiro ,  v. 13, n. spe, p. 34-41, mar.  2021.  

Fontes de apoio: MedlinePlus: bereavement | NIMH: do I need help?

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Amor romantico: idealizacao, autonomia e relacoes saudaveis

12 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Texto escrito em colaboração com a psicóloga Kelly Gomes – CRP 12/14830. Especialista em avaliação psicológica. Formanda em análise psicodramática e psicologia e intervenções on-line.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Amor romantico: idealizacao, autonomia e relacoes saudaveis”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Em saúde emocional, o ganho para o leitor vem de exemplos concretos: padrões repetidos, impacto na rotina, limites possíveis, busca de apoio e sinais de risco. Evite transformar sofrimento em culpa ou conselho genérico.

“Não precisamos do amor romântico em nossas vidas”, é o título de uma reportagem da BBC, que dá início a uma série de questionamentos bem pessoais e particulares, que nos faz refletir. A matéria, de Julia Braun, logo no ínicio já entrega um apontamento central para iniciarmos tal discussão:

“Nas sociedades ocidentais, o amor costuma ser apresentado por meio do clichê de duas metades que se encontram para se sentirem completas”.

É preciso então voltar ao início… 

Nossa identidade e tudo aquilo que nos define enquanto nós mesmos, faz parte de uma construção social, que é perpassada pela família, por nossas primeiras experiências, pelo contato com a cultura, etc. Contudo, algo importante a se lembrar é que, tudo isso – e com tudo isso queremos dizer: as coisas, pessoas, saberes, escritos, territórios, experiências e, inclusive, as leis que nos são impostas – são construções sociais inteiramente conectadas ao ocidente. 

Existe todo um modo de pensar, de ensinar os mais novos, de ler e viver o mundo que é constituído pela cultura ocidental.

A antropóloga Anna Machin, citada na reportagem de Braun, aponta que até o início do século 18 as relações, que hoje chamamos de românticas, se davam apenas com o intuito de reprodução da espécie. 

E é nesse mesmo século que um movimento artístico e cultural toma grande proporção na produção de músicas, pinturas, literatura e até mesmo na arquitetura do ocidente: o Romantismo. 

O nome, por si só, já nos revela muita coisa. O Romantismo, por estrutura, tem uma base sentimentalista, o que passa a ser fomentado como prática pelo público.

Isso reverbera ainda nos dias de hoje. Sabe como? Através do contato com a cultura, é claro. 

Lembra das histórias infantis de princesas, que são salvas pelo príncipe encantado e que dão sentido à vida quando encontram esse, que é então sua alma gêmea? Não há como não mencionar as diversas produções hollywoodianas, com suas histórias de amor adolescente – desde aqueles bem clássicos como Lagoa Azul, chegando aos atuais e inebriantes, tal qual o muito celebrado A culpa é das estrelas.

As produções culturais nos fazem não só desejar o amor romântico, como também, introjetam noções como a de alma gêmea, amor eterno, cara-metade. Construindo assim a idealização e a necessidade de ser e ter um par. 

Isso faz com que a ideia do amor romântico ganhe grandes proporções nas nossas vidas, tornando-se, por vezes, algo que nos parece intrínseco ao simples ato de existir. Ou ainda, como se a vida só fizesse sentido ao encontrar um grande amor.

Numa canção de Vanessa da Mata, encontramos um trecho que parece resumir o que entendemos por amor romântico. A letra diz:

“Se você quiser eu vou te dar um amor

Desses de cinema

Não vai te faltar carinho

Plano ou assunto ao longo do dia

Se você quiser eu largo tudo

Vou pro mundo com você meu bem

Nessa nossa estrada só terá belas praias e cachoeiras”

Na arte, é claro, extrapolam-se limites e realidades. Quem já amou sabe, nenhum percurso relacional é feito só de “belas praias e cachoeiras”. Mas nossos desejos e idealizações não comportam as frustrações e paisagens que não são tão bonitas assim.

É chegada a hora do fim do amor romântico?

O mesmo amor que nos envolve, nos tira o fôlego, nos dá ânimo e prazer, pode frustrar, decepcionar e machucar. 

O amor doce, bonito, intenso, aquele amor de cinema, do tipo que pode até passar por maus bocados, mas que supõe-se que superará tudo, é algo que não cabe fora de tela. 

É bonito a imagem mental que se faz do amor que está disposto a tudo. Disposto a atravessar mares e oceanos para permanecer par, de mãos dadas, eternamente. Mas como isso se desenrola na vida cotidiana? Será mesmo que é possível viver um amor assim? 

Nós duas também gostamos de fantasiar e flertar com o romantismo, mas nossa conclusão é de que uma relação vai muito além do amor. 

Para que exista uma relação saudável, outros aspectos precisam ser considerados, como, por exemplo, o respeito, a imposição de limites, a garantia de que, as pessoas envolvidas na relação possam viver coisas que preservem sua singularidade. E que isso não seja visto como uma ameaça ao amor, mas sim, enquanto fortalecimento do sentimento existente entre os envolvidos. 

Para estar em uma relação, muitas coisas precisam ser pesadas na balança. É necessário alinhar expectativas, planos… Tal como uma negociação. Porque, apesar de ser bonito pensar o amor pelo viés do romanticismo, sabemos que o amor em si não basta. 

Talvez a gente coloque tudo na conta do amor para nos eximirmos de certas responsabilidades. 

O amor se trata de insistir, mas também de saber deixar ir. O amor se trata de proteger, mas também dar liberdade. Nos solicita diálogo e, em outras vezes, silêncio. Exige investimento e manutenção diária. 

Não é porque lá no início existiu amor que ele simplesmente continuará existindo. Amor e desejo podem seguir caminhos diferentes.  

Há de se refletir que, quando entramos em um relacionamento, nos dispomos a uma relação com o não dito, com a necessidade do diálogo, da compreensão, da troca, da presença, da falta, do conflito. 

O que os filmes românticos não nos contam

O filósofo Zygmunt Bauman, escreveu que: “Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro.” 

Se fantasiamos uma relação na qual o amor romântico é estruturante, há sempre que se falar sobre a noção de idealização. Essa que se constrói com base em nossas mais íntimas experiências, desejos e devaneios. E que, obviamente, é diferente de sujeito para sujeito. 

Se para você, relacionar-se com alguém está acompanhado da ideia do “felizes para sempre”, é preciso questionar-se: como e o quanto isso te afetará se houver um fim? Mesmo nos casos de relações que perduram por anos e anos, há algo que sempre encontra final. Seja o fim do desejo, da paixão, ou da disposição… Nada permanece igual ou imutável e isso não seria diferente com o amor.

Relacionar-se com alguém, talvez seja mais sobre saber o que não agrada, compreender as limitações do(a) parceiro(a) ante nossas expectativas, do que só enxergar aquilo que faz o olho brilhar. 

Por isso mesmo é que o processo de romper com a idealização, não somente do amor romântico, mas do outro, é tão necessário para viver uma relação saudável. Abandonando assim aquela velha concepção de que há um outro que, supostamente, existe para me completar e fazer de mim uma “pessoa inteira”.

Para isso, talvez seja importante compreender, primeiramente, que o amor romântico é uma invenção ocidental. Daquelas coisas que deveriam ter permanecido apenas na literatura e nas obras de arte. E assim, por fim, compreender que, relações saudáveis são constituídas de muitas coisas que vão para além do amor. E isso não deve ser impeditivo para amar ninguém.

“O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”. Zygmunt Bauman

Idealizacao e relacao saudavel: onde esta a diferenca?

O amor romantico pode ser uma experiencia bonita, mas tambem pode virar uma lente que dificulta enxergar limites, incompatibilidades e sinais de controle. Uma relacao saudavel nao exige que duas pessoas deixem de ser individuos. Ela precisa comportar desejo, respeito, liberdade, conversa dificil, limites e possibilidade de mudanca. Quando a fantasia de completude exige isolamento, submissao ou medo, o problema ja nao e falta de romantismo: e perda de autonomia.

Sinal saudavelSinal de idealizacao perigosa
O casal negocia planos e limites.Um lado precisa abrir mao de tudo para provar amor.
Ha espaco para amigos, familia e interesses proprios.A relacao exige isolamento ou vigilancia constante.
Conflitos podem ser conversados.Ciume, humilhacao ou controle sao tratados como prova de amor.

Perguntas para uma relacao mais real

  • Eu posso discordar sem medo de punicao emocional?
  • Meu projeto de vida existe para alem da relacao?
  • Estamos escolhendo ficar juntos ou apenas tentando cumprir um roteiro cultural?
  • Quando ha sofrimento, buscamos conversa, terapia ou apoio, ou apenas repetimos a mesma ferida?

Alerta: romantizar controle pode atrasar pedidos de ajuda. Possessividade extrema, ameacas, coerção, perseguicao, isolamento e agressao emocional, fisica ou sexual sao sinais de relacao insegura e merecem apoio.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Revisao e fontes

Este trecho foi revisado em 15 de maio de 2026 com foco em clareza, seguranca do leitor e interpretacao conservadora das evidencias. As fontes abaixo foram usadas para atualizar os cuidados e limites praticos do texto.

  • NHS inform – Healthy relationships
  • CDC – About Intimate Partner Violence
  • CDC – Preventing Intimate Partner Violence

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Ansiedade: quando vira problema de saúde

11 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Ansiedade: quando vira problema de saúde merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Acordei mais cedo do que precisava. Senti meu corpo tenso, como se estivesse se preparando para uma defesa, mas não entendi o motivo. Minha respiração parecia diferente, me sentia cansada mesmo tendo acabado de levantar da cama. Os pensamentos se multiplicavam com tanta rapidez que não conseguia focar em nada. Me mantive imóvel, não tinha força pra fazer nada além de respirar e mesmo isso parecia difícil.

Foi assim que descobri o que era ansiedade, ao viver o primeiro episódio de ansiedade da minha vida. O que viria a se repetir depois e me acompanhar por muito tempo…

Existe muita coisa escrita sobre ansiedade. Eu mesma, já havia lido e estudado muito material científico que detalhava cada sintoma. Mas tem coisa que a palavra deixa escapar. Tem coisa que só se entende vivendo. Entendi, após um episódio súbito de tensão e medo que, o que parecia ser um encontro com a morte, era, na realidade, a experiência física da ansiedade.

A ansiedade faz algo com a gente que não tem relação só com a cabeça, como costumamos pensar.

Aprendemos, no passar dos anos, que podemos localizar geograficamente uma dor. 

Se o corpo é o lugar pelo qual navegamos, na geografia corporal e física, a ansiedade certamente seria localizada na cabeça. 

Mas quem sofre com episódios e crises de ansiedade sabe, o corpo todo sente.

É através do pensamento que a ansiedade parece, primeiramente, ganhar expressão.

Às vezes chega devagar, como se fosse uma preocupação cotidiana… Mas também se manifesta pelos pés inquietos, o aperto no peito, enjoo, tremores… 

O que se pode dizer com certeza é que a ansiedade não está localizada em um único órgão. Ela se espalha pelo corpo e é sentida em cada parte dele. 

Por ser um assunto complexo, é importante esclarecer algumas coisas…

Quando a ansiedade é mais do que um sintoma

Você já sentiu medo antes de fazer uma prova, ou na hora de apresentar um trabalho? Já sentiu temor ante a uma discussão, ou quando algo deu errado no trabalho? 

Esse tipo de sentimento, correlacionado a ansiedade, é mais normal do que se pode imaginar. Por isso mesmo é necessário fazer a distinção entre a ansiedade patológica – ou melhor dizendo, o transtorno de ansiedade – e a ansiedade enquanto sensação/sentimento, muito semelhante ao sentimento de medo e temor.

O sentimento de ansiedade muitas vezes pode estar interligado ao medo. A um medo objetivo, inclusive, como apontado nos exemplos anteriores. Essa sensação de temor pode se traduzir como estresse, e então ser sentido no corpo. 

Diante de uma situação estressora, nosso cérebro entende que precisa se “defender”. Nesse momento é que ocorre uma liberação de hormônios em nossa corrente sanguínea, como por exemplo, a noradrenalina e o cortisol (veja mais aqui: https://www.ufmg.br/online/arquivos/015265.shtml). 

Transtorno de ansiedade: quando é patológico se sentir ansioso?

Como já mencionado, sentir-se ansioso, temeroso, estressado, é relativamente normal em nosso tempo. Mas quando o sentimento de ansiedade toma proporções maiores e os episódios de preocupação e inquietação ocorrem de maneira mais frequente, causando danos na rotina e interferindo no bem-estar do sujeito, é necessário ficar atento. 

Segundo estudo de revisão, publicado na Revista de Saúde e Ciências Biológicas, o transtorno de ansiedade generalizado (TAG)

“É caracterizado por apreensão ou preocupação excessiva com múltiplas questões do dia a dia. Pacientes com TAG também podem apresentar tensão muscular, hiperatividade autonômica, nervosismo, dificuldade de concentração, irritabilidade, distúrbios de sono, sudorese, náuseas, diarreia, cefaleia e respostas exageradas de sobressalto a estímulos geralmente inócuos, como o barulho. Para o diagnóstico, é requerido que os sintomas estejam presentes na maior parte do tempo, por, pelo menos, alguns meses.”

Importante atentar para algumas coisas. Primeiro, o transtorno é relacionado a mais de um sintoma, ou seja, o sentimento de ansiedade produz outras sintomáticas, como, dificuldade de concentração, nervosismo, etc. Segundo, a ansiedade patológica não possui associação apenas com questões objetivos, tal qual o temor diante de uma situação específica, real e concreta. Não gosto de usar o termo “real”, pois para quem sofre com isso, todas as preocupações e pensamentos intrusivos são sentidos de modo que parecem de fato existir, e serem possíveis de concretização.

É muito comum, nos casos de transtorno de ansiedade, que o sujeito sinta ansiedade relacionada ao futuro, a coisas que podem acontecer, uma espécie de sofrimento por e com a antecipação das coisas.

Das pessoas que conheço e que foram diagnosticadas com TAG, é recorrente ouvir coisas como: “e se isso acontecer? preciso estar prevenido”; “penso muito sobre o que vai acontecer comigo quando morrer, o que vou sentir, como vai ser”; “o que as pessoas vão pensar de mim?”. Uma maneira de pensar que é repleta de pensamentos negativos, que precipitam situações e que conduzem a um modo de vida que não está focada no presente, mas com a precipitação do futuro.

E, por fim, uma terceira consideração: a ansiedade se caracteriza como transtorno quando os sintomas descritos acima estão associados a um período prolongado e acompanhados de uma certa constância. O que obviamente produz sofrimento, dificultando as tarefas mais rotineiras.

“Acho que tenho transtorno de ansiedade, e agora?”

Bem, dada todas as considerações, é importante reforçar aqui que o sentimento de ansiedade é muito comum. Vivemos em uma sociedade que nos bombardeia com informações a todo momento.

O acesso a tecnologias rápidas, como o Whatsapp, por exemplo, modificaram nossa concepção de presença, de espaço e de tempo. Podemos fazer contato com alguém de outro estado ou país, verificar se a pessoa está online naquele momento, se visualizou a mensagem. Não percebemos, mas isso nos conduziu a um estilo de vida que está conectado a uma urgência.  

A impaciência, o desassossego, a necessidade de querer resolver tudo o tempo todo, sem respeitar o tempo e o espaço – do outro e o nosso próprio – das coisas e da vida, logicamente resulta em sentimentos relativos ao estresse e a ansiedade.

Por isso mesmo é preciso prestar atenção e se fazer algumas perguntas: o quanto isso é recorrente? Como me sinto perante a tal sentimento? Quais são os pensamentos que me ocorrem quando estou ansioso? Isso afeta minha rotina e meus afazeres? De que modo isso me afeta?

Considerando isso, caso entenda que de fato há prejuízos relacionados a ansiedade, não se precipite. Com isso quero dizer que: não faça um autodiagnóstico. Procure a ajuda de um especialista – psicólogo ou médico psiquiatra – para analisar a situação e entender como proceder.


Referência:

Frota IJ, Moura Fé AAC, Paula FTM, Moura VEGS, Campos EM. Transtornos de ansiedade: histórico, aspectos clínicos e classificações atuais. J Health Biol Sci. 2022; 10(1):1-8.

Magalhaes, A., Holmes, K., Dale, L. et al. CRF receptor 1 regulates anxiety behavior via sensitization of 5-HT2 receptor signaling. Nat Neurosci 13, 622–629 (2010). https://doi.org/10.1038/nn.2529.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

ansiedade
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Ansiedade: quando vira problema de saúde, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo

4 de agosto de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo muda conforme idade, ciclo menstrual, gestação, amamentação, crescimento, medicamentos e doenças associadas. Em crianças, adolescentes e gestantes, sinais leves podem ter decisões diferentes das de adultos saudáveis.

Quando um bebê chega a família, as primeiras preocupações entorno de seu nascimento são, na verdade, vinculadas a anseios e desejos de seus pais e familiares. Desde a preocupação com o nome, as roupas que irá vestir… Tem quem se adiante e idealize uma futura profissão. Tudo isso compõe um território, no qual a criança irá viver seu desenvolvimento. Esse “território” é que que o psicólogo Jacob Levy Moreno, nomeou de “matriz de identidade”.

Como acompanhar desenvolvimento sem tratar tudo como comparação

Em “O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo”, o desenvolvimento infantil deve ser observado como trajetória, não como competição. Crianças evoluem em ritmos diferentes, mas linguagem, interação, sono, alimentação, brincadeira, movimento e autonomia dão pistas importantes. O papel da família é oferecer segurança, rotina, vínculo e estímulos adequados, sem ignorar sinais de atraso ou sofrimento.

Áreas que merecem observação

ÁreaO que observar
LinguagemSons, palavras, compreensão, contato visual e tentativa de comunicação.
MovimentoPostura, coordenação, equilíbrio, marcha e uso das mãos.
InteraçãoBrincar, imitar, responder ao nome, dividir atenção e buscar contato.
RotinaSono, alimentação, telas, escola, limites e previsibilidade.
RegressãoPerder habilidades já adquiridas sempre merece avaliação.

Como ajudar de forma prática

  • Converse, leia, brinque e nomeie ações do cotidiano.
  • Mantenha rotina possível, com sono e alimentação previsíveis.
  • Evite usar telas como principal forma de acalmar ou estimular.
  • Procure pediatra se houver atraso persistente, regressão ou perda de interação.

Quando pedir uma avaliação

A avaliação não serve para rotular a criança; serve para entender necessidades e começar apoio cedo quando há atraso, dificuldade escolar, alteração de comportamento ou sofrimento familiar.

Família, escola, pediatria, psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional podem atuar juntos quando o desafio passa de uma dúvida pontual para impacto na rotina.

Através desse conceito, Moreno (citado por GONÇALVES et al, 1988), explica que a matriz de identidade é o espaço físico e virtual que o bebê ocupa dentro de sua família. Estes espaços se caracterizam por condições sócio-econômicas, culturais e relacionais, e que assim predeterminam o ambiente em que a criança se desenvolverá.

Este espaço ainda abarca expectativas em relação a quem será este bebê e o que ele modificará nesta família.  Todos estes fatores conjuntos: questões socioeconômicas, ambientais, cuidadores da criança, irão produzir efeitos subjetivos na criança. Tendo papel fundamental em seu desenvolvimento, sendo o “ponto de partida para o seu processo de definição como indivíduo” (1988, p. 59).

Desse modo, podemos compreender a matriz de identidade, como sendo aquilo que rege a comunicação da criança com o mundo. São os familiares e as pessoas que compõem a matriz de identidade do bebê, que irão “traduzir” o mundo para essa criança. Um exemplo disso, é quando o bebê chora e a mãe oferece a ele o seio, a chupeta, ou um afago. Ao fazer isso, é como se a mãe dissesse a criança que seu choro tem um significado.


As fases de desenvolvimento da criança

desenvolvimento da crianca

Ao nascer, a criança não assimila o mundo externo a ela. No princípio de seu desenvolvimento, o mundo é atrelado a figura materna, dado que o bebê ainda não se reconhece como um sujeito total. Esta fase é chamada de 1º tempo do Primeiro Universo, onde a criança vive apenas o presente e não distingue pessoas de objetos (1998, p. 60).

Passado algum tempo, o bebê adentra em uma nova fase de seu desenvolvimento. É o que Moreno, categorizou como o 2º tempo do Primeiro Universo. Fase marcada pela assimilação da criança enquanto indivíduo-próprio, compreendendo que ela e a figura materna são distintas. Os sonhos, relações de distância e distinção entre pessoas e objetos, são características desta fase. Contudo, nesse momento a criança ainda vive num mundo de fantasias, e vai, pouco a pouco, compreendendo as distinções entre o que é real e o que é de ordem imaginativa.

Na matriz de identidade, é a partir dessa brecha, entre fantasia e realidade, que Moreno divide o desenvolvimento da criança em três fases (1998, p. 62):

  • Fase do Duplo – criança precisa do outro para fazer o que ela não consegue fazer sozinha (ego-auxiliar).
  • Fase do Espelho – a criança reconhece o outro e esquece de si.
  • Fase da Inversão – tomada e inversão de papéis.

A fase da inversão de papéis nos é importante para compreender como a criança assimila determinadas funções sociais.


A tradução do mundo para a criança

pediatria desenvolvimento

Para Moreno (apud Gonçalves et al, 1998, p. 66), a teoria dos papéis é o modo pelo qual se faz possível analisar como, determinado indivíduo, atribuí significância a um papel social. O papel, dentro da teoria, pode ainda ser entendido como “[…] a forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica […]” (1998, p. 67).

Um papel, representa ainda uma parte, uma função ou a cristalização do modo como se aprendeu a ser e a desempenhar algo específico. Um exemplo disso é como aprendemos a ser pais, nos espelhando nos pais que tivemos. Esse exemplo torna claro que os papéis sociais não são algo novo na vida do indivíduo, já que tem origem na matriz de identidade, enquanto ainda somos crianças.

Desse modo, podemos dizer que é na matriz de identidade que aprenderemos, primeiramente, sobre os papéis sociais. São nas primeiras fases do desenvolvimento infantil que, por intermédio da figura do outro, internalizaremos o conceito de figuras sociais. Aprendemos ser irmãos, observando nossos irmãos. Aprendemos a ser amigos, observando e trocando com nossos próprios amigos. E assim, consecutivamente.

É preciso atentar para a importância que a família, e todos aqueles que compõem a matriz de identidade do bebê, têm nos primeiros momentos de seu desenvolvimento. Visto que são estes que irão traduzir o mundo para a criança, e que irão ensiná-la sobre os papéis sociais, é primordial criar um ambiente que seja seguro e capaz de auxiliar a criança, na descoberta do mundo e das pessoas.

Dependendo do modo como se introjeta o papel do outro, essa internalização pode também facilitar uma psicopatologia: “O sujeito neurótico internalizou a figura do outro como uma presença dominante, perante a qual o próprio sujeito se posiciona como ente secundário” (Romero, 1997, p. 165, apud Tenório, 2003, p. 39).

O que quero dizer com isso é que, quando os pais não conseguem traduzir e valorizar determinada experiência da criança, ela pode não ser capaz de assimilá-la sozinha, pois é integralmente dependente da relação com o outro, nas primeiras etapas de seu desenvolvimento. O bebê então depende de um outro, que a ele traduza o mundo, e quando esse mundo não o é acolhedor, a criança introjeta sua experiência como algo negativo (2003, p. 38-39). Podendo, como resultado, produzir efeitos subjetivos de grande impacto na construção de sua identidade.

Para concluir, auxiliar uma criança em seu desenvolvimento é tarefa árdua e complexa. Moreno, acreditava em um sujeito que nasce espontâneo, criativo e sensível. Mas, por meio de seu desenvolvimento e intermédio de suas relações, essas características espontâneas e criativas tendiam a se inibir, com o passar dos anos e do desenvolvimento psicossocial.

Gosto muito de um vídeo intitulado “Children see, children do”, em tradução livre para o português: crianças veem, crianças fazem. Esse vídeo pode nos ajudar a pensar sobre como nossa presença, nossas ações e traduções, são determinantes nas vidas que criamos. E assim, compreender, que temos papel fundamental nos adultos que essas crianças se tornarão no futuro.


Cuidados em ciclos, gestação e infância

Em O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo, idade e fase de vida mudam a leitura. Crianças, adolescentes, gestantes, puérperas e pessoas em amamentação têm limites diferentes para sintomas, remédios, exames e espera. O ciclo menstrual, crescimento e histórico obstétrico também alteram a interpretação.

ContextoPor que muda a orientação
Criança ou adolescenteCrescimento, puberdade e dose por peso precisam ser considerados.
GestaçãoAlguns sintomas e medicamentos têm risco diferente.
Ciclo menstrualPadrão, duração, fluxo e dor ajudam a separar variação de alerta.
Doenças préviasAnemia, diabetes, pressão alta e imunossupressão reduzem margem de espera.

Anote datas, intensidade, medicamentos usados, exames anteriores e mudanças recentes. No atendimento pediátrico ou ginecológico, essa sequência costuma ser mais útil que uma descrição genérica do sintoma.

Explore também no Blog da Saúde

  • Pediatria
  • Psicologia

Fontes úteis

  • CDC: marcos do desenvolvimento infantil
  • MedlinePlus: desenvolvimento infantil

Referências:

Gonçalves, C. S. (1988). Lições de psicodrama: Introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Ágora.

TENÓRIO, Carlene Maria Diaz. A psicopatologia e o diagnóstico numa abordagem fenomenológica–existencial. IN: Universitas Ciências da Saúde – vol.01 n.01 – p. 31-44. 2003. Disponível em: http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/index.php/cienciasaude/article/view/493/315.

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Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma

4 de agosto de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma: observe duração, intensidade e prejuízo na rotina, não apenas um dia ruim. Sono, apetite, energia, concentração, uso de álcool, remédios e pensamentos de morte mudam a urgência. Sofrimento persistente ou risco de autoagressão pede ajuda imediata.

Nos últimos textos, um tema parece ter se repetido, mesmo que de forma coadjuvante. Não é por menos, falar da loucura parece ainda um estigma. Há um temor que circula o terreno da loucura, talvez por isso exista tanto preconceito com aquilo que é de ordem subjetiva e, até mesmo, com a procura por um profissional da psicologia.

Temos medo das classificações. Temos medo de sermos considerados loucos.

E não estamos errados em nos sentirmos amedrontados com a ideia de loucura. Primeiro, porque sabemos o que fizeram com quem foi considerado louco, no passado. Segundo, porque a loucura, quando não patológica, é uma forma de assumir um posicionamento que diverge do que é classificado como norma, em uma sociedade. E fugir da norma, implica em um trabalho de constância consigo mesmo.

Dito isso, quero propor pensarmos sobre o modo como a loucura é tratada na contemporaneidade.


A loucura e a psiquiatria

Os finais que iniciam com perguntas quase que introdutórias, hipnotizam. Existe algo de poético nas questões. “Qual o futuro da psiquiatria?”. Uma reformulação ampla, aponta o autor de Our Psychiatric Future (2019)… Para Nikolas Rose, a psiquiatria precisa de reformulação, baseada em evidências objetivas e científicas.

Em relação à loucura, a psiquiatria que temos acesso, dedica-se a um órgão central no processo de tratamento. Falamos já sobre a importância de que o tratamento para o sofrimento psíquico, precisa envolver outros aspectos, além da medicalização. É claro que, tomar uma pílula produz a sensação de que o tratamento pode ser mais rápido do que de fato é. E muita gente não quer se demorar em si mesmo, ou nas suas loucuras.

Somos parte do clube do desempenho, dos sujeitos que não param, que estão freneticamente pensando e produzindo. Devido a isso, medicar um órgão continua sendo mais barato, rápido e simples de ser tratado, do que encarar o processo da terapia, por exemplo. As condições de tratamento são restritamente pensadas apenas por quem, da loucura e do sofrimento psíquico, ouve apenas o que serve a um diagnóstico.

Em suma, o fazer psiquiátrico, disponível a maior parte da população é, é um fazer que conduz o sujeito a uma condição de sobrevida, de vida-morrida, por meio de um movimento de cerebralização (ROSE, 2019) da condição humana. Ou seja, um tratamento feito a partir da medicalização de um órgão.

psiquiatria

Isso acontece porque, grande parte das categorizações de doenças psíquicas continuam sendo baseadas em fatores biológicos, negando a complexa teia causal que resulta na vida humana.

Não há muito tempo, o Brasil foi palco do movimento da luta antimanicomial, que surgiu com o objetivo de reformar o sistema psiquiátrico brasileiro, que era conhecido pelo tratamento designado aos ditos loucos. Muitas pessoas sofreram e morreram nessas instituições, o que nos faz pensar sobre o que se faz com quem é considerado anormal, dentro de uma sociedade. E sabemos que, não precisa-se de muito para fugir da norma.

Vivemos em um espaço-tempo no qual a vida humana é sucateada. Vida que parece só ganhar expressão sincera de vida potente quando sofre ou adoece psiquicamente, como já dito aqui. Assim, o tratamento via “cerebralização”, ou, a medicalização do sofrimento, parece atender uma demanda que não é só da indústria farmacêutica, dos profissionais psis, dos discursos sobre normalidade/anormalidade. Pois atende, antes de tudo, a produção incessante de corpos que não podem “perder tempo” com as próprias demandas da vida humana-social-familiar-relacional.

Por isso mesmo, diz-se que o cérebro é o responsável pelo adoecimento psíquico. Existe sim aspectos transtornos e condições psíquicas que são apenas de ordem neurológico. É preciso considerar os aspectos biológicos quando falamos de saúde mental, sem dúvida. A questão aqui é que o que se tem percebido, via de regra, é o tratamento feito apenas com o uso de remédios.

Mas como fugir disso? Como fugir da medicalização como única saída?

Penso que a resposta está nos movimentos que realmente buscam um outro modo de entender e tratar a loucura, a depressão, a ansiedade e, tudo que faz parte do psiquismo. Não se pode continuar a aceitar o lugar que é dado a quem procura tratamento, não no sentido literal da palavra: paciente, aquele que espera. A voz da pessoa em sofrimento precisa ser ouvida, quando esta busca por ajuda. E se, no caso de procura por ajuda médica, você sentir que não foi ouvido, procure outro profissional.


O futuro da psiquiatria

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Em relação ao futuro da psiquiatria, o que tem-se visto até aqui, são “transformações” em andamento,  que demonstram que as preocupações com um “novo” fazer psiquiátrico, ou porque não dizer, uma psiquiatria social, apontam outros caminhos. Caminhos que poderiam guiar os saberes médicos a um compartilhamento transversal de saberes, que dá voz e vez ao sujeito-paciente.

Com isso posto, talvez possamos abandonar a ideia de uma epidemia de saúde mental, dado que o que vivemos é uma categorização massiva do sofrimento psíquico. O que nos leva inclusive a uma outra questão, que diz da banalização dos diagnósticos. Não podemos continuar reféns das categorizações psiquiátricas. Nem todo sintoma de ansiedade e tristeza deve ser categorizada como transtorno psíquico. É preciso analisar o contexto social, compreender e ouvir o que o sujeito diz e qual sua queixa.

Como menciona Rose (2019) não seremos capazes de entender, quanto mais melhorar, a incidência das doenças psíquicas se focarmos em um método que parte do princípio de que estas são doenças do cérebro, considerando o ambiente apenas um conjunto de fatores pouco importantes. As medicações psiquiátricas são sim importantes em muitos casos, contudo, não podem ser a primeira e única saída, quando se trata de sofrimento psíquico.

Por fim, gostaria de indicar o filme nacional Nise – o coração da loucura. O filme retrata o importante papel de Nise da Silveira, médica psiquiatra que transformou o fazer psiquiátrico no Brasil.



Referência:

ROSE, Nicholas. Our Psychiatric Future: The Politics of Mental Health. Cambridge: Polity Press, 2019.

Quando buscar apoio estruturado

Em Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Como medir impacto na rotina

Em saúde mental, intensidade e impacto funcional são mais importantes do que rótulos rápidos. Para Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalO que observar
DuraçãoPersistência por dias ou semanas muda a leitura.
PrejuízoTrabalho, estudo, sono e relações mostram gravidade funcional.
RiscoIdeias de morte ou autoagressão exigem ajuda imediata.
SubstânciasÁlcool e drogas podem piorar ou confundir sintomas.
Evite concluirPrefira observar
“É só força de vontade”Duração, prejuízo e risco.
“Todo sintoma é transtorno”Contexto, sono, substâncias e eventos recentes.
“Posso esperar se há risco”Ideias de morte exigem ajuda imediata.

Procure apoio imediatamente se houver risco de autoagressão, sensação de perda de controle, confusão, uso pesado de álcool ou drogas, ou incapacidade de realizar cuidados básicos.

Se a dúvida persistir, anote início, frequência, intensidade, fatores que pioram, fatores que aliviam e qualquer efeito indesejado. Esse registro reduz achismos e torna a conversa clínica mais objetiva.

Fonte: NIMH: mental health information.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Conflitos familiares: padrões, limites e cuidado

3 de agosto de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Conflitos familiares: padrões, limites e cuidado merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Conflitos familiares: padrões, limites e cuidado: observe duração, intensidade e prejuízo na rotina, não apenas um dia ruim. Sono, apetite, energia, concentração, uso de álcool, remédios e pensamentos de morte mudam a urgência. Sofrimento persistente ou risco de autoagressão pede ajuda imediata.

Texto escrito em colaboração com a psicóloga, em percurso psicanalítico, Caroline Chiodelli CRP 12/15776

Memória (de Carlos Drummond de Andrade. “Claro Enigma”, 1991)

“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão”.

Família. Uma palavra que carrega diferentes significados para cada sujeito, mesmo que estes sujeitos façam parte de uma mesma família. Para começo de conversa, uma das descrições de “família” no dicionário é: grupo de pessoas que compartilham os mesmos antepassados; estirpe, linhagem, geração.

Sabemos que a origem da família está intrinsecamente ligada ao processo civilizatório, onde surgiu a necessidade do ser humano estabelecer relações afetivas e criar laços. Algumas perguntas podem-se fazer a partir daí é: no seio familiar, o que mais se cria além de laços? E quais efeitos estes laços produzem para cada sujeito que a compõe?

Sabemos que, na contemporaneidade, a dinâmica familiar vem ganhando múltiplos arranjos para além do modelo tradicional: famílias homoafetivas, multiparentais, monoparentais, recompostas e famílias inter-raciais e interculturais.

A verdade, é que cada sujeito têm dado contorno àquilo que entende e deseja por família. E apesar das duras críticas dos séculos XIX e XX direcionadas a família, a escuta, na clínica psicanalítica, nos mostra que ela continua viva e pulsante, produzindo efeitos.

importancia familia


Isso se manifesta de diferentes maneiras…

Há quem deseja estar perto dos familiares, apreciando e admirando, e há também quem se angustie profundamente a ponto de atravessar um continente e fazer uma nova morada, por exemplo.

Porém, sabemos que os enlaces que a família compõe, transcendem o espaço geográfico, tempo e gerações. E é dessa cena que se trata para um sujeito: o enlaçamento entre aquelas subjetividades e a inscrição simbólica que o convoca a se constituir sujeito. Ou seja, o encontro entre aquilo que é de ordem individual e aquilo que é de ordem familiar. A partir desses entrecruzamentos que nos tornamos um eu.

Ao nascermos, somos lançados em um mundo repleto de histórias, acontecimentos, significados. A existência de um mundo antecede a existência de um bebê. Recebemos um nome e um sobrenome e, curiosamente, somos identificados a partir desta origem. Muitos de nós já fomos fisgados pelo entusiasmo de saber de onde viemos, buscando atrelar histórias passadas – de cinco décadas atrás, por exemplo – com a nossa própria.

O tempo cronológico interrompe muitas coisas, o expediente de trabalho, o fim de um filme, a validade de um produto. Contudo, as marcas subjetivas criadas pela passagem do tempo, não operam a partir do relógio. Aquilo que faz marcar a vida, não morre quando a morte acontece, pois continua ecoando na sua atemporalidade.

Ao falarmos de família, também estamos falando de ecos. Alguns gritantes, outros mais silenciosos… e, principalmente, alguns advindos de histórias e pessoas que nem mesmo o tempo cronológico teve a maestria de nos apresentar.


Conflitos familiares: daquilo que fica em nós

disputas conflitos familiares

O entrelaçamento de gerações é comumente composto de afetos, desejos inconscientes, (re)vivências de conflitos infantis, narcisismos dos pais, e, especialmente, transferência de histórias familiares originárias de outras gerações que atravessam o tempo e o encontro de gerações.

Afinal, os nossos pais, são também filhos. Os nossos avós, são também filhos e pais. Ter este olhar sob aqueles que exercem funções e ocupam o lugar de amor e/ou ódio em nossas vidas, aponta para a direção principal deste escrito: uma família, indiferente da década/século, está sempre povoada por histórias que ecoam.

O modo como esses “ecos” ressoam em nós, são diversos. Justamente por isso, não é incomum ouvir sobre como parecemos, em questão de traços psíquicos e posicionamentos, algum familiar. Os anos vividos, lado a lado, com nossos pais e mães, deixam resquícios na constituição de nossa identidade, produzindo uma certa semelhança de identificação.

Na clínica, este espaço destinado à escuta e acolhimento, estes ecos se fazem escutados e é por isto que muitas vezes, se impõe uma busca mais primitiva de um sintoma, pois este pode estar relacionado a conteúdos herdados que não foram simbolizados.

Pensar sobre a herança, para além daquela que é material – casa, dinheiro, terras – se faz extremamente necessário quando estamos falando de constituição do sujeito, na articulação entre as dimensões intrapsíquica e intersubjetivas.

Que heranças herdamos de nossos pais? Avós, bisavós e por aí em diante. Nesse sentido, é importante atentar para quais cenas e situações se repetem, ano após ano, de mãe para filho, por exemplo. Existem “queixas” familiares que são recorrentes e transgeracionais. Observar isso e compreender quais repetições mantém determinadas queixas, é um trabalho árduo, mas necessário.

Seria simplório demais termos uma resposta exata para esta pergunta, mas seria ilusório demais pensarmos que nada se herda. Talvez, então, a questão seja outra, a de reconhecer a existência de uma história que antecede todo sujeito.

Metaforicamente falando, ao nascermos, é como se recebêssemos, junto a experiência traumática de nascer, um tecido para vestir. E de alguma forma, somos convocados a vestir e se apropriar desse tecido.

Porém, um tecido é sempre formado por tramas de fios que já estão dispostos de determinadas maneiras. Talvez reconhecer, escutar os ecos e, principalmente, poder falar deles, seja justamente abrir aos poucos, estas tramas que às vezes criam nós, embaraçam novas linhas. E a partir daí, poder fazer novas costuras e arranjos.

Das possibilidades de se reinventar e se rearranjar, é na clínica psicoterapêutica e na análise, que se faz possível assimilar o que é meu, o que é do outro, e de que forma esses entrecruzamentos produzem sofrimento e estagnamento.

Existe um termo denominado upcycling. Na moda, o upcycling surge como a reutilização de uma roupa, que já não cabe do modo como foi pensada. São feitos novos arranjos e dada uma nova função àquilo que antes compunha uma indumentária. Ao encontro desse termo é que se propõe pensar as possibilidades de aplicação do upcylcing, naquilo que é de ordem subjetiva, que é carregada tal como uma herança, mas que já não cabe em nós.

Quando buscar apoio estruturado

Em Conflitos familiares: padrões, limites e cuidado, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Quando procurar avaliação

Procure apoio quando o sofrimento interfere em sono, apetite, estudo, trabalho, vínculo, autocuidado ou segurança. Pensamentos de morte, violência, uso de álcool ou remédios para aguentar o dia, crises repetidas ou isolamento importante exigem rede de cuidado mais próxima.

Como acompanhar a evolução

  • Monte uma linha do tempo curta: início, evolução, fatores de piora e melhora.
  • Separe sintoma principal, sinais associados e impacto nas atividades.
  • Defina quando reavaliar se a melhora esperada não acontecer.

Quando sofrimento vira sinal de cuidado

A observação deve incluir sono, energia, concentração, apetite e segurança. Para Conflitos familiares: padrões, limites e cuidado, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalO que observar
DuraçãoPersistência por dias ou semanas muda a leitura.
PrejuízoTrabalho, estudo, sono e relações mostram gravidade funcional.
RiscoIdeias de morte ou autoagressão exigem ajuda imediata.
SubstânciasÁlcool e drogas podem piorar ou confundir sintomas.
Evite concluirPrefira observar
“É só força de vontade”Duração, prejuízo e risco.
“Todo sintoma é transtorno”Contexto, sono, substâncias e eventos recentes.
“Posso esperar se há risco”Ideias de morte exigem ajuda imediata.

Procure apoio imediatamente se houver risco de autoagressão, sensação de perda de controle, confusão, uso pesado de álcool ou drogas, ou incapacidade de realizar cuidados básicos.

Se a dúvida persistir, anote início, frequência, intensidade, fatores que pioram, fatores que aliviam e qualquer efeito indesejado. Esse registro reduz achismos e torna a conversa clínica mais objetiva.

Fonte: NIMH: mental health information.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Exaustão e frustração: sinais e cuidado mental

2 de agosto de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Exaustão e frustração: sinais e cuidado mental merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Exaustão e frustração: sinais e cuidado mental: observe duração, intensidade e prejuízo na rotina, não apenas um dia ruim. Sono, apetite, energia, concentração, uso de álcool, remédios e pensamentos de morte mudam a urgência. Sofrimento persistente ou risco de autoagressão pede ajuda imediata.

Ideias para adiar o fim do eu não faltam. Contudo, esse é o último texto da seção. Como uma espécie de conclusão, aproveito para tratar agora de questões, subestimadas quando falamos de depressão e ansiedade. Vimos os diferentes aspectos, que estão relacionados à degradação da vida humana. Porém, pouco se fala sobre como a exaustão e a frustração são fatores operantes em tudo que concerne ao esgotamento da vida, e como estas duas temáticas são ligadas uma a outra.

De volta à Krenak:

“Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos” (Krenak, 2019, p. 9)

É o que tem acontecido. Temos ficado loucos, mas apenas no sentido ruim da palavra. Nada que chegue perto de uma loucura libertadora, daquela que faz ver o mundo a partir de uma outra perspectiva… Temos ficado loucos com a loucura que adoece. E, temos, e muito, adoecido.

O momento atual parece privilegiar o diagnóstico. Não entendo ainda, da urgência que tanta gente tem em ser diagnosticada, principalmente porque, acredito que é o modo de vida contemporânea que está corrompido e adoecido.

Dado que, o tratamento para a loucura e adoecimento da qual sofremos é restrita ao paciente, é como se o diagnóstico atestasse apenas que somos mais um caso, dentre os tantos outros que sofrem e perecem. Vale dizer aqui que, o costume de focar apenas no indivíduo quando busca-se por tratamento, é proveniente de uma “herança” de um modo de se fazer medicina que é centralizado no sujeito. É como se colocássemos entre parênteses as questões de origem social, política, econômica, e olhássemos, quase que exclusivamente, para aquela pessoa adoecida.

Claro que, existe a compressão de que transtornos como, depressão e ansiedade, são multifatoriais. Porém, o tratamento adotado nesses casos, na maior parte das vezes, é de ordem individual. Não há como negar a funcionalidade e a ajuda que a pílula, a terapia e tudo que é individualizado nesse tipo de tratamento produzem no paciente. Mas, com o grande aumento de casos desses transtornos, precisamos compreender que o modo como vivemos atualmente é o que produz o adoecimento psíquico – não falo aqui, é claro, de casos específicos de ordem biológica.

Então, como proceder?

É necessário, antes de tudo, retroceder. Entender como chegamos ao estilo de vida que vivemos hoje. Uma vida que nos leva a exaustão mental e a frustração.

Vida civilizada, indivíduo civilizado: caminhos para a frustração e exaustão mental

depressao frustracao psicologia

Um dos precursores, daquilo que nos induz ao padrão de vida atual, é um ideal atribuído primariamente a aristocracia: a ideia de civilização. É por isso, que quando nos referimos a sociedade, a um progresso na ideia de comportamentos culturais compartilhados, falamos de sociedade civilizada.

O conceito de civilidade e sua função, como aponta o autor Norbert Elias, se devem “[…] a um curto tratado de autoria de Erasmo de Rotterdam, De civilitate morum puerilium (Da civilidade em crianças)” (1994, p. 68). Esse tratado, também conhecido como “A civilidade pueril” foi desenvolvido no ano de 1530. O autor, Erasmo, teve como objetivo, produzir um documento que listasse e padronizasse comportamentos considerados essenciais para a formação de uma juventude civilizada:

“A arte de instruir crianças consta de diversas etapas. A primeira e a principal consistem em fazer com que o espírito ainda tenro receba as sementes da piedade; a segunda que tome amor pelas belas artes e aprenda bem; a terceira, que seja iniciada nos deveres da vida; a quarta, que se habitue, desde cedo, com as regras da civilidade” (ERASMO, 1530, s.p.).





No primeiro capítulo, o autor trata das “atitudes corretas e incorretas” com cada parte do corpo. Trago aqui algumas das citações desta seção, para pensarmos sobre costumes.

Dos olhos, aprendemos que: “De fato, olho ameaçador é sinal de violência, enquanto olho perverso traduz maldade. Olho erradio e perdido, no espaço, sugere demência” (1530, s. p.). Em meu preferido, no capítulo seis: “Mesmo aqueles que a natureza destinou que fossem plebeus, humildes de nascimento e até rústicos, todos aqueles deveriam compensar com o brilho dos hábitos as deficiências da sua categoria social”. Esse último, tão atual…

Muitas destas preocupações, com normas de etiqueta e conduta social, foram perdendo espaço e importância com o passar do tempo. Mas, vez ou outra, uma menina ainda acaba ouvindo, de alguém mais velho, que precisa “sentar-se como uma moça”. O que demonstra que a ‘civilização’ é um processo com resquícios do passado, que vez ou outra se retomam afim de reafirmar certas condutas morais e do corpo.

Essas regras de etiqueta e de comportamento são parte de algo muito maior. Compõem aquilo que é nomeado de conduta social. Ou seja, o comportamento considerado adequado em determinada situação.

fim do eu psicologia

Cada atualização do sistema de códigos sociais, nos mostra o que se constitui como aceitável ou não enquanto padrão comportamental, em determinado espaço-tempo. Os códigos sociais, a princípio, produzidos e pensados para a nobreza como mais um modo de distinguir esse lugar de riqueza dos pobres e plebeus, foram, com o passar dos anos, sendo introjetados e disseminados por outras classes e sujeitos.

Mas, é deste cuidado demasiado com o comportamento do corpo, os modos à mesa, o jeito certo de olhar, que fizeram com que chegássemos naquilo que hoje se traduz no conceito de cuidado e ética de si – conceitos cunhados pelo filósofo Michel Foucault (1926-1984). Uma forma de governança do próprio corpo, para que não escape daquilo que é considerado normal.

Você pode estar se perguntando, qual a relação dos conceitos de civilização e governo do corpo, com os assuntos tratados no início do texto, quando falei sobre exaustão e frustração… É sobre isso que o próximo texto e parte final dos ensaios sobre “ideias para adiar o fim do eu”, trata.

Continua…


Referências

ELIAS, Norbert. O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro : Zahar, 1995.

ERASMO. A Civilidade Pueril. In: Revista Intermeio, Campo Grande, n. 2, 1995

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

O que observar além do rótulo

Sofrimento psíquico merece cuidado quando passa a limitar escolhas ou aumentar risco. Para Exaustão e frustração: sinais e cuidado mental, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalO que observar
DuraçãoPersistência por dias ou semanas muda a leitura.
PrejuízoTrabalho, estudo, sono e relações mostram gravidade funcional.
RiscoIdeias de morte ou autoagressão exigem ajuda imediata.
SubstânciasÁlcool e drogas podem piorar ou confundir sintomas.
Evite concluirPrefira observar
“É só força de vontade”Duração, prejuízo e risco.
“Todo sintoma é transtorno”Contexto, sono, substâncias e eventos recentes.
“Posso esperar se há risco”Ideias de morte exigem ajuda imediata.

Procure apoio imediatamente se houver risco de autoagressão, sensação de perda de controle, confusão, uso pesado de álcool ou drogas, ou incapacidade de realizar cuidados básicos.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: NIMH: mental health information.

Quando buscar apoio estruturado

Em Exaustão e frustração: sinais e cuidado mental, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Quando procurar avaliação

Procure apoio quando o sofrimento interfere em sono, apetite, estudo, trabalho, vínculo, autocuidado ou segurança. Pensamentos de morte, violência, uso de álcool ou remédios para aguentar o dia, crises repetidas ou isolamento importante exigem rede de cuidado mais próxima.

Como acompanhar a evolução

  • Monte uma linha do tempo curta: início, evolução, fatores de piora e melhora.
  • Separe sintoma principal, sinais associados e impacto nas atividades.
  • Defina quando reavaliar se a melhora esperada não acontecer.

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Pensamento acelerado e finitude: como lidar

30 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Pensamento acelerado e finitude: como lidar merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Pensamento acelerado e finitude: como lidar: observe duração, intensidade e prejuízo na rotina, não apenas um dia ruim. Sono, apetite, energia, concentração, uso de álcool, remédios e pensamentos de morte mudam a urgência. Sofrimento persistente ou risco de autoagressão pede ajuda imediata.

Os problemas com os quais nos deparamos hoje são oriundos de um modo de vida que clama por transformações. Fala-se agora de uma nova disfunção: o pensamento acelerado. Tem quem, inclusive, considere o sintoma como uma síndrome. Contudo, de modo geral, o pensamento acelerado é algo que compartilhamos entre nós, podendo ser compreendido como a manifestação de uma vida que está em vias de degradação.

Falo que “compartilhamos” o sintoma, dado que o pensamento acelerado é mais recorrente e comum do que se pode imaginar. Parece estar correlacionado

No livro Sociedade do cansaço (2015), Byung-Chul Han, nos apresenta um outro modo de assimilar essa questão. Propõe que a nomeamos de violência neuronal. Para o autor, “cada época possui suas enfermidades fundamentais” (p. 7). Enfermidade que dizem do modo como se vive cada tempo, cada década.

Devido a isso, nosso século é definido como o século das doenças neuronais. Depressão, TDAH, síndrome de Burnout, e é claro, a ansiedade e o pensamento acelerado. Patologias, síndromes, sintomas que demonstram a turbulenta rotina com a qual nos deparamos diariamente.

O celular que ao primeiro sinal de bateria fraca nos faz correr a procura de um carregador. As mensagens no whatsapp que nos colocam em contato mesmo quando longe. A impossibilidade de ficar sem acesso as redes sociais e a ansiedade que isso nos gera. São informações que chegam o tempo todo. Parece não haver maneira de fugir disso.


cansaco cronico esgotamento mental


Estar desconectado nos faz sentir como se estivéssemos perdendo algo.

Além de estarmos vivendo uma época marcada pelas patologias de ordem psíquica, Han, afirma que o século XXI é definido como o período da sociedade de desempenho. O que isso significa? Veja, sabe aquela ansiedade quando deixamos algo por terminar no trabalho e que nos acompanha quando chegamos em casa, inquietando o pensamento? O sentimento de obrigação e necessidade contínua de se aperfeiçoar, se qualificar, ser melhor em tudo que é possível ser?

Somos cobrados para que nossos corpos sejam perfeitos. Se fala até sobre “projeto verão” e sobre como ter um “corpo de praia”. Não obstante, somos incitados a participar de cursos, palestras, aprender novas línguas. Tudo isso com a justificativa de que precisamos nos atualizar, tal como um sistema de computador.

Percebam que essa ideia de qualificação e desenvolvimento pessoal não é algo que produz em nós um alívio, um encontro com aspectos da nossa existência. Definitivamente não é um passo rumo ao autoconhecimento. Ou mesmo, qualquer coisa que nos aproxime de nossas questões mais pessoais e urgentes, e que poderiam nos auxiliar na busca por uma vida mais saudável e menos intransigente.

É o oposto disso. Mais um modo que o sistema encontrou como forma de nos manter capturados, produzentes, focados em nossas vidas profissionais. O pensamento acelerado é fruto desse sistema, desse modo de viver a vida, como se ela estivesse sempre subjugada ao trabalho.

Exatamente por isso é que vinculamos a ideia de uma vida boa, de sucesso, com propósito, às conquistas profissionais. A vida contemporânea ganha expressão e sentido quando estamos realizados profissionalmente. O que é de ordem pessoal acaba ficando para depois. Mas o depois parece não chegar nunca.

Enquanto isso, as possibilidades não esgotam, mas nos esgotam…


Pensamento acelerado: sintomas da autoexploração

pensamento acelerado

Nessa construção contínua e intensa de nos tornarmos uma versão melhorada de nós mesmos, não percebemos que nossas escolhas, iniciativas e projetos, são condicionados ao sistema da produtividade. Nos entupimos de cursos, vídeo-aulas, novos aprendizados. Descansar é verbo que quase não tem espaço na agenda do sujeito contemporâneo.

A depressão é resultado da exacerbação das possibilidades, tal como é com os transtornos de ansiedade. Adoecemos porque o corpo pede quietude. Para Han, “o excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade” (p. 30). A falsa liberdade de poder-ser, de poder escolher… Encoberta pela ideia do indivíduo multitarefa.

Não é por menos que parecemos nunca caber ou servir nas vagas de trabalho ofertadas atualmente. Falar várias línguas, formação acadêmica, especialização, nada parece ser suficiente, pois o mercado de trabalho cobra que sejamos melhores e mais eficientes. Nossos colegas de trabalho são, na verdade, nossos rivais.

Vivemos nessa incumbência de aperfeiçoamento contínuo, em razão de sentirmos medo de que alguém será mais ágil e mais qualificado que nós. Sem dúvida alguma, o sentimento de fracasso pode se tornar patológico. Inclusive, a depressão pode, por vezes, ser o sintoma patológico da ideia de fracasso em ser quem se é e ser o único responsável por isso. Assim como, a ansiedade pode ser uma patologia que diz sobre o esgotamento da mente, frente a todas as possibilidades de existir.

Todas as atividades humanas são voltadas para o trabalho. É por isso que adoecemos. As novas síndromes relacionadas ao esgotamento, demonstram que precisamos, urgentemente, parar, nos aquietar, sem culpa. Não há vida humana sem o mínimo de estado contemplativo.

Na contínua busca por adiarmos o fim do eu, voltamos a Krenak:

“As andanças que fiz por diferentes culturas e lugares do mundo me permitiram avaliar as garantias dadas ao integrar esse clube da humanidade. E fiquei pensando: “Por que insistimos tanto e durante tanto tempo em participar desse clube, que na maioria das vezes só limita a nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade?”. Será que não estamos sempre atualizando aquela nossa velha disposição para a servidão voluntária?” (2019, p. 8).

Nossas vidas, quem somos, nossa identidade, isso tudo não pode se resumir ao trabalho ou ao currículo vitae. Existem experiências e encontros que não são oferecidos em cursos e palestras. São vivências que só se descobre com o ócio.

É preciso reaprender a descansar, a ficar em silêncio, a viver – mesmo que algumas horas – desconectado do celular, do que chamamos de “vida social” e que na realidade é uma vida paralela a presencial.

Não podemos mais ter medo de estarmos ociosos. Não podemos continuar a viver online o tempo inteiro. Reforço, é preciso reaprender a descansar e se desconectar… Caso contrário, ficaremos reféns de nós mesmos, de nossas infinitas possibilidades de melhorias…


Referências:

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petropolis, RJ: Vozes, 2015.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Quando buscar apoio estruturado

Em Pensamento acelerado e finitude: como lidar, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Quando procurar avaliação

Procure apoio quando o sofrimento interfere em sono, apetite, estudo, trabalho, vínculo, autocuidado ou segurança. Pensamentos de morte, violência, uso de álcool ou remédios para aguentar o dia, crises repetidas ou isolamento importante exigem rede de cuidado mais próxima.

Como acompanhar a evolução

  • Monte uma linha do tempo curta: início, evolução, fatores de piora e melhora.
  • Separe sintoma principal, sinais associados e impacto nas atividades.
  • Defina quando reavaliar se a melhora esperada não acontecer.

Como medir impacto na rotina

Em saúde mental, intensidade e impacto funcional são mais importantes do que rótulos rápidos. Para Pensamento acelerado e finitude: como lidar, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalO que observar
DuraçãoPersistência por dias ou semanas muda a leitura.
PrejuízoTrabalho, estudo, sono e relações mostram gravidade funcional.
RiscoIdeias de morte ou autoagressão exigem ajuda imediata.
SubstânciasÁlcool e drogas podem piorar ou confundir sintomas.
Evite concluirPrefira observar
“É só força de vontade”Duração, prejuízo e risco.
“Todo sintoma é transtorno”Contexto, sono, substâncias e eventos recentes.
“Posso esperar se há risco”Ideias de morte exigem ajuda imediata.

Procure apoio imediatamente se houver risco de autoagressão, sensação de perda de controle, confusão, uso pesado de álcool ou drogas, ou incapacidade de realizar cuidados básicos.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: NIMH: mental health information.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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