Blog da Saúde

Informações sobre cuidados com a saúde

  • Sintomas
  • Doenças
  • Tratamentos
  • Exames e Medicamentos
  • Especialistas
  • Guias
tema

psicologia

Depressão e modos de vida: sinais e apoio

29 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Resposta direta: depressão não é apenas tristeza nem falta de esforço. Ela pode envolver perda de interesse, alterações de sono e apetite, culpa, lentidão, irritabilidade, dificuldade de concentração e pensamentos de morte. Modos de vida podem influenciar o sofrimento, mas não substituem avaliação quando os sintomas persistem.

Ailton Krenak, líder indígena e filósofo, escreveu “Ideias para adiar o fim do mundo”, em 2019. Indo ao encontro de suas ideias é que escrevo esse ensaio e o que se segue. Para pensarmos sobre o mal do século: a depressão, e nas possibilidades de adiarmos o fim, da vida e do eu.

Krenak escreve:

“Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim” (Krenak, 2019, p. 13).

Em outro texto, falei sobre encontrar com o novo. A vida que segue depois da pandemia e busca se reconstruir do jeito que é possível. Mas há muito tempo, existe algo de muito errado com o modo que estamos vivendo.

Os números de pessoas tornando-se pacientes aumentam. A depressão é mesmo o mal do século. Mas o que nos leva a chegar nesse ponto? O que nos leva ao adoecimento, não só psíquico, mas da vida? E por fim, a pergunta que deveríamos ter nos feito antes: como fazemos para adiar o fim do eu?


A relação da depressão com o ter e o ser

depressao

Não há vida plena, ou de conhecimento pleno da vida, penso eu. Mas é o caminho da busca e de todas as possibilidades de ser e estar no mundo, que produz um indivíduo-vivo.

Quando utilizo aqui o termo indivíduo-vivo falo em contraponto aos tantos mortos-vivos que existem no mundo contemporâneo. Somos eu, você, aqueles que não encontram espaço e tempo na vida para vivê-la de fato, para estar próximo e conectar-se com as coisas essenciais e intrínsecas ao ser. Coisas como, caminhar no parque, praticar exercício, ler, criar algo que não esteja relacionado com a produção em massa ou comercial, buscar pelo autoconhecimento…

Acredito que tudo o que nos afasta deste lugar e da criação de vidas potentes, nos guia até a morte. Morte que é sentida ainda quando em vida. Morte de poder-ser, morte de criação, morte da diferença e de possibilidade de viver.

Era sobre isso que Belchior[1] falava, quando cantou “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

É assim que entendo a depressão, como uma morte ainda em vida. Como uma morte de aspectos que nos aproximam de viver a partir de uma outra perspectiva, que não valorizam só o tempo que se gasta trabalhando e se preocupando com as coisas triviais.

O objetivo da vida não deveria ser produzir e trabalhar para conseguir o mínimo, o básico, o sustento. Como não adoecer assim? É compreensível que tanta gente esteja sendo diagnosticada com depressão.

Pesaroso pensar que existem mais espaços que nos fazem morrer, que nos conduzem a depressão, do que aqueles que nos conduzem a vida. O problema é que nossa existência está estruturalmente condicionada a render, fabricar, manufaturar, e tantos outros sinônimos pertencentes ao capitalismo.

Para entender melhor esse assunto complexo, que está totalmente relacionado a um diagnóstico massivo de pessoas em depressão, precisamos compreender que, atualmente, a vida está subordinada ao ter. Ou seja, dispor de bens materiais e aquisições que demonstrem nosso poder de compra, associa-se a uma “boa vida”, uma vida estável e de qualidade.


depressao estilo de vida


Nossa imagem está associada com aquilo que compramos, vestimos, usamos. Parece que quanto mais temos, mais somos. O contrário também acontece. Existe algo atrelado a esse pensamento que nos levar a entender que existem vidas que valem menos, por terem menos. Com isso, nossa vida é organizada entorno de atividades que estão, de algum modo ou outro, vinculados ao dinheiro. E, exatamente por isso, é bem comum sentirmos culpa quando estamos desconectados do trabalho e da rotina de obrigações diárias.

Já falamos sobre nossa urgência em encontrar um sentido para a vida, “fazer a vida dar certo”. Como se algo de muito precioso precisasse acontecer para que nossa existência pudesse enfim ter significado. Vivemos em busca do que vem depois, sempre. Isso não tem nada a ver com termos sonhos materiais e pensamos no futuro, o que obviamente é importante. Mas sim, do nosso imediatismo depressivo que nos distancia da vida que acontece agora, tornando difícil a tarefa de simplesmente relaxar e aproveitar o dia.

Sei que ao dizer isso me distancio do que, usualmente, se considera uma escrita que fala da depressão. Contudo, não consideramos a magnitude da decorrência que os aspectos socioeconômicos produzem na nossa vida. A depressão está totalmente correlacionada a isso.

O modo como vivemos e como encaramos a vida é perpassado por diversas questões sociais, políticas, econômicas. Ou seja, a depressão, assim como, o tratamento da depressão, não pode estar focado e vinculado apenas no indivíduo. Se estamos adoecendo em massa, é um sinal de que precisamos encontrar outros modos de compreender a depressão e assimilá-la.

Então, como adiar o fim do eu, como lidarmos com uma sociedade que produz dia-a-dia mais gente adoecida?

Krenak, nos presenteia mais uma vez com a seguinte fala[2]: “A gente tem que curtir a vida. […] Essa ideia moderna, […] de quando o homem descobriu que ele poderia se distinguir de todos os outros seres e aplicar algum sentido a vida, é esse sentido utilitário que eu ponho em questão”.

Não podemos abandonar nossos empregos, o sistema, as questões materiais. Mas podemos compreender a importância de nos conectarmos a outros aspectos da vida, que hoje são considerados sem utilidade. Sabe aquela conversinha sobre “quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”, isso nos vale aqui.

A depressão está demasiadamente ligada ao sentimento de não enxergar sentido na vida, porque acreditamos que a vida precisa sempre do amanhã, do material, do sentido, do objetivo. Poderia ser mais simples se nos permitíssemos, se nos arriscássemos, se fizéssemos mais coisas pela primeira vez.

Sair do piloto automático é importante. Tão importante quanto é a compreensão de que estamos nos apegando cada vez mais aos aspectos da propriedade material, ao invés de olharmos para nós mesmos, apreciar o que somos e onde estamos.

A depressão é o mal do século, mas nossa sociedade é quem a produz, dia após dia.



Referência: KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


[1]https://www.youtube.com/watch?v=oy5w9mWrzBg

[2]https://www.youtube.com/watch?v=FKtEm1x3IeM

Como modos de vida entram sem culpar o paciente

Sono irregular, isolamento, trabalho precário, luto, violência, doença crônica e falta de perspectiva podem piorar sintomas depressivos. Isso não significa que a pessoa “escolheu” adoecer. Significa que o cuidado precisa olhar para corpo, ambiente, vínculo e tratamento clínico ao mesmo tempo.

SinalPor que muda o cuidado
Perda de interesse por quase tudoPode indicar depressão, não apenas desânimo.
Sono e apetite alteradosAjuda a medir gravidade e resposta ao tratamento.
Culpa, inutilidade ou desesperançaAumenta necessidade de escuta profissional.
Pensamentos de morteÉ sinal de risco e pede ajuda imediata.

O que costuma compor um plano de cuidado

Um plano pode incluir psicoterapia, atividade física possível, rotina de sono, redução de álcool, apoio social, tratamento de doenças associadas e, em alguns casos, antidepressivos. O plano depende de gravidade, duração, episódios anteriores, risco de suicídio, uso de substâncias e preferência do paciente.

Fontes consultadas para esta atualização

  • NIMH: Depression

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Artigos Marcados com as tags: artigos, depressão, psicologia

Vida pós-pandemia e sofrimento psíquico: como lidar

25 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Resposta direta: sofrimento psíquico pós-pandemia pode envolver ansiedade, depressão, luto, irritabilidade, insônia, exaustão e dificuldade de retomar rotina. Nem todo sofrimento vira transtorno, mas sintomas persistentes, prejuízo funcional, abuso de álcool/remédios ou pensamentos de morte exigem cuidado profissional.

Sinal observadoPróximo passo
Tristeza, medo ou irritabilidade que oscilamOrganizar sono, rotina, apoio social e observar duração.
Sintomas por semanas com perda de funçãoBuscar psicólogo, psiquiatra ou serviço de saúde para avaliação.
Ideação suicida, autoagressão ou risco imediatoProcure emergência, SAMU 192, pronto-socorro ou apoio de crise imediatamente.

Também pode ajudar: sintomas da crise de ansiedade, estimulação magnética transcraniana na depressão e antidepressivos e efeitos adversos.

Já é possível observar efeitos psíquicos persistentes da pandemia em muitas pessoas. Ansiedade, depressão, luto, irritabilidade, medo, alterações de sono e dificuldade de retomar projetos podem aparecer de formas diferentes, com intensidade e duração variáveis.

Em 2 de março de 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma revisão indicando aumento global de ansiedade e depressão no primeiro ano da pandemia. Esse dado contextualiza o problema; sofrimento persistente pede avaliação individual.

Mulheres e jovens são os que mais sofrem com questões de origem psíquica, segundo pesquisa da OMS. Os sintomas da nova “epidemia” são desde estresse pós-traumático, irritabilidade, humor depressivo, falta de perspectiva de vida, medo, sono desregulado.

Como sabemos, os sintomas relacionados ao adoecimento psíquico são, na maioria das vezes, sintomas silenciosos e quase imperceptíveis a quem está de fora, visto que são de ordem mental. O que dificulta ainda mais o auxílio a quem sofre com esse tipo de questão é justamente o silêncio.

A depressão, assim como outros transtornos psicológicos, ainda é um tabu social. Mesmo que o acesso a profissionais psiquiatras e psicólogos tenha se difundido nos últimos anos, enquanto especialidade essencial à saúde pública, o estigma atrelado a uma doença que não é física é de difícil assimilação e aceitação.

Com a saúde física e a vida correndo risco iminente de perecimento durante a pandemia, não é de se surpreender que nos deparemos agora com um índice elevado de novos casos de depressão.

Não que antes não existissem números que preocupassem em relação ao adoecimento psíquico em massa, mas o covid-19 nos faz compreender a saúde mental por um outro viés.

Falamos da possibilidade de enfrentar novas pandemias futuras, contudo, vivemos agora um outro tipo de epidemia. Uma que não possui relação com um vírus e que escancara nosso descaso com a saúde mental. A depressão é o mal do século.


Pós-pandemia e aumento de ansiedade e depressão

vida pos pandemia reabilitacao

A pandemia nos colocou em contato com a vida, tal como colocou com a morte. Fomos forçados a pensar sobre o que foi, o que é e o que poderia vir a ser. É da vida que falo, é claro.

Parte desse sofrimento também expõe uma dificuldade antiga: saúde mental costuma ser lembrada apenas quando a rotina já está comprometida. Prevenção, escuta qualificada, vínculo social, sono, atividade física, psicoterapia e cuidado médico podem se complementar conforme o caso.

Cuidar da saúde mental pode envolver psicoterapia, reorganização de rotina, sono, redução de álcool, apoio social, tratamento de doenças associadas e, em alguns casos, medicação. O problema não é usar antidepressivos ou ansiolíticos quando bem indicados; o risco é transformar um sofrimento complexo em uma solução única, sem avaliação, acompanhamento e plano de cuidado.


Adoecimento psíquico e o risco de respostas simplistas

adoecimento psiquico

O que me preocupa quando falamos de epidemia de adoecimento psíquico é o modo como isso será tratado.

Todo diagnóstico é feito a partir da noção de normalidade. Ou seja, é preciso entender o que se considera “normal”, aceitável entre os parâmetros estabelecidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), antes de diagnosticar alguém com transtorno depressivo. Todo caso é um caso. Após esse diagnóstico é que é pensado o tratamento.

Porém, o que devemos considerar é que nosso sistema público de saúde está lotado, cheio de urgências o tempo todo. Por mais que existam muitos profissionais competentes e éticos nesses espaços, precisamos nos atentar aos casos em que angústias comunicadas no consultório médico se tornam prescrição de fluoxetina, por exemplo.  

A medicalização em massa é preocupante ainda porque reafirma a todos nós que o sofrimento psíquico deve ser silenciado e medicado.  

Em uma das aulas do doutorado, tive contato com um escrito que me fez pensar sobre os vários diagnósticos com os quais me deparei. Intitulado “Somos todos enfermos mentales?” (FRANCES, 2014), o livro discute a questão da psiquiatrização do sofrimento, na sociedade atual.

O autor inicia a obra narrando a seguinte situação: “[…] y me vi obligado a tomar partido […] en una batalla perdida por evitar que la normalidad se viese como un problema médico […]” (p. 10). A discussão, da qual fala Frances, deu-se com outros colegas psiquiatras, que assim como ele, auxiliaram na produção da terceira edição do DSM.

A preocupação que assolava o psiquiatra, era a de que as categorizações de transtornos psíquicos evoluíam rapidamente. Com isso, mais e mais pessoas poderiam ser enquadradas nos diferentes transtornos do manual, dadas as características genéricas destas categorias.

Veja, nem todos que possuem queixa de sintomas relacionados a depressão chegam a se consultar com um psicólogo ou um psiquiatra. Em muitos casos, o que acontece é que ao comunicar esses sintomas a um médico clínico geral, já é possível sair da consulta com uma receita medicamentosa.

Ou seja, o que poderia ser uma situação não-patológica relacionada a sintomas de ansiedade, tristeza, estresse, etc., se torna um diagnóstico psiquiátrico e é tratado como tal.

Um levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácias, detectou um aumento de 17% na venda de antidepressivos durante a pandemia no Brasil. Esse número não deve baixar tão cedo…

Não obstante, na contínua busca por remediar o que foge do considerado normal para as estatísticas, a angústia, os hábitos considerados excêntricos, a ansiedade que não é prejudicial, tudo isso pode acabar tornando-se transtorno psíquico se não começarmos uma discussão entorno da saúde mental.

A preocupante realidade é que, com o diagnóstico de novos indivíduos são, conjuntamente, produzidos novos pacientes. Ocasionando, em muitas situações, tratamentos psiquiátricos desnecessários. O que por sua vez pode resultar em uma verdadeira epidemia de transtornos mentais.

O momento pós-pandemia nos mostra que nossos corpos/mentes suplicam por um modo de vida diferente. Contudo, o que vivemos agora não é propriamente uma epidemia de saúde mental, o que há é uma medicalização massiva do sofrimento psíquico.


Referência: FRANCES, Allen. Somos todos enfermos mentales? Manifiesto contra los abusos de la psiquiatria. 1ª. Ed., Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Ariel, 2014.

Como diferenciar sofrimento esperado de alerta

Temas de saúde mental precisam acolher a experiência sem tratar sofrimento como frase pronta. Em sofrimento psíquico pós-pandemia, intensidade, duração, prejuízo na rotina, segurança e qualidade dos vínculos ajudam a diferenciar uma dificuldade comum de um quadro que precisa de cuidado.

O que ajuda antes de decidir por remédio

  • Anote início, duração, intensidade e fatores que melhoram ou pioram.
  • Liste medicamentos, suplementos, alergias e doenças já diagnosticadas.
  • Observe sinais de alerta em vez de decidir apenas por um sintoma isolado.
  • Leve dúvidas objetivas para a consulta e peça orientação sobre retorno ou acompanhamento.

Perguntas para levar à consulta

  1. O que neste quadro é esperado e o que seria sinal de alerta?
  2. Existe exame, acompanhamento ou mudança de hábito que realmente faça diferença?
  3. Quais medicamentos, procedimentos ou suplementos devo evitar no meu caso?
  4. Em quanto tempo devo reavaliar se os sintomas continuarem ou voltarem?

Leia também: Câncer de bexiga: sintomas, prevenção e quando investigar, Histamin dá sono? Entenda o anti-alérgico, Sulfametoxazol-trimetoprima serve para garganta?.

Fontes úteis

Fontes usadas nesta revisão: OMS: pandemia e aumento de ansiedade e depressão; OMS: scientific brief sobre saúde mental e COVID-19.

  • NIMH: cuidar da saúde mental
  • CDC: bem-estar emocional
  • WHO: saúde mental

Arquivado em: Artigos, Psicologia Marcados com as tags: artigos, pandemia, psicologia

Vida pós-pandemia: impactos emocionais e cuidado

20 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Vida pós-pandemia: impactos emocionais e cuidado deve ser acompanhado pelo tempo de evolução, febre, intensidade dos sintomas, hidratação, falta de ar, dor forte, sinais de desidratação e grupos de maior risco. A mudança do quadro ao longo das horas ou dias orienta a urgência.

Pandemia. Termo que não tem nada de novo, principalmente agora, anos depois de ouvirmos tanto a repetição da palavra.

Nos últimos dias do ano de 2019, a Organização Mundial de Saúde[1] (OMS) era comunicada sobre os primeiros casos de um vírus do qual ainda pouco se sabia sobre. Não muito tempo depois, em 11 de março de 2020, a OMS decretava a pandemia do novo coronavírus.

Parece ser futuro de onde escrevo hoje. Pessoas tornaram-se números, compondo 32,8 milhões de infectados, cerca de 673 mil mortes no Brasil. No mundo, o total de sujeitos com covid-19 chega a mais de 550 milhões. Dentre eles, amigos, pais, irmãos, mães, tios, sobrinhas, avôs e avós… Não há quem não foi afetado pela pandemia, seja pela perda ou seja pelos efeitos posteriores que deixou em nossas vidas.

Depois de quase dois anos trancafiados em casa, a percepção da vida e do modo como vivemos parece abalada. Não concordo com quem nomeia o momento atual de “novo normal”, ao mesmo tempo em que nada parece igual ao que já foi.

Mesmo quando a rotina volta a operar nos conformes do dito horário comercial, quando a vida volta acontecer presencialmente, um desconforto misturado de desajuste social ganha expressão maior no encontro com a vida e com os outros.

O tempo não parece mais o mesmo de antes.

Falamos muito sobre as dificuldades de voltar, sem nem sabermos ao certo para o que estamos voltando e se é possível voltar, seja voltar para algo, para algum lugar ou para alguém…

O início: relembrando os primeiros tempos da pandemia

Você lembra o curso que sua vida seguia antes da pandemia? O que fazia, como organizava o dia e a noite, com quem saía? Lembra como era pegar o ônibus, ir ao bar, fazer compras no mercado?

Noto que são nas coisas mais banais e cotidianas que a vida parece ter se transformado.

Ainda me sinto confusa com a retomada integral das presencialidades. Com aquela coisa de não saber se continuamos os cumprimentos com precaução, se é possível abraçar ou não. Existe até um sentimento de culpa atrelado a estar no meio de muita gente, quando acontece.

Mas é na organização do tempo que a vida parece ter mudado mais.

Você já parou para pensar sobre como organizamos nosso dia-a-dia de acordo com o horário do comércio? O horário de acordar, almoçar, jantar. Até o horário de lazer fica restrito, por vezes, ao horário comercial – ou o pós, no caso de quem trabalha até às 18h, de segunda a sexta-feira.

A organização da vida em torno do horário de trabalho é uma coisa tão comum para nós brasileiros, que quando nos deparamos com a pandemia, e a necessidade de nos recolhermos, o movimento de viver fora desse padrão se tornou tarefa complicada.

E viver fora de um modelo de vida totalmente organizado, de acordo com um sistema, pode ser muito mais complexo do que parece.

Nos primeiros dias em casa, não era o fato de não poder sair dela que mais afligia – além, é claro, do medo iminente de ser e ter familiares contagiados com o vírus –, mas de como ordenar a vida, e continuá-la, no meio do caos que se instaurava.

Já falamos aqui sobre o vazio existencial, fenômeno pelo qual nossa existência é perpassada e que é iminente ao estado de estar vivo. Contudo, a pandemia agregou sentidos novos a esse acontecimento.

Foram vários os momentos em que me vi em meio a uma crise. Assim como, ouvi, vi e falei muito sobre o assunto com colegas e familiares que viviam o mesmo dilema.

Ver, ouvir, falar, ler e saber sobre quem morria e o quanto morriam pareceu nos colocar em posição de reflexão interna obrigatória. Aquele encontro inadiável com as coisas que vivem apenas na cabeça e que já não podiam mais.

Não podiam mais porque já não vivíamos uma vida em que se podia adiar.

Parece ser só de encontro a morte que a vida ganha expressão, valoração… E os números de vidas morrendo não paravam de aumentar. Ainda não pararam.

A hora era chegada. E dos encontros que não podemos adiar, parece ter sido o que remete a nós mesmos o que por mais tempo se postergou.

As velhas questões, que só tinham vez na agenda dos filósofos de plantão, emergem e nos fazem sentar frente a frente com nosso mundo interno. Voltamos a perguntar, a refletir, a encontrar espaço na vida para a vida em si.

Se é que é possível dizer que voltamos.

Parece ser singular o momento em que vivemos, justamente porque fazemos dele espaço para pensar no que foi antes, no que é agora e nas possibilidades do que será. É da vida que falo, sim. Pois, mesmo hoje, ainda há quem morre pelo vírus. Ainda há quem se recupera, de perdas físicas e materiais.

Mesmo quando parecemos estar seguros – depois de finalmente imunizados –, ainda há quem sofre com os impactos que o vírus espalhou. São inúmeras decorrências e efeitos que perduram em todos nós… O motivo disso sabe qual é?

É que não há como voltar. Não há para o quê voltar. Não depois de ter encontrado com nossas angústias, de termos nos percebido, finalmente. É preciso assimilar o que passou e seguir, mesmo sem saber dos motivos e dos porquês.

Tudo o que nos rodeia, nosso sistema político e econômico, o horário da vida que deve ser submetido ao comércio, tudo, absolutamente tudo parece urgente. Menos nossa existência em sua singularidade.

Em nossas vidas, no plural, não parece haver espaço para reflexões, para questões, para encontros com nós mesmos.

Vivemos de acordo, e com acordos, que foram deliberados antes de nossa chegada aqui. Exatamente por isso foi difícil estarmos sós. Ter tempo para pensar, sobre o que não é mais possível permitir que façam com a gente, é movimento que coloca em risco esses acordos. Acordos sociais que não privilegiam e não respeitam a vida única de cada indivíduo e que, portanto, nos adoecem.

Ao mesmo tempo, o novo normal nos conduz a um reencontro com uma vida de outrora. Somos passageiros de ônibus, frequentadores de barzinho, é permitido novamente aglomerar. E nós sempre fomos de aglomero. Mas não é possível voltar. Uma segunda epidemia vem aí, essa, por sua vez, de adoecimento psíquico!

Continua…


[1]https://www.paho.org/pt/covid19/historico-da-pandemia-covid-19

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

vida pos pandemia covid
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Como acompanhar a evolução

Em Vida pós-pandemia: impactos emocionais e cuidado, a evolução costuma ser tão importante quanto o sintoma inicial. Febre persistente, piora rápida, falta de ar, sonolência incomum, desidratação, dor intensa, manchas na pele ou queda do estado geral mudam a margem de espera.

MarcadorO que observar
Tempo de febreAjuda a diferenciar quadro autolimitado de infecção que precisa avaliação.
Respiração e hidrataçãoFalta de ar e pouca urina reduzem segurança de observar em casa.
Dor localizadaPode apontar foco específico de infecção ou complicação.
Grupo de riscoCrianças pequenas, gestantes, idosos e imunossuprimidos exigem menor espera.

Não use antibiótico antigo ou de outra pessoa para tentar encurtar sintomas. Antibiótico errado pode atrasar diagnóstico, causar efeitos adversos e dificultar tratamento futuro.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: psicologia, saúde mental

Opostos se atraem? Psicologia e relacionamento

20 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Opostos se atraem? Psicologia e relacionamento merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Texto escrito em colaboração com a Psicóloga Gabriela Costacurta (CRP 12/20823)

Constantemente escutam-se histórias sobre como os opostos se atraem. A extrovertida que desperta desejo pelo introvertido que não gosta de sair de casa. O homem nada romântico que se apaixona pela mulher que escreve cartas… Casais com estilo musical e hobbys totalmente diferentes.

Esses clichês são contados nos filmes, nos livros, na música, e na vida real, isso vez ou outra acontece. O que demonstra que, de fato, essa atração pode existir, mas em tempos de extrema polarização política, social e cultural, será possível manter uma relação com alguém de personalidade e crenças tão opostas?

Compreende-se, a partir da psicanálise, que uma série de aspectos inconscientes incidem na escolha de um par romântico, mas estes ficam no campo do não-sabido. Em seu Instagram, a psicanalista Ana Suy, diz que mesmo quando se é amado, ama-se sozinho, pois este é um sentimento que se dá pela fantasia.

Ainda, parafraseando Suy, “Quando se trata de amor não há adultos. Quem ama é sempre o infantil que nos habita”. A autora complementa dizendo que, mesmo que o amor nos infantilize, é esse amor infantil que nos permite a inclinação perante a quem desejamos. Só a partir desse lugar é que conseguimos suspender muitos de nossos mecanismos de defesa e se entregar a um outro, reconhecendo por vezes aquilo que nos falta.

Ao mesmo tempo, nesse jogo complexo com o outro-desejado, existe algo de muito narcísico acontecendo. Nossa subjetividade se constrói a partir das relações e paixões. E aquele por quem despertamos interesse, é percebido como uma imagem semelhante de nós mesmos.

Para a médica Izabel Rios[1] (2008), “inconscientemente, vejo no outro o que eu sou, o que eu fui, o que eu gostaria de ser ou o que eu gostaria de possuir. Quem nunca encontrou, alguma vez na vida, aquela pessoa perfeita que faz o coração pular de alegria?”

Ou seja…

Não se ama o outro pelo que ele é, mas pelo que é idealizado do objeto amado e, desta forma, ignoram-se suas faltas e falhas. Isso não demora a ser percebido, porém, é preciso ir além do estado de apaixonamento para nos darmos conta da totalidade do outro.

Desse modo, sim, podemos dizer que os opostos se atraem, visto que no campo do desejo são características físicas e da superfície da personalidade que nos chama a atenção no outro.

Até porque, precisa-se considerar que atração e relação (aqui, nos referimos a relacionamento amoroso)são coisas diferentes.


Os opostos se atraem, mas se relacionam?

Tomando como base a frase “os opostos se atraem”, é possível pensar que o outro poderia preencher aquilo que falta em si mesmo. Desta forma, a escolha seria feita visando uma complementaridade: busca-se no outro aquilo que se almeja ter, tornando-se uma unidade. Essa visão torna-se bastante limitada, ao restringir a escolha às características pessoais.

Caetano Veloso canta em “O Quereres”:

“Eu queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão

Encontrar a mais justa adequação

Tudo métrica e rima e nunca dor

Mas a vida é real e é de viés

E vê só que cilada o amor me armou

Eu te quero e não queres como sou

Não te quero e não queres como és”


De certa maneira, a falta inscrita no psiquismo é preenchida com aquilo que há no outro, causando certa sensação de completude – sensação efêmera diante da imensidão dos nossos sentimentos e inseguranças. Diante da realidade, há uma quebra na fantasia. Ainda, segundo Ana Suy, “o amor não preenche os nossos vazios, mas dá contorno a eles”.

Então, o amor parte da atração, mas opera como uma construção. É preciso que cada um saiba sobre si, sobre seus limites e prioridades, compreendendo até onde se consegue sustentar estas diferenças.

Contudo, existem coisas que só se manifestam após um período de relacionamento. E se saber de si já demanda muito tempo, conhecer o outro naquilo que ele é, de fato, exige mais tempo ainda. Existe uma duração – que poucas sensações vividas, além do apaixonamento, conseguem nos fazer experimentar – da idealização do outro. Deste modo, não há como apressar as coisas.

A experiência do amor, do desejo e da atração demandam tempo e autoconhecimento. Somente no cotidiano da relação, que aquilo que construímos a nossa semelhança, e que na realidade, não corresponde à persona do amado, é que iremos assimilar o que restou do outro, por si só – depois de desagregar o que há de nós na imagem do amante, ou o que acreditamos nos faltar.

Sobretudo, amar e se relacionar exigem tempo e compreensão. Compreensão do que se é e do que se deseja. Compreensão daquilo que é o outro, e do quanto se pode prosseguir em relação quando se cinde com o outro-inventado e se descobre quem é o parceiro real.

É bonito, de um modo romântico e mágico, pensar que dois opostos se atraem. Apesar disso, a atração, que faz dois se juntarem, não nos parece algo passível de construção de uma relação saudável, principalmente quando esses dois são opostos na totalidade do eu, que habita em cada um.

O tempo é rei. E é justamente ele que nos mostrará isso. Atravessando dias e semanas experimentando o oposto. Refletindo sobre os planos que não fluem entre o casal, o posicionamento político divergente, quando um almeja ter filhos e o outro não. É nesse espaço, do tempo, que conseguimos nos afastar da idealização, e nos aproximarmos da materialidade relacional. Percebendo o que pode aquela relação, até onde é possível caminhar com o outro, mesmo enquanto um oposto.

O amor exige espaço para que as individualidades sejam manifestadas. Exige espaço e tempo, para que seja possível desprender-se de um amor narcísico e então entender o que fica, o que sobra, quando a atração vai se desmantelando e tornando-se outra coisa.

Talvez seja possível dizer, então, que não são os opostos que se atraem, mas sim, os dispostos. E principalmente, que os opostos podem até se compelirem, porém, a transformação dessa experiência em um relacionamento já é outra história…



[1]Leia mais em: https://www.scielo.br/j/icse/a/kYk5fRB4XmhKkHXLjSsj46w/?lang=pt

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

opostos se atraem
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Opostos se atraem? Psicologia e relacionamento, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: artigos, psicologia, relacionamento

Espaço individual na relação: por que importa

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Espaço individual na relação: por que importa merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Se chegamos ao ponto, em que se faz necessário, dizer da importância de respeitar o espaço de cada um dentro de um relacionamento, isso significa que, o modo como concebemos a ideia de relação, não pressupõe que um casal possa viver uma vida individual.

Tratamos já aqui, em outro texto, sobre a necessidade de cultivar uma vida própria, que não depende do parceiro ou parceira com os quais dividimos a vida.

Dividir a vida, inclusive, é frase que faz pensar. Pois dividir, é palavra que reflete a cisão entre a vida individual e a vida compartilhada com o outro.

Você percebe que o termo dividir a vida, suscita em nós a noção de que, em uma relação, é inevitável que mantenhamos nossa vida individual inteira? Uma vida sem corte, sem fração, sem dividir. Parece até egoísta escrever isso. Contudo, é mais egoísta e danoso, pressupor que é preciso dividir-se para compor com o outro.

E não é exatamente o que fazemos quando encontramos um par?

Penso em minhas próprias experiencias de dividir a vida, e também, nas outras equações que acompanhei de perto.

Em nossa sociedade, fomos introduzidos a um tipo de relação, que implementou em nossa subjetividade, a concepção de que para sermos adultos temos que conquistar determinadas coisas.

Não existe apenas a pressão de que sejamos bem-sucedidos profissionalmente. Isso também acontece no aspecto amoroso. Existem cobranças chegando de todos os lados. “Quando você vai ter filhos?”, “está na idade de casar”. Familiares, amigos, propaganda televisiva, música… Tudo isso nos coloca em situação de atenção: precisamos encontrar alguém.

Mas, será que precisamos mesmo?

Sem nem ao menos pensar sobre, vamos, pouco a pouco, sendo conduzidos a uma vida que procura dividir. O problema disso é que, na preocupação de encontrar e dividir a vida com alguém, esquecemos de somar com quem mais importa: o Eu.

Da importância de respeitar seu próprio espaço

Quando penso na ideia de espaço, sou remetida a ideia de algo vazio. como se fosse algo esvaziado de sentido. E nós não aprendemos a lidar com o vazio. Isso diz muito sobre mim, sobre você e sobre os outros.

Minha avó paterna, há anos atrás, me presentou com a roupa que vestiu em seu casamento. Nunca disse a ela sobre meu desejo de casar na igreja, até porque nunca o tive. Ainda assim, ela acreditou que aquele seria um bom presente. E foi.

Percebi que, quando mulheres, da idade dela, vestiam-se de branco e iam para a igreja fazer votos de amor, esse era um dos momentos mais importantes de suas vidas. O momento que marcava e instituía legalmente e religiosamente a divisão da vida.

Você já viu aquele topo de bolo de casamento, em que a noiva puxa o noivo pela gravata? Essa é uma bela representação para nos fazer pensar sobre a vida que se divide. A figura faz alusão a ideia de que o homem só casa porque é coagido pela mulher.

Escrevo isso porque, claramente, existe uma cobrança e um peso diferente, entre homens e mulheres, quando se trata de relacionamento. Se o homem, no topo do bolo do seu casamento, insinua querer fugir, a mulher é representada como quem faz do casamento a grande ocupação de sua vida.

E isso não é problema, desde que seja uma escolha consciente da própria mulher. Dificilmente é.

Complexa a tarefa de escrever sobre o espaço que é preciso dar ao outro em uma relação, quando, precedente à comunhão, o homem teve seu espaço respeitado enquanto indivíduo.

Enquanto que nós, mulheres, temos que ouvir aquela tia chata nos dizendo que ficaremos sozinhas se não encontrarmos alguém logo para dividir. Como se nossa vida só fosse ganhar sentido quando isso ocorrer.

Muito mais importante do que aprender a dividir, é aprender a respeitar nosso próprio espaço. Respeitar o espaço de nossa vida. Confundimos monogamia com impossibilidade de existência individual e assim, construímos relações nas quais apagamos a nós mesmos, para ser com o outro.

***

Quanto a obviedade do assunto, tenho apreço por um dizer de Fernando Pessoa:

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

E o quanto de nós nascemos. Conduzidos a ser com o outro, antes de aprendermos a ser só com a gente.

O amor é o que todos nós buscamos. Do jeito que for e com quem for. Homem com homem. Mulher com mulher. Mulheres e homens. Dentro de relações monogâmicas ou não. Todos queremos ser amados e todos queremos compartilhar a vida com alguém.

Contudo, isso nunca deveria ser acompanhado do entendimento de que estar em um relacionamento, pressupõe abandonar quem somos sozinhos.

Já vi muita gente, mudando muita coisa, para se adaptar no gosto do outro. Gente querendo caber em lugar que não faz bem, só para caber com alguém. Já vi gente que aguentou calado os abusos psicológicos que sofria, só para não precisar estar sozinho. Relações e pessoas fadadas a deterioração.

Tudo isso porque, essas pessoas não aprenderam sobre a importância de respeitarem seu próprio espaço. Essas pessoas somos nós, que não fomos ensinados sobre cultivar uma vida individual, independente de com quem formos compor depois.

Coisas simples como, descobrir o que faz feliz, o que gosta de ouvir, comer, o que acalma. Fazer e manter relações de amizade. Sair e se divertir apenas com os amigos. Sair e se divertir apenas consigo mesmo.

São coisas como essas que produzem individualidade, autoconhecimento e que não permitem que acabamos junto dos relacionamentos que acabam. Pois ainda temos a nós, os nossos gostos, as coisas e as pessoas que vieram antes do outro.

Dizendo mais ainda sobre o óbvio… Se, quando a pessoa com quem você compartilha a vida, quer aproveitar a vida dela própria sozinha, e isso te causa angustia ou incômodo, é porque você não entendeu ainda a importância de sua própria individualidade.

Priorizar a si, não deixar a vida que se tinha para trás só porque agora divide-se a vida com alguém, fazer coisas que independem dos nossos parceiros, não nos torna egoístas. Não significa que se ame menos. É apenas o sinal de estabilidade psicológica dentro de uma relação de dois.

Dois que não se dividem, mas se somam. Então, que possamos parar de dividir a vida. Que relacionamentos possam ser composição de vidas, nunca a cisão da vida individual que se tem.

Por fim, deixo o trecho de Holy, música de Jamila Woods[1] que nos ensina:

“Eu não estou sozinho,

Eu sou sozinho.

E eu sou sagrado.

Os dias ruins podem vir

O amante pode partir

[…]

Você é seu templo

Você é tudo o que tem”


[1] https://www.youtube.com/watch?v=t3MhH2WekcY

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

amor romantico
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Espaço individual na relação: por que importa, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: psicologia

Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

mentira pode aparecer como defesa, evitação, manipulação, medo de conflito ou tentativa de preservar imagem. O impacto real depende de frequência, dano, intenção, reparação e contexto. Quando vira padrão, afeta confiança, vínculo e saúde emocional.

As pessoas mentem por motivos diferentes: medo, vergonha, proteção, vantagem, hábito, conflito ou tentativa de pertencer. Entender a mentira exige olhar consequência, intenção e repetição, porque uma mentira ocasional não tem o mesmo peso de um padrão que prejudica relações.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Para o autor, a mentira lírica seria uma espécie de permissão, que dá a si próprio, ao contar uma história inofensiva, que tem como intuito tornar mais interessante a crônica contada.

Mas nem só de permissão poética vive a mentira. E isso a gente bem sabe.

Tanto quanto já fomos enganados por pessoas que mentem, também fomos nós, em algum momento da vida, os mentirosos. A mentira é uma daquelas coisas que fazem parte da vida humana. Tive certeza disso quando comecei a escrever esse texto.

Como de costume, antes de iniciar o processo de escrita, fiz uma daquelas buscas despretensiosas no Google. Na barra de pesquisa, digitei a palavra mentira. E eis que, para minha surpresa, o resultado da busca foi esse:

WhatsApp Image 2022 06 16 at 10.24.58

Perceba que, algumas das palavras semelhantes a mentira são: conto, conversa, história. O que demonstra que a mentira está, de algum modo, correlacionada com o ato de falar/contar alguma coisa.

Na maior parte dos outros textos que li – textos de profissionais da área de psicologia – a mentira é abordada como algo preocupante. O que é coerente, visto que a mentira, em alguns casos, pode ser patológica.

Considerando essas buscas, compreendi que a mentira aparece nas produções literárias, culturais e científicas de dois modos. Podendo ser classificada como banalidade, ou um sinal para termos cautela.

Assim, ponderando os dois lados da moeda, seguimos com o texto.

Quando a mentira machuca

Uma célebre e conhecida frase de Nietzsche, diz: “Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”.

E quando a mentira machuca? O que está contido na história ou fala de alguém que pode fazer doer em nós? Já parou para pensar que talvez não seja apenas o conteúdo da mentira que nos incomoda?

Acredito que o que faz doer, quando alguém nos mente, não é a mentira em si, mas a confiança que temos no outro, que é então quebrada pelo ato da mentira. Nossas relações interpessoais são constituídas de acordos. Tratos que fizemos e estabelecemos, mesmo quando silenciosos, para saber até onde se pode ir com determinada pessoa.

Os casamentos e namoros, por exemplo, são, antes de tudo, acordos. Em um casamento, comumente, existe uma espécie de deliberação sobre a monogamia. Na saúde e na doença, promete-se amor quando os votos são feitos. Nada é dito sobre a mentira, mas não porque não importe e sim porque é entendida através de outra ótica dentro das relações. Faz parte dos acordos silenciosos.

A mentira, quando cometida por alguém com quem mantemos um vínculo relacional, é então sentida como a cisão de um acordo. E é por isso que ela machuca. Ela pode até ser sentida fisicamente, como aquele embrulho no estômago que chega junto de palavras que sabemos conterem inverdades.

É ainda por seu oposto que a mentira machuca. Uma INverdade, a omissão da veracidade. Dói, inclusive, por cogitarmos acreditar, mesmo quando temos a certeza de que o que está sendo contado não é fidedigno a realidade.

Sobretudo, a mentira é sentida como traição. Traição de pacto, de acordo, de confiança. Por isso, a mentira não refere-se apenas ao momento no qual ela acontece. Ela reverbera na relação, chegando a nós como uma dúvida que se instala na psique.

Poucas coisas podem produzir um desassossego tão grande em nosso pensamento quanto a dúvida sobre o outro. O não saber, se ainda é possível ou válido confiar em quem nos mentiu, pois a confiança, que é base em qualquer relacionamento, encontra-se abalada.  

É com isso que a mentira opera. Não só com a dissimulação contida nas palavras que se profere, mas também com sentimentos e pensamentos. Existe mentira que conduz quem foi enganado a duvidar de si mesmo (já vimos isso antes aqui). Existe mentira que produz uma insegurança tão grande, que torna difícil não só a tarefa de confiar em quem mentiu, mas de confiar em outras pessoas e até mesmo em relações futuras.

Existe ainda a mentira que é mais grave do que os casos citados. A mentira que se utiliza em vista de manipulação e na prática de crimes, assim como, o estelionatário.

Isso nos mostra que a mentira é multifacetada, pode ser complexa ou comum, criminosa ou cotidiana. Mas é impossível viver em sociedade sem contar mentira.

As mentiras que contamos

Se existe a mentira que machuca, do outro lado, existe a mentira que contamos como forma de manter o convívio social. Aquele tipo de inverdade que é proferida pela relação que se estabelece com a pergunta, sabe?!

Nesses casos, opta-se, conscientemente, pela mentira, porque a opinião verdadeira acabaria sendo mais rude do que a própria realidade.

William Blake, famoso poeta e pintor, escreve que: “Uma verdade que é dita com má intenção derrota todas as mentiras que possamos inventar”. E o pensador Sófocles, complementa: “Não é bom dizer mentiras; mas quando a verdade puder trazer uma terrível ruína, então dizer o que não é bom também é perdoável”.

Esse para mim é o ponto nevrálgico da questão. Existem situações cotidianas, nas quais, uma verdade, quando proferida apenas pelo pacto social e moral, acaba produzindo um sentimento de desconforto muito maior a quem é submetido a tal opinião.

Sabe aquela pergunta que fazemos ao outro, intuindo que a resposta seja exatamente a que desejamos? Um exemplo clássico é quando somos convidados a opinar sobre uma roupa, corte de cabelo, uma refeição. A pergunta que é direcionada a nós é tendenciosa. Não é uma pergunta que busca pela verdade. O que se deseja é uma resposta polida, gentil.

Reflita. O quanto você deseja a verdade quando faz determinada pergunta?

Conheço muitas pessoas que tem um acordo severo com a verdade. E que, diferente do que acreditam, não são consideradas pessoas extremamente confiáveis ou verdadeiras. Uma fala permeada de opiniões grosseiras e de posicionamento pouco empático, ancorado no discurso de que está sendo sincero, pode piorar, e muito, a situação.

Assim como há mentira que machuca, há verdade que machuca também.

Reafirmo, para convivermos socialmente, às vezes, é necessário omitir a verdade. Isso não nos torna mentirosos, só seres humanos coexistindo, em sociedade, com suas diferenças.


[1]Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=R1IUt-CAgSw&t=19s

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

porque as pessoas mentem
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Fontes úteis

  • NIMH: cuidar da saúde mental
  • CDC: bem-estar emocional
  • WHO: saúde mental

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: artigos, psicologia

Pessoas negativas: como conviver com elas?

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Quando penso sobre a temática do texto – pessoas negativas; negatividade; pessimismo – sou remetida a um filme que assisti já há algum tempo. Her (2014), de Spike Jonze. Na obra cinematográfica acompanhamos Theodore, em busca de um par romântico.

Como conviver com pessoas negativas sem se desgastar tanto

Chamar alguém de “negativo” pode misturar muitas coisas: crítica constante, pessimismo, agressividade, sofrimento emocional, controle ou simples diferença de estilo. Em vez de tentar diagnosticar a pessoa, costuma ser mais útil observar comportamentos concretos, impacto na sua rotina e quais limites precisam ser comunicados.

Do incômodo ao limite

SituaçãoResposta mais útil
Reclamações repetidasReduza tempo de exposição e direcione a conversa para ações possíveis.
Críticas pessoaisNomeie o limite: “posso conversar, mas não aceito insultos”.
Manipulação ou culpaEvite justificar tudo; repita o limite com clareza.
Ambiente de trabalhoRegistre situações objetivas e busque mediação quando necessário.
Medo ou ameaçaPriorize segurança e procure apoio de pessoas ou serviços confiáveis.

Perguntas antes de decidir o que fazer

  • O comportamento é pontual ou virou padrão?
  • Depois do contato, você se sente culpado, com medo ou exausto com frequência?
  • Você já comunicou um limite simples e observou a reação?
  • Existe risco de violência, perseguição ou controle? Se sim, não lide sozinho.

Her, não se trata, propriamente, de uma trama sobre pessoas negativas. Contudo, a partir da saga do personagem principal, pode-se perceber a exacerbação do sentimento de melancolia, com a qual Theodore encara o ato de conhecer pessoas novas.

Desesperançoso – após ter vivido o fim de uma longa relação – com os últimos encontros que teve, ele então se permite experimentar uma nova categoria relacional, envolvendo-se com uma máquina.

Ou melhor, com um programa de inteligência artificial, instalado em seu computador. O programa é totalmente personalizado, conforme as demandas e exigências de cada usuário. O filme se desenrola a partir desse enredo. Não há como surpreender-se quando Theodore, se apaixona pela voz com quem conversa através da tela. Afinal, ele se apaixona por “alguém” feito especialmente para ele.

Nessa cena, em diálogo com sua amiga, Theodore, demonstra a empolgação com o novo amor que vive:

WhatsApp Image 2022 06 14 at 20.04.11
Cena do filme Her

E complementa, dizendo: “- Tinha esquecido que isso existia”. Retratando o que foram seus últimos relacionamentos, e representando os vários desafetos que nós mesmos, de fora da tela, já vivemos, não é mesmo?!

Entretanto, os momentos de desesperança e melancolia vividos pelo personagem, só cessam quando encontra um par perfeito para compartilhar os dias.

Pessoas negativas: A “pessoa negativa” pode ser você

“É bom estar com alguém que se encanta com o mundo”, diz Theodore. O quanto isso nos fala… Percebem? Ao mesmo passo em que essa frase nos fala do outro, fala de um eu e do que ele espera. O objetivo do texto em questão: escrever sobre como lidar com pessoas negativas. Ok. Mas, e quando a pessoa negativa é você?! Queria propor então um novo olhar para essa temática.

Somos acostumados a entregar a incumbência de nossa felicidade ao outro. Ele deve nos fazer feliz, alimentar nosso ego, aumentar nossa autoestima. É para isso que serve uma relação, certo?! Na verdade, não!

O caminho mais fácil é esse, o de apontar o erro do outro. Deixando de perceber o quanto nós temos responsabilidade sobre nossa própria vida, e sobre o que permitimos que o outro faça conosco.

Tarefa complexa a de ser otimista e positivo. Principalmente porque, a certa altura da vida existe uma espécie de desacreditamento que toma conta da gente. Depois de tantos encontros que foram ruins, experiencias relacionais que deixaram marcas, a vida que simplesmente parece não colaborar, seja na instância amorosa, familiar ou profissional.

Ser adulto implica em vez ou outra, dar-se conta de que nem tudo vai ser como imaginamos (já falamos disso aqui). A probabilidade de você estar vivendo uma vida que não idealizou é grande. Falo da minha própria ao escrever essa última frase. E isso não quer dizer que sejamos negativos em pensamento. A questão é o que fazemos com isso.

Sem aquela conversinha de coach, que induz a uma positividade exacerbada, ou frases impactantes, tal como “você é negativo e por isso sua vida dá errado, mude o jogo”. Eu nunca entendi qual é o jogo que é preciso mudar.

Veja, o que quero dizer com isso é que, a vida e o modo como vivemos ela – falo aqui da vida humana, como um todo – pode nos prostrar vez ou outra, esgotando nossas fontes de contentamento e prazer. É para isso que precisamos nos atentar.

Entenda que tem coisas que não são passíveis de mudança. Mas muitas outras sim. A maneira como você encara um desafeto, um dia horrível no trabalho, a confusão de casa, uma discussão com um amigo querido… Todas essas coisas são intrínsecas a vida. E eu não vou fazer parte do clube que pede a você para encarar isso com bom humor e positividade.

Sugiro outra coisa.

Sugiro que, quando isso acontecer, você fique por um momento sozinho. Mas, sozinho consigo mesmo. Parando por um momento para assimilar e compreender de onde surge o sentimento de frustração, negatividade e toda aquela carga que vem junto quando algo dá errado.

Costumeiramente, temos pensamentos que se conectam a um acontecimento ruim. E tem coisa que é impossível sentir de maneira diferente. Contudo, não é só contraproducente manter-se em estado de negatividade e mal humor, como também, nos leva a um processo de autossabotagem.

 Se não é possível sentir de maneira diferente, inventemos então um jeito novo para contornar a situação.

Jacob Levy Moreno, psicólogo e criador da abordagem psicoterapêutica do Psicodrama, nos dá pistas de como fazer isso. Para ele, a espontaneidade e a criação são ferramentas essenciais do cotidiano, com as quais podemos operar no mundo em busca de uma vida mais ativa e saudável psiquicamente.

Moreno (1974, p. 76)[1], escreve que a espontaneidade “[…] é o que impele o indivíduo para uma resposta adequada a uma nova situação, ou uma nova resposta a uma situação antiga. Assim a criatividade está relacionada ao ato em si, e a espontaneidade ao aquecimento, a uma prontidão para agir”.

Ainda, para o mesmo autor[2] (MORENO, 1987, p. 42), uma “conduta desordenada e emocionalismo resultantes de comportamento impulsivo, afastam-se do trabalho de espontaneidade pretendido”.

Ou seja, situações que nos fazem encarar a vida com pessimismo e que acabam por resultar em comportamentos de autossabotagem, são sim corriqueiros. É preciso encarar tais situações de um outro ângulo, uma outra perspectiva. Utilizar de nosso conhecimento, sobre as coisas, sobre a vida, e sobre as coisas da vida, para responder, de um jeito novo, às circunstâncias que são intrínsecas a nossa existência.

Vamos viver muitos dias ruins. Vamos, ainda, acordar com mal humor e nos intoxicarmos com nossa própria negatividade. Daí a necessidade do autoconhecimento. É a partir dele que se faz possível modificar e transformar nossa própria vida e o cotidiano. Permanecer nos mesmos erros e perpetuar o momento reflexivo de autoflagelo só nos deixa ainda mais imersos no pessimismo.

Nem sempre o inferno são os outros. Ninguém é maquinaria dotada de artificialidades suficientes para viver a vida de bom humor. Caso contrário, relacionar-se com inteligência artificial seria mais acessível, já que habitam um espaço-tempo no qual, de fato, seria possível viver apenas de contentamento e positividade.  

Às vezes, o inferno somos nós. insistindo em alimentar pensamentos e posicionamentos negativos, em situações que se resolveriam mais facilmente a partir de outra abordagem.

Fontes úteis

  • MedlinePlus: mental health
  • SAMHSA: encontrar ajuda

[1]Moreno, J. L. (1974). The creativity theory of personality: spontaneity, creativity, and human potentialities. In I. A. Greenberg (Ed.), Psychodrama theory and therapy (pp.73–84). Nova Iorque: Behavioral publications

[2]Moreno, J. L. (1987). The essential Moreno: Writings on psychodrama, group method, and spontaneity. In J. Fox (Ed.). R

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: psicologia

Vazio existencial: o que pode significar e quando buscar ajuda

14 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

O vazio existencial, que habita nosso peito, que angustia nossa cabeça, que perpassa cada pedaço que compõe nossa vida na terra, é tema dos mais complexos. Depois de algum tempo na análise, da formação e dos anos de estudo em Psicologia, ainda me intriga. Vez ou outra me sinto carregando a sensação de vazio…

Mapa clínico: vazio existencial pode ser fase, luto, depressão ou sinal de sobrecarga

Em resumo: sentir vazio não significa automaticamente depressão, mas merece atenção quando vem com perda de prazer, desesperança, isolamento, culpa, alteração de sono, apetite, uso de álcool ou pensamento de morte. A pergunta central é duração, intensidade, prejuízo e segurança.

Diagrama sobre vazio existencial com fase de transição, luto, esgotamento e depressão possível.
A mesma sensação pode ter causas diferentes e tratamentos diferentes.
Fluxo visual de sinais de alerta no vazio existencial com ideia de morte, isolamento extremo e perda de funcionamento.
Quando há risco, a prioridade é apoio imediato.
PadrãoO que observarAjuda possível
Vazio após mudança ou perdaPode estar ligado a adaptação ou luto.Rotina, apoio e tempo com acompanhamento.
Vazio com anedoniaPode sugerir depressão.Avaliação de saúde mental.
Vazio com riscoPensamento de morte exige prioridade.Contato imediato com serviço de crise.
  • Observe há quanto tempo dura, se há perda de prazer, culpa, desesperança, alteração de sono ou apetite.
  • Não fique sozinho se houver risco de se machucar; procure alguém de confiança ou serviço de urgência.
  • Psicoterapia e, em alguns casos, avaliação psiquiátrica ajudam a transformar a sensação vaga em plano de cuidado.

Nota de segurança: pensamentos de suicídio ou autoagressão são emergência de saúde mental e justificam ajuda imediata.

Para continuar no tema: Psicologia | Depressão | Depressão e sofrimento | Controle emocional

Sabe aquele sentimento, que chega aos poucos e que invade o espaço do pensamento? De repente tudo parece estar longe. Como um teletransporte, sinto ser levada para um lugar interior, que ainda pouco conheço. Nesses momentos, inclusive, me questiono sobre o quão pouco me conheço. Sobre o quão pouco conhecemos o mundo, as pessoas e as coisas ao nosso entorno.

Demora-se o tempo de uma vida para saber sobre a nossa própria. Passamos anos, comemoramos todos os aniversários, aprendemos sobre a dor, e algumas perguntas permanecem… Caminhando para um lugar contínuo de incerteza. Quantas vezes você já se questionou:

Quem eu sou?

Pra onde eu vou?

O que acontece depois que a gente morre?

O que vem depois?

São perguntas que nunca se satisfazem com as reflexões nas quais chegamos. Estão sempre ali, martelando nosso pensamento. Buscando de todo modo desaparecerem, em tom de certeza, em uma resposta.

Isso parece ter tomado uma proporção ainda maior na nossa vida nos últimos anos. Tempos pandêmicos, gente morrendo, isolamento. Nada pode ser pior que estar sozinho com tantas perguntas, quando nos encontramos isolados de tudo… Menos do vazio, que parece preencher-se de pontos de interrogação dentro da cabeça.

Mapear e compreender nossos sentimentos e o quanto eles estão atrelados ao momento presente é essencial, muitas respostas podem ser encontradas aí. Às vezes, o vazio é resultado da perda de alguém importante na sua vida, seja a perda de alguém que partiu ou de uma relação que acabou.  

Porém, às vezes, o vazio existencial também pode estar relacionado com uma vida que é cheia de tudo mas, esvaziada de sentido. Uma vida que se encontra estabelecida amorosamente, financeiramente, no entanto, sente que algo ainda falta. Uma vida buscando alguma coisa, um sentido, respostas.

Também acontece de existir quem acolhe o vazio. O traz para perto e conversa. E assim, entende. Entende que muita vida que é cheia de tudo, cheio dos outros e cheia do mundo, também pode ser muito vazia de si.

Não importa quem, como, quando ou onde. Todo mundo há de ser só. Todo mundo há de, em algum momento da vida, sentir um vazio que é do tamanho da sua existência, podendo até parecer maior. O importante é saber identificar os vazios. Ou, aprender com eles e compreender o que vieram nos fazer enxergar.

O que o vazio existencial tem a lhe dizer?

O vazio existencial, pode sim, estar conectado com transtornos depressores ou, estado psicológico depressivo. E, devido a isso, é preciso atentar-se para a condição de sua saúde psíquica. Entender quais são os motivos que o levam a sentir-se assim. Indagar a si mesmo – buscando observar se existe algum acontecimento relacionado a sensação de vazio existencial – é essencial.

Contudo, é preciso atentar para o social. O que difere nós, seres humanos, de qualquer outra espécie, é o poder de comunicar, refletir, tensionar. Ou seja, faz parte da vida não saber. Compartilhamos o sentimento de vazio. Então, se nos faltam palavras para responder ou preenchê-lo, não é porque não as temos. Nosso dicionário é completo. O vazio existencial sentido, certamente, iria cessar depois de encontrar tanta palavra que busca o calar. Mas, não somos feitos de sílabas e vogais…

Somos feitos de carne e osso, não de respostas. O que nos move não são as respostas, são todas as questões que temos. Desde as mais profundas, referentes ao sentido da vida, e até as pequenas, que nos colocam em movimento.

Penso o vazio como algo que impulsiona. Que nos leva a sentir necessidade de ação. O vazio é feito de verbos: buscar, movimentar, questionar, descobrir.

Sobretudo, o sentimento de vazio existencial é momentâneo e compartilhado. É isso que o diferencia de um estado depressivo. Também é isso que o torna importante. Vazio nunca é só.

São vazios, sempre múltiplos de si, pois chegam para nos ensinar sobre o tempo e sobre a gente. Se existem muitas vidas cheias de vazio, isso já nos diz muito. Isso nos diz sobre a vida em si. O que novamente nos levam a perguntar:

Que vida temos vivido? Que resposta temos encontrado quando nos questionamos? Como temos preenchido aquilo que se entende como vazio?

Percebo que, na tentativa constante de preencher um espaço reflexivo do pensamento, lotamos nossas superfícies – mentais e físicas – com coisas. Os verbos que conjugamos – na tentativa de preenchimento existencial –, são diferentes do que aqueles que poderiam nos auxiliar nesse processo de autoconhecimento:

Comprar. Comer. Rejeitar. Ausentar. Adiar. Preencher…

Verbos que nos afastam de nós mesmos. Que nos aproximam de um alívio imediato, entregando sensação de prazer, como nos casos em que calamos, nossos movimentos internos de busca, com atitudes consumistas – produzindo uma espécie de calmante objetal. E necessariamente por isso, um calmante que passa tão rápido quanto o alívio que chega.

Nossos espaços vazios são, sobretudo, vazios de existência. Não são vazios de objetos, mercadorias. Como o próprio termo já nos sugere. Nossos espaços vazios são a força que ainda nos coloca em movimento. O que nos permite inovar, mudar, buscar pelo novo, nos conduz a questionar o mundo e o modo de vida nele.

O vazio existencial é o que nos faz duvidar das respostas prontas e, ao mesmo tempo, é que o que nos faz saber que podemos mais, pois nos desafia o tempo todo. Por isso ainda nos mantemos em estado de busca. Exatamente por esse motivo ainda procuramos, pesquisamos, encontramos, permitimos, descobrimos…

Ao escrever a célebre frase, “Só sei que nada sei”, Sócrates nos presenteava, com a máxima que muito ensina sobre o vazio da existência.

socrates
O pensador, Sócrates

É por compreender que, mesmo quando se tem tudo o que se deseja, quando materialidades foram conquistadas, objetivos atingidos… Mesmo quando tudo isso compõe nossa vida, e quando poderíamos por fim sentir que é possível parar, ainda carecemos de existência. Ainda sentimos necessidade de buscar algo que nos aproxime de nós mesmos e de uma vida genuína.

E, por isso, seguimos… Não porque algo nos falta, mas porque agora temos a certeza de que são nossos vazios que nos fazem continuar.


Quer saber mais sobre o funcionamento psíquico? Leia mais clicando aqui!

Poesia que me inspira na escrita, conheça Vazio, de Vinicius de Moraes.

Quando o vazio pede mais atencao

O vazio existencial pode aparecer como pergunta sobre sentido, fase de transicao, luto, termino, isolamento ou mudanca de identidade. Nem todo vazio e depressao. O sinal de alerta surge quando a sensacao deixa de ser passageira e passa a vir com perda de interesse, desesperanca, alteracoes de sono e apetite, culpa intensa, isolamento ou pensamentos de morte. Nesses casos, a reflexao filosofica pode coexistir com uma necessidade real de cuidado em saude mental.

Pode ser uma fase de elaboracaoQuando ha perguntas, tristeza ou estranhamento, mas a pessoa ainda consegue cuidar de si e manter algum vinculo.
Pode indicar sofrimento clinicoQuando dura semanas, prejudica trabalho, estudo, autocuidado, sono, apetite ou relacoes.
Exige urgenciaQuando ha pensamentos de suicidio, plano de se machucar, abuso de substancias ou risco imediato.

Caminhos possiveis de cuidado

  • Nomear o que aconteceu antes da sensacao de vazio: perda, excesso, pausa, esgotamento ou mudanca.
  • Retomar rotinas basicas de sono, alimentacao, movimento e contato com pessoas confiaveis.
  • Procurar psicoterapia quando o vazio se repete ou parece organizar todas as escolhas.
  • Buscar avaliacao medica ou psiquiatrica se houver sintomas depressivos persistentes.

Sinal de emergencia: pensamentos de morte, desesperanca extrema ou vontade de se ferir merecem ajuda imediata. No Brasil, o CVV atende pelo 188; em risco iminente, procure emergencia local.

Revisao e fontes

Este trecho foi revisado em 15 de maio de 2026 com foco em clareza, seguranca do leitor e interpretacao conservadora das evidencias. As fontes abaixo foram usadas para atualizar os cuidados e limites praticos do texto.

  • NIMH – Depression
  • CDC – Sadness and Depression
  • NIMH – Warning Signs of Suicide

Fontes de apoio: NIMH: depression | 988 Lifeline: crisis support

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: psicologia

Gaslighting: sinais e como buscar apoio

13 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Sobre Gaslighting: sinais e como buscar apoio: o contexto muda a interpretação. Tempo de evolução, intensidade, fatores que pioram, sintomas associados, idade, remédios e doenças conhecidas orientam a decisão. Piora rápida, dor intensa, falta de ar, desmaio ou alteração neurológica pedem avaliação.

Chantagem emocional, termo superficial usado com frequência para falar de algo que é muito mais complexo. Utilizaremos aqui, para nos referirmos com a devida importância à problemática do tema, um outro termo. Conhecido como Gaslighting, a expressão surge a partir de um filme do diretor George Cukor, o Gaslight (1944), em português traduzido para À meia-luz.

Não é por menos que trago o filme para tratarmos do tema. O escopo desta obra cinematográfica muito nos interessa, principalmente, porque retrata como, cotidianamente, jogos mentais vão ganhando força naquilo que se propõem: criando conflitos internos na psique da vítima, fazendo com que duvide de si própria.

A trama gira em torno de um casal, e das artimanhas utilizadas pelo marido para fazer com que sua esposa acredite estar enlouquecendo. No filme em questão, Paula, a protagonista, é submetida a constantes episódios de manipulação psicológica. Um deles é o que dá nome a película. Gaslight, em tradução livre para o português, significa “luz a gás”, referenciando uma cena específica, na qual a mulher percebe uma súbita mudança de luz. O marido, é claro, nega que tenha acontecido, fazendo com que ela se questione sobre o que viu de fato.

Em outro momento, Gregory, o marido, flerta com a empregada do casal. Nessa cena, os três estão no mesmo cômodo da casa. O cortejo se dá com a presença da esposa, que tenta não demonstrar desconforto ou ciúme.

image
Gaslight, 1944

Quando a empregada se retira da sala, a esposa questiona Gregory sobre o que acabara de presenciar. O marido, com toda sua perspicácia, sugere que Paula está, novamente, imaginando coisas.

Isso não cessa. Gregory esconde coisas de casa, com o intuito de convencer sua mulher de quem foi ela própria quem as perdeu, entre várias outras situações cotidianas e sutis. Essas duas últimas palavras interessam aqui para prosseguirmos a reflexão.

Como identificar situações de manipulação psicológica e gaslighting

Por ser um termo inglês, gaslighting, pode deixar escapar o significado contido na palavra. Contudo, refere-se ao processo de distorcer a realidade de alguém, de maneira sutil e corriqueira. Ou seja, não é fácil de identificar se você está ou não sofrendo gaslighting, muitas vezes pode ser quase imperceptível. O Gaslighting é considerado uma violência psicológica, cometida através de ações e falas que fazem o outro questionar-se sobre suas próprias certezas.

Como menciona Valeska Zanello – professora de psicologia clínica da UnB –, em entrevista para o Fantástico[1]: o gaslighting produz na vítima “- dúvida acerca da própria percepção e da sanidade mental”. A professora complementa, com uma frase de alerta: “- Eu acho impossível ser mulher heterossexual no Brasil e nunca ter sofrido gaslighting numa relação amorosa”.

“Isso é coisa da sua cabeça”, “Você está imaginando coisas”, “Você é louca”, “Você está histérica”…

Já ouviu isso antes?

Entre tantas outras frases que poderia citar, essas são as mais corriqueiras e cotidianas. Frases que eu inclusive também ouvi. Não é fora do comum, em discussão de relacionamento, se deparar com uma fala dessa vindo em sua direção. A questão é o resultado, a proporção e o peso que expressões como essas tomam em nossa psique.

Punição por meio de jogos mentais, falas que produzem desestabilização emocional (Leia mais sobre clicando aqui), chantagens, desvalorização da opinião da vítima, bem como, seus gostos, ações; abusos quase que imperceptíveis, são apenas algumas das variadas características do gaslighting.

Algo importante a ser mencionado, é o fato de que, acompanhado de ações como as acima citadas, o gaslighting pode esconder-se por detrás de comportamento afetuoso e preocupado. Tornando mais complexo ainda o processo de dar-se conta da relação de violência psicológica, na qual se está vivendo.

O efeito disso na subjetividade da vítima é de enfraquecimento do ego e da moral e desacreditamento de si próprio. Inclusive, o que acontece com muitas pessoas que estão em relações, nas quais são vítimas de gaslighting, é desvalorizar sua própria opinião e raciocínio. Acabando por concordar com o agressor, em muitas de suas colocações e comportamentos agressivos.

O sujeito que sofre com esse tipo de violência psicológica se encontra enfraquecido de si. Em dúvida de sua capacidade e validade no mundo. Já não sabe se pode confiar em seu próprio pensamento e sentimento. Assim, em inúmeros casos de gaslighting, é muito difícil abandonar a relação. Pois, a vítima é levada a acreditar que é culpada pelas situações apontadas pelo companheiro.

Os reflexos da vítima de manipulação psicológica e gaslighting

Como resultado desse processo de distorção da realidade, são produzidas ideias que se confundem na cabeça da vítima, o que antes era dúvida:

Será mesmo que eu estou imaginando isso?

Começa a ser invertido para:

Ele deve estar certo, deve ser coisa da minha cabeça, mais uma vez…

Pensamentos disruptivos como esse vão sendo construídos dia a dia. É quase como se fosse possível ouvir uma voz que diz: não é seguro confiar em você mesmo.

Obviamente que, o gaslighting não acontece apenas em relações românticas. Isso também é comum no trabalho – quando o chefe/supervisor invalida o trabalhador –, ou mesmo na família, por parte de algum parente. Contudo, é mais recorrente nas relações amorosas heterossexuais, nas quais o homem é o agressor e a mulher é a vítima.

O que torna complexa a tarefa de reconhecimento por parte da vítima, é de que, comumente, as situações vexatórias pelas quais é exposta, acontecem dentro de casa. Como já dito anteriormente, são agressões sutis. Quem pratica esse tipo de violência, o faz de modo a se autopreservar. Sendo cuidadoso para não ser pego. A intenção do agressor é, justamente, fazer com que o próprio círculo da vítima concorde com ele. “Ela está louca, de fato”.

Então, como sair dessa situação?

Se você conhece alguém que passa por circunstâncias como as acima citadas, tenha paciência. Essas pessoas são, antes de tudo, vítimas de uma violência silenciosa. Acolha, escute, deixe ela saber que tem alguém para confiar. Lembre-se, quem está sofrendo gaslighting, encontra-se em estado depreciativo de si mesmo.

E, no caso de você ter se identificado com as frases e exemplos descritos, procure um profissional da psicologia. Você encontrará o amparo que precisa para sair dessa situação e se libertar de uma relação abusiva.


[1]https://www.youtube.com/watch?v=4KB1MyNXzmo

Como observar evolução e sinais associados

Sintomas ficam mais claros quando são descritos por início, duração e evolução. Para Gaslighting: sinais e como buscar apoio, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalComo interpretar
InícioSúbito, progressivo ou recorrente muda as hipóteses.
IntensidadeDor forte, falta de ar ou desmaio reduzem a margem para esperar.
AssociaçãoFebre, perda de peso, sangramento ou fraqueza importam.
EvoluçãoMelhora, estabilidade ou piora orientam o próximo passo.
Evite concluirPrefira observar
“É só um sintoma comum”Intensidade, duração e sinais associados.
“Se melhorou, acabou”Recorrência e limitação funcional.
“Posso repetir a mesma solução”Resposta anterior, efeitos adversos e causa provável.

Ao buscar atendimento, descreva o sintoma com começo, duração, intensidade, localização, gatilhos, sinais associados e o que já foi tentado. Isso acelera o raciocínio clínico.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: MedlinePlus: medical encyclopedia.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: artigos, psicologia, relacionamento, violência psicológica

Dependencia emocional: sinais, limites e caminhos de cuidado

10 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Existe coisa que só se aprende vivendo. Para mim, ouvindo. Aprendi sobre dependência emocional – mesmo antes de ter conhecimento sobre o termo – ouvindo uma composição de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. A música diz,

Mapa clínico: dependência emocional envolve padrão, sofrimento e perda de autonomia

Em resumo: dependência emocional não é apenas gostar muito de alguém. O sinal de cuidado aparece quando medo de abandono, necessidade constante de confirmação, ciúme, dificuldade de dizer não ou tolerância a situações ruins começam a reduzir autonomia, sono, trabalho, estudo e vínculos saudáveis.

Diagrama de dependência emocional com medo de abandono, busca constante de garantia e dificuldade de impor limites.
Nomear o padrão ajuda a separar vínculo de sofrimento repetido.
Fluxo visual de cuidado em dependência emocional com mapeamento de gatilhos, treino de limites e apoio profissional.
O objetivo não é esfriar relações, e sim reduzir perda de autonomia.
SinalO que pode indicarPróximo passo
Ansiedade ao ficar sem respostaMedo de rejeição pode estar comandando a rotina.Registrar gatilho e intensidade.
Aceitar situações que machucamLimites pessoais podem estar fragilizados.Conversar com rede de apoio.
Crises recorrentes no relacionamentoPode haver ansiedade, depressão ou violência.Avaliação psicológica ou psiquiátrica.
  • Anote situações que disparam medo, urgência de contato, ciúme ou sensação de vazio.
  • Observe se você deixou de estudar, trabalhar, dormir, sair ou cuidar da saúde por causa do vínculo.
  • Procure ajuda imediata se houver ameaça, violência, controle coercitivo, ideação suicida ou perda de segurança.

Nota de segurança: sofrimento emocional intenso merece acolhimento, mas não deve ser romantizado como prova de amor.

Para continuar no tema: Psicologia | Ansiedade nos relacionamentos | Ansiedade patológica | Depressão não é frescura

“Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho”

O que me chama a atenção nesse trecho em específico é a frase: “os seus olhos têm que ser só dos meus olhos”. Um convite poético e inebriante, que quase deixa escapar o perigo contido. Um bilhete de entrada para um mundo no qual só cabe um, mesmo quando são dois o habitando. E não é exatamente assim que se vive uma relação de dependência emocional? Explico.

Retomando o conceito de conflito interno – apresentado em texto anterior –, é possível analisar como o sentimento de insegurança é produzido na psique. Quando o sujeito carrega consigo pensamentos relacionados à baixa autoestima, dúvida de si próprio quanto a sua capacidade e possibilidade de ser desejado. É nesse espaço de pensamento que o conflito psíquico conduz a ideia de que ao eu falta, de que não se é bom o suficiente. Ideias destrutivas do ego.

Contudo, isso não se mantém no mundo interno, no espaço do pensamento, principalmente quando estamos nos relacionando com um outro alguém. Toda essa confusão psíquica é projetada na relação.

Dependência de quem? Ao EU não falta nada

Existe coisa que só se aprende ouvindo, certo?! Bem, quando criança ouvi aquela velha história da metade da laranja. Teve também a da tampa da panela. Dessas histórias que avós contam, acreditado piamente que nos ajudam ao implementarem nas nossas cabeças, confusas e pulsantes, a ideia do amor que falta.

Ou, melhor dizendo, a ideia de que é preciso encontrar alguém que supra, preencha e complete um espaço faltoso. Encontrar alguém de quem se possa ser dependente, que acabe com a insegurança que assola o peito. Prato cheio para confusão.

A teoria de que ao Eu falta, precisa ser descontruída dentro de cada um de nós. Crescemos em uma sociedade que produz filme, música, novela e poesia que dizem de um amor que chega para nos tornar um EU completo.

Sem esse amor, então, seríamos faltantes. É trabalho importante e necessário confeccionarmos um novo modo de se relacionar, primeiramente consigo e depois com o outro. Mas, é trabalho árduo e demorado.

Começando do começo, do mais básico:

top view white puzzle pieces and green background

Ao EU não falta nada. Não falta um outro. Somos panela e tampa. A laranja completa.

Bastar-se, termo necessário para refletirmos sobre o amor e sobre dependência emocional. Um amor que se propõe a um novo modo de relação, distante daquela busca sofrida por um outro, que vem para nos salvar de nós mesmos. Um amor que, primeiramente, é voltado ao Eu.

Aquilo que conhecemos como insegurança, deve então ser trabalhada em nós mesmos, a partir da análise e da compreensão do que pensamos faltar – aquilo que você, provavelmente, busca no outro quando se relaciona. Não é possível preencher-se do outro e é por isso que, quando finalmente encontramos em uma relação aquilo que nos “falta”, – me refiro aqui a qualidades, posicionamento, comportamento –, ainda assim continuará a faltar.

Vez ou outra, quando apaixonados, temos a sensação de ter encontrado alguém que tampe todos nossos buracos existenciais. Isso passa, a gente bem sabe que passa. O que reafirma a tese de que é preciso bastar-se.

Mas, e quando não parece ser possível ser um Eu inteiro sozinho? O que isso significa?

Insegurança + dependência emocional = relacionamento abusivo

Somos movidos pelo desejo. Movidos por sentir a vida pulsando e em movimento, pela busca e pelo encontro. Poucas experiências na vida são tão arrebatadoras quanto estar apaixonado. Porém, quando nos apaixonamos, fazemos do outro nosso objeto de desejo e isso pode acabar se tornando perigoso. Principalmente quando se coloca no outro a incumbência de nos manter vivos, desejantes, saudáveis.

Resumindo, nessa equação e nesse tipo de relação, só existe amor próprio e autoestima quando vejo o outro me amando e me desejando.  

Quando um Eu não basta. Quando a insegurança extrapola. Quando só se sabe ser inteiro ao existir mais um por perto. Podemos estar vivenciando uma situação de dependência tão grande do outro, que o resultado é um relacionamento abusivo.

Todos nós somos, ao menos um pouco, inseguros. Por isso, nem sempre é fácil identificar quando acontece. Principalmente porque, um relacionamento abusivo, pode, no começo, se disfarçar de preocupação, de proteção e cuidado, de amor. Como saber então se minha insegurança extrapola o limite do aceitável ou se estou vivendo um relacionamento abusivo? Preste atenção nas seguintes questões:

Você se questiona se determinado comportamento ou ação é saudável/correto?

Você respeita o espaço do outro e é respeitado?

Você tem atividades e tempo livre que dedica para si próprio?

Seu círculo social e interação se restringe ao companheiro?

Entre tantas outras questões que poderia escrever aqui, essas são só algumas para as quais é necessário atentar-se. Seja quando somos nós mesmos que lidamos com a insegurança, seja o parceiro com quem nos relacionamos… É importante, para nosso desenvolvimento emocional, compreender e respeitar os espaços de cada um.

Uma relação não pode se sustentar quando o Eu não se sustenta sem um Outro.

O medo de estar sozinho, de ser insuficiente, não pode nunca nos manter em uma relação. Caso contrário, a infelicidade é certa. Não confunda proteção, cuidado, amor, com possessividade, invasão, desrespeito. Quando não se sabe viver sem o outro, é porque, na verdade, ainda não se aprendeu a viver consigo mesmo.

Por fim, cuide-se. Olhe para si, viva e deseje por você.

O outro importa, relacionar-se importa, mas é fundamental aprender a bastar-se, a saber viver por conta própria. É fundamental saber o que dói, o que nos afeta, o que nos torna inseguros. Assim, quando o amor chegar, será possível viver a experiência do relacionamento, sem o peso de sentir que é preciso do Outro para ser um Eu completo.

Como diferenciar cuidado, apego e dependencia

Sentir saudade, desejar proximidade e buscar apoio emocional faz parte de muitos vinculos saudaveis. A dependencia emocional preocupa quando a relacao passa a organizar toda a autoestima, todas as escolhas e toda a sensacao de seguranca da pessoa. Nessa situacao, limites deixam de ser negociados e viram medo: medo de desagradar, de ser abandonado, de ficar sozinho ou de perder valor se o outro se afasta.

Relacao saudavelSinal de alerta
Ha afeto e tambem vida propria.A pessoa abandona amigos, interesses e autonomia para evitar conflito.
O casal conversa sobre limites.Um parceiro controla roupa, celular, dinheiro, rotina ou contatos.
Apoio emocional existe dos dois lados.Um lado se sente responsavel por regular todo o humor do outro.

Perguntas de auto-observacao

  • Eu consigo dizer nao sem sentir que a relacao vai acabar?
  • Tenho tempo, amigos e projetos que continuam existindo fora do relacionamento?
  • Tenho medo de contar a alguem como meu parceiro ou parceira me trata?
  • Procuro ajuda quando ansiedade, tristeza ou ciume passam a dirigir minhas decisoes?

Seguranca relacional: dependencia emocional nao deve ser usada para culpar quem esta sofrendo controle, ameacas ou violencia. Se ha medo, isolamento, humilhacao, coercao sexual, perseguicao ou agressao, busque apoio de pessoas confiaveis e servicos locais de protecao.

Revisao e fontes

Este trecho foi revisado em 15 de maio de 2026 com foco em clareza, seguranca do leitor e interpretacao conservadora das evidencias. As fontes abaixo foram usadas para atualizar os cuidados e limites praticos do texto.

  • NHS inform – Healthy relationships
  • CDC – About Intimate Partner Violence
  • NIMH – My Mental Health: Do I Need Help?

Fontes de apoio: NIMH: anxiety disorders | NIMH: caring for mental health

Arquivado em: Artigos, Doenças de A-Z, Psicologia, Sintomas de A-Z Marcados com as tags: artigos, psicologia, relacionamento

Conflitos internos: por que brigamos conosco

9 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Dentre as situações de conflitos, angustiantes e tensos, que vivemos durante a vida inteira, as mais difíceis de enfrentar, certamente, são os confrontos que travamos contra nós mesmos. São aquelas brigas que não se consegue deixar para depois, porque não dependemos de um outro envolvido para que o combate aconteça, apenas um cérebro ruminante.

Acompanhado de pensamentos disruptivos, sensação de insegurança relacionado a autoimagem e competência, entre tantos outros sentimentos, que ao se somarem, causam angústia profunda. A esse conjunto de pensamentos e sentimentos, demos o nome de conflito interno. Mas, o que nos leva ao desenvolvimento destes?

Ruminar, termo que nos interessa aqui para entendermos a complexidade do assunto.

Abandone agora a concepção de animais ruminantes, para pensar no significado contido na palavra. Quem rumina, regurgita, para depois, por mais uma vez, mastigar. Coloque seus pensamentos nessa equação, perceba como isso se enquadra no que comumente fazemos, quando nos colocamos em processo de pensar sobre nosso próprio pensamento.

É isso mesmo, “pensar sobre o próprio pensamento”. Pode parecer confuso, mas explicita o diálogo interno que nos acomete. Um exemplo clássico disso, é quando percebe-se – aquilo que chamamos de – emoção tensionando razão, e vice-versa.

Freud explica.

Para o psicanalista, nossa organização psíquica acontece a partir de uma tríade: Id, Ego e Super-ego. Enquanto o Id funciona como um estado de busca contínua pelo prazer, nosso nível mais instintivo, o super-ego age de forma mais repressiva, reprimindo o Id por meio de crenças e pensamentos moralizantes e éticos.

O Ego é quem negocia com essas instâncias psíquicas. Adequa o desejo ao mundo real, daquilo que é possível fazer, como se buscasse por um equilíbrio. E é nesse jogo mental, de disputa, que se formam os conflitos internos.

Conflitos não são só internos

Um erro comum, ao enunciarmos a palavra interno, é o de conceber esse tipo de conflito como algo que não se mostra, e não se apresenta, no fora. Com isso, duas coisas acontecem:

  1. O que se relaciona com nosso mundo interno, ainda é tratado com certo tabu[1]. Existe um silêncio velado para o que é de natureza psíquica, e o sistema de organização social e econômico, nos conduz a continuar reprimindo aquilo que é de ordem ‘privada’[2]. Ou seja…
  2. Por alocarmos essa confusão dentro do cérebro, não procura-se ajuda na resolução e no desatar dos nós mentais. Acreditando que, primeiro, é possível fazer isso sozinho, afinal, são “coisas da cabeça”. O segundo erro é resultado proveniente do primeiro. Pela crença de que só é de urgência tratar a ferida exposta e a ferida que se apresenta fisicamente, se permite encobrir a ferida existencial.

Posto isso, é possível compreender que a desvalorização do sentimento de angústia – e do mundo psíquico, que nos acomete a cada batalha interna travada, produz, em nosso Super Ego, pensamentos que culminam em mais conflito ainda. Por exemplo,

você já sentiu culpa por não conseguir concluir uma tarefa no prazo, mesmo quando se sentia esgotado psiquicamente?

E se invertemos a situação para:

Você já sentiu culpa por não conseguir concluir uma tarefa no prazo, mesmo quando se sentia doente fisicamente?

Essa é a questão aqui. O peso de não finalizar uma incumbência é muito menor, mas muito mesmo, quando o motivo atribuído a essa situação é de origem externa. Quantos atestados médicos ampararam uma enfermidade do corpo? E agora reflita, quantos atestados médicos ampararam sua angústia, sua ansiedade, seu desespero? Esse é apenas um dos vários exemplos que poderíamos elaborar.

Deixamos de perceber como isso afeta o cotidiano, pois, de algum modo, somos conduzidos a menosprezar o sofrimento que não é recorrente de um machucado visível. É preciso, antes de tudo, acabar com a cisão que fazemos entre corpo e mente. As doenças psicossomáticas estão aí para nos fazer ver como, e quanto, a psique influencia no estado do corpo físico.

Dor de barriga, dor de cabeça, náusea, dores produzidas por um mal-estar psicológico. Aquilo que nos atormenta em forma de pensamento, as batalhas, ditas internas, são tão exteriores quanto uma ferida aberta. E sabe o que é pior? Teremos sempre de viver com esses conflitos. Conhece aquele velho ditado que diz que “para morrer basta estar vivo”? Digo mais,

Para existir conflito interno basta estar vivo.

Conflitos existem, o que fazer com eles?

Chegamos aqui. Entendemos os motivos pelos quais nossas batalhas internas acontecem. Compreendemos que conflitos não são só internos e o quanto estes podem influenciar no modo como vivemos a vida. Ainda mais, descobrimos que os conflitos são intrínsecos a condição de estar vivo. É coerente então agora buscar por soluções. É isso o que fazemos, não é mesmo?! Resolver problemas na superfície, para poder prosseguir.

O problema é que, os motivos que nos levam a entrar em embate psíquico, não são apenas de origem interna.

São questões de ordem social. Quantas imposições, quantas ideias permeadas por posicionamentos moralistas, são inculcadas na nossa cabeça e no nosso corpo? Quantos anos passamos ouvindo o que pode ou não ser feito, o que pode ou não ser falado e o que pode ou não ser pensado? Se existe culpa até no ato de pensar sobre algo, no nosso espaço mais íntimo e não verbalizado, que só se manifesta em ideia, existe também algo de muito errado no caminho que a humanidade tem tomado.

E é por isso, e por mais, que escrevo que

O conflito interno é também uma expressão do conflito – e do formato – social.

Então, na próxima vez que pensamentos e sentimentos disruptivos, produtores de culpa e de autoflagelo, tomarem você, seu corpo físico e mental, pare. Pare por um minuto ou mais, mas pare para refletir sobre o motivo pelo qual isso gera angústia. Entenda o quanto desse conflito é, também, do mundo. Perceba o quanto desse conflito está aí porque você foi condicionado a viver, pensar e agir, através de uma forma de vida que nada se relaciona com quem você verdadeiramente é.

dried pink peony flower in a clear vase reflected on a mirror

“Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates, nos entregando a solução… A gente só não entendeu.


[1]Leia mais na notícia: https://www.paho.org/pt/noticias/8-10-2021-relatorio-da-oms-destaca-deficit-global-investimentos-em-saude-mental

[2]Essa é conversa para outra hora. Mas há muito que se discutir a respeito da visão equivocada de que os problemas psíquicos são individuais. O número de pessoas com transtornos depressivos cresce cada dia mais. Isso nos mostra que existe algo de muito prejudicial no modo como nossa existência vem sendo conduzida, diante do sistema capitalista.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Artigos, Psicologia, Sintomas de A-Z Marcados com as tags: artigos, conflito, psicologia

Término de relacionamento: como lidar e se recuperar

9 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

o fim de um relacionamento costuma misturar luto, perda de rotina, apego, culpa e reorganização da identidade. A recuperação não depende de “esquecer rápido”, mas de reduzir ruminação, manter funções básicas, buscar apoio e perceber quando tristeza intensa, isolamento ou risco pedem cuidado profissional.

Término de relacionamento. Escrever e pensar sobre isso me faz lembrar de um poema que muito angustia:

quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.
(Romance em doze linhas, poema de Bruna Beber)

O fim. Nele sempre há, ao menos, duas coisas contidas: agonia e poesia.

Agonia que anuncia o fim de alguém em nossa vida. O fim da vida que conhecíamos até então.

Poesia na expressão do encontro com o novo, consigo e com outros.

Dos clichês que nos servem, lembre-se “fim é sempre o começo de algo”. E é mesmo. O fim se faz presente corriqueiramente na vida de quem procura começar com alguém. Só é preciso saber lidar com o que foi e o que vem.

Não é a toa que existe tanta produção cinematográfica, música e poesia sobre término. A grande questão da vida de – quase – todas as pessoas que conheço são os finais. A grande questão da minha própria vida, inclusive, frequentemente é essa. Até porque, términos demarcam nossa história, mesmo quando o término não é propriamente nosso. Sempre existe alguém terminando alguma coisa. E tanto quanto fui aconselhada em meus finais, também aconselhei e sofri junto de términos que não eram meus. Vi e vivi muitos finais de relacionamento de amigos, familiares, conhecidos…

Foram tantos finais à essa altura da vida, e mesmo que já tenha estratégias definidas de enfrentamento do final, ele sempre dói… Até quando a dor vem em forma de alívio pelo término. Ter isso claro em nossa mente pode ajudar a saber como enfrentar a dor, pois ela é certa. A pergunta que deve ser respondida então é: você sabe identificar por que dói?

As dores do término de relacionamento: o que elas nos ensinam

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde[1] adverte: o fim dói mesmo. Existe até um nome para isso, a síndrome do coração partido. A dor de um, pode, inclusive, provocar sintomas físicos (dificuldade para respirar, aperto no peito, perda de apetite). Isso nos ensina uma coisa.

É preciso deixar doer.

Assim como não se apressa a cicatrização de qualquer ferida exposta, não é possível curar a dor interna sem passar pelo processo de recuperação desta. Uma frase do filósofo Jean Paul-Sartre, cabe aqui para refletirmos mais sobre:

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”.

Se a dor do término precisa ser vivida, precisamos entender como fazer desse período de cicatrização interna, um momento de encontro, com o início, com o novo. O novo não precisa envolver outro alguém, além de você mesmo. Até porque, quando saímos de uma relação, parece que foi muito da gente com ela também. Ou seja, é essencial, que nesse momento, a gente se reencontre e se reconecte com aquilo que éramos antes da relação, antes daquela pessoa, e o que somos agora, no depois. Voltar o olhar de desejo, de paixão, de vontade, para nós mesmos, e não mais redirecionando todos esses sentimentos para o outro.

É preciso aprender a se bastar. Descobrir o corpo novamente, testar muito cabelo diferente, descobrir novos gostos, músicas, filmes… Mas o mais importante: não se atordoar com o que antes foi compartilhado com outra pessoa. Se dói ouvir aquela canção que faz lembrar, por que assumir a posição de autoflagelo?! Se dói ver o outro postando a vida nova em rede social, por que continuar sendo telespectador? Por que continuar fazendo do outro local de refúgio?

O que resta agora são memórias, e é bom tê-las conosco. Tudo aquilo que foi, faz parte do que a gente é e das possibilidades que temos à frente. Lembrá-las com carinho é justo, mas não se prenda a elas para prosseguir. É importante abraçar a dor, mas não faça desse um lugar para se estar.

Daquilo que me serviu, nos meus últimos finais, e que eu não havia considerado em outros, é o exercício físico. E aqui serve qualquer um, desde que o corpo seja colocado em movimento. Não é conselho, é ciência. O exercício físico produz um aumento significativo de serotonina, um neurotransmissor que atua na regulação de humor, etc. Corra, caminhe, dance. A gente costuma se esquecer dentro das relações, costuma se enxergar sempre ao lado de um outro. Colocar-se em movimento é também sobre relembrar quem é você, sozinho, uno, dono de um corpo e nunca de dois. Movimentar-se nos coloca em posição de deslocamento perante nossa própria vida, acredite.

Um outro clichê que nos ajuda aqui: foque em você. Não daquele jeitinho coach/desespero. Já sentiu o que precisava ser sentido? Lembre-se, talvez o sentimento de amor nunca deixe de existir, mas relações são construções diárias, então, não recorra aquele velho erro de pensar que “se ainda existe amor, pode dar certo”. Sim, talvez muita coisa poderia ter sido diferente, mas nenhuma união acaba de um dia para o outro. Términos também são construções, são movimentos internos que nos fazem entender o que não funciona mais.

O processo de um término demora a chegar no final também. Tem quem demore muito tempo para conseguir sair de uma relação, mesmo já sentindo que não fazia bem, que já havia terminado. Pense sobre isso.

Vocês ainda continuam sendo as mesmas pessoas, acertando e errando do mesmo modo. Não se apegue ao conforto de uma relação. Aceite a sensação angustiante de não saber o que vem agora, com a certeza de que há muito por vir. Relembre os motivos que encaminharam a relação para o fim.

Mesmo quando não somos nós quem buscamos pelo término, de algum modo, estamos envolvidos no final.

top view of broken heart put back together with safety pin

O que terminou foi seu relacionamento, não termine junto com ele.


[1] https://www.conass.org.br/sindrome-do-coracao-partido-quando-a-dor-emocional-causa-sintomas-semelhantes-aos-do-infarto/

Quando buscar apoio estruturado

Em Término de relacionamento: como lidar e se recuperar, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Artigos, Psicologia, Sintomas de A-Z Marcados com as tags: psicologia

« Página anterior

Últimos Posts

fascia muscular

Dor Muscular nas Costas Alta: causas, sinais de alerta e tratamento

Leia mais »
pescoco 1

Dor Cervical Irradiando para Escápula: quando o pescoço explica a dor nas costas

Leia mais »
diagnostico discinesia escapular

Bursite Escapulotorácica: dor atrás da escápula, estalos e tratamento

Leia mais »
teste de retracao escapular

Dor no Serrátil Anterior: lateral das costelas, escápula e ombro

Leia mais »
newsletter

Receba Novidades Por E-mail

Blog da Saúde

Saúde explicada com autoria, fontes e contexto.

Guias para entender sintomas, exames, tratamentos e medicamentos com linguagem clara, autoria e fontes.

Atualizações editoriais

Receba guias e atualizações editoriais

Uma seleção enxuta para ler melhor sobre saúde, com autoria, fontes e contexto.

newsletter

Receba Novidades Por E-mail

Desde 2020
produção editorial contínua
1.476
artigos publicados
50
autores com conteúdo
Fontes
diretrizes, sociedades e órgãos oficiais

Comece pelo seu objetivo

Encontre o melhor ponto de partida

  • Sintomas Comece pelo que você sente
  • Doenças Entenda diagnósticos comuns
  • Dor Cabeça, coluna, articulações e dor crônica
  • Exames Resultados, laudos e próximos passos
  • Medicamentos Uso, efeitos e cuidados práticos
  • Nutrição Alimentos, vitaminas e hábitos

Institucional

  • Sobre o Blog da Saúde
  • Equipe editorial
  • Especialistas
  • Contato

Critérios editoriais

  • Como produzimos conteúdo
  • Política editorial
  • Revisão médica
  • Critérios de fontes
  • Correções e atualizações

Leitura e acesso

  • Guias
  • Independência editorial e publicidade
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso

2026 © Blog da Saúde.

Aviso médico: as informações fornecidas neste site visam melhorar, não substituir, a relação direta entre o paciente e os profissionais de saúde.

Ver todos os resultados
categorias

Pesquise por Categoria

Acupuntura

Acupuntura

alergia

Alergia

Artigos

Artigos

biomedicina

Biomedicina

canabidiol

Canabidiol

dermatologia campanha-sbd pele saudavel

Cirurgia Plástica

consulta

Clínica Médica

curiosidades

Curiosidades

dermatologia cuidar da-pele

Dermatologia

dor-no-pe-da-barriga-relacao-scaled

Doenças de A-Z

anti-inflamatorio-para-dor-no-joelho

Dor

educacao fisica

Educação Física

endocrinologia

Endocrinologia

farmacia

Farmácia

fisiatria

Fisiatria

peso fisioterapia triceps

Fisioterapia

gastroenterologia

Gastroenterologia

geriatria

Geriatria

gerontologia

Gerontologia

ginecologia e obstetricia

Ginecologia e Obstetrícia

infectologia

Infectologia

Medicina Esportiva

Medicina Esportiva

Neurologia

Neurologia

Notícias

Notícias

Nutrição

Nutrição

Oftalmologia

Oftalmologia

Ortopedia

Ortopedia

Pediatria

Pediatria

Psicologia

Psicologia

Psiquiatria

Psiquiatria

Radiologia

Radiologia

maos formigamento

Reumatologia

Sintomas

Sintomas de A-Z

Urologia

Urologia