Conflitos internos: por que brigamos com nós mesmos?

conflitos internos psicologia

Dentre as situações de conflitos, angustiantes e tensos, que vivemos durante a vida inteira, as mais difíceis de enfrentar, certamente, são os confrontos que travamos contra nós mesmos. São aquelas brigas que não se consegue deixar para depois, porque não dependemos de um outro envolvido para que o combate aconteça, apenas um cérebro ruminante.

Acompanhado de pensamentos disruptivos, sensação de insegurança relacionado a autoimagem e competência, entre tantos outros sentimentos, que ao se somarem, causam angústia profunda. A esse conjunto de pensamentos e sentimentos, demos o nome de conflito interno. Mas, o que nos leva ao desenvolvimento destes?

Ruminar, termo que nos interessa aqui para entendermos a complexidade do assunto.

Abandone agora a concepção de animais ruminantes, para pensar no significado contido na palavra. Quem rumina, regurgita, para depois, por mais uma vez, mastigar. Coloque seus pensamentos nessa equação, perceba como isso se enquadra no que comumente fazemos, quando nos colocamos em processo de pensar sobre nosso próprio pensamento.

É isso mesmo, “pensar sobre o próprio pensamento”. Pode parecer confuso, mas explicita o diálogo interno que nos acomete. Um exemplo clássico disso, é quando percebe-se – aquilo que chamamos de – emoção tensionando razão, e vice-versa.

Freud explica.

Para o psicanalista, nossa organização psíquica acontece a partir de uma tríade: Id, Ego e Super-ego. Enquanto o Id funciona como um estado de busca contínua pelo prazer, nosso nível mais instintivo, o super-ego age de forma mais repressiva, reprimindo o Id por meio de crenças e pensamentos moralizantes e éticos.

O Ego é quem negocia com essas instâncias psíquicas. Adequa o desejo ao mundo real, daquilo que é possível fazer, como se buscasse por um equilíbrio. E é nesse jogo mental, de disputa, que se formam os conflitos internos.


Conflitos não são só internos

Um erro comum, ao enunciarmos a palavra interno, é o de conceber esse tipo de conflito como algo que não se mostra, e não se apresenta, no fora. Com isso, duas coisas acontecem:

  1. O que se relaciona com nosso mundo interno, ainda é tratado com certo tabu[1]. Existe um silêncio velado para o que é de natureza psíquica, e o sistema de organização social e econômico, nos conduz a continuar reprimindo aquilo que é de ordem ‘privada’[2]. Ou seja…
  2. Por alocarmos essa confusão dentro do cérebro, não procura-se ajuda na resolução e no desatar dos nós mentais. Acreditando que, primeiro, é possível fazer isso sozinho, afinal, são “coisas da cabeça”. O segundo erro é resultado proveniente do primeiro. Pela crença de que só é de urgência tratar a ferida exposta e a ferida que se apresenta fisicamente, se permite encobrir a ferida existencial.

Posto isso, é possível compreender que a desvalorização do sentimento de angústia – e do mundo psíquico, que nos acomete a cada batalha interna travada, produz, em nosso Super Ego, pensamentos que culminam em mais conflito ainda. Por exemplo,

você já sentiu culpa por não conseguir concluir uma tarefa no prazo, mesmo quando se sentia esgotado psiquicamente?

E se invertemos a situação para:

Você já sentiu culpa por não conseguir concluir uma tarefa no prazo, mesmo quando se sentia doente fisicamente?

Essa é a questão aqui. O peso de não finalizar uma incumbência é muito menor, mas muito mesmo, quando o motivo atribuído a essa situação é de origem externa. Quantos atestados médicos ampararam uma enfermidade do corpo? E agora reflita, quantos atestados médicos ampararam sua angústia, sua ansiedade, seu desespero? Esse é apenas um dos vários exemplos que poderíamos elaborar.

Deixamos de perceber como isso afeta o cotidiano, pois, de algum modo, somos conduzidos a menosprezar o sofrimento que não é recorrente de um machucado visível. É preciso, antes de tudo, acabar com a cisão que fazemos entre corpo e mente. As doenças psicossomáticas estão aí para nos fazer ver como, e quanto, a psique influencia no estado do corpo físico.

Dor de barriga, dor de cabeça, náusea, dores produzidas por um mal-estar psicológico. Aquilo que nos atormenta em forma de pensamento, as batalhas, ditas internas, são tão exteriores quanto uma ferida aberta. E sabe o que é pior? Teremos sempre de viver com esses conflitos. Conhece aquele velho ditado que diz que “para morrer basta estar vivo”? Digo mais,

Para existir conflito interno basta estar vivo.


Conflitos existem, o que fazer com eles?

Chegamos aqui. Entendemos os motivos pelos quais nossas batalhas internas acontecem. Compreendemos que conflitos não são só internos e o quanto estes podem influenciar no modo como vivemos a vida. Ainda mais, descobrimos que os conflitos são intrínsecos a condição de estar vivo. É coerente então agora buscar por soluções. É isso o que fazemos, não é mesmo?! Resolver problemas na superfície, para poder prosseguir.

O problema é que, os motivos que nos levam a entrar em embate psíquico, não são apenas de origem interna.

São questões de ordem social. Quantas imposições, quantas ideias permeadas por posicionamentos moralistas, são inculcadas na nossa cabeça e no nosso corpo? Quantos anos passamos ouvindo o que pode ou não ser feito, o que pode ou não ser falado e o que pode ou não ser pensado? Se existe culpa até no ato de pensar sobre algo, no nosso espaço mais íntimo e não verbalizado, que só se manifesta em ideia, existe também algo de muito errado no caminho que a humanidade tem tomado.

E é por isso, e por mais, que escrevo que

O conflito interno é também uma expressão do conflito – e do formato – social.

Então, na próxima vez que pensamentos e sentimentos disruptivos, produtores de culpa e de autoflagelo, tomarem você, seu corpo físico e mental, pare. Pare por um minuto ou mais, mas pare para refletir sobre o motivo pelo qual isso gera angústia. Entenda o quanto desse conflito é, também, do mundo. Perceba o quanto desse conflito está aí porque você foi condicionado a viver, pensar e agir, através de uma forma de vida que nada se relaciona com quem você verdadeiramente é.


dried pink peony flower in a clear vase reflected on a mirror

“Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates, nos entregando a solução… A gente só não entendeu.


[1]Leia mais na notícia: https://www.paho.org/pt/noticias/8-10-2021-relatorio-da-oms-destaca-deficit-global-investimentos-em-saude-mental

[2]Essa é conversa para outra hora. Mas há muito que se discutir a respeito da visão equivocada de que os problemas psíquicos são individuais. O número de pessoas com transtornos depressivos cresce cada dia mais. Isso nos mostra que existe algo de muito prejudicial no modo como nossa existência vem sendo conduzida, diante do sistema capitalista.

Eduarda Moro

CRP 06/182921
Psicóloga, Mestra em Educação e Doutoranda em Ciências Humanas. Interessa-se por temas relacionados as humanidades, problemas da contemporaneidade e tudo aquilo que faz a vida mais viva e criativa. Pesquisadora na área de subjetividade e modos de subjetivação.

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Psicóloga, Mestra em Educação e Doutoranda em Ciências Humanas. Interessa-se por temas relacionados as humanidades, problemas da contemporaneidade e tudo aquilo que faz a vida mais viva e criativa. Pesquisadora na área de subjetividade e modos de subjetivação.

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