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Apego Emocional, Dependência e Carência Afetiva: Como Cuidar e Superar

1 de agosto de 2025 by Eduarda Moro Deixe um comentário

O apego emocional, a dependência afetiva e a carência emocional são padrões psicológicos complexos que afetam profundamente a qualidade dos relacionamentos e o bem-estar emocional. Compreender esses fenômenos é fundamental para desenvolver relações mais saudáveis e construir uma vida emocional equilibrada, livre dos padrões disfuncionais que muitas vezes se repetem ao longo da vida.

Mapa clínico: apego emocional vira problema quando restringe a vida

Em resumo: apego, saudade e necessidade de vínculo são humanos. O alerta aparece quando a relação passa a organizar toda a autoestima, gerar medo constante de abandono, tolerância a situações prejudiciais, isolamento, ciúme intenso ou sofrimento que impede estudo, trabalho, sono e outras relações.

Diagrama diferenciando vínculo afetivo, medo constante de perder e prejuízo de rotina ou limites.
O problema não é gostar muito; é perder margem de escolha e autocuidado.
Fluxo visual para cuidar de dependência emocional com gatilhos, rotina própria e apoio profissional.
Recuperar autonomia é diferente de se tornar frio ou indiferente.
SinalO que pode indicarAção útil
Ansiedade intensa quando não há respostaMedo de abandono ou intolerância à incerteza.Criar pausas e outras fontes de regulação.
Aceitar humilhação, controle ou violênciaRisco emocional e físico.Procurar rede de apoio e orientação segura.
Abandonar amigos, estudo ou trabalhoO vínculo está estreitando a vida.Retomar compromissos pequenos e consistentes.
  • Anote situações que disparam urgência de mensagem, vigilância ou reconciliação a qualquer custo.
  • Diferencie pedido legítimo de cuidado de tentativa de controlar outra pessoa.
  • Busque ajuda imediata se houver ameaça, violência, risco de autoagressão ou sensação de não conseguir se manter seguro.

Nota de segurança: dependência emocional não deve ser usada para culpar a vítima em relações abusivas. Segurança, rede de apoio e avaliação profissional vêm primeiro quando há risco.

Para continuar no tema: Psicologia | Psiquiatria | Ansiedade nos relacionamentos | Como diminuir a ansiedade

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Apego Emocional, Dependência e Carência Afetiva: Como Cuidar e Superar”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Em dependência afetiva, o foco útil é transformar sofrimento em limites observáveis: padrões de controle, medo de abandono, isolamento, ciúme, tolerância a desrespeito e dificuldade de pedir ajuda. Relações com violência ou ameaça exigem plano de segurança.

Compreendendo o Apego Emocional

O apego emocional é um padrão de relacionamento que se desenvolve desde a infância e influencia profundamente como nos conectamos com os outros ao longo da vida. Baseado na teoria do apego de John Bowlby, esse conceito descreve as formas como buscamos proximidade, segurança e conforto em nossos relacionamentos significativos.

???? Os Quatro Estilos de Apego

???? Seguro
Confiança, autonomia, intimidade saudável
⚡ Ansioso
Medo de abandono, necessidade constante de validação
????️ Evitativo
Medo de intimidade, independência excessiva
????️ Desorganizado
Padrões inconsistentes, trauma relacional

Dependência Emocional: Quando o Amor Se Torna Vício

A dependência emocional é caracterizada pela dificuldade extrema em manter autonomia emocional, levando a pessoa a se sentir excessivamente ligada e dependente do outro para sua segurança e bem-estar. É como um vício emocional onde o parceiro se torna uma “droga emocional”.

???? Mecanismos Neurobiológicos

Pesquisas em neurociência mostram que o sentimento amoroso ativa as mesmas vias neurais das substâncias psicoativas, criando verdadeiros sintomas de dependência quando o relacionamento se torna disfuncional.

???? Características Principais

  • Necessidade constante de aprovação
  • Medo intenso de abandono
  • Falta de autonomia
  • Priorização excessiva do relacionamento

???? Crenças Disfuncionais

  • “Não posso ser feliz sozinho”
  • “Preciso da aprovação do outro para valer”
  • “Se for rejeitado, não sobrevivo”
  • “Sou responsável pela felicidade do outro”

Carência Afetiva: O Vazio que Não Se Enche

A carência afetiva é a sensação persistente de falta de amor e afeto, muitas vezes acompanhada pela dificuldade em se conectar emocionalmente com os outros. É como um vazio interno que parece insaciável, independentemente da quantidade de atenção recebida.

???? Origens da Carência Afetiva

???? Infância Conturbada
Pais ausentes, disciplina rígida, conflitos familiares
???? Abandono Emocional
Falta de demonstração de afeto, negligência afetiva
???? Traumas Afetivos
Experiências negativas, violência, rejeições repetidas

Sintomas e Consequências no Cotidiano

Tabela de Sintomas e Impactos na Vida Diária
Área de Vida Sintomas Comuns Impactos Concretos Consequências
Relacionamentos Ciúmes excessivos, possessividade, dificuldade em estabelecer limites Conflitos frequentes, rotatividade de parceiros Isolamento social, relacionamentos tóxicos
Saúde Mental Ansiedade constante, depressão, insonia Uso de antidepressivos, crises de ansiedade Transtornos de humor, burnout emocional
Autoestima Autodepreciação, necessidade de validação externa Dificuldade em tomar decisões, medo de errar Paralisia na vida profissional, submissão
Comportamento Comportamentos compulsivos, dificuldade em estar só Vícios em relacionamentos, trabalho excessivo Dependência de substâncias, comportamentos de risco

Tratamentos Eficazes: Caminhos para a Cura

???? Abordagens Terapêuticas Comprovadas

A ciência psicológica oferece diversas abordagens eficazes para tratar apego emocional, dependência e carência afetiva, com resultados comprovados através de pesquisas.

???? Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Objetivo: Modificar pensamentos e comportamentos disfuncionais

  • Identificação de crenças limitantes
  • Reestruturação cognitiva
  • Treinamento de habilidades sociais
  • Exposição gradual a situações desafiadoras
Duração: 12-20 sessões | Eficácia: 70-80% de melhora

???? Terapia de Esquemas

Objetivo: Tratar padrões emocionais profundamente arraigados

  • Trabalho com o “criança interior”
  • Diálogo interno terapêutico
  • Visualização guiada
  • Técnica da cadeira vazia
Duração: 6-12 meses | Eficácia: 75-85% de melhora sustentada

???? Mindfulness e Terapias Baseadas em Atenção Plena

Objetivo: Desenvolver autoconsciência e regulação emocional

  • Meditação de atenção plena
  • Técnica de respiração consciente
  • Escaneamento corporal
  • Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
Duração: Contínua | Eficácia: Redução significativa da ansiedade

Opções Terapêuticas Não-Cirúrgicas

Tabela de Tratamentos Não-Cirúrgicos e Suas Aplicações
Tratamento Indicação Principal Metodologia Resultados Esperados Cuidados Especiais
Psicoterapia Individual Todos os tipos de apego e dependência Sessões semanais de 50 minutos Autoconhecimento, mudança de padrões Comprometimento com o processo
Terapia de Casal Dinâmicas relacionais disfuncionais Sessões conjuntas quinzenais Comunicação saudável, limites claros Ambos os parceiros devem participar
Grupos de Apoio Isolamento social, validação Encontros semanais em grupo Rede de apoio, compartilhamento de experiências Sigilo e confidencialidade obrigatórios
Medicamentos Ansiedade, depressão associadas Acompanhamento psiquiátrico Alívio dos sintomas, estabilização emocional Monitoramento de efeitos colaterais
Práticas Corporais Regulação emocional, conexão consigo Yoga, dança, arteterapia Integração mente-corpo, autocuidado Orientação profissional adequada

Cuidados Essenciais no Processo de Cura

⚠️ Sinais de Alerta que Exigem Atenção Imediata

É fundamental reconhecer quando a situação requer intervenção profissional urgente para garantir a segurança e bem-estar emocional.

???? Emergência Emocional

  • Pensamentos suicidas ou automutilação
  • Isolamento social total
  • Uso abusivo de álcool/drogas
  • Comportamentos de risco extremos

⚠️ Sintomas Graves

  • Sintomas psicóticos (alucinações)
  • Mania ou hipomania
  • Síndrome do pânico frequente
  • Depressão incapacitante

???? Sinais de Alerta

  • Deterioração do funcionamento social
  • Problemas graves no trabalho/estudos
  • Violência em relacionamentos
  • Abandono de atividades essenciais

Estratégias de Autocuidado e Fortalecimento Emocional

???? Plano de Autocuidado Integral

???? Mental

  • Meditação diária (10 min)
  • Diário emocional
  • Leitura terapêutica
  • Terapia regular

???? Corporal

  • Exercícios regulares
  • Sono adequado (7-8h)
  • Alimentação balanceada
  • Massagens relaxantes

???? Emocional

  • Expressão de sentimentos
  • Limites saudáveis
  • Relações de qualidade
  • Tempo de qualidade só

???? Social

  • Grupos de apoio
  • Amizades saudáveis
  • Atividades em grupo
  • Voluntariado

Prevenção e Manutenção dos Avanços

????️ Estratégias Preventivas

A prevenção do recaída é tão importante quanto o tratamento inicial. Manter os avanços requer comprometimento e prática constante.

???? Monitoramento Constante

  • Diário de humor e gatilhos
  • Avaliação mensal de progresso
  • Identificação precoce de sinais de alerta
  • Ajustes terapêuticos quando necessário

???? Metas Realistas

  • Estabelecimento de objetivos alcançáveis
  • Celebração de pequenas vitórias
  • Tolerância com os próprios limites
  • Flexibilidade diante dos desafios

???? Fortalecimento Contínuo

  • Práticas de autocuidado regular
  • Manutenção de rede de apoio
  • Desenvolvimento de novas habilidades
  • Busca por crescimento pessoal

Conclusão

O apego emocional, a dependência e a carência afetiva são desafios complexos que afetam milhões de pessoas, mas que podem ser compreendidos, tratados e superados com as abordagens adequadas. A ciência psicológica oferece ferramentas comprovadas para transformar esses padrões em relacionamentos mais saudáveis e uma vida emocional mais equilibrada.

O processo de cura requer coragem para enfrentar medos profundos, paciência para construir novos padrões e comprometimento com o autocuidado e crescimento pessoal. Com o suporte profissional adequado e o investimento em estratégias terapêuticas eficazes, é possível desenvolver apego seguro, autonomia emocional e relacionamentos verdadeiramente satisfatórios.

???? Lembre-se Sempre:

✓ Você não está sozinho
Muitas pessoas enfrentam desafios similares
✓ A mudança é possível
Com tratamento adequado e dedicação
✓ Busque ajuda profissional
Terapeutas podem guiar seu processo
✓ Pratique o autocuidado
Seu bem-estar é prioritário

Perguntas Frequentes sobre Apego Emocional e Dependência

O que é apego emocional e como ele difere do amor verdadeiro?

O apego emocional é um padrão de relacionamento baseado no medo e na necessidade de segurança, enquanto o amor verdadeiro é construído sobre confiança, liberdade e crescimento mútuo. O apego gera sofrimento quando há separação, o amor permite individualidade e respeito mútuo.

Como identificar se tenho dependência emocional?

Os sinais incluem: dificuldade extrema em estar sozinho, necessidade constante de aprovação do outro, medo intenso de abandono, abandono de próprios interesses pelo relacionamento, tolerância a comportamentos prejudiciais e sensação de que não pode viver sem a pessoa.

A carência afetiva pode ser curada completamente?

Sim, com tratamento adequado é possível curar completamente a carência afetiva. O processo envolve psicoterapia para entender as origens, desenvolver autoestima, estabelecer limites saudáveis e construir relacionamentos mais equilibrados. A cura requer tempo e comprometimento.

Quanto tempo leva para superar a dependência emocional?

O tempo varia de pessoa para pessoa, mas geralmente requer 6 meses a 2 anos de trabalho terapêutico consistente. Fatores como gravidade do problema, histórico de traumas, comprometimento com o tratamento e qualidade do suporte afetam a duração do processo.

Posso tratar sozinho ou preciso de terapia?

Embora práticas de autocuidado sejam importantes, a dependência emocional geralmente requer acompanhamento terapêutico profissional. O terapeuta ajuda a identificar padrões profundos, trabalhar traumas e desenvolver estratégias eficazes de mudança de forma segura e estruturada.

Como o apego da infância influencia os relacionamentos adultos?

O estilo de apego formado na infância torna-se um modelo mental que guia como nos relacionamos. Apego seguro gera relacionamentos saudáveis, apego ansioso cria dependência, evitativo leva ao distanciamento emocional e desorganizado resulta em padrões inconsistentes e caóticos.

Medicamentos são necessários para tratar dependência emocional?

Medicamentos não tratam diretamente a dependência emocional, mas podem ser indicados quando há ansiedade, depressão ou outros transtornos associados. O tratamento principal é psicoterápico, com medicamentos usados apenas para alívio de sintomas quando necessário.

Como estabelecer limites saudáveis em relacionamentos?

Estabelecer limites envolve: conhecer suas próprias necessidades, comunicar claramente o que é aceitável ou não, aprender a dizer “não”, respeitar os limites do outro, manter individualidade e não se sentir culpado por priorizar seu bem-estar emocional.

É possível ter um relacionamento saudável após a cura?

Sim, absolutamente! Após o tratamento, as pessoas desenvolvem apego seguro, conseguem estabelecer limites saudáveis, comunicar necessidades de forma assertiva e construir relacionamentos baseados em respeito mútuo, confiança e crescimento conjunto.

O que fazer quando o parceiro não quer participir da terapia?

Você pode iniciar o trabalho individual para desenvolver sua autonomia e estabelecer limites. Muitas vezes, quando uma pessoa muda seus padrões, o relacionamento também se transforma. Se o parceiro continuar resistente, avalie se o relacionamento é saudável para você.

Como identificar se estou em um relacionamento tóxico?

Sinais incluem: manipulação emocional, controle excessivo, humilhação, isolamento de amigos e familiares, ciúmes doentios, ameaças de abandono, culpabilização constante, falta de respeito aos seus limites e sensação de estar “caminhando em ovos”.

É normal sentir medo de ficar sozinho durante o tratamento?

Sim, é completamente normal. O medo da solidão é uma das características centrais da dependência emocional. O tratamento ajuda a desenvolver autossuficiência emocional e mostrar que estar consigo mesmo pode ser enriquecedor, não assustador.

Como ajudar um ente querido com dependência emocional?

Ofereça apoio sem julgamento, incentive a busca por ajuda profissional, evite reforçar padrões dependentes, estabeleça limites claros, seja paciente com o processo e cuide da sua própria saúde emocional. Lembre-se que você não pode salvar a pessoa sozinho.

Quais são os primeiros passos para iniciar a mudança?

Os primeiros passos incluem: reconhecer o problema, buscar ajuda profissional, começar um diário de autoconhecimento, praticar pequenos momentos de independência, estabelecer micro-limites e investir em atividades que tragam prazer individual.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Fontes de apoio: NIMH: cuidado em saúde mental | NIMH: quando buscar ajuda

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Término de relacionamento: apego e idealização

28 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Término de relacionamento: apego e idealização merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Diante do término de um relacionamento muita coisa vem à tona. São emoções e pensamentos repetitivos que misturados resultam em uma confusão psíquica. É difícil saber por onde começar quando se termina. Somos inundados por sentimentos que se tornam físicos, é como se a ansiedade tomasse uma forma concreta que reverbera no corpo. A barriga dói, a cabeça dói, o enjoo chega. O corpo dá sinais de que sabe que algo não está bem. E não está. Mesmo quando o término parece a única saída, ainda assim, terminar um relacionamento é uma tarefa complexa, pois demanda um ato de reaver questões pessoais que, em muitos casos, foram deixadas de lado para dar seguimento a relação. Sempre me questiono: por que continuamos então? Das tantas respostas possíveis, o apego emocional parece sempre estar envolvido ante a essa situação.

Conversando com um amigo que há poucos dias terminou um relacionamento, pedi a ele que, livremente, escrevesse algo sobre o final. Não tinha a pretensão de escrever sobre apego emocional, minha questão era com o término, queria esmiuçá-lo, analisar o que se repete na cabeça de quem acabara de acabar, mas parece ficar evidente a conexão do apego em sua escrita.

Vamos ao relato:

“ – ‘Ela não é a única pessoa do mundo’, disse um amigo quando falei sobre o sentimento de que nunca encontraria alguém com as qualidades e com a compatibilidade de valores que tinha a pessoa da qual eu estava acabando de me separar.

Ele ainda complementou: “Sei que parece assim agora, mas isso já aconteceu comigo duas vezes e eu continuei encontrando pessoas maravilhosas”. Aí fiquei parado nesse vácuo do tempo esperando e querendo que o tempo passasse logo pra curar toda aquela dor que eu estava sentindo.

É meio ridículo ter que esperar e acho que desaprendi, já esperei muito na vida, me considero um ser com bastante paciência, pois sendo filho de agricultores sei que hora a safra não vai bem e é necessário esperar 1 ano para tentar de novo. Planejamento a médio e longo prazo são coisas que aprendi desde pequeno, quando eu deixava de brincar com meus primos para ficar na cozinha durante a o café da tarde de domingo, fingindo que estava brincando enquanto estava, na verdade, ouvindo os assuntos dos adultos.

Achava meio mágico tudo aquilo, parecia uma outra vida, um outro tempo, coisa mágica, então óbvio que eu queria ser adulto. A adolescência foi péssima e depois de alguns natais celebrados em família, e outros que eu fugi pedalando de bicicleta, os anos se passaram. Agora estou com 30 anos, me separando de um relacionamento de 1 ano e alguns meses, que sinto com uma intensidade que parece ter sido de uma vida inteira. E claro que a dor deve ser proporcional a intensidade toda…”

Muitas questões se apresentam aí, que não dizem só do término. Esse relato parece, de algum modo, representar a confusão psíquica que é experimentada por vários outros sujeitos diante do fim da relação. O que, em suma, poderia resultar em um método prático para viver o fim –  já que são sentimentos e pensamentos que se repetem em diversos casos de término –, acompanhado de respostas prontas e frases que guiam a um recomeço, mas isso não é possível. E não é possível porque terminar com um outro demanda um reencontro, esse que é muito particular, e que é vivido por cada um de modo diferente.

Término e apego emocional: sobre idealização do outro e o medo do novo

Quando uma relação acaba sentimos que algo de nós acaba também. E de fato acaba, porque o término cinde com a idealização que fazíamos do parceiro e do casal que se formava junto deste.

A idealização é um processo psíquico pelo qual projeta-se aquilo tudo que se deseja em um parceiro, que sempre é da ordem do ideal e sem espaço para falha. É um arquétipo que se organiza entorno de uma imagem, que representa o que consideramos bom e adequado para nós e que precisa ser atendido pelo outro da relação. É junto da idealização que se produz pensamentos como o do relato acima: “nunca vou encontrar alguém igual a essa pessoa”. E de fato, não vai. Mas não vai porque aquela pessoa estava vinculada a um ideal, era nosso desejo refletido e materializado.

A idealização não reflete apenas nossa demanda urgente de que alguém atenda todos nossos desejos e expectativas, mas diz também sobre uma outra idealização: a construção da família. Daí a importância de que alguém corresponda ao nosso ideal de par, dado que estamos buscando um outro para realizar um ato grandioso que é a construção de uma nova família. Essa então, que precisa dar conta de preencher aquilo que “faltou” na família de origem.

A construção de uma nova família com o par idealizado cria uma noção de urgência, de pressa, principalmente quando isso tudo carrega o peso da idade cronológica, que nesses casos é sentida como cobrança. Nos cobramos por não termos encontrado ainda alguém ideal para constituir uma família, porque nossa concepção de vida adulta está frequentemente atrelada a isso: a união com um outro, que comigo irá inaugurar uma nova família.

Precisamos considerar isso tudo quando enfrentamos a dor do término. A dor é real, sentimos falta da presença do outro, da rotina e dos desejos construídos com o par. A intensidade descrita na fala citada também é real. Não há como apressar a dor. Todos os sentimentos e pensamentos que resultam da experiência do término são também decorrentes do apego emocional. Cabe lembrar que o apego emocional não está conectado apenas ao outro e aquilo que foi vivido com esse outro; o apego emocional refere-se também a idealização do par e tudo aquilo que se projetou nessa relação.

Sobretudo, os sentimentos que experimentamos ante a um término são derivados do que está por vir. Até então estávamos acostumados com o outro, com o que éramos junto desse outro, com a rotina. Quando uma relação termina, essas certezas que se construíram terminam também. Não há como saber o que vem depois da dor, depois de um fim. O novo assusta tanto quanto o final. Mas uma certeza podemos ter: existem outras pessoas no mundo.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

termino de relacionamento
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Término de relacionamento: apego e idealização, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Finitude: como pensar a vida e o cuidado emocional

28 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Finitude: como pensar a vida e o cuidado emocional merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Resposta direta: pensar sobre finitude pode ser saudável quando ajuda a reorganizar valores, prioridades e vínculos. O sinal de cautela aparece quando o tema vira medo constante, desesperança, isolamento, perda de sentido ou vontade de desaparecer.

Texto escrito em coautoria da psicóloga Maria Carolina da Silveira Moesch. Mestra em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais

Muitas notícias têm sido veiculadas sobre a saúde mental, ou mais especificamente a falta dela, na pós pandemia, ou na sindemia (termo que vem sendo utilizado para o momento que estamos vivendo, já que sindemia, significa um conjunto de problemas de saúde interligados). Aponta-se para um aumento significativo do sofrimento humano decorrente dos diferentes efeitos da Pandemia, sejam eles efeitos físicos, sociais, culturais e psicológicos.

Sabe-se que a emergência humanitária sanitária que vivemos, acabou descortinando outras fissuras da humanidade: as violências de gênero aumentaram, as violências contra as crianças e adolescentes, a fragilidade atual das diferentes políticas públicas, em especial a educação, assistência social e saúde. Isso sem falar das questões socioeconômicas, a falta de comando dos governos para uma melhor gestão da pandemia, e ainda as questões de saúde e saúde mental que já existiam e que se tornaram mais agudas. Vivemos agora momentos de desastres dentro do desastre.

Enquanto profissionais da psicologia, atuamos como psicólogas em situações de desastres. Maria Carolina de forma mais efetiva do que Eduarda. Contudo, podemos dizer que, profissionalmente e pessoalmente, nossas vidas foram perpassadas por situações de desastres. Ainda assim, não de forma tão expressiva como agora, não de modo tão visível e exposto como os dias que vivemos. Talvez, enquanto humanidade, nos demos conta, de forma muito intensa, da finitude da vida, da finitude dos processos de trabalho, das relações sociais, das relações familiares, do cotidiano conhecido, de nós mesmos. 

Também, muito foi ponderado dentro dos grupos que trabalham com o sofrimento humano (psicólogos, terapeutas, médicos) sobre os processos de perdas, os lutos legitimados e não legitimados, nos atravessaram com intensidade. Não pudemos deixar de olhar para a importância dos rituais fúnebres para as famílias e amigos, para as perdas do cotidiano de ir a escola, de estar juntos a mesa para compartilhar, da vida, do alimento, do abraço que ficou suspenso, do trabalho que mudou de lógica e intensificou-se, perdendo-se em termos de temporalidade e misturando-se com a intimidade do lar.

Viorst (2005) nos diz que o modo como experienciamos nossas perdas, diz muito sobre o modo como vivemos. O que nos leva a reflexão, sobre a presencialidade nos processos afetivos que passam por nós.

Como vivemos e experienciamos nossas perdas? Há experienciamos nesta atualidade fluída? De um compromisso adoecedor por uma felicidade constante que não existe?! Perguntas que cabe a cada um a reflexão.

Cabe aqui, resgatar de forma menos teórica e mais visceral sobre como compreendemos os processos de morte e o enlutar-se. E o que é esse luto?  Partimos das palavras da escritora Chimamanda, de que o luto é uma forma cruel de aprendizado. Para a autora com o luto,

“Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca de palavras” (NGOZI ADICHiE, 2021, p. 14).

Ou ainda:

“O Luto é uma estrada não pavimentada e imprevisivelmente sinuosa. Ele é inflexível e parece desordenado ou “incivilizado”, sobretudo para aqueles que aderem ao “culto da felicidade”. O luto é um antiestabilizador, um processo que viola regras, sendo resistente à contenção. O luto se recusa a seguir protocolo. É um território sagrado que pertence a cada indivíduo” (LUZ, 2021.p. 19-20).

De fato, essa imprevisibilidade atrelada à inflexibilidade nos rouba a falsa sensação de segurança. Não cabe aqui uma explicação teórica sobre o processo da morte, o morrer e o luto. Cabe a nós a reflexão sobre a finitude de processos vividos, e o novo/velho que pode se abrir, já que o mesmo não deixa de ser (uma cruel) aprendizagem, e um caminho que trilhamos só.

Sobre o luto: finitude(s) da vida e de vidas

Nos é estranha a tarefa de pensar, ler, dizer da morte. A morte, do modo como a concebemos conceitualmente, representa o fim da vida orgânica. Refere-se a um processo que não conhecemos por experiência própria, ainda. Da morte, temos apenas a concepção daquilo que se constrói a partir do imaginário coletivo e da observação que ronda a morte de um outro. Somos sujeitos marcados pelas experiências, são elas quem nos conduzem à consciência, das coisas e das coisas da vida. Por isso, talvez, dizer da morte seja tarefa árdua. Enquanto permanecermos vivos, da experiência da morte orgânica não saberemos.

Contudo, a morte não está atrelada apenas ao corpo físico…

Morte é também finitude, mas não é na morte que moram todas as finitudes da vida. Diferente da morte, a finitude é um fim passível de experimentação durante a vida. A finitude comporta a vida, dá contorno a ela e mesmo quando encerra algo, também inaugura. É, inclusive, por sabermos da finitude que nos confortamos com a morte de alguém, compreendendo que também cabe finitude no sentimento e na experiência da dor da perda.

Há muito começo que só é inaugurado pela finitude. Seja de um dia ruim, de um término, de um processo, ou até mesmo de um emprego. Enfrentamos finais mesmo quando não os nomeamos assim. Talvez, não passemos ilesos desta experimentação do fim, a finitude também há de doer, mas certamente, é um final que nos conduz a um novo início. Por isso mesmo a finitude é demarcada por um sentir que é agridoce, vivê-la é sempre encontrar com o amargo e com a doçura, tal como é com a vida.

Nós só sabemos o que é doce porque experimentamos o amargo. Ainda assim, parece não haver mais espaço para viver o que não faz da vida alegre, nos tempos atuais. Buscamos métodos, terapias, vídeos e cursos que de algum modo nos conduzam a um aceleramento do processo do sentir a finitude. A cultura ocidental parece ter vinculado a ideia de produção ao sentimento de fim, de modo que, passar por um processo de finitude nos tornaria improdutivos devido as emoções atreladas aos finais. Sofrer o fim seria então estar contraproducente àquilo que se espera da vida. Justamente por isso, precisamos atentar para a compreensão do que se espera da vida contemporânea.

A vida é perpassada de finitudes. Sejam essas as finitudes orgânicas, emocionais, de experiências. O fim é uma certeza que temos diante de todos os processos de vida. Quando buscamos apressar aquilo que é da ordem do fim, não estamos de modo algum ilesos das emoções que advém das finitudes, mesmo quando acreditamos nisso. Viver o fim é o que nos aproxima da própria vida, e de um viver que se conecta com o mais íntimo do que ainda está vivo em nós.    


Referências:

VIORST, J. Perdas Necessárias. 4ªed. São Paulo. Editora Melhoramentos, 2005. Tradução: Aulyde Soares Rodrigues.

LUZ, R. O luto é outra palavra para falar de amor. 1º Ed. Editora Ágora. 2021

NGOZI ADICHiE, C.. Notas sobre o luto. Tradução Fernanda Abreu. 1º ed. São Paulo, Companhia das  Letras, 2021.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

finitude
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando refletir sobre finitude ajuda

Refletir sobre finitude pode aproximar a pessoa do que é concreto: relações, tempo, escolhas, despedidas e limites. Em saúde mental, essa reflexão é diferente de ruminação. A reflexão abre espaço para decisão; a ruminação repete medo, culpa ou desespero sem produzir cuidado.

ExperiênciaLeitura útil
Tristeza ao lembrar perdasPode fazer parte do luto e da elaboração.
Medo constante de morrerPode indicar ansiedade, pânico ou trauma.
Perda de sentido persistentePede avaliação se reduz vida social, sono ou autocuidado.
Vontade de sumir ou morrerÉ sinal de risco e precisa de ajuda imediata.

Como conversar sobre o tema sem romantizar sofrimento

A pergunta não deve ser “como transformar dor em aprendizado” a qualquer custo. Uma formulação mais cuidadosa é: que parte dessa experiência pede apoio, que parte pede descanso e que parte pede mudança de ambiente? Nem todo sofrimento precisa ser produtivo para ser levado a sério.

Em luto, doença grave, perda de função ou crise familiar, a pessoa pode precisar de escuta, rotina mínima, suporte prático e acompanhamento profissional. Falar de finitude com seriedade é reconhecer limites, não exigir força permanente.

Quando buscar apoio estruturado

Em Finitude: como pensar a vida e o cuidado emocional, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Educação escolar: sobre o fracasso escolar

27 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

A primeira parte desse texto você encontra clicando aqui.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Educação escolar: sobre o fracasso escolar”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Para Sanches (2002), o fracasso escolar é entendido como um processo que só existe no circuito do desânimo, acometendo apenas os setores populares, e se expressa por meio do baixo rendimento, da repetência, e da desistência – desistência esta não do aluno pela escola, mas da escola pelo aluno; uma forma de “expurgá-lo”.

Contudo, se o fracasso escolar de fato existisse tal como é concebido, poderíamos facilmente desmistifica-lo a partir dos dados que comprovam que a desigualdade escolar começa antes mesmo da criança ingressar na escola. A verdade, ao menos para mim, é que o que existe não é um fracasso escolar por parte do aluno, mas sim, um fracasso escolar do sistema de ensino. Sistema esse que pouco permite e conduz a criança a um pensamento crítico, pois segue de maneira rígida apostilas e livros conteudistas que pouco chamam a atenção dos alunos. O que torna pouco interessante o conteúdo que se aprende, fazendo com que a criança não consiga refletir e absorver o que vê em sala de aula.

As crianças que repetem tem o dobro de probabilidade de não terminar sua escolaridade básica. Mas, por que elas repetem? Porque seus professores acreditam que elas não aprenderam o que deveriam ter aprendido no ano letivo. As crianças que repetem são as que não se alfabetizaram no tempo e da forma que os professores consideram que elas deveriam ter feito. Os repetentes são provenientes dos setores mais vulneráveis da sociedade. O fracasso escolar depende da sua condição socioeconômica. O que prova que o fracasso escolar é na verdade decorrente do próprio sistema de ensino…

educacao na escola

Mesmo entendendo o fracasso escolar como uma ideia fajuta do sistema capitalista – afim de culpabilizar o aluno e não ao sistema educacional que não está preparado para lidar com as realidades encontradas em sala de aula –, é necessário pensar como prevenir que isso continue acontecendo.

Para Sanches, a prevenção do fracasso escolar deve passar pela promoção e uso eficiente da leitura e da escrita. Vale lembrar que estar alfabetizado não quer dizer saber ler e escrever. “Saber ler é compreender o que se lê, e saber escrever é saber esculpir as ideias segundo as convenções da escrita; saber escrever não é simplesmente por no papel as coisas tal como se diz falando.” (p. 23).

Desde a invenção da escola, a responsabilidade desta é a de alfabetizar seus alunos. Mas quantos de nós podemos nos considerar, de fato, aptos a ler o mundo e escrever sobre ele?

No ano de 2019, o IBGE apresentou resultados de pesquisa sobre escolarização revelando que “no Brasil, a proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade que finalizaram a educação básica obrigatória, ou seja, concluíram, no mínimo, o ensino médio passou de 47,4%, em 2018, para 48,8%, em 2019”. Índices baixíssimos e que podem se tornar ainda mais alarmantes se colocássemos nessa conta o que nomeia-se de analfabetos funcionais.

Esse termo é utilizado para se referir aos adultos que são alfabetizados mas que possuem grande dificuldade na compreensão e aplicação de textos e conceitos.

Educação escolar: os desafios que ainda precisamos enfrentar

A democracia na educação não deve estar relacionada apenas a garantia ao acesso à escola, mas a garantia a um sistema de qualidade e a permanência nesse sistema, só assim será possível proporcionar uma real igualdade de oportunidade para as crianças que vivem de modo precário. Não obstante a isso, é preciso considerar como a pandemia afetou o processo de escolarização.

Com a pandemia do covid-19 as problemáticas relacionadas ao processo educativo se agravaram. Quem tem criança em casa sabe que a tentativa de dar continuidade às aulas com o ensino remoto não só foi complicada em termos de adaptação, como também, sobrecarregou famílias, professores e mostrou a discrepância que vivem os alunos de escolas públicas e privadas.

O método de ensino e as aulas expositivas têm sido frequentemente rechaçados por quem acredita que o ensino precisa de renovação. Atrelado a esse discurso está a noção de que devemos nos amparar na tecnologia para melhor receber as crianças que chegam, e que desde muito cedo são mediadas pelas telas. Mas aí também mora um problema…

O filósofo Christoph Turcke analisa essa questão ao comparar a dificuldade de concentração de crianças e adolescentes àquilo que se nomearia de déficit de atenção. Sobre alunos de ensino fundamental e ensino médio, o filósofo pontua que:

“São crianças que não conseguem se concentrar em nada, nem se demorar em algo, nem construir uma amizade, nem persistir em uma atividade coletiva, crianças que não concluem nada que começam. Elas são impelidas por uma agitação motora constante, não acham nenhum refúgio, nenhuma válvula de escape, e se transformam em estorvos constantes para escola, família e colegas. Não obstante, há um meio muito eficiente para deixá-las quietas. “Quando crianças que não podem ficar quietas, que movem os olhos para a direita e para a esquerda, procurando alguma coisa e evadindo-se, sentam-se diante de um computador, seus olhos tornam-se claros e fixos”, escreve o terapeuta infantil Wolfgang Bergmann. Elas se movimentam nos jogos e contatos on-line “com uma segurança de que não dispõem na chamada ‘primeira realidade’, no dia a dia de sua vida”.”

O que fica evidente após essa observação é que crianças e adolescentes, em idade escolar, tem sido hiper estimulados através do uso constante das telas: celulares, televisão, computador, tablet. Isso nos interessa aqui porque, em muitos casos, o diagnóstico que se faz de estudantes com transtorno de déficit de atenção é baseado na dificuldade de concentração do aluno em sala de aula. O mesmo aluno que em casa pode passar horas em frente ao computador jogando, por exemplo. Perceba que então não se trata de dificuldade de concentração, já que quando ambiente e estímulo são modificados, a criança consegue estabelecer o foco.

Não há como negar que existem sim muitos casos de TDAH, mas existem também muitas crianças sendo medicadas devido a um diagnóstico raso. Tendo isso em vista, precisamos entender que a tecnologia e a hiper estimulação em sala de aula, não são a saída do problema; eles nos arrastam de volta para a crise educacional, visto que o que precisamos de fato estimular nos alunos é a capacidade de concentração e foco, produzir e encorajar os estímulos que só acontecem a partir da interação humana, para que então consigamos vislumbrar um futuro melhor.

O processo de ensino-aprendizagem deve ser uma preocupação de todos nós, psicólogos, mães e pais, educadores, familiares. A escola é ainda uma das melhores possibilidades pelo meio da qual se faz possível desenvolver sujeitos críticos, pensantes e capazes de compreender e analisar os problemas do mundo.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Referências

SANCHES, Carlos. A escola, o fracasso escolar e a leitura. In: LODI, Ana Claudia Balieiro et al. (Orgs). Letramento e minorias.  Porto Alegre, Mediação, 2002, p. 15-26.

TURCKE, Christoph. Cultura do déficit de atenção. Disponível em: https://www.revistaserrote.com.br/2015/06/cultura-do-deficit-de-atencao/

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Educação escolar: desafios e saúde emocional

27 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Educação escolar: desafios e saúde emocional merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Educação escolar: desafios e saúde emocional: conecte comportamento, ambiente e prevenção. Em temas de saúde pública, a decisão prática depende de risco real, frequência, contexto social, acesso a informação confiável e medidas simples que reduzem dano sem criar medo desnecessário.

Desafios escolares podem envolver aprendizado, atenção, sono, saúde emocional, ambiente familiar, método de ensino e acesso a apoio. Antes de rotular uma criança ou adolescente, é melhor entender o padrão das dificuldades e como elas aparecem na escola e em casa.

Muito tempo se passou desde que começamos a discutir o problema da educação escolar. Porém, anos passam, crianças entram e saem das escolas, e as críticas quanto ao processo de escolarização continuam as mesmas. As recomendações para uma possível mudança também continuam sendo similares, mesmo quando já se mostraram ineficazes. Os investimentos feitos nesses anos de luta não foram suficientes ou eficientes, pois se perdeu o foco do problema.

Mas afinal, existe um foco?

Pensar no foco do problema não seria acreditar em uma causalidade circular, onde existe começo, meio e fim. Ou simplesmente culpabilizar o método de ensino com o qual nossos professores trabalham. O problema da educação escolar é mais complexo que isso…


Precarização do ensino e aprendizagem

importancia educacao escolar

Não é novo o discurso acerca da democratização do ensino como uma garantia de mudança real na educação. A democratização pode ser entendida como um processo que consiste em garantir o acesso à educação básica para todas as crianças, e posteriormente, facilitar o ingresso nas universidades. Mas, de qual democracia se fala? Apenas garantir o ingresso à escola não é garantia de oportunidades iguais. É necessário refletir sobre as condições em que esse acesso se dá e principalmente, refletir sobre a existência de duas realidades presentes em nosso contexto social.

Duas realidades tão discrepantes que basta passar em frente a uma escola particular e a uma escola pública para perceber as diferenças gritantes, que refletem também no modo de conduzir e pensar o planejamento das aulas. Duas realidades tão desiguais, que para cada uma existe um diferente modo de conceber a educação escolar, é o que Sanches (2002) vai nomear de: o ensino de excelência – para os setores privilegiados, e o de baixa qualidade – para os setores populares.

Mas por que não se fala sobre essas duas realidades quando o problema da educação é discutido? Uma suposição é a de que para considerar estas distintas realidades, seria necessário abandonar o discurso da meritocracia, visto que já se nasce em uma realidade desigual ou muito privilegiada, e não se pode culpabilizar o sujeito por isso.

Na escola, estas duas realidades se apresentam como o “circuito da excelência” e o “circuito do desânimo” (Sanches, 2002). E se as diferenças no modo de se vestir, de dialogar, diferenças que são visíveis a olhos pouco treinados e que chamam atenção de quem não estuda sobre o tema, a diferença existente no método de ensino é ainda maior e mais preocupante. Se o espaço físico de ambas as escolas não fosse discrepante o suficiente, a própria equipe que ampara o professor é diferente em cada um destes circuitos. O circuito de excelência conta com equipe preparada, formada para estas especificidades, que subsidiam e complementam o trabalho do professor. Já no circuito do desânimo, o que se vê por vezes é uma direção que não auxilia os professores diretamente no trabalho educacional, e que funciona mais na lógica de “punir alunos” (ex: aluno vai para direção quando atrapalha as aulas).

No circuito de excelência não existe fracasso escolar, desistência ou repetência, estes alunos desde muito cedo precisam apenas se preocupar em estudar para entrarem em universidades de alta exigência, federais, estaduais, para cursar, as já destinadas, carreira de prestígio. Vale ressaltar que 90% dos alunos destas escolas, ingressam sem problemas nas universidades, e os cursos mais procurados entre estes alunos estão geralmente relacionados a carreiras notórias, como a medicina, as engenharias, etc..

A realidade do circuito do desânimo é absurdamente inversa… Composto por escolas públicas – e escolas particulares, cujo único objetivo é o lucro do dono destas escolas, essas instituições sofrem com o descaso e a verba mínima repassada pelo Estado. Se no circuito de excelência estuda-se para chegar a grandes universidades, aqui, encaramos uma outra realidade. Porém, isso não se deve ao insucesso dos alunos, mas sim a defasagem do ensino público quando comparado a redes de ensino privadas.


Dados sobre fracasso escolar

Existem duas realidades em que a educação se situa, como acima colocadas: circuito de excelência e circuito do desânimo. Até este ponto, deve ter ficado claro que os alunos destas realidades são diferentes, e não falo aqui apenas da diferença subjetiva, mas provenientes de condições socioeconômicas diferentes. Essa diferença se constitui como um fator determinante no acesso a um ensino de qualidade para uns e um ensino precário para outros.

O próprio estímulo familiar das crianças do circuito de excelência é diferente. Enquanto estes têm um ambiente que instiga a leitura, fácil acesso a informações e a instrumentos culturais e novas tecnologias, muitos alunos do circuito do desânimo enfrentam uma realidade desigual desde a infância, seja pela pobreza em si, seja pela falta de tempo dos pais que batalham diariamente para sobreviverem no sistema capitalista.  

Essa diferença mostra-se principalmente no ingresso destes circuitos na escola, na alfabetização destas crianças. A alfabetização é aqui entendida como um processo que começa por volta do segundo ano de vida, tem a duração de quatro anos em média, e acontece em três períodos: pré-fonético, silábico e alfabético. É um processo cognitivo, produto da interação da criança com materiais escritos.

Quase 100% das crianças que entram na educação básica do circuito de qualidade já estão alfabetizadas. Crianças alfabetizadas do circuito do desânimo não chegam a 10%, e mais de 50% se encontram nos níveis iniciais de alfabetização (pré-fonética), e irão demorar de um a dois anos para alfabetizarem-se. De modo que a alfabetização do circuito de qualidade se dará na primeira série, já o circuito do desânimo, apenas na metade da terceira série. Mas ainda assim insiste-se em propagar a ideia de “fracasso escolar”, como forma de culpabilizar a própria criança.

Falaremos mais sobre a questão do fracasso escolar na continuação do texto, clicando aqui.



Referência:

SANCHES, Carlos. A escola, o fracasso escolar e a leitura. In: LODI, Ana Claudia Balieiro et al. (Orgs). Letramento e minorias.  Porto Alegre, Mediação, 2002, p. 15-26.

Quando buscar apoio estruturado

Em Educação escolar: desafios e saúde emocional, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Quando procurar avaliação

Procure apoio quando o sofrimento interfere em sono, apetite, estudo, trabalho, vínculo, autocuidado ou segurança. Pensamentos de morte, violência, uso de álcool ou remédios para aguentar o dia, crises repetidas ou isolamento importante exigem rede de cuidado mais próxima.

Como acompanhar a evolução

  • Monte uma linha do tempo curta: início, evolução, fatores de piora e melhora.
  • Separe sintoma principal, sinais associados e impacto nas atividades.
  • Defina quando reavaliar se a melhora esperada não acontecer.

Como decidir sem alarmismo

Informação útil deve aumentar clareza, não culpa ou medo. Para Educação escolar: desafios e saúde emocional, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

CamadaPergunta útil
Risco realQual dano a orientação tenta reduzir?
FrequênciaÉ um evento raro ou uma exposição cotidiana?
AmbienteO contexto facilita ou dificulta a escolha saudável?
Ação simplesQual medida prática melhora segurança sem alarmismo?
Evite concluirPrefira perguntar
“Risco raro não importa”Gravidade do dano e facilidade de prevenção.
“Informação basta”Ambiente, acesso e comportamento real.
“Medo muda hábito”Medidas simples e repetíveis funcionam melhor.

A melhor orientação é a que cabe no cotidiano: reduzir exposição, melhorar ambiente, criar lembretes, facilitar escolhas seguras e evitar medidas complicadas que ninguém mantém.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: WHO: health promotion.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Ego e realidade: quando a autoimagem pesa

26 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Ego e realidade: quando a autoimagem pesa merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Texto escrito em coautoria de Tuanny de Paula, Jornalista e Especialista em Comunicação e Marketing Digital

Narciso tinha um magnetismo fora do comum. Dotado de uma beleza única, sabia disso e desprezava todas as declarações apaixonadas que batiam à sua porta. Ninguém era bonito ou bom o suficiente para suprir as suas necessidades carnais e espirituais. O ego falava mais forte. Parecia que a solidão era mais agradável do que dividir com alguém que não era belo o suficiente para ele.

Entre os inúmeros rejeitados pelo jovem, esteve Eco. Amaldiçoada a repetir as palavras de quem se dirigia a ela, aproximou-se de Narciso apaixonada e sofreu uma rejeição tão grande que foi mais dolorosa do que sua penitência. Por fim, morreu de fome e sede, pois a beleza da vida lhe foi tirada.

Mas, Narciso pagou por seu egocentrismo. Foi amaldiçoado por Nêmesis, a deusa da vingança, que levou o rapaz a visualizar e apaixonar-se pelo próprio reflexo no fundo de um lago. Não conseguia desviar os olhos da perfeição que ele sempre desejou e, por fim, morreu de amor por algo que não poderia ter: ele mesmo.

É irônico pensar que na vida cruzamos com diversos Narcisos, atraídos pelo magnetismo de suas belezas. E essa ilusão é tão superficial, como uma água parada que, ao ser tocada, cria ondas que revelam o conteúdo real ao fundo.

Porém, essa definição não está apenas no outro, está em nós mesmos também. O ego de Narciso encontra-se na construção do nosso eu, primitivo no início, depois limitado pela imposição das demais realidades que interagimos.

É possível pensar na seguinte situação: Sonia buscava um emprego ligado aos seus valores, ao que acredita e ao que busca para o seu crescimento profissional e pessoal. Após uma entrevista para uma vaga que parecia perfeita, mas que ela entendia que era um grande desafio, as expectativas estavam altas para o desejado sim.

Veio a rejeição. “Será que eu não sou boa o suficiente?”, perguntou-se. O ego, onde se encontra o centro de tudo o que Sonia é, estava em sofrimento. E isso é errado?

Meu ego não é egoísta. Ou é?

Quando nascemos, as nossas interações com o mundo se dão de forma mais instintiva. Ainda não estamos limitados pela realidade imposta pela convivência em sociedade, então somos movidos pelos impulsos que nos causam prazer, aquilo que Freud denominou de pulsão.

Conforme crescemos, esses impulsos se tornam cada vez menores, pois tomamos consciência do espaço que ocupamos, nos limitando pelas interações e identificações que encontramos no caminho. A realidade do mundo passa a impor limites ao nosso ego.

Não podemos negar que ter um ego bem estruturado é importante para que se construa aquilo que nomeamos de autoestima, mas há quem mergulhe fundo nisso, tal como Narciso, submergindo no pântano das ilusões egóicas, nas águas profundas de um ego que se converge em um eu ensimesmado. Espaço no qual não existe lugar para um outro, para um não, para o limite.

Retomando a história de Sonia, as ilusões criadas por ela para a vaga inflaram o seu ego e a fizeram criar ilusões sobre o futuro naquela vaga. Mas será que ela estava realmente preparada para encarar a realidade daquela vaga? É preciso reconhecer que o domínio de conhecimento é algo que estamos sempre em busca, e que talvez, ela não tivesse o suficiente para aquele momento. Ou seja, Sonia precisa olhar o próprio reflexo no lago e tocá-lo, para que assim as ondas criadas pelo toque mostrem a realidade do que o eu pode, naquele espaço-tempo.

Sobretudo, a grande questão do ego talvez seja sobre sua capacidade de encarar a frustração e lhe atribuir um novo significado, para que o que é experimentado como prejuízo possa ser convertido em aprendizado.

O ego em sofrimento

Quando o ser humano está imerso em seu próprio ego, fecha-se para o universo, assim como Narciso preso em seu próprio reflexo. Por um momento parece existir só aquilo que sente, como se o mundo ao redor se dissipasse. A dor demanda uma certa urgência, desperta algo no eu que exige uma espécie de atenção inebriante. Isso acontece com certa frequência ante ao sentimento de sofrimento, a dor parece consumir qualquer tentativa de conexão com o que é externo a ela.

Que é doloroso, a gente sabe que é. Não vamos deixar de invalidar a dor, pois ela é concreta, real e diz algo sobre nós mesmos. O importante aqui é saber para onde podemos levá-la, dando a ela um formato de sublimação. É claro que a dor pode ter fim nela mesma e não há nada de errado nisso, mas para produzir diferença na jornada de autoconhecimento e descoberta do eu, faz-se necessária a tentativa mínima de aprender com ela.

A ideia de sublimação refere-se a um processo psíquico, que a partir da experimentação da angústia, ou de um episódio de sofrimento, atribui um novo sentido ao acontecimento, dando a esse uma destinação mais consciente e contornada pelo aprendizado. Isso não só é benéfico para o ego que se encontra machucado, mas possui magnitude para subverter também a noção egóica de um eu demarcado pela solitude.

Quando a dor é compartilhada, expressa pela fala, pela arte ou qualquer outra via pela qual se faz possível de partilhá-la, existe algo que se soma ao eu. O eu encontra o outro. A equação do eu + eu do outro, torna viável a compreensão de que não há existência que não seja demarcada pelo rompimento de idealização do ego.

Susan Sontag (2003) explica que ao nos depararmos com o outro em sofrimento, temos dois caminhos a seguir: o da empatia; e o da falta dela. No entremeio das duas vias está o ego. Quando se compreende que o outro sofre como eu, que o ego do outro também o acusa de falha, questões como aquela citada anteriormente pela personagem Sônia, podem ganhar outro sentido. Invertemos assim a questão: “Será que eu não sou boa o suficiente?”, para: “Será possível que algum eu seja bom o suficiente para dar conta da idealização do ego?”.

A resposta é tão óbvia quanto a própria pergunta sugere. Não há possibilidade de existência narcísica que se sustente diante da noção de que nenhum ego é bom o suficiente para ele próprio.


Referência:

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

realidade ego
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Ego e realidade: quando a autoimagem pesa, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Desenvolvimento infantil: marcos, variações e alertas

25 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Desenvolvimento infantil: marcos, variações e alertas muda conforme idade, ciclo menstrual, gestação, amamentação, crescimento, medicamentos e doenças associadas. Em crianças, adolescentes e gestantes, sinais leves podem ter decisões diferentes das de adultos saudáveis.

Texto escrito em parceria com Raica Moterle – CRP 07/36515. Psicóloga e Pós-Graduanda em Psicanálise com Crianças e Adolescentes

Existe muita coisa que não cabe mais nos tempos em que vivemos, mas que ainda insistimos em cultuar e, de algum modo, preservar, principalmente no que tange o desenvolvimento infantil. Quando uma criança chega à família, junto de sua “chegança”, parece reacender nos familiares que a recebem desejos que são particulares desses. Adjacente a isso, esses mesmos familiares tornam-se responsáveis por traduzir e apresentar o mundo ao bebê. Assim, constrói-se um entorno, que é composto por concepções acerca da vida, crenças e ideologias, que é repassado ao novo membro familiar.

Na infância, esse processo de tradução do mundo é feito de forma mais sutil, mas não menos prejudicial. A criança que chega é recebida com um universo de coisas cor-de-rosa ou de cor azul. Os brinquedos que ganha, costumam ser definidos por seu sexo biológico. De modo que, sua chegada, serve também como um propósito de atualização de crenças e costumes familiares. Funciona tal como um rito, e é do desejo da família que a criança integre esse processo, para que então possa integrar à família.

Integrar é um verbo importante para compreender a complexidade das relações familiares. Integrar é sobre fazer parte de algo, incluir-se em um grupo ou espaço, compor com outros. A família, como sabemos, é o primeiro grupo no qual somos integrados e é neste meio que, pouco a pouco, vamos constituindo nossa identidade. É também a partir do núcleo familiar que aprendemos, primeiramente, sobre o que é considerado característica de um homem e de uma mulher. Não porque, de fato, existam características determinantes, mas porque a sociedade as constrói e a família então repete.

A importância de refletir sobre esses processos, que se repetem nas famílias quando um bebê chega, relaciona-se com o entendimento de que os primeiros anos do desenvolvimento infantil merecem mais atenção. Durante os primeiros anos, tem-se o costume de infantilizar a criança. Isso parece estar correto, certo?! Mas não é bem assim que funciona. Infância e infantilização não são termos complementares, ou ao menos, não deveriam ser.

Tal como ocorre no processo de alfabetização, no qual a criança é inserida na linguagem, é preciso compreender que seu processo de integração à família perpassa pela mesma via. Tomar consciência da criança em sua integralidade, trata-se também de validá-la enquanto um sujeito que está aprendendo sobre o mundo, a partir do que lhe é ensinado. Dado que é a partir do imaginário e das concepções sociais da família que a criança descobre o mundo e então passa a significá-lo, é de suma importância que a família entenda sua influência nessa etapa do desenvolvimento. Nessa fase se introjeta aquilo que vê, que ouve e percebe, traduzindo isso em uma leitura do mundo.

Desenvolvimento infantil: a criança enquanto indivíduo

criancas


Há algumas coisas nas quais precisamos nos colocar a pensar:

– O que falha na família na hora de receber novos integrantes?

– De que modo reafirmamos funções sociais no desenvolvimento infantil e como evitar que aconteça?

– Quais mitos, comportamentos e concepções têm sido repassados, de geração para geração?

Para que a criança possa se desenvolver de forma saudável e íntegra, não importa a ela de que modo se configura a família. Se são dois pais ou duas mães, se são pais biológicos ou adotivos, ou qualquer outro rearranjo familiar que se componha. O que importa e produz diferença nessa fase é que seja respeitada enquanto sujeito.

Tendo isso em vista, vale também questionar: qual e como é o mundo que apresentamos para as crianças? Se o que é ensinado é traduzido como primeira concepção da sociedade, a família está ativamente imbricada no modo como a criança constitui-se subjetivamente. Quando se sugere que a menina brinca de casinha e o menino pode aventurar-se, está se ensinando sobre o papel social do homem e da mulher. É nesse espaço-cronológico que se produz mitos e irrealidades, que tornam-se reais pela ênfase e repetição de discursos e ações. É também aí que se inventam narrativas como a do instinto materno, por exemplo, quando se ensina uma menina a cuidar de uma boneca, amamentá-la, trocar sua fralda.

O sujeito é sempre constituído a partir do encontro com outro humano. Considerando isso, pode-se dizer que a linguagem é o que emancipa esse novo sujeito, a partir do intermédio entre linguagem, criança e o outro. Esta tem papel fundamental nesse encontro, do sujeito com o mundo, e é quem ampara, estrutura, e condiciona a subjetividade humana. Reafirmamos assim a noção de que a inscrição da criança na sociedade, experimentada primeiramente por meio da integração à família, é também carregada pelo que lhe é atribuído culturalmente, de forma muito particular e diversa nos inúmeros modos de existir e se relacionar no mundo. É nesse lugar, na relação com um Outro que nos atravessa a existência, que atribuímos sentidos, significados e que nomeamos as coisas do mundo.

Conclui-se então que o desenvolvimento infantil depende de um contexto familiar que tenha consciência de seu papel ativo na tradução e na apresentação da sociedade e de tudo que compõe a vida humana. É necessário, sobretudo, que seja concebida, como já citado anteriormente, enquanto um indivíduo, assim como pontua Winnicott:

“Desde o início é possível a um observador perceber que a criança já é um ser humano, uma unidade. Com um ano, a maioria das crianças já adquiriu de fato o status de indivíduo. Em outras palavras, a personalidade tornou-se integrada. É claro que isto nem sempre é verdade, mas pode-se dizer que, em certos momentos, ao longo de certos períodos e em certas relações, a criança de um ano é uma pessoa inteira. Mas a integração não é algo automático, é algo que deve desenvolver-se pouco a pouco em cada criança individual. Não é mera questão de neurofisiologia, pois, para que seu processo se desenrole, há a necessidade da presença de certas condições ambientais […] (2011, p. 6)”

Por fim, cabe dizer que acreditamos que a criança não pode ser tomada pelo significado que já lhe foi atribuído nos tempos antigos, como o “infan”, termo que se refere àqueles que não tem voz ou lugar de fala. O desenvolvimento infantil está inteiramente relacionado as condições sociais e humanizadoras a que a criança é exposta, não basta somente um, tampouco outro. Há necessidades básicas que precisam ser supridas para que eticamente se possa viver e se desenvolver.  


Referência:

D.W. Winnicott. A família e o desenvolvimento individual. Martins Fontes, 2011.

Cuidados em ciclos, gestação e infância

Em Desenvolvimento infantil: marcos, variações e alertas, idade e fase de vida mudam a leitura. Crianças, adolescentes, gestantes, puérperas e pessoas em amamentação têm limites diferentes para sintomas, remédios, exames e espera. O ciclo menstrual, crescimento e histórico obstétrico também alteram a interpretação.

ContextoPor que muda a orientação
Criança ou adolescenteCrescimento, puberdade e dose por peso precisam ser considerados.
GestaçãoAlguns sintomas e medicamentos têm risco diferente.
Ciclo menstrualPadrão, duração, fluxo e dor ajudam a separar variação de alerta.
Doenças préviasAnemia, diabetes, pressão alta e imunossupressão reduzem margem de espera.

Anote datas, intensidade, medicamentos usados, exames anteriores e mudanças recentes. No atendimento pediátrico ou ginecológico, essa sequência costuma ser mais útil que uma descrição genérica do sintoma.

Fontes úteis

  • CDC: desenvolvimento infantil
  • HealthyChildren.org
  • MedlinePlus: saúde infantil

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Falta emocional: por que dói e quando buscar ajuda

19 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Para Luiz Felipe

Mapa clínico: falta, saudade e sinais de sofrimento

Em resumo: sentir falta pode fazer parte de luto, saudade, transição de vida ou vínculo importante. O cuidado muda quando a falta toma o dia inteiro, reduz sono ou apetite, paralisa trabalho, estudo e relações, aumenta culpa ou vem com ideias de não querer viver. Nesses casos, a questão deixa de ser “superar rápido” e passa a ser criar apoio e segurança.

Fluxo visual sobre saudade e falta com mudanças de sono, apetite, isolamento, trabalho e estudo.
Sentir falta é humano; ficar sem funcionamento merece cuidado.
Diagrama de apoio emocional com falar com alguém confiável, manter rotina mínima e buscar ajuda se houver risco.
Apoio não apaga a falta, mas reduz isolamento.
SinalPor que importaCaminho possível
Ruminação o dia todoA mente fica presa no mesmo tema.Criar horários de pausa e conversa.
Isolamento persistenteDiminui proteção social.Combinar contato simples com alguém seguro.
Ideias de não querer viverÉ sinal de risco, não fraqueza.Pedir ajuda imediata.
  • Observe sono, apetite, higiene, trabalho, estudo e vontade de se isolar por mais de duas semanas.
  • Escolha uma pessoa para avisar quando a tristeza estiver difícil de manejar sozinho.
  • Procure atendimento imediato se houver risco de autoagressão ou sensação de que não consegue se manter seguro.

Nota de segurança: sofrimento emocional com ideia de morte, autoagressão, desespero intenso ou perda de controle exige ajuda imediata e presença de alguém de confiança.

Para continuar no tema: Psicologia | Pressão na vida adulta | Ansiedade em relacionamentos

Quando a falta merece mais atenção

Sentir falta de alguém, de uma fase da vida ou de uma versão antiga de si mesmo pode ser uma experiência humana normal. O cuidado muda quando essa falta começa a ocupar todo o dia, compromete sono, apetite, trabalho, estudo, vínculos ou leva a isolamento persistente. Nesses casos, vale observar a rotina com cuidado e buscar apoio, sem tratar a leitura como diagnóstico fechado.

Sinal observadoPor que importa
Oscilações de sono e apetiteMostram que a tristeza deixou de ser apenas uma lembrança e passou a afetar funções básicas.
Isolamento progressivoEvitar contato pode aliviar no começo, mas piora a chance de ficar sem apoio.
Culpa ou ruminação constanteRepetir a mesma cena mentalmente pode aumentar sofrimento e impedir elaboração.
Ideias de não querer viverExigem ajuda imediata e contato com alguém de confiança ou serviço de urgência.

Como transformar a leitura em próximo passo

  • Nomeie o que está fazendo falta: pessoa, rotina, segurança, reconhecimento, descanso ou pertencimento.
  • Observe se o sofrimento diminui, oscila ou aumenta ao longo das semanas.
  • Considere psicoterapia quando a falta vira paralisia, culpa contínua ou isolamento.

Fontes e leituras úteis

Para sinais de sofrimento e estresse, consulte a página da Organização Mundial da Saúde sobre estresse. Em situações de risco imediato, procure atendimento de urgência ou uma pessoa de confiança.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “A falta que a falta faz”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Em saúde emocional, o ganho para o leitor vem de exemplos concretos: padrões repetidos, impacto na rotina, limites possíveis, busca de apoio e sinais de risco. Evite transformar sofrimento em culpa ou conselho genérico.

Fui consumidora fiel do canal da jornalista Julia Tolezano, o JoutJout, prazer, por muitos anos. Aprendi, por intermédio dela, sobre autossabotagem, autoestima, erros que insistimos em cometer… Dia desses, na casa de um amigo querido, encontrei um livro que me remeteu a um vídeo específico do canal. Vídeo esse que trata da questão daquilo tudo que entendemos faltar em nós, intitulado de: A falta que a falta faz. 

A descrição entrega um pouco mais sobre a concepção do vídeo, que foi produzido a partir da leitura do livro A parte que falta (de autoria de Shel Silverstein):

“não sei quanto a você, mas sempre falta um trocinho. às vezes falta muita coisa, às vezes só uma coisinha que parece um mundo de faltas. pra muitos falta o indispensável e aí o que falta pra você parece nada, mas é demais de onde você tá olhando. o negócio é que vai faltar, e depois não vai mais. depois vai faltar de novo e lutar contra a falta parece uma luta cansativa demais pra entrar. então que tal entender a falta, andar com ela, fazer de tudo pra preenchê-la, mas sabendo que ela volta. e que volte! porque saber que vai voltar é um belo de um carinho.”

O vídeo é um convite para pensarmos sobre aquilo que nomeamos e sentimos como falta.

Do significado da palavra, no dicionário, encontramos traduções do termo falta, para: privação, carência, morte, ausência de coisa precisa, útil ou agradável. A falta parece estar, sobretudo, conectada a noção de supressão, de algo ou alguém. 

Na visão da psicanálise, a falta é necessária para que o sujeito possa desejar. E, mais do que isso, é na falta que se assume a posição de busca, de procura, de impulsionamento. Existem faltas que são decorrentes de questões menos complexas, tal como é com o sentimento atrelado a falta de um objeto de consumo, ou até mesmo a falta de uma condição profissional melhor. 

Tem quem sente como falta aquilo que é de ordem estética, buscando um ideal de beleza, de corpo, de um modo de vida que o conduza ao lugar onde a falta já não possa existir e a idealização é concretizada. 

Existe muita coisa na nossa vida que sentimos como falta, e só quando colocamos essas coisas nesse lugar, daquilo que falta, é que somos impulsionados (ou não) a buscar a parte que falta. Esta que pode ser de alguém, de uma situação, de um lugar, do corpo perfeito, de um bem material, de um trabalho melhor… A falta é uma condição intrínseca ao sujeito contemporâneo, e que é demarcada pelo modelo socioeconômico em que estamos inseridos: o capitalismo. 

A falta e o que usamos para preenchê-la

É difícil imaginar uma sociedade de vida mais simples, na qual nada falta. Até porque é a falta nossa motriz. 

Há tempo atrás, escrevi sobre um livro intitulado de “Ideias para adiar o fim do mundo”, de autoria do líder indígena Ailton Krenak. A obra faz parte de uma coletânea que se complementa e que denuncia nosso modo, sucateado, de encarar a vida moderna. 

Em “A vida não é útil”, Krenak, atenta para como nossa concepção de progresso está conectada com a produção de tecnologia. De modo que, somos constantemente apresentados a diferentes e novos aparatos tecnológicos-mercadológicos. Isso não só cria uma falsa ideia do que é necessário para viver, mas também nos conduz a experimentar uma falta que, por vezes, parece ser suprida pelo consumo, por meio da aquisição de materialidades. 

Tenho certeza de que você já ouviu falar sobre pais que suprem sua falta através de compensação (aqui uma matéria interessante sobre a temática). Ou seja, apoiam-se na via material para compensar o filho pela falta, seja essa de afeto, cuidado, amor, diálogo, atenção, etc. 

Mas, será mesmo possível suprimir a falta de afeto por intermédio de um objeto material? 

Convite ao exercício de pensamento:

  • Quantas vezes você já tentou suprir com materialidades a falta de alguém ou de algo que, acredita, faltar? 
  • Nessas situações, qual foi o sentimento que surgiu após a compensação? Quanto tempo durou? 
  • O sentimento de algo que estava faltando cessou? 

A falta que a falta faz

Sobretudo, uma certeza podemos ter: o sentimento, atrelado a noção de falta, há sempre de retornar. Sempre vai faltar.

Nicolau (2021, p. 38), se ampara na teoria psicanalítica para nos mostrar que:

“Na análise, o encontro com a falta implica em que o sujeito renuncie aos ideais e à completude com o Outro, aceitando que é castrado. É com sua falta-a-ser que deverá se encontrar, pois ele está em permanente contato com o vazio que o constitui e com sua divisão estrutural, o que constitui um fator gerador de angústia, colocando o sujeito em constante busca de um significante que possa criar a ilusão de preenchimento e completude. O objeto, segundo Lacan (1988), vem no lugar do ser que foi perdido, suprindo aquilo de que o sujeito foi privado simbolicamente. Isso marca a impossibilidade em eliminar a falta, pois o objeto ausente que completaria o sujeito jamais é encontrado, estando para sempre perdido, o que confere ao desejo sua permanência de para sempre insatisfeito. E isso move o sujeito em direção a novos objetos, na tentativa de obter plena satisfação, que jamais será alcançada.”

Esse trecho nos apresenta questões centrais para compreendermos nossa própria condição, enquanto sujeitos modernos e da conexão dessa condição com a ideia de falta. 

Sobre a falta, entendemos que: 

  • Está, primeiramente, relacionada a uma ideia de que não somos inteiros, completos. Como se fosse necessário buscar o que falta, para então nos constituirmos como um indivíduo completo. 
  • Não pode e não será “saciada”, pelo menos não de forma integral. Quando aquilo que falta é alcançado, realizado, o sujeito sente (não de forma consciente, é claro) que há outras lacunas que faltam. 

Por fim, o que nos conduz em direção a uma vida que se movimenta, que busca, que traça objetivos, não é o que nos preenche. Muito menos aquilo que é preenchido com materialidade. Nada há de nos preencher. Somos indivíduos faltantes, e por isso mesmo, é que desejamos e seguimos. 

Contudo, é preciso atentar-se a isso. Tem coisas acontecendo no aqui e agora. A vida é uma delas. Como diz Jout Jout, vai faltar e depois não vai mais, mas depois vai faltar de novo. E é nesse percurso que a vida acontece, com aquilo que falta… 

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Referência citada: NICOLAU, Roseane Freitas. Quem quer saber da falta? A psicanálise em tempos sombrios. Trivium,  Rio de Janeiro ,  v. 13, n. spe, p. 34-41, mar.  2021.  

Fontes de apoio: MedlinePlus: bereavement | NIMH: do I need help?

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Amor romantico: idealizacao, autonomia e relacoes saudaveis

12 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Texto escrito em colaboração com a psicóloga Kelly Gomes – CRP 12/14830. Especialista em avaliação psicológica. Formanda em análise psicodramática e psicologia e intervenções on-line.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Amor romantico: idealizacao, autonomia e relacoes saudaveis”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Em saúde emocional, o ganho para o leitor vem de exemplos concretos: padrões repetidos, impacto na rotina, limites possíveis, busca de apoio e sinais de risco. Evite transformar sofrimento em culpa ou conselho genérico.

“Não precisamos do amor romântico em nossas vidas”, é o título de uma reportagem da BBC, que dá início a uma série de questionamentos bem pessoais e particulares, que nos faz refletir. A matéria, de Julia Braun, logo no ínicio já entrega um apontamento central para iniciarmos tal discussão:

“Nas sociedades ocidentais, o amor costuma ser apresentado por meio do clichê de duas metades que se encontram para se sentirem completas”.

É preciso então voltar ao início… 

Nossa identidade e tudo aquilo que nos define enquanto nós mesmos, faz parte de uma construção social, que é perpassada pela família, por nossas primeiras experiências, pelo contato com a cultura, etc. Contudo, algo importante a se lembrar é que, tudo isso – e com tudo isso queremos dizer: as coisas, pessoas, saberes, escritos, territórios, experiências e, inclusive, as leis que nos são impostas – são construções sociais inteiramente conectadas ao ocidente. 

Existe todo um modo de pensar, de ensinar os mais novos, de ler e viver o mundo que é constituído pela cultura ocidental.

A antropóloga Anna Machin, citada na reportagem de Braun, aponta que até o início do século 18 as relações, que hoje chamamos de românticas, se davam apenas com o intuito de reprodução da espécie. 

E é nesse mesmo século que um movimento artístico e cultural toma grande proporção na produção de músicas, pinturas, literatura e até mesmo na arquitetura do ocidente: o Romantismo. 

O nome, por si só, já nos revela muita coisa. O Romantismo, por estrutura, tem uma base sentimentalista, o que passa a ser fomentado como prática pelo público.

Isso reverbera ainda nos dias de hoje. Sabe como? Através do contato com a cultura, é claro. 

Lembra das histórias infantis de princesas, que são salvas pelo príncipe encantado e que dão sentido à vida quando encontram esse, que é então sua alma gêmea? Não há como não mencionar as diversas produções hollywoodianas, com suas histórias de amor adolescente – desde aqueles bem clássicos como Lagoa Azul, chegando aos atuais e inebriantes, tal qual o muito celebrado A culpa é das estrelas.

As produções culturais nos fazem não só desejar o amor romântico, como também, introjetam noções como a de alma gêmea, amor eterno, cara-metade. Construindo assim a idealização e a necessidade de ser e ter um par. 

Isso faz com que a ideia do amor romântico ganhe grandes proporções nas nossas vidas, tornando-se, por vezes, algo que nos parece intrínseco ao simples ato de existir. Ou ainda, como se a vida só fizesse sentido ao encontrar um grande amor.

Numa canção de Vanessa da Mata, encontramos um trecho que parece resumir o que entendemos por amor romântico. A letra diz:

“Se você quiser eu vou te dar um amor

Desses de cinema

Não vai te faltar carinho

Plano ou assunto ao longo do dia

Se você quiser eu largo tudo

Vou pro mundo com você meu bem

Nessa nossa estrada só terá belas praias e cachoeiras”

Na arte, é claro, extrapolam-se limites e realidades. Quem já amou sabe, nenhum percurso relacional é feito só de “belas praias e cachoeiras”. Mas nossos desejos e idealizações não comportam as frustrações e paisagens que não são tão bonitas assim.

É chegada a hora do fim do amor romântico?

O mesmo amor que nos envolve, nos tira o fôlego, nos dá ânimo e prazer, pode frustrar, decepcionar e machucar. 

O amor doce, bonito, intenso, aquele amor de cinema, do tipo que pode até passar por maus bocados, mas que supõe-se que superará tudo, é algo que não cabe fora de tela. 

É bonito a imagem mental que se faz do amor que está disposto a tudo. Disposto a atravessar mares e oceanos para permanecer par, de mãos dadas, eternamente. Mas como isso se desenrola na vida cotidiana? Será mesmo que é possível viver um amor assim? 

Nós duas também gostamos de fantasiar e flertar com o romantismo, mas nossa conclusão é de que uma relação vai muito além do amor. 

Para que exista uma relação saudável, outros aspectos precisam ser considerados, como, por exemplo, o respeito, a imposição de limites, a garantia de que, as pessoas envolvidas na relação possam viver coisas que preservem sua singularidade. E que isso não seja visto como uma ameaça ao amor, mas sim, enquanto fortalecimento do sentimento existente entre os envolvidos. 

Para estar em uma relação, muitas coisas precisam ser pesadas na balança. É necessário alinhar expectativas, planos… Tal como uma negociação. Porque, apesar de ser bonito pensar o amor pelo viés do romanticismo, sabemos que o amor em si não basta. 

Talvez a gente coloque tudo na conta do amor para nos eximirmos de certas responsabilidades. 

O amor se trata de insistir, mas também de saber deixar ir. O amor se trata de proteger, mas também dar liberdade. Nos solicita diálogo e, em outras vezes, silêncio. Exige investimento e manutenção diária. 

Não é porque lá no início existiu amor que ele simplesmente continuará existindo. Amor e desejo podem seguir caminhos diferentes.  

Há de se refletir que, quando entramos em um relacionamento, nos dispomos a uma relação com o não dito, com a necessidade do diálogo, da compreensão, da troca, da presença, da falta, do conflito. 

O que os filmes românticos não nos contam

O filósofo Zygmunt Bauman, escreveu que: “Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro.” 

Se fantasiamos uma relação na qual o amor romântico é estruturante, há sempre que se falar sobre a noção de idealização. Essa que se constrói com base em nossas mais íntimas experiências, desejos e devaneios. E que, obviamente, é diferente de sujeito para sujeito. 

Se para você, relacionar-se com alguém está acompanhado da ideia do “felizes para sempre”, é preciso questionar-se: como e o quanto isso te afetará se houver um fim? Mesmo nos casos de relações que perduram por anos e anos, há algo que sempre encontra final. Seja o fim do desejo, da paixão, ou da disposição… Nada permanece igual ou imutável e isso não seria diferente com o amor.

Relacionar-se com alguém, talvez seja mais sobre saber o que não agrada, compreender as limitações do(a) parceiro(a) ante nossas expectativas, do que só enxergar aquilo que faz o olho brilhar. 

Por isso mesmo é que o processo de romper com a idealização, não somente do amor romântico, mas do outro, é tão necessário para viver uma relação saudável. Abandonando assim aquela velha concepção de que há um outro que, supostamente, existe para me completar e fazer de mim uma “pessoa inteira”.

Para isso, talvez seja importante compreender, primeiramente, que o amor romântico é uma invenção ocidental. Daquelas coisas que deveriam ter permanecido apenas na literatura e nas obras de arte. E assim, por fim, compreender que, relações saudáveis são constituídas de muitas coisas que vão para além do amor. E isso não deve ser impeditivo para amar ninguém.

“O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”. Zygmunt Bauman

Idealizacao e relacao saudavel: onde esta a diferenca?

O amor romantico pode ser uma experiencia bonita, mas tambem pode virar uma lente que dificulta enxergar limites, incompatibilidades e sinais de controle. Uma relacao saudavel nao exige que duas pessoas deixem de ser individuos. Ela precisa comportar desejo, respeito, liberdade, conversa dificil, limites e possibilidade de mudanca. Quando a fantasia de completude exige isolamento, submissao ou medo, o problema ja nao e falta de romantismo: e perda de autonomia.

Sinal saudavelSinal de idealizacao perigosa
O casal negocia planos e limites.Um lado precisa abrir mao de tudo para provar amor.
Ha espaco para amigos, familia e interesses proprios.A relacao exige isolamento ou vigilancia constante.
Conflitos podem ser conversados.Ciume, humilhacao ou controle sao tratados como prova de amor.

Perguntas para uma relacao mais real

  • Eu posso discordar sem medo de punicao emocional?
  • Meu projeto de vida existe para alem da relacao?
  • Estamos escolhendo ficar juntos ou apenas tentando cumprir um roteiro cultural?
  • Quando ha sofrimento, buscamos conversa, terapia ou apoio, ou apenas repetimos a mesma ferida?

Alerta: romantizar controle pode atrasar pedidos de ajuda. Possessividade extrema, ameacas, coerção, perseguicao, isolamento e agressao emocional, fisica ou sexual sao sinais de relacao insegura e merecem apoio.

Explore também no Blog da Saúde

  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Revisao e fontes

Este trecho foi revisado em 15 de maio de 2026 com foco em clareza, seguranca do leitor e interpretacao conservadora das evidencias. As fontes abaixo foram usadas para atualizar os cuidados e limites praticos do texto.

  • NHS inform – Healthy relationships
  • CDC – About Intimate Partner Violence
  • CDC – Preventing Intimate Partner Violence

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Ansiedade: quando vira problema de saúde

11 de outubro de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Ansiedade: quando vira problema de saúde merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Acordei mais cedo do que precisava. Senti meu corpo tenso, como se estivesse se preparando para uma defesa, mas não entendi o motivo. Minha respiração parecia diferente, me sentia cansada mesmo tendo acabado de levantar da cama. Os pensamentos se multiplicavam com tanta rapidez que não conseguia focar em nada. Me mantive imóvel, não tinha força pra fazer nada além de respirar e mesmo isso parecia difícil.

Foi assim que descobri o que era ansiedade, ao viver o primeiro episódio de ansiedade da minha vida. O que viria a se repetir depois e me acompanhar por muito tempo…

Existe muita coisa escrita sobre ansiedade. Eu mesma, já havia lido e estudado muito material científico que detalhava cada sintoma. Mas tem coisa que a palavra deixa escapar. Tem coisa que só se entende vivendo. Entendi, após um episódio súbito de tensão e medo que, o que parecia ser um encontro com a morte, era, na realidade, a experiência física da ansiedade.

A ansiedade faz algo com a gente que não tem relação só com a cabeça, como costumamos pensar.

Aprendemos, no passar dos anos, que podemos localizar geograficamente uma dor. 

Se o corpo é o lugar pelo qual navegamos, na geografia corporal e física, a ansiedade certamente seria localizada na cabeça. 

Mas quem sofre com episódios e crises de ansiedade sabe, o corpo todo sente.

É através do pensamento que a ansiedade parece, primeiramente, ganhar expressão.

Às vezes chega devagar, como se fosse uma preocupação cotidiana… Mas também se manifesta pelos pés inquietos, o aperto no peito, enjoo, tremores… 

O que se pode dizer com certeza é que a ansiedade não está localizada em um único órgão. Ela se espalha pelo corpo e é sentida em cada parte dele. 

Por ser um assunto complexo, é importante esclarecer algumas coisas…

Quando a ansiedade é mais do que um sintoma

Você já sentiu medo antes de fazer uma prova, ou na hora de apresentar um trabalho? Já sentiu temor ante a uma discussão, ou quando algo deu errado no trabalho? 

Esse tipo de sentimento, correlacionado a ansiedade, é mais normal do que se pode imaginar. Por isso mesmo é necessário fazer a distinção entre a ansiedade patológica – ou melhor dizendo, o transtorno de ansiedade – e a ansiedade enquanto sensação/sentimento, muito semelhante ao sentimento de medo e temor.

O sentimento de ansiedade muitas vezes pode estar interligado ao medo. A um medo objetivo, inclusive, como apontado nos exemplos anteriores. Essa sensação de temor pode se traduzir como estresse, e então ser sentido no corpo. 

Diante de uma situação estressora, nosso cérebro entende que precisa se “defender”. Nesse momento é que ocorre uma liberação de hormônios em nossa corrente sanguínea, como por exemplo, a noradrenalina e o cortisol (veja mais aqui: https://www.ufmg.br/online/arquivos/015265.shtml). 

Transtorno de ansiedade: quando é patológico se sentir ansioso?

Como já mencionado, sentir-se ansioso, temeroso, estressado, é relativamente normal em nosso tempo. Mas quando o sentimento de ansiedade toma proporções maiores e os episódios de preocupação e inquietação ocorrem de maneira mais frequente, causando danos na rotina e interferindo no bem-estar do sujeito, é necessário ficar atento. 

Segundo estudo de revisão, publicado na Revista de Saúde e Ciências Biológicas, o transtorno de ansiedade generalizado (TAG)

“É caracterizado por apreensão ou preocupação excessiva com múltiplas questões do dia a dia. Pacientes com TAG também podem apresentar tensão muscular, hiperatividade autonômica, nervosismo, dificuldade de concentração, irritabilidade, distúrbios de sono, sudorese, náuseas, diarreia, cefaleia e respostas exageradas de sobressalto a estímulos geralmente inócuos, como o barulho. Para o diagnóstico, é requerido que os sintomas estejam presentes na maior parte do tempo, por, pelo menos, alguns meses.”

Importante atentar para algumas coisas. Primeiro, o transtorno é relacionado a mais de um sintoma, ou seja, o sentimento de ansiedade produz outras sintomáticas, como, dificuldade de concentração, nervosismo, etc. Segundo, a ansiedade patológica não possui associação apenas com questões objetivos, tal qual o temor diante de uma situação específica, real e concreta. Não gosto de usar o termo “real”, pois para quem sofre com isso, todas as preocupações e pensamentos intrusivos são sentidos de modo que parecem de fato existir, e serem possíveis de concretização.

É muito comum, nos casos de transtorno de ansiedade, que o sujeito sinta ansiedade relacionada ao futuro, a coisas que podem acontecer, uma espécie de sofrimento por e com a antecipação das coisas.

Das pessoas que conheço e que foram diagnosticadas com TAG, é recorrente ouvir coisas como: “e se isso acontecer? preciso estar prevenido”; “penso muito sobre o que vai acontecer comigo quando morrer, o que vou sentir, como vai ser”; “o que as pessoas vão pensar de mim?”. Uma maneira de pensar que é repleta de pensamentos negativos, que precipitam situações e que conduzem a um modo de vida que não está focada no presente, mas com a precipitação do futuro.

E, por fim, uma terceira consideração: a ansiedade se caracteriza como transtorno quando os sintomas descritos acima estão associados a um período prolongado e acompanhados de uma certa constância. O que obviamente produz sofrimento, dificultando as tarefas mais rotineiras.

“Acho que tenho transtorno de ansiedade, e agora?”

Bem, dada todas as considerações, é importante reforçar aqui que o sentimento de ansiedade é muito comum. Vivemos em uma sociedade que nos bombardeia com informações a todo momento.

O acesso a tecnologias rápidas, como o Whatsapp, por exemplo, modificaram nossa concepção de presença, de espaço e de tempo. Podemos fazer contato com alguém de outro estado ou país, verificar se a pessoa está online naquele momento, se visualizou a mensagem. Não percebemos, mas isso nos conduziu a um estilo de vida que está conectado a uma urgência.  

A impaciência, o desassossego, a necessidade de querer resolver tudo o tempo todo, sem respeitar o tempo e o espaço – do outro e o nosso próprio – das coisas e da vida, logicamente resulta em sentimentos relativos ao estresse e a ansiedade.

Por isso mesmo é preciso prestar atenção e se fazer algumas perguntas: o quanto isso é recorrente? Como me sinto perante a tal sentimento? Quais são os pensamentos que me ocorrem quando estou ansioso? Isso afeta minha rotina e meus afazeres? De que modo isso me afeta?

Considerando isso, caso entenda que de fato há prejuízos relacionados a ansiedade, não se precipite. Com isso quero dizer que: não faça um autodiagnóstico. Procure a ajuda de um especialista – psicólogo ou médico psiquiatra – para analisar a situação e entender como proceder.


Referência:

Frota IJ, Moura Fé AAC, Paula FTM, Moura VEGS, Campos EM. Transtornos de ansiedade: histórico, aspectos clínicos e classificações atuais. J Health Biol Sci. 2022; 10(1):1-8.

Magalhaes, A., Holmes, K., Dale, L. et al. CRF receptor 1 regulates anxiety behavior via sensitization of 5-HT2 receptor signaling. Nat Neurosci 13, 622–629 (2010). https://doi.org/10.1038/nn.2529.

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

ansiedade
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Ansiedade: quando vira problema de saúde, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo

4 de agosto de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo muda conforme idade, ciclo menstrual, gestação, amamentação, crescimento, medicamentos e doenças associadas. Em crianças, adolescentes e gestantes, sinais leves podem ter decisões diferentes das de adultos saudáveis.

Quando um bebê chega a família, as primeiras preocupações entorno de seu nascimento são, na verdade, vinculadas a anseios e desejos de seus pais e familiares. Desde a preocupação com o nome, as roupas que irá vestir… Tem quem se adiante e idealize uma futura profissão. Tudo isso compõe um território, no qual a criança irá viver seu desenvolvimento. Esse “território” é que que o psicólogo Jacob Levy Moreno, nomeou de “matriz de identidade”.

Como acompanhar desenvolvimento sem tratar tudo como comparação

Em “O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo”, o desenvolvimento infantil deve ser observado como trajetória, não como competição. Crianças evoluem em ritmos diferentes, mas linguagem, interação, sono, alimentação, brincadeira, movimento e autonomia dão pistas importantes. O papel da família é oferecer segurança, rotina, vínculo e estímulos adequados, sem ignorar sinais de atraso ou sofrimento.

Áreas que merecem observação

ÁreaO que observar
LinguagemSons, palavras, compreensão, contato visual e tentativa de comunicação.
MovimentoPostura, coordenação, equilíbrio, marcha e uso das mãos.
InteraçãoBrincar, imitar, responder ao nome, dividir atenção e buscar contato.
RotinaSono, alimentação, telas, escola, limites e previsibilidade.
RegressãoPerder habilidades já adquiridas sempre merece avaliação.

Como ajudar de forma prática

  • Converse, leia, brinque e nomeie ações do cotidiano.
  • Mantenha rotina possível, com sono e alimentação previsíveis.
  • Evite usar telas como principal forma de acalmar ou estimular.
  • Procure pediatra se houver atraso persistente, regressão ou perda de interação.

Quando pedir uma avaliação

A avaliação não serve para rotular a criança; serve para entender necessidades e começar apoio cedo quando há atraso, dificuldade escolar, alteração de comportamento ou sofrimento familiar.

Família, escola, pediatria, psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional podem atuar juntos quando o desafio passa de uma dúvida pontual para impacto na rotina.

Através desse conceito, Moreno (citado por GONÇALVES et al, 1988), explica que a matriz de identidade é o espaço físico e virtual que o bebê ocupa dentro de sua família. Estes espaços se caracterizam por condições sócio-econômicas, culturais e relacionais, e que assim predeterminam o ambiente em que a criança se desenvolverá.

Este espaço ainda abarca expectativas em relação a quem será este bebê e o que ele modificará nesta família.  Todos estes fatores conjuntos: questões socioeconômicas, ambientais, cuidadores da criança, irão produzir efeitos subjetivos na criança. Tendo papel fundamental em seu desenvolvimento, sendo o “ponto de partida para o seu processo de definição como indivíduo” (1988, p. 59).

Desse modo, podemos compreender a matriz de identidade, como sendo aquilo que rege a comunicação da criança com o mundo. São os familiares e as pessoas que compõem a matriz de identidade do bebê, que irão “traduzir” o mundo para essa criança. Um exemplo disso, é quando o bebê chora e a mãe oferece a ele o seio, a chupeta, ou um afago. Ao fazer isso, é como se a mãe dissesse a criança que seu choro tem um significado.


As fases de desenvolvimento da criança

desenvolvimento da crianca

Ao nascer, a criança não assimila o mundo externo a ela. No princípio de seu desenvolvimento, o mundo é atrelado a figura materna, dado que o bebê ainda não se reconhece como um sujeito total. Esta fase é chamada de 1º tempo do Primeiro Universo, onde a criança vive apenas o presente e não distingue pessoas de objetos (1998, p. 60).

Passado algum tempo, o bebê adentra em uma nova fase de seu desenvolvimento. É o que Moreno, categorizou como o 2º tempo do Primeiro Universo. Fase marcada pela assimilação da criança enquanto indivíduo-próprio, compreendendo que ela e a figura materna são distintas. Os sonhos, relações de distância e distinção entre pessoas e objetos, são características desta fase. Contudo, nesse momento a criança ainda vive num mundo de fantasias, e vai, pouco a pouco, compreendendo as distinções entre o que é real e o que é de ordem imaginativa.

Na matriz de identidade, é a partir dessa brecha, entre fantasia e realidade, que Moreno divide o desenvolvimento da criança em três fases (1998, p. 62):

  • Fase do Duplo – criança precisa do outro para fazer o que ela não consegue fazer sozinha (ego-auxiliar).
  • Fase do Espelho – a criança reconhece o outro e esquece de si.
  • Fase da Inversão – tomada e inversão de papéis.

A fase da inversão de papéis nos é importante para compreender como a criança assimila determinadas funções sociais.


A tradução do mundo para a criança

pediatria desenvolvimento

Para Moreno (apud Gonçalves et al, 1998, p. 66), a teoria dos papéis é o modo pelo qual se faz possível analisar como, determinado indivíduo, atribuí significância a um papel social. O papel, dentro da teoria, pode ainda ser entendido como “[…] a forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica […]” (1998, p. 67).

Um papel, representa ainda uma parte, uma função ou a cristalização do modo como se aprendeu a ser e a desempenhar algo específico. Um exemplo disso é como aprendemos a ser pais, nos espelhando nos pais que tivemos. Esse exemplo torna claro que os papéis sociais não são algo novo na vida do indivíduo, já que tem origem na matriz de identidade, enquanto ainda somos crianças.

Desse modo, podemos dizer que é na matriz de identidade que aprenderemos, primeiramente, sobre os papéis sociais. São nas primeiras fases do desenvolvimento infantil que, por intermédio da figura do outro, internalizaremos o conceito de figuras sociais. Aprendemos ser irmãos, observando nossos irmãos. Aprendemos a ser amigos, observando e trocando com nossos próprios amigos. E assim, consecutivamente.

É preciso atentar para a importância que a família, e todos aqueles que compõem a matriz de identidade do bebê, têm nos primeiros momentos de seu desenvolvimento. Visto que são estes que irão traduzir o mundo para a criança, e que irão ensiná-la sobre os papéis sociais, é primordial criar um ambiente que seja seguro e capaz de auxiliar a criança, na descoberta do mundo e das pessoas.

Dependendo do modo como se introjeta o papel do outro, essa internalização pode também facilitar uma psicopatologia: “O sujeito neurótico internalizou a figura do outro como uma presença dominante, perante a qual o próprio sujeito se posiciona como ente secundário” (Romero, 1997, p. 165, apud Tenório, 2003, p. 39).

O que quero dizer com isso é que, quando os pais não conseguem traduzir e valorizar determinada experiência da criança, ela pode não ser capaz de assimilá-la sozinha, pois é integralmente dependente da relação com o outro, nas primeiras etapas de seu desenvolvimento. O bebê então depende de um outro, que a ele traduza o mundo, e quando esse mundo não o é acolhedor, a criança introjeta sua experiência como algo negativo (2003, p. 38-39). Podendo, como resultado, produzir efeitos subjetivos de grande impacto na construção de sua identidade.

Para concluir, auxiliar uma criança em seu desenvolvimento é tarefa árdua e complexa. Moreno, acreditava em um sujeito que nasce espontâneo, criativo e sensível. Mas, por meio de seu desenvolvimento e intermédio de suas relações, essas características espontâneas e criativas tendiam a se inibir, com o passar dos anos e do desenvolvimento psicossocial.

Gosto muito de um vídeo intitulado “Children see, children do”, em tradução livre para o português: crianças veem, crianças fazem. Esse vídeo pode nos ajudar a pensar sobre como nossa presença, nossas ações e traduções, são determinantes nas vidas que criamos. E assim, compreender, que temos papel fundamental nos adultos que essas crianças se tornarão no futuro.


Cuidados em ciclos, gestação e infância

Em O desenvolvimento infantil e a família como tradução do mundo, idade e fase de vida mudam a leitura. Crianças, adolescentes, gestantes, puérperas e pessoas em amamentação têm limites diferentes para sintomas, remédios, exames e espera. O ciclo menstrual, crescimento e histórico obstétrico também alteram a interpretação.

ContextoPor que muda a orientação
Criança ou adolescenteCrescimento, puberdade e dose por peso precisam ser considerados.
GestaçãoAlguns sintomas e medicamentos têm risco diferente.
Ciclo menstrualPadrão, duração, fluxo e dor ajudam a separar variação de alerta.
Doenças préviasAnemia, diabetes, pressão alta e imunossupressão reduzem margem de espera.

Anote datas, intensidade, medicamentos usados, exames anteriores e mudanças recentes. No atendimento pediátrico ou ginecológico, essa sequência costuma ser mais útil que uma descrição genérica do sintoma.

Explore também no Blog da Saúde

  • Pediatria
  • Psicologia

Fontes úteis

  • CDC: marcos do desenvolvimento infantil
  • MedlinePlus: desenvolvimento infantil

Referências:

Gonçalves, C. S. (1988). Lições de psicodrama: Introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Ágora.

TENÓRIO, Carlene Maria Diaz. A psicopatologia e o diagnóstico numa abordagem fenomenológica–existencial. IN: Universitas Ciências da Saúde – vol.01 n.01 – p. 31-44. 2003. Disponível em: http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/index.php/cienciasaude/article/view/493/315.

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Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma

4 de agosto de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma: observe duração, intensidade e prejuízo na rotina, não apenas um dia ruim. Sono, apetite, energia, concentração, uso de álcool, remédios e pensamentos de morte mudam a urgência. Sofrimento persistente ou risco de autoagressão pede ajuda imediata.

Nos últimos textos, um tema parece ter se repetido, mesmo que de forma coadjuvante. Não é por menos, falar da loucura parece ainda um estigma. Há um temor que circula o terreno da loucura, talvez por isso exista tanto preconceito com aquilo que é de ordem subjetiva e, até mesmo, com a procura por um profissional da psicologia.

Temos medo das classificações. Temos medo de sermos considerados loucos.

E não estamos errados em nos sentirmos amedrontados com a ideia de loucura. Primeiro, porque sabemos o que fizeram com quem foi considerado louco, no passado. Segundo, porque a loucura, quando não patológica, é uma forma de assumir um posicionamento que diverge do que é classificado como norma, em uma sociedade. E fugir da norma, implica em um trabalho de constância consigo mesmo.

Dito isso, quero propor pensarmos sobre o modo como a loucura é tratada na contemporaneidade.


A loucura e a psiquiatria

Os finais que iniciam com perguntas quase que introdutórias, hipnotizam. Existe algo de poético nas questões. “Qual o futuro da psiquiatria?”. Uma reformulação ampla, aponta o autor de Our Psychiatric Future (2019)… Para Nikolas Rose, a psiquiatria precisa de reformulação, baseada em evidências objetivas e científicas.

Em relação à loucura, a psiquiatria que temos acesso, dedica-se a um órgão central no processo de tratamento. Falamos já sobre a importância de que o tratamento para o sofrimento psíquico, precisa envolver outros aspectos, além da medicalização. É claro que, tomar uma pílula produz a sensação de que o tratamento pode ser mais rápido do que de fato é. E muita gente não quer se demorar em si mesmo, ou nas suas loucuras.

Somos parte do clube do desempenho, dos sujeitos que não param, que estão freneticamente pensando e produzindo. Devido a isso, medicar um órgão continua sendo mais barato, rápido e simples de ser tratado, do que encarar o processo da terapia, por exemplo. As condições de tratamento são restritamente pensadas apenas por quem, da loucura e do sofrimento psíquico, ouve apenas o que serve a um diagnóstico.

Em suma, o fazer psiquiátrico, disponível a maior parte da população é, é um fazer que conduz o sujeito a uma condição de sobrevida, de vida-morrida, por meio de um movimento de cerebralização (ROSE, 2019) da condição humana. Ou seja, um tratamento feito a partir da medicalização de um órgão.

psiquiatria

Isso acontece porque, grande parte das categorizações de doenças psíquicas continuam sendo baseadas em fatores biológicos, negando a complexa teia causal que resulta na vida humana.

Não há muito tempo, o Brasil foi palco do movimento da luta antimanicomial, que surgiu com o objetivo de reformar o sistema psiquiátrico brasileiro, que era conhecido pelo tratamento designado aos ditos loucos. Muitas pessoas sofreram e morreram nessas instituições, o que nos faz pensar sobre o que se faz com quem é considerado anormal, dentro de uma sociedade. E sabemos que, não precisa-se de muito para fugir da norma.

Vivemos em um espaço-tempo no qual a vida humana é sucateada. Vida que parece só ganhar expressão sincera de vida potente quando sofre ou adoece psiquicamente, como já dito aqui. Assim, o tratamento via “cerebralização”, ou, a medicalização do sofrimento, parece atender uma demanda que não é só da indústria farmacêutica, dos profissionais psis, dos discursos sobre normalidade/anormalidade. Pois atende, antes de tudo, a produção incessante de corpos que não podem “perder tempo” com as próprias demandas da vida humana-social-familiar-relacional.

Por isso mesmo, diz-se que o cérebro é o responsável pelo adoecimento psíquico. Existe sim aspectos transtornos e condições psíquicas que são apenas de ordem neurológico. É preciso considerar os aspectos biológicos quando falamos de saúde mental, sem dúvida. A questão aqui é que o que se tem percebido, via de regra, é o tratamento feito apenas com o uso de remédios.

Mas como fugir disso? Como fugir da medicalização como única saída?

Penso que a resposta está nos movimentos que realmente buscam um outro modo de entender e tratar a loucura, a depressão, a ansiedade e, tudo que faz parte do psiquismo. Não se pode continuar a aceitar o lugar que é dado a quem procura tratamento, não no sentido literal da palavra: paciente, aquele que espera. A voz da pessoa em sofrimento precisa ser ouvida, quando esta busca por ajuda. E se, no caso de procura por ajuda médica, você sentir que não foi ouvido, procure outro profissional.


O futuro da psiquiatria

psiquiatria sao paulo blog

Em relação ao futuro da psiquiatria, o que tem-se visto até aqui, são “transformações” em andamento,  que demonstram que as preocupações com um “novo” fazer psiquiátrico, ou porque não dizer, uma psiquiatria social, apontam outros caminhos. Caminhos que poderiam guiar os saberes médicos a um compartilhamento transversal de saberes, que dá voz e vez ao sujeito-paciente.

Com isso posto, talvez possamos abandonar a ideia de uma epidemia de saúde mental, dado que o que vivemos é uma categorização massiva do sofrimento psíquico. O que nos leva inclusive a uma outra questão, que diz da banalização dos diagnósticos. Não podemos continuar reféns das categorizações psiquiátricas. Nem todo sintoma de ansiedade e tristeza deve ser categorizada como transtorno psíquico. É preciso analisar o contexto social, compreender e ouvir o que o sujeito diz e qual sua queixa.

Como menciona Rose (2019) não seremos capazes de entender, quanto mais melhorar, a incidência das doenças psíquicas se focarmos em um método que parte do princípio de que estas são doenças do cérebro, considerando o ambiente apenas um conjunto de fatores pouco importantes. As medicações psiquiátricas são sim importantes em muitos casos, contudo, não podem ser a primeira e única saída, quando se trata de sofrimento psíquico.

Por fim, gostaria de indicar o filme nacional Nise – o coração da loucura. O filme retrata o importante papel de Nise da Silveira, médica psiquiatra que transformou o fazer psiquiátrico no Brasil.



Referência:

ROSE, Nicholas. Our Psychiatric Future: The Politics of Mental Health. Cambridge: Polity Press, 2019.

Quando buscar apoio estruturado

Em Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Como medir impacto na rotina

Em saúde mental, intensidade e impacto funcional são mais importantes do que rótulos rápidos. Para Loucura e psiquiatria: sofrimento, cuidado e estigma, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalO que observar
DuraçãoPersistência por dias ou semanas muda a leitura.
PrejuízoTrabalho, estudo, sono e relações mostram gravidade funcional.
RiscoIdeias de morte ou autoagressão exigem ajuda imediata.
SubstânciasÁlcool e drogas podem piorar ou confundir sintomas.
Evite concluirPrefira observar
“É só força de vontade”Duração, prejuízo e risco.
“Todo sintoma é transtorno”Contexto, sono, substâncias e eventos recentes.
“Posso esperar se há risco”Ideias de morte exigem ajuda imediata.

Procure apoio imediatamente se houver risco de autoagressão, sensação de perda de controle, confusão, uso pesado de álcool ou drogas, ou incapacidade de realizar cuidados básicos.

Se a dúvida persistir, anote início, frequência, intensidade, fatores que pioram, fatores que aliviam e qualquer efeito indesejado. Esse registro reduz achismos e torna a conversa clínica mais objetiva.

Fonte: NIMH: mental health information.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Pensamento acelerado e finitude: como lidar

30 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Pensamento acelerado e finitude: como lidar merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Sobre Pensamento acelerado e finitude: como lidar: observe duração, intensidade e prejuízo na rotina, não apenas um dia ruim. Sono, apetite, energia, concentração, uso de álcool, remédios e pensamentos de morte mudam a urgência. Sofrimento persistente ou risco de autoagressão pede ajuda imediata.

Os problemas com os quais nos deparamos hoje são oriundos de um modo de vida que clama por transformações. Fala-se agora de uma nova disfunção: o pensamento acelerado. Tem quem, inclusive, considere o sintoma como uma síndrome. Contudo, de modo geral, o pensamento acelerado é algo que compartilhamos entre nós, podendo ser compreendido como a manifestação de uma vida que está em vias de degradação.

Falo que “compartilhamos” o sintoma, dado que o pensamento acelerado é mais recorrente e comum do que se pode imaginar. Parece estar correlacionado

No livro Sociedade do cansaço (2015), Byung-Chul Han, nos apresenta um outro modo de assimilar essa questão. Propõe que a nomeamos de violência neuronal. Para o autor, “cada época possui suas enfermidades fundamentais” (p. 7). Enfermidade que dizem do modo como se vive cada tempo, cada década.

Devido a isso, nosso século é definido como o século das doenças neuronais. Depressão, TDAH, síndrome de Burnout, e é claro, a ansiedade e o pensamento acelerado. Patologias, síndromes, sintomas que demonstram a turbulenta rotina com a qual nos deparamos diariamente.

O celular que ao primeiro sinal de bateria fraca nos faz correr a procura de um carregador. As mensagens no whatsapp que nos colocam em contato mesmo quando longe. A impossibilidade de ficar sem acesso as redes sociais e a ansiedade que isso nos gera. São informações que chegam o tempo todo. Parece não haver maneira de fugir disso.


cansaco cronico esgotamento mental


Estar desconectado nos faz sentir como se estivéssemos perdendo algo.

Além de estarmos vivendo uma época marcada pelas patologias de ordem psíquica, Han, afirma que o século XXI é definido como o período da sociedade de desempenho. O que isso significa? Veja, sabe aquela ansiedade quando deixamos algo por terminar no trabalho e que nos acompanha quando chegamos em casa, inquietando o pensamento? O sentimento de obrigação e necessidade contínua de se aperfeiçoar, se qualificar, ser melhor em tudo que é possível ser?

Somos cobrados para que nossos corpos sejam perfeitos. Se fala até sobre “projeto verão” e sobre como ter um “corpo de praia”. Não obstante, somos incitados a participar de cursos, palestras, aprender novas línguas. Tudo isso com a justificativa de que precisamos nos atualizar, tal como um sistema de computador.

Percebam que essa ideia de qualificação e desenvolvimento pessoal não é algo que produz em nós um alívio, um encontro com aspectos da nossa existência. Definitivamente não é um passo rumo ao autoconhecimento. Ou mesmo, qualquer coisa que nos aproxime de nossas questões mais pessoais e urgentes, e que poderiam nos auxiliar na busca por uma vida mais saudável e menos intransigente.

É o oposto disso. Mais um modo que o sistema encontrou como forma de nos manter capturados, produzentes, focados em nossas vidas profissionais. O pensamento acelerado é fruto desse sistema, desse modo de viver a vida, como se ela estivesse sempre subjugada ao trabalho.

Exatamente por isso é que vinculamos a ideia de uma vida boa, de sucesso, com propósito, às conquistas profissionais. A vida contemporânea ganha expressão e sentido quando estamos realizados profissionalmente. O que é de ordem pessoal acaba ficando para depois. Mas o depois parece não chegar nunca.

Enquanto isso, as possibilidades não esgotam, mas nos esgotam…


Pensamento acelerado: sintomas da autoexploração

pensamento acelerado

Nessa construção contínua e intensa de nos tornarmos uma versão melhorada de nós mesmos, não percebemos que nossas escolhas, iniciativas e projetos, são condicionados ao sistema da produtividade. Nos entupimos de cursos, vídeo-aulas, novos aprendizados. Descansar é verbo que quase não tem espaço na agenda do sujeito contemporâneo.

A depressão é resultado da exacerbação das possibilidades, tal como é com os transtornos de ansiedade. Adoecemos porque o corpo pede quietude. Para Han, “o excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade” (p. 30). A falsa liberdade de poder-ser, de poder escolher… Encoberta pela ideia do indivíduo multitarefa.

Não é por menos que parecemos nunca caber ou servir nas vagas de trabalho ofertadas atualmente. Falar várias línguas, formação acadêmica, especialização, nada parece ser suficiente, pois o mercado de trabalho cobra que sejamos melhores e mais eficientes. Nossos colegas de trabalho são, na verdade, nossos rivais.

Vivemos nessa incumbência de aperfeiçoamento contínuo, em razão de sentirmos medo de que alguém será mais ágil e mais qualificado que nós. Sem dúvida alguma, o sentimento de fracasso pode se tornar patológico. Inclusive, a depressão pode, por vezes, ser o sintoma patológico da ideia de fracasso em ser quem se é e ser o único responsável por isso. Assim como, a ansiedade pode ser uma patologia que diz sobre o esgotamento da mente, frente a todas as possibilidades de existir.

Todas as atividades humanas são voltadas para o trabalho. É por isso que adoecemos. As novas síndromes relacionadas ao esgotamento, demonstram que precisamos, urgentemente, parar, nos aquietar, sem culpa. Não há vida humana sem o mínimo de estado contemplativo.

Na contínua busca por adiarmos o fim do eu, voltamos a Krenak:

“As andanças que fiz por diferentes culturas e lugares do mundo me permitiram avaliar as garantias dadas ao integrar esse clube da humanidade. E fiquei pensando: “Por que insistimos tanto e durante tanto tempo em participar desse clube, que na maioria das vezes só limita a nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade?”. Será que não estamos sempre atualizando aquela nossa velha disposição para a servidão voluntária?” (2019, p. 8).

Nossas vidas, quem somos, nossa identidade, isso tudo não pode se resumir ao trabalho ou ao currículo vitae. Existem experiências e encontros que não são oferecidos em cursos e palestras. São vivências que só se descobre com o ócio.

É preciso reaprender a descansar, a ficar em silêncio, a viver – mesmo que algumas horas – desconectado do celular, do que chamamos de “vida social” e que na realidade é uma vida paralela a presencial.

Não podemos mais ter medo de estarmos ociosos. Não podemos continuar a viver online o tempo inteiro. Reforço, é preciso reaprender a descansar e se desconectar… Caso contrário, ficaremos reféns de nós mesmos, de nossas infinitas possibilidades de melhorias…


Referências:

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petropolis, RJ: Vozes, 2015.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Quando buscar apoio estruturado

Em Pensamento acelerado e finitude: como lidar, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Quando procurar avaliação

Procure apoio quando o sofrimento interfere em sono, apetite, estudo, trabalho, vínculo, autocuidado ou segurança. Pensamentos de morte, violência, uso de álcool ou remédios para aguentar o dia, crises repetidas ou isolamento importante exigem rede de cuidado mais próxima.

Como acompanhar a evolução

  • Monte uma linha do tempo curta: início, evolução, fatores de piora e melhora.
  • Separe sintoma principal, sinais associados e impacto nas atividades.
  • Defina quando reavaliar se a melhora esperada não acontecer.

Como medir impacto na rotina

Em saúde mental, intensidade e impacto funcional são mais importantes do que rótulos rápidos. Para Pensamento acelerado e finitude: como lidar, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalO que observar
DuraçãoPersistência por dias ou semanas muda a leitura.
PrejuízoTrabalho, estudo, sono e relações mostram gravidade funcional.
RiscoIdeias de morte ou autoagressão exigem ajuda imediata.
SubstânciasÁlcool e drogas podem piorar ou confundir sintomas.
Evite concluirPrefira observar
“É só força de vontade”Duração, prejuízo e risco.
“Todo sintoma é transtorno”Contexto, sono, substâncias e eventos recentes.
“Posso esperar se há risco”Ideias de morte exigem ajuda imediata.

Procure apoio imediatamente se houver risco de autoagressão, sensação de perda de controle, confusão, uso pesado de álcool ou drogas, ou incapacidade de realizar cuidados básicos.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: NIMH: mental health information.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Depressão e modos de vida: sinais e apoio

29 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Resposta direta: depressão não é apenas tristeza nem falta de esforço. Ela pode envolver perda de interesse, alterações de sono e apetite, culpa, lentidão, irritabilidade, dificuldade de concentração e pensamentos de morte. Modos de vida podem influenciar o sofrimento, mas não substituem avaliação quando os sintomas persistem.

Ailton Krenak, líder indígena e filósofo, escreveu “Ideias para adiar o fim do mundo”, em 2019. Indo ao encontro de suas ideias é que escrevo esse ensaio e o que se segue. Para pensarmos sobre o mal do século: a depressão, e nas possibilidades de adiarmos o fim, da vida e do eu.

Krenak escreve:

“Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim” (Krenak, 2019, p. 13).

Em outro texto, falei sobre encontrar com o novo. A vida que segue depois da pandemia e busca se reconstruir do jeito que é possível. Mas há muito tempo, existe algo de muito errado com o modo que estamos vivendo.

Os números de pessoas tornando-se pacientes aumentam. A depressão é mesmo o mal do século. Mas o que nos leva a chegar nesse ponto? O que nos leva ao adoecimento, não só psíquico, mas da vida? E por fim, a pergunta que deveríamos ter nos feito antes: como fazemos para adiar o fim do eu?


A relação da depressão com o ter e o ser

depressao

Não há vida plena, ou de conhecimento pleno da vida, penso eu. Mas é o caminho da busca e de todas as possibilidades de ser e estar no mundo, que produz um indivíduo-vivo.

Quando utilizo aqui o termo indivíduo-vivo falo em contraponto aos tantos mortos-vivos que existem no mundo contemporâneo. Somos eu, você, aqueles que não encontram espaço e tempo na vida para vivê-la de fato, para estar próximo e conectar-se com as coisas essenciais e intrínsecas ao ser. Coisas como, caminhar no parque, praticar exercício, ler, criar algo que não esteja relacionado com a produção em massa ou comercial, buscar pelo autoconhecimento…

Acredito que tudo o que nos afasta deste lugar e da criação de vidas potentes, nos guia até a morte. Morte que é sentida ainda quando em vida. Morte de poder-ser, morte de criação, morte da diferença e de possibilidade de viver.

Era sobre isso que Belchior[1] falava, quando cantou “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

É assim que entendo a depressão, como uma morte ainda em vida. Como uma morte de aspectos que nos aproximam de viver a partir de uma outra perspectiva, que não valorizam só o tempo que se gasta trabalhando e se preocupando com as coisas triviais.

O objetivo da vida não deveria ser produzir e trabalhar para conseguir o mínimo, o básico, o sustento. Como não adoecer assim? É compreensível que tanta gente esteja sendo diagnosticada com depressão.

Pesaroso pensar que existem mais espaços que nos fazem morrer, que nos conduzem a depressão, do que aqueles que nos conduzem a vida. O problema é que nossa existência está estruturalmente condicionada a render, fabricar, manufaturar, e tantos outros sinônimos pertencentes ao capitalismo.

Para entender melhor esse assunto complexo, que está totalmente relacionado a um diagnóstico massivo de pessoas em depressão, precisamos compreender que, atualmente, a vida está subordinada ao ter. Ou seja, dispor de bens materiais e aquisições que demonstrem nosso poder de compra, associa-se a uma “boa vida”, uma vida estável e de qualidade.


depressao estilo de vida


Nossa imagem está associada com aquilo que compramos, vestimos, usamos. Parece que quanto mais temos, mais somos. O contrário também acontece. Existe algo atrelado a esse pensamento que nos levar a entender que existem vidas que valem menos, por terem menos. Com isso, nossa vida é organizada entorno de atividades que estão, de algum modo ou outro, vinculados ao dinheiro. E, exatamente por isso, é bem comum sentirmos culpa quando estamos desconectados do trabalho e da rotina de obrigações diárias.

Já falamos sobre nossa urgência em encontrar um sentido para a vida, “fazer a vida dar certo”. Como se algo de muito precioso precisasse acontecer para que nossa existência pudesse enfim ter significado. Vivemos em busca do que vem depois, sempre. Isso não tem nada a ver com termos sonhos materiais e pensamos no futuro, o que obviamente é importante. Mas sim, do nosso imediatismo depressivo que nos distancia da vida que acontece agora, tornando difícil a tarefa de simplesmente relaxar e aproveitar o dia.

Sei que ao dizer isso me distancio do que, usualmente, se considera uma escrita que fala da depressão. Contudo, não consideramos a magnitude da decorrência que os aspectos socioeconômicos produzem na nossa vida. A depressão está totalmente correlacionada a isso.

O modo como vivemos e como encaramos a vida é perpassado por diversas questões sociais, políticas, econômicas. Ou seja, a depressão, assim como, o tratamento da depressão, não pode estar focado e vinculado apenas no indivíduo. Se estamos adoecendo em massa, é um sinal de que precisamos encontrar outros modos de compreender a depressão e assimilá-la.

Então, como adiar o fim do eu, como lidarmos com uma sociedade que produz dia-a-dia mais gente adoecida?

Krenak, nos presenteia mais uma vez com a seguinte fala[2]: “A gente tem que curtir a vida. […] Essa ideia moderna, […] de quando o homem descobriu que ele poderia se distinguir de todos os outros seres e aplicar algum sentido a vida, é esse sentido utilitário que eu ponho em questão”.

Não podemos abandonar nossos empregos, o sistema, as questões materiais. Mas podemos compreender a importância de nos conectarmos a outros aspectos da vida, que hoje são considerados sem utilidade. Sabe aquela conversinha sobre “quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”, isso nos vale aqui.

A depressão está demasiadamente ligada ao sentimento de não enxergar sentido na vida, porque acreditamos que a vida precisa sempre do amanhã, do material, do sentido, do objetivo. Poderia ser mais simples se nos permitíssemos, se nos arriscássemos, se fizéssemos mais coisas pela primeira vez.

Sair do piloto automático é importante. Tão importante quanto é a compreensão de que estamos nos apegando cada vez mais aos aspectos da propriedade material, ao invés de olharmos para nós mesmos, apreciar o que somos e onde estamos.

A depressão é o mal do século, mas nossa sociedade é quem a produz, dia após dia.



Referência: KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


[1]https://www.youtube.com/watch?v=oy5w9mWrzBg

[2]https://www.youtube.com/watch?v=FKtEm1x3IeM

Como modos de vida entram sem culpar o paciente

Sono irregular, isolamento, trabalho precário, luto, violência, doença crônica e falta de perspectiva podem piorar sintomas depressivos. Isso não significa que a pessoa “escolheu” adoecer. Significa que o cuidado precisa olhar para corpo, ambiente, vínculo e tratamento clínico ao mesmo tempo.

SinalPor que muda o cuidado
Perda de interesse por quase tudoPode indicar depressão, não apenas desânimo.
Sono e apetite alteradosAjuda a medir gravidade e resposta ao tratamento.
Culpa, inutilidade ou desesperançaAumenta necessidade de escuta profissional.
Pensamentos de morteÉ sinal de risco e pede ajuda imediata.

O que costuma compor um plano de cuidado

Um plano pode incluir psicoterapia, atividade física possível, rotina de sono, redução de álcool, apoio social, tratamento de doenças associadas e, em alguns casos, antidepressivos. O plano depende de gravidade, duração, episódios anteriores, risco de suicídio, uso de substâncias e preferência do paciente.

Fontes consultadas para esta atualização

  • NIMH: Depression

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Vida pós-pandemia e sofrimento psíquico: como lidar

25 de julho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Resposta direta: sofrimento psíquico pós-pandemia pode envolver ansiedade, depressão, luto, irritabilidade, insônia, exaustão e dificuldade de retomar rotina. Nem todo sofrimento vira transtorno, mas sintomas persistentes, prejuízo funcional, abuso de álcool/remédios ou pensamentos de morte exigem cuidado profissional.

Sinal observadoPróximo passo
Tristeza, medo ou irritabilidade que oscilamOrganizar sono, rotina, apoio social e observar duração.
Sintomas por semanas com perda de funçãoBuscar psicólogo, psiquiatra ou serviço de saúde para avaliação.
Ideação suicida, autoagressão ou risco imediatoProcure emergência, SAMU 192, pronto-socorro ou apoio de crise imediatamente.

Também pode ajudar: sintomas da crise de ansiedade, estimulação magnética transcraniana na depressão e antidepressivos e efeitos adversos.

Já é possível observar efeitos psíquicos persistentes da pandemia em muitas pessoas. Ansiedade, depressão, luto, irritabilidade, medo, alterações de sono e dificuldade de retomar projetos podem aparecer de formas diferentes, com intensidade e duração variáveis.

Em 2 de março de 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma revisão indicando aumento global de ansiedade e depressão no primeiro ano da pandemia. Esse dado contextualiza o problema; sofrimento persistente pede avaliação individual.

Mulheres e jovens são os que mais sofrem com questões de origem psíquica, segundo pesquisa da OMS. Os sintomas da nova “epidemia” são desde estresse pós-traumático, irritabilidade, humor depressivo, falta de perspectiva de vida, medo, sono desregulado.

Como sabemos, os sintomas relacionados ao adoecimento psíquico são, na maioria das vezes, sintomas silenciosos e quase imperceptíveis a quem está de fora, visto que são de ordem mental. O que dificulta ainda mais o auxílio a quem sofre com esse tipo de questão é justamente o silêncio.

A depressão, assim como outros transtornos psicológicos, ainda é um tabu social. Mesmo que o acesso a profissionais psiquiatras e psicólogos tenha se difundido nos últimos anos, enquanto especialidade essencial à saúde pública, o estigma atrelado a uma doença que não é física é de difícil assimilação e aceitação.

Com a saúde física e a vida correndo risco iminente de perecimento durante a pandemia, não é de se surpreender que nos deparemos agora com um índice elevado de novos casos de depressão.

Não que antes não existissem números que preocupassem em relação ao adoecimento psíquico em massa, mas o covid-19 nos faz compreender a saúde mental por um outro viés.

Falamos da possibilidade de enfrentar novas pandemias futuras, contudo, vivemos agora um outro tipo de epidemia. Uma que não possui relação com um vírus e que escancara nosso descaso com a saúde mental. A depressão é o mal do século.


Pós-pandemia e aumento de ansiedade e depressão

vida pos pandemia reabilitacao

A pandemia nos colocou em contato com a vida, tal como colocou com a morte. Fomos forçados a pensar sobre o que foi, o que é e o que poderia vir a ser. É da vida que falo, é claro.

Parte desse sofrimento também expõe uma dificuldade antiga: saúde mental costuma ser lembrada apenas quando a rotina já está comprometida. Prevenção, escuta qualificada, vínculo social, sono, atividade física, psicoterapia e cuidado médico podem se complementar conforme o caso.

Cuidar da saúde mental pode envolver psicoterapia, reorganização de rotina, sono, redução de álcool, apoio social, tratamento de doenças associadas e, em alguns casos, medicação. O problema não é usar antidepressivos ou ansiolíticos quando bem indicados; o risco é transformar um sofrimento complexo em uma solução única, sem avaliação, acompanhamento e plano de cuidado.


Adoecimento psíquico e o risco de respostas simplistas

adoecimento psiquico

O que me preocupa quando falamos de epidemia de adoecimento psíquico é o modo como isso será tratado.

Todo diagnóstico é feito a partir da noção de normalidade. Ou seja, é preciso entender o que se considera “normal”, aceitável entre os parâmetros estabelecidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), antes de diagnosticar alguém com transtorno depressivo. Todo caso é um caso. Após esse diagnóstico é que é pensado o tratamento.

Porém, o que devemos considerar é que nosso sistema público de saúde está lotado, cheio de urgências o tempo todo. Por mais que existam muitos profissionais competentes e éticos nesses espaços, precisamos nos atentar aos casos em que angústias comunicadas no consultório médico se tornam prescrição de fluoxetina, por exemplo.  

A medicalização em massa é preocupante ainda porque reafirma a todos nós que o sofrimento psíquico deve ser silenciado e medicado.  

Em uma das aulas do doutorado, tive contato com um escrito que me fez pensar sobre os vários diagnósticos com os quais me deparei. Intitulado “Somos todos enfermos mentales?” (FRANCES, 2014), o livro discute a questão da psiquiatrização do sofrimento, na sociedade atual.

O autor inicia a obra narrando a seguinte situação: “[…] y me vi obligado a tomar partido […] en una batalla perdida por evitar que la normalidad se viese como un problema médico […]” (p. 10). A discussão, da qual fala Frances, deu-se com outros colegas psiquiatras, que assim como ele, auxiliaram na produção da terceira edição do DSM.

A preocupação que assolava o psiquiatra, era a de que as categorizações de transtornos psíquicos evoluíam rapidamente. Com isso, mais e mais pessoas poderiam ser enquadradas nos diferentes transtornos do manual, dadas as características genéricas destas categorias.

Veja, nem todos que possuem queixa de sintomas relacionados a depressão chegam a se consultar com um psicólogo ou um psiquiatra. Em muitos casos, o que acontece é que ao comunicar esses sintomas a um médico clínico geral, já é possível sair da consulta com uma receita medicamentosa.

Ou seja, o que poderia ser uma situação não-patológica relacionada a sintomas de ansiedade, tristeza, estresse, etc., se torna um diagnóstico psiquiátrico e é tratado como tal.

Um levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácias, detectou um aumento de 17% na venda de antidepressivos durante a pandemia no Brasil. Esse número não deve baixar tão cedo…

Não obstante, na contínua busca por remediar o que foge do considerado normal para as estatísticas, a angústia, os hábitos considerados excêntricos, a ansiedade que não é prejudicial, tudo isso pode acabar tornando-se transtorno psíquico se não começarmos uma discussão entorno da saúde mental.

A preocupante realidade é que, com o diagnóstico de novos indivíduos são, conjuntamente, produzidos novos pacientes. Ocasionando, em muitas situações, tratamentos psiquiátricos desnecessários. O que por sua vez pode resultar em uma verdadeira epidemia de transtornos mentais.

O momento pós-pandemia nos mostra que nossos corpos/mentes suplicam por um modo de vida diferente. Contudo, o que vivemos agora não é propriamente uma epidemia de saúde mental, o que há é uma medicalização massiva do sofrimento psíquico.


Referência: FRANCES, Allen. Somos todos enfermos mentales? Manifiesto contra los abusos de la psiquiatria. 1ª. Ed., Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Ariel, 2014.

Como diferenciar sofrimento esperado de alerta

Temas de saúde mental precisam acolher a experiência sem tratar sofrimento como frase pronta. Em sofrimento psíquico pós-pandemia, intensidade, duração, prejuízo na rotina, segurança e qualidade dos vínculos ajudam a diferenciar uma dificuldade comum de um quadro que precisa de cuidado.

O que ajuda antes de decidir por remédio

  • Anote início, duração, intensidade e fatores que melhoram ou pioram.
  • Liste medicamentos, suplementos, alergias e doenças já diagnosticadas.
  • Observe sinais de alerta em vez de decidir apenas por um sintoma isolado.
  • Leve dúvidas objetivas para a consulta e peça orientação sobre retorno ou acompanhamento.

Perguntas para levar à consulta

  1. O que neste quadro é esperado e o que seria sinal de alerta?
  2. Existe exame, acompanhamento ou mudança de hábito que realmente faça diferença?
  3. Quais medicamentos, procedimentos ou suplementos devo evitar no meu caso?
  4. Em quanto tempo devo reavaliar se os sintomas continuarem ou voltarem?

Leia também: Câncer de bexiga: sintomas, prevenção e quando investigar, Histamin dá sono? Entenda o anti-alérgico, Sulfametoxazol-trimetoprima serve para garganta?.

Fontes úteis

Fontes usadas nesta revisão: OMS: pandemia e aumento de ansiedade e depressão; OMS: scientific brief sobre saúde mental e COVID-19.

  • NIMH: cuidar da saúde mental
  • CDC: bem-estar emocional
  • WHO: saúde mental

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Opostos se atraem? Psicologia e relacionamento

20 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Opostos se atraem? Psicologia e relacionamento merece atenção quando altera sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado. O ponto não é rotular toda reação emocional, e sim reconhecer quando sofrimento persistente precisa de apoio estruturado.

Texto escrito em colaboração com a Psicóloga Gabriela Costacurta (CRP 12/20823)

Constantemente escutam-se histórias sobre como os opostos se atraem. A extrovertida que desperta desejo pelo introvertido que não gosta de sair de casa. O homem nada romântico que se apaixona pela mulher que escreve cartas… Casais com estilo musical e hobbys totalmente diferentes.

Esses clichês são contados nos filmes, nos livros, na música, e na vida real, isso vez ou outra acontece. O que demonstra que, de fato, essa atração pode existir, mas em tempos de extrema polarização política, social e cultural, será possível manter uma relação com alguém de personalidade e crenças tão opostas?

Compreende-se, a partir da psicanálise, que uma série de aspectos inconscientes incidem na escolha de um par romântico, mas estes ficam no campo do não-sabido. Em seu Instagram, a psicanalista Ana Suy, diz que mesmo quando se é amado, ama-se sozinho, pois este é um sentimento que se dá pela fantasia.

Ainda, parafraseando Suy, “Quando se trata de amor não há adultos. Quem ama é sempre o infantil que nos habita”. A autora complementa dizendo que, mesmo que o amor nos infantilize, é esse amor infantil que nos permite a inclinação perante a quem desejamos. Só a partir desse lugar é que conseguimos suspender muitos de nossos mecanismos de defesa e se entregar a um outro, reconhecendo por vezes aquilo que nos falta.

Ao mesmo tempo, nesse jogo complexo com o outro-desejado, existe algo de muito narcísico acontecendo. Nossa subjetividade se constrói a partir das relações e paixões. E aquele por quem despertamos interesse, é percebido como uma imagem semelhante de nós mesmos.

Para a médica Izabel Rios[1] (2008), “inconscientemente, vejo no outro o que eu sou, o que eu fui, o que eu gostaria de ser ou o que eu gostaria de possuir. Quem nunca encontrou, alguma vez na vida, aquela pessoa perfeita que faz o coração pular de alegria?”

Ou seja…

Não se ama o outro pelo que ele é, mas pelo que é idealizado do objeto amado e, desta forma, ignoram-se suas faltas e falhas. Isso não demora a ser percebido, porém, é preciso ir além do estado de apaixonamento para nos darmos conta da totalidade do outro.

Desse modo, sim, podemos dizer que os opostos se atraem, visto que no campo do desejo são características físicas e da superfície da personalidade que nos chama a atenção no outro.

Até porque, precisa-se considerar que atração e relação (aqui, nos referimos a relacionamento amoroso)são coisas diferentes.


Os opostos se atraem, mas se relacionam?

Tomando como base a frase “os opostos se atraem”, é possível pensar que o outro poderia preencher aquilo que falta em si mesmo. Desta forma, a escolha seria feita visando uma complementaridade: busca-se no outro aquilo que se almeja ter, tornando-se uma unidade. Essa visão torna-se bastante limitada, ao restringir a escolha às características pessoais.

Caetano Veloso canta em “O Quereres”:

“Eu queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão

Encontrar a mais justa adequação

Tudo métrica e rima e nunca dor

Mas a vida é real e é de viés

E vê só que cilada o amor me armou

Eu te quero e não queres como sou

Não te quero e não queres como és”


De certa maneira, a falta inscrita no psiquismo é preenchida com aquilo que há no outro, causando certa sensação de completude – sensação efêmera diante da imensidão dos nossos sentimentos e inseguranças. Diante da realidade, há uma quebra na fantasia. Ainda, segundo Ana Suy, “o amor não preenche os nossos vazios, mas dá contorno a eles”.

Então, o amor parte da atração, mas opera como uma construção. É preciso que cada um saiba sobre si, sobre seus limites e prioridades, compreendendo até onde se consegue sustentar estas diferenças.

Contudo, existem coisas que só se manifestam após um período de relacionamento. E se saber de si já demanda muito tempo, conhecer o outro naquilo que ele é, de fato, exige mais tempo ainda. Existe uma duração – que poucas sensações vividas, além do apaixonamento, conseguem nos fazer experimentar – da idealização do outro. Deste modo, não há como apressar as coisas.

A experiência do amor, do desejo e da atração demandam tempo e autoconhecimento. Somente no cotidiano da relação, que aquilo que construímos a nossa semelhança, e que na realidade, não corresponde à persona do amado, é que iremos assimilar o que restou do outro, por si só – depois de desagregar o que há de nós na imagem do amante, ou o que acreditamos nos faltar.

Sobretudo, amar e se relacionar exigem tempo e compreensão. Compreensão do que se é e do que se deseja. Compreensão daquilo que é o outro, e do quanto se pode prosseguir em relação quando se cinde com o outro-inventado e se descobre quem é o parceiro real.

É bonito, de um modo romântico e mágico, pensar que dois opostos se atraem. Apesar disso, a atração, que faz dois se juntarem, não nos parece algo passível de construção de uma relação saudável, principalmente quando esses dois são opostos na totalidade do eu, que habita em cada um.

O tempo é rei. E é justamente ele que nos mostrará isso. Atravessando dias e semanas experimentando o oposto. Refletindo sobre os planos que não fluem entre o casal, o posicionamento político divergente, quando um almeja ter filhos e o outro não. É nesse espaço, do tempo, que conseguimos nos afastar da idealização, e nos aproximarmos da materialidade relacional. Percebendo o que pode aquela relação, até onde é possível caminhar com o outro, mesmo enquanto um oposto.

O amor exige espaço para que as individualidades sejam manifestadas. Exige espaço e tempo, para que seja possível desprender-se de um amor narcísico e então entender o que fica, o que sobra, quando a atração vai se desmantelando e tornando-se outra coisa.

Talvez seja possível dizer, então, que não são os opostos que se atraem, mas sim, os dispostos. E principalmente, que os opostos podem até se compelirem, porém, a transformação dessa experiência em um relacionamento já é outra história…



[1]Leia mais em: https://www.scielo.br/j/icse/a/kYk5fRB4XmhKkHXLjSsj46w/?lang=pt

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

opostos se atraem
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Opostos se atraem? Psicologia e relacionamento, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

mentira pode aparecer como defesa, evitação, manipulação, medo de conflito ou tentativa de preservar imagem. O impacto real depende de frequência, dano, intenção, reparação e contexto. Quando vira padrão, afeta confiança, vínculo e saúde emocional.

As pessoas mentem por motivos diferentes: medo, vergonha, proteção, vantagem, hábito, conflito ou tentativa de pertencer. Entender a mentira exige olhar consequência, intenção e repetição, porque uma mentira ocasional não tem o mesmo peso de um padrão que prejudica relações.

Como transformar a reflexão em ação útil

Em “Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações”, é fácil cair em frases motivacionais ou julgamentos pessoais. Uma leitura mais útil observa comportamento, contexto, sofrimento, função e apoio disponível. O foco deve ser entender o que está acontecendo, quais limites ou mudanças são possíveis e quando a situação precisa de ajuda profissional.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Para o autor, a mentira lírica seria uma espécie de permissão, que dá a si próprio, ao contar uma história inofensiva, que tem como intuito tornar mais interessante a crônica contada.

Mas nem só de permissão poética vive a mentira. E isso a gente bem sabe.

Tanto quanto já fomos enganados por pessoas que mentem, também fomos nós, em algum momento da vida, os mentirosos. A mentira é uma daquelas coisas que fazem parte da vida humana. Tive certeza disso quando comecei a escrever esse texto.

Como de costume, antes de iniciar o processo de escrita, fiz uma daquelas buscas despretensiosas no Google. Na barra de pesquisa, digitei a palavra mentira. E eis que, para minha surpresa, o resultado da busca foi esse:

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Perceba que, algumas das palavras semelhantes a mentira são: conto, conversa, história. O que demonstra que a mentira está, de algum modo, correlacionada com o ato de falar/contar alguma coisa.

Na maior parte dos outros textos que li – textos de profissionais da área de psicologia – a mentira é abordada como algo preocupante. O que é coerente, visto que a mentira, em alguns casos, pode ser patológica.

Considerando essas buscas, compreendi que a mentira aparece nas produções literárias, culturais e científicas de dois modos. Podendo ser classificada como banalidade, ou um sinal para termos cautela.

Assim, ponderando os dois lados da moeda, seguimos com o texto.

Quando a mentira machuca

Uma célebre e conhecida frase de Nietzsche, diz: “Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”.

E quando a mentira machuca? O que está contido na história ou fala de alguém que pode fazer doer em nós? Já parou para pensar que talvez não seja apenas o conteúdo da mentira que nos incomoda?

Acredito que o que faz doer, quando alguém nos mente, não é a mentira em si, mas a confiança que temos no outro, que é então quebrada pelo ato da mentira. Nossas relações interpessoais são constituídas de acordos. Tratos que fizemos e estabelecemos, mesmo quando silenciosos, para saber até onde se pode ir com determinada pessoa.

Os casamentos e namoros, por exemplo, são, antes de tudo, acordos. Em um casamento, comumente, existe uma espécie de deliberação sobre a monogamia. Na saúde e na doença, promete-se amor quando os votos são feitos. Nada é dito sobre a mentira, mas não porque não importe e sim porque é entendida através de outra ótica dentro das relações. Faz parte dos acordos silenciosos.

A mentira, quando cometida por alguém com quem mantemos um vínculo relacional, é então sentida como a cisão de um acordo. E é por isso que ela machuca. Ela pode até ser sentida fisicamente, como aquele embrulho no estômago que chega junto de palavras que sabemos conterem inverdades.

É ainda por seu oposto que a mentira machuca. Uma INverdade, a omissão da veracidade. Dói, inclusive, por cogitarmos acreditar, mesmo quando temos a certeza de que o que está sendo contado não é fidedigno a realidade.

Sobretudo, a mentira é sentida como traição. Traição de pacto, de acordo, de confiança. Por isso, a mentira não refere-se apenas ao momento no qual ela acontece. Ela reverbera na relação, chegando a nós como uma dúvida que se instala na psique.

Poucas coisas podem produzir um desassossego tão grande em nosso pensamento quanto a dúvida sobre o outro. O não saber, se ainda é possível ou válido confiar em quem nos mentiu, pois a confiança, que é base em qualquer relacionamento, encontra-se abalada.  

É com isso que a mentira opera. Não só com a dissimulação contida nas palavras que se profere, mas também com sentimentos e pensamentos. Existe mentira que conduz quem foi enganado a duvidar de si mesmo (já vimos isso antes aqui). Existe mentira que produz uma insegurança tão grande, que torna difícil não só a tarefa de confiar em quem mentiu, mas de confiar em outras pessoas e até mesmo em relações futuras.

Existe ainda a mentira que é mais grave do que os casos citados. A mentira que se utiliza em vista de manipulação e na prática de crimes, assim como, o estelionatário.

Isso nos mostra que a mentira é multifacetada, pode ser complexa ou comum, criminosa ou cotidiana. Mas é impossível viver em sociedade sem contar mentira.

As mentiras que contamos

Se existe a mentira que machuca, do outro lado, existe a mentira que contamos como forma de manter o convívio social. Aquele tipo de inverdade que é proferida pela relação que se estabelece com a pergunta, sabe?!

Nesses casos, opta-se, conscientemente, pela mentira, porque a opinião verdadeira acabaria sendo mais rude do que a própria realidade.

William Blake, famoso poeta e pintor, escreve que: “Uma verdade que é dita com má intenção derrota todas as mentiras que possamos inventar”. E o pensador Sófocles, complementa: “Não é bom dizer mentiras; mas quando a verdade puder trazer uma terrível ruína, então dizer o que não é bom também é perdoável”.

Esse para mim é o ponto nevrálgico da questão. Existem situações cotidianas, nas quais, uma verdade, quando proferida apenas pelo pacto social e moral, acaba produzindo um sentimento de desconforto muito maior a quem é submetido a tal opinião.

Sabe aquela pergunta que fazemos ao outro, intuindo que a resposta seja exatamente a que desejamos? Um exemplo clássico é quando somos convidados a opinar sobre uma roupa, corte de cabelo, uma refeição. A pergunta que é direcionada a nós é tendenciosa. Não é uma pergunta que busca pela verdade. O que se deseja é uma resposta polida, gentil.

Reflita. O quanto você deseja a verdade quando faz determinada pergunta?

Conheço muitas pessoas que tem um acordo severo com a verdade. E que, diferente do que acreditam, não são consideradas pessoas extremamente confiáveis ou verdadeiras. Uma fala permeada de opiniões grosseiras e de posicionamento pouco empático, ancorado no discurso de que está sendo sincero, pode piorar, e muito, a situação.

Assim como há mentira que machuca, há verdade que machuca também.

Reafirmo, para convivermos socialmente, às vezes, é necessário omitir a verdade. Isso não nos torna mentirosos, só seres humanos coexistindo, em sociedade, com suas diferenças.


[1]Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=R1IUt-CAgSw&t=19s

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

porque as pessoas mentem
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

Em Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações, a linha de cuidado aparece quando o sofrimento deixa de ser episódio isolado e passa a limitar decisões, sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado. A intensidade importa, mas duração e prejuízo funcional costumam orientar melhor a necessidade de ajuda.

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

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  • Psicologia
  • Psiquiatria

Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Fontes úteis

  • NIMH: cuidar da saúde mental
  • CDC: bem-estar emocional
  • WHO: saúde mental

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Gaslighting: sinais e como buscar apoio

13 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Sobre Gaslighting: sinais e como buscar apoio: o contexto muda a interpretação. Tempo de evolução, intensidade, fatores que pioram, sintomas associados, idade, remédios e doenças conhecidas orientam a decisão. Piora rápida, dor intensa, falta de ar, desmaio ou alteração neurológica pedem avaliação.

Chantagem emocional, termo superficial usado com frequência para falar de algo que é muito mais complexo. Utilizaremos aqui, para nos referirmos com a devida importância à problemática do tema, um outro termo. Conhecido como Gaslighting, a expressão surge a partir de um filme do diretor George Cukor, o Gaslight (1944), em português traduzido para À meia-luz.

Não é por menos que trago o filme para tratarmos do tema. O escopo desta obra cinematográfica muito nos interessa, principalmente, porque retrata como, cotidianamente, jogos mentais vão ganhando força naquilo que se propõem: criando conflitos internos na psique da vítima, fazendo com que duvide de si própria.

A trama gira em torno de um casal, e das artimanhas utilizadas pelo marido para fazer com que sua esposa acredite estar enlouquecendo. No filme em questão, Paula, a protagonista, é submetida a constantes episódios de manipulação psicológica. Um deles é o que dá nome a película. Gaslight, em tradução livre para o português, significa “luz a gás”, referenciando uma cena específica, na qual a mulher percebe uma súbita mudança de luz. O marido, é claro, nega que tenha acontecido, fazendo com que ela se questione sobre o que viu de fato.

Em outro momento, Gregory, o marido, flerta com a empregada do casal. Nessa cena, os três estão no mesmo cômodo da casa. O cortejo se dá com a presença da esposa, que tenta não demonstrar desconforto ou ciúme.

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Gaslight, 1944

Quando a empregada se retira da sala, a esposa questiona Gregory sobre o que acabara de presenciar. O marido, com toda sua perspicácia, sugere que Paula está, novamente, imaginando coisas.

Isso não cessa. Gregory esconde coisas de casa, com o intuito de convencer sua mulher de quem foi ela própria quem as perdeu, entre várias outras situações cotidianas e sutis. Essas duas últimas palavras interessam aqui para prosseguirmos a reflexão.

Como identificar situações de manipulação psicológica e gaslighting

Por ser um termo inglês, gaslighting, pode deixar escapar o significado contido na palavra. Contudo, refere-se ao processo de distorcer a realidade de alguém, de maneira sutil e corriqueira. Ou seja, não é fácil de identificar se você está ou não sofrendo gaslighting, muitas vezes pode ser quase imperceptível. O Gaslighting é considerado uma violência psicológica, cometida através de ações e falas que fazem o outro questionar-se sobre suas próprias certezas.

Como menciona Valeska Zanello – professora de psicologia clínica da UnB –, em entrevista para o Fantástico[1]: o gaslighting produz na vítima “- dúvida acerca da própria percepção e da sanidade mental”. A professora complementa, com uma frase de alerta: “- Eu acho impossível ser mulher heterossexual no Brasil e nunca ter sofrido gaslighting numa relação amorosa”.

“Isso é coisa da sua cabeça”, “Você está imaginando coisas”, “Você é louca”, “Você está histérica”…

Já ouviu isso antes?

Entre tantas outras frases que poderia citar, essas são as mais corriqueiras e cotidianas. Frases que eu inclusive também ouvi. Não é fora do comum, em discussão de relacionamento, se deparar com uma fala dessa vindo em sua direção. A questão é o resultado, a proporção e o peso que expressões como essas tomam em nossa psique.

Punição por meio de jogos mentais, falas que produzem desestabilização emocional (Leia mais sobre clicando aqui), chantagens, desvalorização da opinião da vítima, bem como, seus gostos, ações; abusos quase que imperceptíveis, são apenas algumas das variadas características do gaslighting.

Algo importante a ser mencionado, é o fato de que, acompanhado de ações como as acima citadas, o gaslighting pode esconder-se por detrás de comportamento afetuoso e preocupado. Tornando mais complexo ainda o processo de dar-se conta da relação de violência psicológica, na qual se está vivendo.

O efeito disso na subjetividade da vítima é de enfraquecimento do ego e da moral e desacreditamento de si próprio. Inclusive, o que acontece com muitas pessoas que estão em relações, nas quais são vítimas de gaslighting, é desvalorizar sua própria opinião e raciocínio. Acabando por concordar com o agressor, em muitas de suas colocações e comportamentos agressivos.

O sujeito que sofre com esse tipo de violência psicológica se encontra enfraquecido de si. Em dúvida de sua capacidade e validade no mundo. Já não sabe se pode confiar em seu próprio pensamento e sentimento. Assim, em inúmeros casos de gaslighting, é muito difícil abandonar a relação. Pois, a vítima é levada a acreditar que é culpada pelas situações apontadas pelo companheiro.

Os reflexos da vítima de manipulação psicológica e gaslighting

Como resultado desse processo de distorção da realidade, são produzidas ideias que se confundem na cabeça da vítima, o que antes era dúvida:

Será mesmo que eu estou imaginando isso?

Começa a ser invertido para:

Ele deve estar certo, deve ser coisa da minha cabeça, mais uma vez…

Pensamentos disruptivos como esse vão sendo construídos dia a dia. É quase como se fosse possível ouvir uma voz que diz: não é seguro confiar em você mesmo.

Obviamente que, o gaslighting não acontece apenas em relações românticas. Isso também é comum no trabalho – quando o chefe/supervisor invalida o trabalhador –, ou mesmo na família, por parte de algum parente. Contudo, é mais recorrente nas relações amorosas heterossexuais, nas quais o homem é o agressor e a mulher é a vítima.

O que torna complexa a tarefa de reconhecimento por parte da vítima, é de que, comumente, as situações vexatórias pelas quais é exposta, acontecem dentro de casa. Como já dito anteriormente, são agressões sutis. Quem pratica esse tipo de violência, o faz de modo a se autopreservar. Sendo cuidadoso para não ser pego. A intenção do agressor é, justamente, fazer com que o próprio círculo da vítima concorde com ele. “Ela está louca, de fato”.

Então, como sair dessa situação?

Se você conhece alguém que passa por circunstâncias como as acima citadas, tenha paciência. Essas pessoas são, antes de tudo, vítimas de uma violência silenciosa. Acolha, escute, deixe ela saber que tem alguém para confiar. Lembre-se, quem está sofrendo gaslighting, encontra-se em estado depreciativo de si mesmo.

E, no caso de você ter se identificado com as frases e exemplos descritos, procure um profissional da psicologia. Você encontrará o amparo que precisa para sair dessa situação e se libertar de uma relação abusiva.


[1]https://www.youtube.com/watch?v=4KB1MyNXzmo

Como observar evolução e sinais associados

Sintomas ficam mais claros quando são descritos por início, duração e evolução. Para Gaslighting: sinais e como buscar apoio, isso significa olhar para a situação concreta: quem é a pessoa, há quanto tempo a dúvida existe, o que já foi tentado e quais sinais mudariam a conduta hoje.

SinalComo interpretar
InícioSúbito, progressivo ou recorrente muda as hipóteses.
IntensidadeDor forte, falta de ar ou desmaio reduzem a margem para esperar.
AssociaçãoFebre, perda de peso, sangramento ou fraqueza importam.
EvoluçãoMelhora, estabilidade ou piora orientam o próximo passo.
Evite concluirPrefira observar
“É só um sintoma comum”Intensidade, duração e sinais associados.
“Se melhorou, acabou”Recorrência e limitação funcional.
“Posso repetir a mesma solução”Resposta anterior, efeitos adversos e causa provável.

Ao buscar atendimento, descreva o sintoma com começo, duração, intensidade, localização, gatilhos, sinais associados e o que já foi tentado. Isso acelera o raciocínio clínico.

O acompanhamento fica mais útil quando há um critério claro de melhora, um sinal de piora e um prazo para reavaliar a decisão.

Fonte: MedlinePlus: medical encyclopedia.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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Dependencia emocional: sinais, limites e caminhos de cuidado

10 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Existe coisa que só se aprende vivendo. Para mim, ouvindo. Aprendi sobre dependência emocional – mesmo antes de ter conhecimento sobre o termo – ouvindo uma composição de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. A música diz,

Mapa clínico: dependência emocional envolve padrão, sofrimento e perda de autonomia

Em resumo: dependência emocional não é apenas gostar muito de alguém. O sinal de cuidado aparece quando medo de abandono, necessidade constante de confirmação, ciúme, dificuldade de dizer não ou tolerância a situações ruins começam a reduzir autonomia, sono, trabalho, estudo e vínculos saudáveis.

Diagrama de dependência emocional com medo de abandono, busca constante de garantia e dificuldade de impor limites.
Nomear o padrão ajuda a separar vínculo de sofrimento repetido.
Fluxo visual de cuidado em dependência emocional com mapeamento de gatilhos, treino de limites e apoio profissional.
O objetivo não é esfriar relações, e sim reduzir perda de autonomia.
SinalO que pode indicarPróximo passo
Ansiedade ao ficar sem respostaMedo de rejeição pode estar comandando a rotina.Registrar gatilho e intensidade.
Aceitar situações que machucamLimites pessoais podem estar fragilizados.Conversar com rede de apoio.
Crises recorrentes no relacionamentoPode haver ansiedade, depressão ou violência.Avaliação psicológica ou psiquiátrica.
  • Anote situações que disparam medo, urgência de contato, ciúme ou sensação de vazio.
  • Observe se você deixou de estudar, trabalhar, dormir, sair ou cuidar da saúde por causa do vínculo.
  • Procure ajuda imediata se houver ameaça, violência, controle coercitivo, ideação suicida ou perda de segurança.

Nota de segurança: sofrimento emocional intenso merece acolhimento, mas não deve ser romantizado como prova de amor.

Para continuar no tema: Psicologia | Ansiedade nos relacionamentos | Ansiedade patológica | Depressão não é frescura

“Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho”

O que me chama a atenção nesse trecho em específico é a frase: “os seus olhos têm que ser só dos meus olhos”. Um convite poético e inebriante, que quase deixa escapar o perigo contido. Um bilhete de entrada para um mundo no qual só cabe um, mesmo quando são dois o habitando. E não é exatamente assim que se vive uma relação de dependência emocional? Explico.

Retomando o conceito de conflito interno – apresentado em texto anterior –, é possível analisar como o sentimento de insegurança é produzido na psique. Quando o sujeito carrega consigo pensamentos relacionados à baixa autoestima, dúvida de si próprio quanto a sua capacidade e possibilidade de ser desejado. É nesse espaço de pensamento que o conflito psíquico conduz a ideia de que ao eu falta, de que não se é bom o suficiente. Ideias destrutivas do ego.

Contudo, isso não se mantém no mundo interno, no espaço do pensamento, principalmente quando estamos nos relacionando com um outro alguém. Toda essa confusão psíquica é projetada na relação.

Dependência de quem? Ao EU não falta nada

Existe coisa que só se aprende ouvindo, certo?! Bem, quando criança ouvi aquela velha história da metade da laranja. Teve também a da tampa da panela. Dessas histórias que avós contam, acreditado piamente que nos ajudam ao implementarem nas nossas cabeças, confusas e pulsantes, a ideia do amor que falta.

Ou, melhor dizendo, a ideia de que é preciso encontrar alguém que supra, preencha e complete um espaço faltoso. Encontrar alguém de quem se possa ser dependente, que acabe com a insegurança que assola o peito. Prato cheio para confusão.

A teoria de que ao Eu falta, precisa ser descontruída dentro de cada um de nós. Crescemos em uma sociedade que produz filme, música, novela e poesia que dizem de um amor que chega para nos tornar um EU completo.

Sem esse amor, então, seríamos faltantes. É trabalho importante e necessário confeccionarmos um novo modo de se relacionar, primeiramente consigo e depois com o outro. Mas, é trabalho árduo e demorado.

Começando do começo, do mais básico:

top view white puzzle pieces and green background

Ao EU não falta nada. Não falta um outro. Somos panela e tampa. A laranja completa.

Bastar-se, termo necessário para refletirmos sobre o amor e sobre dependência emocional. Um amor que se propõe a um novo modo de relação, distante daquela busca sofrida por um outro, que vem para nos salvar de nós mesmos. Um amor que, primeiramente, é voltado ao Eu.

Aquilo que conhecemos como insegurança, deve então ser trabalhada em nós mesmos, a partir da análise e da compreensão do que pensamos faltar – aquilo que você, provavelmente, busca no outro quando se relaciona. Não é possível preencher-se do outro e é por isso que, quando finalmente encontramos em uma relação aquilo que nos “falta”, – me refiro aqui a qualidades, posicionamento, comportamento –, ainda assim continuará a faltar.

Vez ou outra, quando apaixonados, temos a sensação de ter encontrado alguém que tampe todos nossos buracos existenciais. Isso passa, a gente bem sabe que passa. O que reafirma a tese de que é preciso bastar-se.

Mas, e quando não parece ser possível ser um Eu inteiro sozinho? O que isso significa?

Insegurança + dependência emocional = relacionamento abusivo

Somos movidos pelo desejo. Movidos por sentir a vida pulsando e em movimento, pela busca e pelo encontro. Poucas experiências na vida são tão arrebatadoras quanto estar apaixonado. Porém, quando nos apaixonamos, fazemos do outro nosso objeto de desejo e isso pode acabar se tornando perigoso. Principalmente quando se coloca no outro a incumbência de nos manter vivos, desejantes, saudáveis.

Resumindo, nessa equação e nesse tipo de relação, só existe amor próprio e autoestima quando vejo o outro me amando e me desejando.  

Quando um Eu não basta. Quando a insegurança extrapola. Quando só se sabe ser inteiro ao existir mais um por perto. Podemos estar vivenciando uma situação de dependência tão grande do outro, que o resultado é um relacionamento abusivo.

Todos nós somos, ao menos um pouco, inseguros. Por isso, nem sempre é fácil identificar quando acontece. Principalmente porque, um relacionamento abusivo, pode, no começo, se disfarçar de preocupação, de proteção e cuidado, de amor. Como saber então se minha insegurança extrapola o limite do aceitável ou se estou vivendo um relacionamento abusivo? Preste atenção nas seguintes questões:

Você se questiona se determinado comportamento ou ação é saudável/correto?

Você respeita o espaço do outro e é respeitado?

Você tem atividades e tempo livre que dedica para si próprio?

Seu círculo social e interação se restringe ao companheiro?

Entre tantas outras questões que poderia escrever aqui, essas são só algumas para as quais é necessário atentar-se. Seja quando somos nós mesmos que lidamos com a insegurança, seja o parceiro com quem nos relacionamos… É importante, para nosso desenvolvimento emocional, compreender e respeitar os espaços de cada um.

Uma relação não pode se sustentar quando o Eu não se sustenta sem um Outro.

O medo de estar sozinho, de ser insuficiente, não pode nunca nos manter em uma relação. Caso contrário, a infelicidade é certa. Não confunda proteção, cuidado, amor, com possessividade, invasão, desrespeito. Quando não se sabe viver sem o outro, é porque, na verdade, ainda não se aprendeu a viver consigo mesmo.

Por fim, cuide-se. Olhe para si, viva e deseje por você.

O outro importa, relacionar-se importa, mas é fundamental aprender a bastar-se, a saber viver por conta própria. É fundamental saber o que dói, o que nos afeta, o que nos torna inseguros. Assim, quando o amor chegar, será possível viver a experiência do relacionamento, sem o peso de sentir que é preciso do Outro para ser um Eu completo.

Como diferenciar cuidado, apego e dependencia

Sentir saudade, desejar proximidade e buscar apoio emocional faz parte de muitos vinculos saudaveis. A dependencia emocional preocupa quando a relacao passa a organizar toda a autoestima, todas as escolhas e toda a sensacao de seguranca da pessoa. Nessa situacao, limites deixam de ser negociados e viram medo: medo de desagradar, de ser abandonado, de ficar sozinho ou de perder valor se o outro se afasta.

Relacao saudavelSinal de alerta
Ha afeto e tambem vida propria.A pessoa abandona amigos, interesses e autonomia para evitar conflito.
O casal conversa sobre limites.Um parceiro controla roupa, celular, dinheiro, rotina ou contatos.
Apoio emocional existe dos dois lados.Um lado se sente responsavel por regular todo o humor do outro.

Perguntas de auto-observacao

  • Eu consigo dizer nao sem sentir que a relacao vai acabar?
  • Tenho tempo, amigos e projetos que continuam existindo fora do relacionamento?
  • Tenho medo de contar a alguem como meu parceiro ou parceira me trata?
  • Procuro ajuda quando ansiedade, tristeza ou ciume passam a dirigir minhas decisoes?

Seguranca relacional: dependencia emocional nao deve ser usada para culpar quem esta sofrendo controle, ameacas ou violencia. Se ha medo, isolamento, humilhacao, coercao sexual, perseguicao ou agressao, busque apoio de pessoas confiaveis e servicos locais de protecao.

Revisao e fontes

Este trecho foi revisado em 15 de maio de 2026 com foco em clareza, seguranca do leitor e interpretacao conservadora das evidencias. As fontes abaixo foram usadas para atualizar os cuidados e limites praticos do texto.

  • NHS inform – Healthy relationships
  • CDC – About Intimate Partner Violence
  • NIMH – My Mental Health: Do I Need Help?

Fontes de apoio: NIMH: anxiety disorders | NIMH: caring for mental health

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Conflitos internos: por que brigamos conosco

9 de junho de 2022 by Eduarda Moro Deixe um comentário

Dentre as situações de conflitos, angustiantes e tensos, que vivemos durante a vida inteira, as mais difíceis de enfrentar, certamente, são os confrontos que travamos contra nós mesmos. São aquelas brigas que não se consegue deixar para depois, porque não dependemos de um outro envolvido para que o combate aconteça, apenas um cérebro ruminante.

Acompanhado de pensamentos disruptivos, sensação de insegurança relacionado a autoimagem e competência, entre tantos outros sentimentos, que ao se somarem, causam angústia profunda. A esse conjunto de pensamentos e sentimentos, demos o nome de conflito interno. Mas, o que nos leva ao desenvolvimento destes?

Ruminar, termo que nos interessa aqui para entendermos a complexidade do assunto.

Abandone agora a concepção de animais ruminantes, para pensar no significado contido na palavra. Quem rumina, regurgita, para depois, por mais uma vez, mastigar. Coloque seus pensamentos nessa equação, perceba como isso se enquadra no que comumente fazemos, quando nos colocamos em processo de pensar sobre nosso próprio pensamento.

É isso mesmo, “pensar sobre o próprio pensamento”. Pode parecer confuso, mas explicita o diálogo interno que nos acomete. Um exemplo clássico disso, é quando percebe-se – aquilo que chamamos de – emoção tensionando razão, e vice-versa.

Freud explica.

Para o psicanalista, nossa organização psíquica acontece a partir de uma tríade: Id, Ego e Super-ego. Enquanto o Id funciona como um estado de busca contínua pelo prazer, nosso nível mais instintivo, o super-ego age de forma mais repressiva, reprimindo o Id por meio de crenças e pensamentos moralizantes e éticos.

O Ego é quem negocia com essas instâncias psíquicas. Adequa o desejo ao mundo real, daquilo que é possível fazer, como se buscasse por um equilíbrio. E é nesse jogo mental, de disputa, que se formam os conflitos internos.

Conflitos não são só internos

Um erro comum, ao enunciarmos a palavra interno, é o de conceber esse tipo de conflito como algo que não se mostra, e não se apresenta, no fora. Com isso, duas coisas acontecem:

  1. O que se relaciona com nosso mundo interno, ainda é tratado com certo tabu[1]. Existe um silêncio velado para o que é de natureza psíquica, e o sistema de organização social e econômico, nos conduz a continuar reprimindo aquilo que é de ordem ‘privada’[2]. Ou seja…
  2. Por alocarmos essa confusão dentro do cérebro, não procura-se ajuda na resolução e no desatar dos nós mentais. Acreditando que, primeiro, é possível fazer isso sozinho, afinal, são “coisas da cabeça”. O segundo erro é resultado proveniente do primeiro. Pela crença de que só é de urgência tratar a ferida exposta e a ferida que se apresenta fisicamente, se permite encobrir a ferida existencial.

Posto isso, é possível compreender que a desvalorização do sentimento de angústia – e do mundo psíquico, que nos acomete a cada batalha interna travada, produz, em nosso Super Ego, pensamentos que culminam em mais conflito ainda. Por exemplo,

você já sentiu culpa por não conseguir concluir uma tarefa no prazo, mesmo quando se sentia esgotado psiquicamente?

E se invertemos a situação para:

Você já sentiu culpa por não conseguir concluir uma tarefa no prazo, mesmo quando se sentia doente fisicamente?

Essa é a questão aqui. O peso de não finalizar uma incumbência é muito menor, mas muito mesmo, quando o motivo atribuído a essa situação é de origem externa. Quantos atestados médicos ampararam uma enfermidade do corpo? E agora reflita, quantos atestados médicos ampararam sua angústia, sua ansiedade, seu desespero? Esse é apenas um dos vários exemplos que poderíamos elaborar.

Deixamos de perceber como isso afeta o cotidiano, pois, de algum modo, somos conduzidos a menosprezar o sofrimento que não é recorrente de um machucado visível. É preciso, antes de tudo, acabar com a cisão que fazemos entre corpo e mente. As doenças psicossomáticas estão aí para nos fazer ver como, e quanto, a psique influencia no estado do corpo físico.

Dor de barriga, dor de cabeça, náusea, dores produzidas por um mal-estar psicológico. Aquilo que nos atormenta em forma de pensamento, as batalhas, ditas internas, são tão exteriores quanto uma ferida aberta. E sabe o que é pior? Teremos sempre de viver com esses conflitos. Conhece aquele velho ditado que diz que “para morrer basta estar vivo”? Digo mais,

Para existir conflito interno basta estar vivo.

Conflitos existem, o que fazer com eles?

Chegamos aqui. Entendemos os motivos pelos quais nossas batalhas internas acontecem. Compreendemos que conflitos não são só internos e o quanto estes podem influenciar no modo como vivemos a vida. Ainda mais, descobrimos que os conflitos são intrínsecos a condição de estar vivo. É coerente então agora buscar por soluções. É isso o que fazemos, não é mesmo?! Resolver problemas na superfície, para poder prosseguir.

O problema é que, os motivos que nos levam a entrar em embate psíquico, não são apenas de origem interna.

São questões de ordem social. Quantas imposições, quantas ideias permeadas por posicionamentos moralistas, são inculcadas na nossa cabeça e no nosso corpo? Quantos anos passamos ouvindo o que pode ou não ser feito, o que pode ou não ser falado e o que pode ou não ser pensado? Se existe culpa até no ato de pensar sobre algo, no nosso espaço mais íntimo e não verbalizado, que só se manifesta em ideia, existe também algo de muito errado no caminho que a humanidade tem tomado.

E é por isso, e por mais, que escrevo que

O conflito interno é também uma expressão do conflito – e do formato – social.

Então, na próxima vez que pensamentos e sentimentos disruptivos, produtores de culpa e de autoflagelo, tomarem você, seu corpo físico e mental, pare. Pare por um minuto ou mais, mas pare para refletir sobre o motivo pelo qual isso gera angústia. Entenda o quanto desse conflito é, também, do mundo. Perceba o quanto desse conflito está aí porque você foi condicionado a viver, pensar e agir, através de uma forma de vida que nada se relaciona com quem você verdadeiramente é.

dried pink peony flower in a clear vase reflected on a mirror

“Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates, nos entregando a solução… A gente só não entendeu.


[1]Leia mais na notícia: https://www.paho.org/pt/noticias/8-10-2021-relatorio-da-oms-destaca-deficit-global-investimentos-em-saude-mental

[2]Essa é conversa para outra hora. Mas há muito que se discutir a respeito da visão equivocada de que os problemas psíquicos são individuais. O número de pessoas com transtornos depressivos cresce cada dia mais. Isso nos mostra que existe algo de muito prejudicial no modo como nossa existência vem sendo conduzida, diante do sistema capitalista.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

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