Apego emocional, dependência e carência afetiva: quando o eu não existe sem o outro

Texto escrito em colaboração com a psicóloga Kelly Gomes – CRP 12/14830. Psicoterapeuta de abordagem psicodramática, especialista em avaliação psicológica e pós graduanda em psicologia e intervenções online.

Já falamos em outro texto sobre dependência emocional. Hoje, trataremos aqui de outros aspectos vinculados a ela. Não é por acaso que utilizamos o termo dependência ao tratar de assuntos ligados ao apego emocional. Estudos apontam que a carência afetiva tem correlação com o sentimento experienciado por dependentes de substâncias psicoativas, já que estão ligadas a sensações de prazer. Portanto, a dependência emocional pode ser sentida, de fato, como uma dependência.

Como afirma o psicólogo Walter Riso, “o que define a dependência não é tanto o desejo quanto a incapacidade de renunciar a ele”. A angústia, que é sentida por conta da possibilidade de não ter mais o outro, faz doer, tal como se estivéssemos nos desintegrando de partes de nós.

Talvez essa seja uma das grandes questões do apego emocional. Sentir como se só se fosse inteiro, quando existe um outro para nos amparar e nos tornar então “completos”.

Para compreender melhor como os sentimentos associados a dependência emocional são experienciados, gostamos da analogia que se apresenta na relação entre bebê e figura materna.  

O bebê, quando nasce, precisa de alguém que esteja ali presente em todos os momentos para que ele possa sobreviver. Nesta fase do desenvolvimento nossa existência está a mercê do outro, somos dependentes em diversos sentidos. Precisamos ser alimentados, acalentados, cuidados… Precisamos que o outro leia o mundo para nós.

Na medida em que vamos crescendo e nosso entorno nos é favorável – ou seja, nos instigam a autonomia, nos ajudam na construção de uma visão amigável de nós mesmos –, aprendemos a assimilar aquilo tudo que compõe a vida. Com isso, pouco a pouco, entendemos que viver implica em estabelecer conexões com outras vidas e outros mundos, diferentes do nosso.

Assim é que construímos o nosso eu-individualizado, nesse jogo de trocas e de experimentações, no qual compreende-se que é possível existir e estabelecer vínculos sem diluir-se no outro. Ou, melhor dizendo, sem o outro que traria ao eu o sentimento de completude.

Quando seguimos ancorados no outro sempre, tal como acontece com o bebê e a figura materna, é preciso ligar um alerta.

Dependência emocional e suas múltiplas facetas

A dependência emocional aparece de diferentes formas, em diferentes relações. Assim como é assimilada de modo diferente por cada um de nós. Pode ser sentida como carência afetiva ou apego emocional, que surge devido a experiências da primeira infância a partir de uma falta, ou, devido aos excessos de uma presença.

Contudo, uma característica sempre presente parece estar correlacionada com a ideia de incompletude, o que faz com que exista demasiado apego emocional a uma determinada pessoa. E a essa pessoa é designado o papel de nos manter vivos e sãos, tal como é com a figura materna.

Você certamente conhece alguém que mantém uma relação de dependência. Aquela relação em que há muita cobrança sobre o outro, na qual coloca-se muita expectativa de o outro zele, proteja, recuse suas próprias vontades em detrimento das vontades do companheiro.

Existe, ainda, quem não consegue fazer nada que não inclua o outro. É como se fosse extremamente difícil tomar decisões, defender opiniões e posicionamentos, sem a aprovação do outro. Algumas pessoas sofrem tanto com o apego emocional, que a desaprovação perante alguma decisão ou ação pode ser sentida como uma disrupção do ego. Seja pelo medo de ser rejeitado, pelo receio de ficar só, evita-se contrariar o parceiro.

Frequentemente confundimos amor com apego emocional. A ideia de que sem o outro não existimos, por vezes, é romantizada. E exatamente por esse motivo, é quase como se isso nos desse a autorização de terceirizar a responsabilidade que temos perante nossas próprias vidas.

Como lidar com a dependência emocional?

Mesmo que seja comum nos depararmos com relações de apego emocional, pode demorar e muito para assimilarmos a ideia de que nós podemos estar vivendo em uma. Seja na situação de dependentes ou na posição de quem precisa suprir.

Devido a isso, como pode se esperar, a psicoterapia costuma ser uma opção tardia. Outros problemas podem surgir daí. Há quem escolha preencher seus “buracos” não com pessoas, mas com abuso de substâncias químicas e demais comportamentos nocivos à vida e a saúde.

É como se colocando algo ou alguém, nesse lugar de falta, estaríamos, por fim, encontrando paz, amenizando o vazio.

O que é, então, possível fazer, para lidarmos com a dependência emocional em suas multifacetas?

Um mergulho para dentro de si nos parece ser sempre a melhor resposta. O encontro com o eu é necessário para compreendermos o que falta, ou sobra, e como podemos reaver isso em nós mesmos, para que por fim sejamos um eu-inteiro.

Para que isso seja possível, na prática clínica, através da psicoterapia, trabalha-se com a perspectiva de fortalecimento do eu, do amor próprio, autorrespeito, reconhecimento de si. Busca-se criar estratégias de empoderamento desse ego, que se encontra empobrecido de si mesmo, para que o sujeito consiga redescobrir as possibilidade de ser e existir no mundo, sem que um outro esteja envolvido.

É nesse processo que se faz possível elucidar os modos pelos quais o sujeito tende a se relacionar. A maneira como se comporta nas relações, os impactos dessa dependência e como ela se manifesta na vida da pessoa, demonstrando os prejuízos que o apego emocional produz.

O manejo da psicoterapia, nesses casos, visa amparar o sujeito, o possibilitar a busca por novas respostas para não continuar cometendo os mesmos erros. Fazê-lo perceber que a vida sem um outro não só é possível, como também, necessária. Dado que, ao viver uma relação de dependência, podemos ficar reféns de relações, de contextos e vícios, que podem causar danos e perdas irreparáveis. Então, torna-se necessário “esclarecer” ao dependente de que a responsabilidade por sua vida é apenas dele.

A psicoterapia é importante nesses casos porque, dificilmente é possível sair de uma relação de dependência, mesmo depois de percebermos a existência dessa dinâmica em nossas vidas. E é mais difícil ainda sair dessa situação sem que isso cause muito sofrimento, visto que o sujeito dependente vive grande parte da vida assim, apegado e misturado ao outro.

É somente quando o sujeito compreende sua integral responsabilidade por si próprio, e sua completude enquanto pessoa, que as amarras internas vão se afrouxando.

Por fim, é possível vislumbrar um eu que é seu próprio porto seguro e que não precisa do outro para existir e realizar. Nesse processo, a pessoa passa a ser protagonista de sua própria existência, deixando de ser coadjuvante em sua jornada.

“Espero me curar de ti em alguns dias. Devo deixar de te fumar, de te beber, de pensar em ti. É possível. Seguindo as prescrições da moral em voga. Receito a mim mesmo tempo, abstinência, solidão” (Jaime Sabines)

Eduarda Moro

CRP 06/182921
Psicóloga, Mestra em Educação e Doutoranda em Ciências Humanas. Interessa-se por temas relacionados as humanidades, problemas da contemporaneidade e tudo aquilo que faz a vida mais viva e criativa. Pesquisadora na área de subjetividade e modos de subjetivação.

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