Tristeza Repentina e Vontade de Chorar

Tristeza repentina e vontade de chorar

O sentimento de tristeza pode estar associado a uma resposta frente a sentimentos negativos, com ou sem influência do ambiente, e o choro consequente uma forma de tentar amenizar esses sentimentos exasperados e presos dentro de si.

A tristeza é um sentimento normal e presenciado por todas as pessoas em determinados momentos da vida. Entretanto, quando conjunto a crises de choro “sem motivo”, pode ser um sinal que algo não está bem.

Por Que Choramos?

O choro é uma manifestação complexa, que pode ser influenciada por fatores psicológicos, neurobiológicos e sociais. As emoções que nos levam a chorar, como tristeza, raiva, medo e alegria, são processadas automaticamente em nosso cérebro. Essas emoções são desencadeadas por estímulos psicológicos ou acontecimentos reais.

O interessante é que, muitas vezes, antes mesmo de reconhecermos conscientemente essas emoções, nosso corpo já responde com o choro.

Além disso, estudos neurocientíficos revelam que a maior parte de nossas emoções, memórias e padrões psicológicos está armazenada em nosso inconsciente. Para exemplificar, nossa consciência é como a ponta de um iceberg, enquanto a vasta parte submersa é o nosso inconsciente.

Causas da Vontade Constante de Chorar

Sentir vontade de chorar de vez em quando, principalmente em situações de estresse ou tristeza, é completamente normal. No entanto, se essa vontade se torna constante, é essencial investigar suas causas.

Algumas possibilidades são:

  1. Indicativos de depressão: Sentir-se triste e com vontade de chorar constantemente pode ser um sintoma de depressão. No entanto, é crucial consultar um profissional para um diagnóstico completo.
  2. Esgotamento mental: O estresse e as tensões do dia a dia podem levar a um estado de esgotamento que se manifesta com tristeza e vontade de chorar.
  3. Problemas físicos: Algumas deficiências, como a falta de vitamina B12 ou hipotireoidismo, podem desencadear sentimentos de tristeza.
  4. Transtorno de ansiedade: Pessoas muito ansiosas podem se sentir frequentemente agitadas e preocupadas, levando a momentos de vontade de chorar.
  5. Alterações hormonais: Em especial nas mulheres, variações hormonais, como as que ocorrem durante o ciclo menstrual, podem intensificar sentimentos de tristeza.

Causas de Choro e Tristeza Repentina

Neste artigo, iremos discutir um pouco sobre os principais motivos pelos quais ambos sentimentos ocorrem.

Depressão

Ao falar sobre tristeza repentina e vontade de chorar, possivelmente o primeiro “diagnóstico” que venha em sua cabeça seja a depressão. De fato, essa doença está altamente relacionada com essas queixas, mas não é a única razão para essas alterações de humor [1].

A depressão é uma doença psiquiátrica crônica, grave e recorrente associada ao sentimento de tristeza prolongado e/ou apatia frente às situações de vida. Embora sua base neurobiológica não seja totalmente conhecida, seus sintomas clássicos envolvem choros frequentes (principalmente na depressão moderada) [2], desesperança e falta de ânimo em situações anteriormente prazerosas [1].

Embora o choro frequente seja um sintoma, dependendo do tipo de depressão e sua gravidade a apatia do paciente pode estar elevada a níveis em que a habilidade de chorar acaba se perdendo [2, 3]. Ainda, o choro é mais observado em mulheres deprimidas do que homens [2].

Tristeza repentina e vontade de chorar

Estresse

Episódios de estresse prolongado podem ser relacionados com tristeza repentina e choro constante. Este choro, no entanto, pode significar um alívio da pressão e tensão sentidas, trazendo um momentâneo alívio dos sentimentos ruins [4].

Entretanto, o contínuo sentimento de estresse, especialmente no ambiente de trabalho, pode levar a um quadro de problema de saúde pública: episódios de burnout [5]. O burnout é um estado mental de exaustão ocasionado por estresse excessivo [6, 7], levando a um esgotamento mental e, portanto, à necessidade de alívio fisiológico de toda a tensão sentida (choro repentino). É discutido na literatura se pacientes com depressão e ansiedade tem maiores propensão a terem episódios de burnout ao longo da vida [6, 7], bem como se estes quadros são as causas ou consequências do burnout.

Ainda, quadros de fadiga e privação de sono também foram relacionados com tais alterações [8, 9]. A fadiga pode ser secundária a outras condições, e tem percepções distintas entre os sexos: enquanto o homem a caracteriza como um episódio de cansaço, mulheres a relacionam com depressão ou ansiedade [10].

Transtorno bipolar

O transtorno bipolar é caracterizado pela variação excessiva de humor, com duas fases distintas: a de mania e a de depressão, podendo ou não ser intercaladas por estabilidades no humor [11]. Ambas as fases podem estar associadas com crises de choro incontroláveis, muitas vezes repentinas, especialmente quando esse transtorno não é diagnosticado e tratado [12].

Transtorno bipolar

Abstinência de medicamentos psiquiátricos

A abstinência é definida pela privação de algo, muitas vezes de forma abrupta, tendo consequências físicas e psicológicas diretas. Dentre as drogas que causam abstinência estão os medicamentos psiquiátricos.

Estes medicamentos são indicados a pacientes com patologias psiquiátricas, como depressão, ansiedade e transtorno bipolar, e sua introdução deve ser acompanhado pelo profissional da área. Da mesma forma, o profissional também deve indicar como o seu uso deve ser interrompido, uma vez que a interrupção abrupta leva à abstinência. Com esta abstinência, uma piora no quadro psiquiátrico pode ser observada, além de crises de choro constantes pela falta daquela molécula.

SintomaDescrição detalhada
AnsiedadeSensação persistente e excessiva de nervosismo, preocupação, medo ou pânico sem motivo aparente. Pode incluir taquicardia, tremores e tensão muscular.
IrritabilidadeInstabilidade emocional com raiva, frustração ou explosões de humor frequentes, mesmo diante de estímulos mínimos. Comportamento agressivo ou impulsivo.
InsôniaDificuldade acentuada para adormecer, permanecer dormindo ou sono não reparador. Despertares frequentes durante a noite.
NáuseaSensação intensa e persistente de mal estar no estômago, que pode evoluir para vômitos frequentes.
TonturaSensação contínua de desequilíbrio, instabilidade, cabeça leve ou vertigem, mesmo estando parado.
SudoreseTranspiração excessiva e repentina sem causa aparente. Sudorese profusa, especialmente nas palmas das mãos e sola dos pés.
TremoresMovimentos involuntários súbitos e intensos afetando principalmente as mãos, braços, pernas e cabeça.
ConfusãoDificuldade intensa de pensar, concentrar-se ou prestar atenção. Desorientação e lapsos de memória.

Distimia

O quadro de distimia é similar ao da depressão, sendo muitas vezes definido como um quadro de depressão crônica, embora a distimia seja mais debilitante [13].

Dentre os principais sintomas, a alta irritabilidade, baixa autoestima, tristeza e pensamentos negativos são os mais observados. Esse quadro deve necessariamente ser tratado com terapias farmacológicas [14], o que reforça a necessidade do diagnóstico correto e diferenciado do da depressão.

SintomaDescrição detalhada
Humor depressivoSentimento persistente de tristeza, melancolia, infelicidade, desânimo ou vazio na maior parte do tempo. Pode durar anos.
Perda de interesseDiminuição acentuada do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades, mesmo nas que antes eram consideradas agradáveis. Falta de motivação.
Fadiga ou perda de energiaSensação constante e excessiva de cansaço, exaustão e desânimo mesmo sem esforço. Dificuldade em iniciar ou completar tarefas por falta de disposição.
Baixa autoestimaSentimento negativo exagerado sobre si mesmo. Autocrítica severa. Falta de confiança e valorização pessoal. Desvalorização frequente.
Dificuldade de concentraçãoProblemas frequentes com foco, atenção e memória. Dificuldade para ler, assistir TV ou ter conversas. Esquecimento frequente.
IndecisãoDificuldade ou incapacidade para tomar decisões mesmo sobre assuntos triviais do cotidiano. Evita escolhas por medo de erro.
Pensamentos negativosVisão negativa persistente de si mesmo, do mundo e do futuro. Pensamentos automáticos de autoculpabilização e autodepreciação.

Hormônios

Alguns hormônios podem fazer com que os sentimentos sejam mais aflorados e, com isso, a sensação de choro iminente aumente, sugerindo uma relação direta entre a fisiopatologia neuroendócrina com tais sintomas psicológicos [15]. De fato, já é observado que o momento ao redor do parto pode ser exemplificado como espécies de alterações hormonais que podem levar a tais crises de choro mesmo quando a recém-mãe não possui o quadro de depressão pós-parto [15].

Ainda, pesquisadores também observaram que o processo da tristeza por si só está relacionado com a alteração de níveis hormonais [16].

Hormônios

Síndrome Pseudobulbar

Talvez esta possa ser a síndrome mais associada aos sintomas de tristeza repentina e choro incontrolável. A síndrome pseudobulbar, de fato, tem como principais sintomas o choro (ou risada) imprevisível [17, 18] e, assim como outras psicopatologias, pode ser facilmente confundida com depressão.

Tendo prevalência na população desconhecida por ser uma doença dificilmente diagnosticada, sua base biológica consiste em uma desregulação da circuitaria motora do tronco cerebral, além da desregulação de neurotransmissores importantes do sistema nervoso [17, 19], o que poderia explicar variações são intensas e imprevisíveis de humor. Sua causa, entretanto, ainda não é conhecida [18].

Por fim, é importante termos em vista que o choro é uma reação importante para aliviar sentimentos ruins. Entretanto, pesquisas mais recentes defendem que esse ‘alívio’ não é observado após o choro advindo de alguma psicopatologia [3], e, portanto, esse choro acaba sendo um sintoma que merece um olhar mais cuidadoso, e até mesmo uma procura profissional para que o correto diagnóstico seja realizado.

Como Lidar com a Vontade de Chorar?

Se você perceber que sua vontade de chorar está afetando sua qualidade de vida, algumas ações podem ajudar:

  • Busque ajuda profissional: Psicólogos e psiquiatras estão capacitados para ajudar a identificar e tratar causas físicas e psicológicas da tristeza.
  • Pratique exercícios físicos: Eles ajudam na liberação de neurotransmissores que promovem bem-estar.
  • Meditação e relaxamento: Técnicas de respiração e relaxamento ajudam a equilibrar a mente.
  • Dedique-se ao autoconhecimento: Entender quem você é e quais são seus gatilhos emocionais pode ser o primeiro passo para uma vida mais equilibrada e feliz.

REFERÊNCIAS

  1. Rufino, S., et al., Aspectos gerais, sintomas e diagnóstico da depressão. Revista Saúde em Foco, 2018. 10(1): p. 837-843.
  2. Vingerhoets, A.J., et al., Is there a relationship between depression and crying? A review. Acta Psychiatr Scand, 2007. 115(5): p. 340-51.
  3. Rottenberg, J., A. Cevaal, and A.J. Vingerhoets, Do mood disorders alter crying? A pilot investigation. Depress Anxiety, 2008. 25(5): p. E9-15.
  4. Sung, A.D., et al., Crying: experiences and attitudes of third-year medical students and interns. Teach Learn Med, 2009. 21(3): p. 180-7.
  5. Vieira, I. and J.A. Russo, Burnout e estresse: entre medicalização e psicologização. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 2019. 29.
  6. Bayes, A., G. Tavella, and G. Parker, The biology of burnout: Causes and consequences. World J Biol Psychiatry, 2021. 22(9): p. 686-698.
  7. Nadon, L., L.T. De Beer, and A.J.S. Morin, Should Burnout Be Conceptualized as a Mental Disorder? Behav Sci (Basel), 2022. 12(3).
  8. Dinges, D.F., et al., Cumulative sleepiness, mood disturbance, and psychomotor vigilance performance decrements during a week of sleep restricted to 4–5 hours per night. Sleep, 1997. 20(4): p. 267-277.
  9. Sundelin, T., et al., Cues of fatigue: effects of sleep deprivation on facial appearance. Sleep, 2013. 36(9): p. 1355-60.
  10. Rosenthal, T.C., et al., Fatigue: an overview. American family physician, 2008. 78(10): p. 1173-1179.
  11. Rolin, D., J. Whelan, and C.B. Montano, Is it depression or is it bipolar depression? J Am Assoc Nurse Pract, 2020. 32(10): p. 703-713.
  12. McCormick, U., B. Murray, and B. McNew, Diagnosis and treatment of patients with bipolar disorder: A review for advanced practice nurses. J Am Assoc Nurse Pract, 2015. 27(9): p. 530-42.
  13. Schramm, E., et al., Review of dysthymia and persistent depressive disorder: history, correlates, and clinical implications. The Lancet Psychiatry, 2020. 7(9): p. 801-812.
  14. Carta, M.G., et al., Current pharmacotherapeutic approaches for dysthymic disorder and persistent depressive disorder. Expert Opin Pharmacother, 2019. 20(14): p. 1743-1754.
  15. Mughal, S., Y. Azhar, and W. Siddiqui, Postpartum depression, in StatPearls [Internet]. 2022, StatPearls Publishing.
  16. Ottowitz, W.E., et al., Neural and endocrine correlates of sadness in women: implications for neural network regulation of HPA activity. The Journal of neuropsychiatry and clinical neurosciences, 2004. 16(4): p. 446-455.
  17. Nguyen, L. and R.R. Matsumoto, The psychopharmacology of pseudobulbar affect. Handb Clin Neurol, 2019. 165: p. 243-251.
  18. Kekere, V., et al., Pseudobulbar Affect Mimicking Depression: A Case Report. Cureus, 2022. 14(6): p. e26235.
  19. Espiridion, E.D., C. Mitchell, and S. Kadakia, Pseudobulbar Affect Presenting as Hypomania. Cureus, 2020. 12(3): p. e7308.

Dra. Juliana Toma

CRM-SP: 156490 / RQE: 65521.
Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Residência Médica em Dermatologia pela UNIFESP. Pós-Graduação em Dermatologia Oncológica pelo Instituto Sírio Libanês (SP).
Fellow em Tricologias, Discromias e Acne pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
Pós-Graduação em Pesquisa Clínica pela Harvard Medical School – EUA (Principles and Practice of Clinical Research).

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CRM-SP: 156490 / RQE: 65521.
Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Residência Médica em Dermatologia pela UNIFESP. Pós-Graduação em Dermatologia Oncológica pelo Instituto Sírio Libanês (SP).
Fellow em Tricologias, Discromias e Acne pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
Pós-Graduação em Pesquisa Clínica pela Harvard Medical School – EUA (Principles and Practice of Clinical Research).

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