Hiposmia é o termo médico para a diminuição da capacidade de sentir cheiros. Trata-se de uma condição que afeta diretamente a percepção do paladar e pode indicar desde causas simples, como uma obstrução nasal temporária, até condições neurológicas que exigem atenção especializada.
Com a pandemia de COVID-19, a hiposmia tornou-se amplamente conhecida por ser um dos sintomas mais característicos da doença. No entanto, suas causas são diversas e seu impacto na qualidade de vida é frequentemente subestimado.
Neste artigo, explicamos como funciona o olfato, quais doenças e condições podem causar hiposmia, como ela é diagnosticada e quais são as opções de tratamento disponíveis.
Como funciona o olfato
O olfato funciona quando moléculas odoríferas presentes no ar entram em contato com receptores localizados na mucosa do nariz. Esses receptores enviam sinais ao cérebro, que os interpreta como cheiros. O processo pode ocorrer de duas formas:
- Via ortonasal: o ar inalado pelo nariz carrega as moléculas de odor diretamente até os receptores olfativos — é assim que percebemos o cheiro do ambiente ao nosso redor;
- Via retronasal: durante a mastigação, moléculas liberadas pelo alimento sobem pela parte posterior da garganta até os receptores nasais — é por essa via que percebemos a maior parte do sabor dos alimentos.
Quando ocorre a hiposmia?
A hiposmia ocorre quando algo interrompe ou prejudica esse processo — seja um bloqueio físico no nariz que impede a chegada das moléculas aos receptores, seja um dano nos próprios receptores ou nas vias neurais que transmitem o sinal ao cérebro. O resultado é uma percepção de cheiros reduzida, que pode variar de leve a intensa.
Essa alteração compromete diretamente a percepção de sabores e pode afetar a segurança, o apetite e o bem-estar do indivíduo.
🧠 Como o olfato chega ao cérebro
Clique em cada etapa para entender o caminho do odor até a percepção consciente.
Na hiposmia, qualquer ponto desse trajeto pode estar comprometido — desde o nariz até o cérebro.
Hiposmia, anosmia e ageusia: entenda a diferença
As alterações na percepção do olfato e do paladar recebem nomes distintos de acordo com sua gravidade:
- Hiposmia: redução parcial da capacidade de sentir cheiros — a pessoa ainda percebe odores, mas com menor intensidade ou clareza;
- Anosmia: perda total do olfato — a pessoa não consegue detectar nenhum odor;
- Ageusia: perda da percepção do paladar — frequentemente associada à hiposmia ou anosmia, pois grande parte do sabor depende do olfato;
- Parosmia: distorção do olfato — odores conhecidos são percebidos de forma diferente, geralmente de maneira desagradável. É um fenômeno comum durante a recuperação de infecções virais, incluindo a COVID-19.
A relação entre olfato e paladar
O olfato e o paladar são sentidos intimamente conectados. O que chamamos de “sabor” de um alimento é, na verdade, o resultado da combinação entre o que a língua detecta (doce, salgado, azedo, amargo e umami) e os aromas que chegam ao nariz pela via retronasal durante a mastigação.
Estima-se que até 80% do que percebemos como sabor depende do olfato. Por isso, quando o olfato é reduzido ou perdido, os alimentos passam a parecer sem gosto — mesmo que as papilas gustativas da língua estejam funcionando normalmente.
Além disso, o cheiro de um alimento atraente estimula o apetite e prepara o sistema digestivo para a refeição. A ausência desse estímulo pode levar à redução do interesse em comer e, em casos prolongados, contribuir para deficiências nutricionais.
Portanto, quando alguém relata que os alimentos “perderam o sabor”, a causa mais provável é uma alteração no olfato — e não no paladar.
Causas e doenças associadas à hiposmia
A hiposmia pode ter origem em fatores comportamentais, obstruções físicas, infecções ou doenças sistêmicas. Em alguns casos, não representa um sinal de doença grave — mas sempre merece avaliação médica para identificar e tratar a causa.
Entre as causas não relacionadas a doenças:
- Tabagismo: o cigarro danifica progressivamente os receptores olfativos, reduzindo a sensibilidade ao longo do tempo;
- Obstrução nasal mecânica: desvio de septo, pólipos nasais ou inchaço da mucosa podem bloquear fisicamente a chegada dos odores aos receptores;
- Traumas: impactos na cabeça ou no nariz podem lesionar o nervo olfativo;
- Medicamentos: alguns remédios de uso contínuo, como certos antibióticos, anti-hipertensivos e antidepressivos, podem interferir na função olfativa como efeito colateral.
Entre as doenças frequentemente associadas à hiposmia:
- Rinite alérgica e sinusite: a inflamação crônica da mucosa nasal prejudica o funcionamento dos receptores olfativos;
- Infecções virais: gripes, resfriados e, especialmente, a COVID-19 podem causar hiposmia temporária ou prolongada;
- Doenças neurológicas: condições como Parkinson, Alzheimer e esclerose múltipla frequentemente comprometem o olfato em fases iniciais — por isso a hiposmia pode ser um sinal precoce importante;
- Tumores: lesões na região do bulbo olfativo ou em estruturas cerebrais próximas podem afetar a percepção de odores;
- Doenças autoimunes e inflamatórias sistêmicas: condições como sarcoidose e vasculites podem atingir as vias olfativas;
- Causas congênitas: algumas pessoas nascem com ausência ou redução do olfato, como ocorre na síndrome de Kallmann.

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Este checklist não substitui uma consulta médica, mas pode ajudá-lo a identificar sinais que merecem atenção profissional.
Hiposmia e COVID-19: o que se sabe
A pandemia de COVID-19 colocou a hiposmia sob os holofotes da medicina e do público em geral. O vírus SARS-CoV-2 afeta as células de suporte do epitélio olfativo — a camada de tecido que abriga os receptores de cheiro no nariz — comprometendo seu funcionamento mesmo sem destruir diretamente os neurônios sensoriais.
A intensidade da perda olfativa varia consideravelmente entre os pacientes: alguns apresentam hiposmia leve e transitória, enquanto outros experimentam anosmia completa. A boa notícia é que a maioria dos pacientes recupera o olfato em até 60 dias após a resolução da infecção.
No entanto, uma parcela dos pacientes desenvolve o que é chamado de COVID longa, em que a hiposmia persiste por meses. Nesses casos, pode ocorrer também parosmia — uma distorção do olfato em que cheiros conhecidos passam a ser percebidos de forma diferente ou desagradável. Essa condição tem tratamento e acompanhamento específicos, descritos mais adiante.
Impacto da hiposmia na qualidade de vida
A perda do olfato vai muito além do incômodo de não sentir o perfume de uma flor. Seus efeitos práticos incluem:
- Redução do apetite e do prazer em comer, com risco de perda de peso e deficiências nutricionais em casos prolongados;
- Dificuldade em detectar situações de risco, como vazamento de gás, fumaça de incêndio ou alimentos estragados;
- Impacto emocional: cheiros estão fortemente ligados à memória e às emoções — sua ausência pode gerar sentimentos de distância, tristeza ou anedonia;
- Prejuízo nas relações sociais e profissionais, especialmente para quem trabalha com gastronomia, perfumaria ou áreas que dependem do olfato.
Como é feito o diagnóstico da hiposmia
O diagnóstico correto deve ser realizado por um médico especialista. É essencial buscar avaliação profissional ao perceber qualquer alteração persistente na função olfativa ou gustativa — quanto mais cedo a causa for identificada, maiores as chances de recuperação.
A avaliação geralmente começa com uma anamnese detalhada: o médico investiga quando a alteração começou, se houve eventos precipitantes (como infecção, trauma ou início de medicação), e como o quadro evoluiu. Em seguida, pode ser indicado:
- Olfatometria: teste padronizado que avalia a capacidade de detectar, identificar e discriminar diferentes odores. Permite classificar objetivamente o grau de perda olfativa e diferenciar hiposmia de anosmia;
- Endoscopia nasal: exame que visualiza diretamente a mucosa e as estruturas internas do nariz para identificar pólipos, inflamações ou obstruções;
- Exames de imagem: tomografia computadorizada ou ressonância magnética podem ser solicitadas para avaliar seios paranasais, nervo olfativo ou estruturas cerebrais relacionadas;
- Exames laboratoriais: em casos suspeitos de causa autoimune, infecciosa ou metabólica, exames de sangue auxiliam na investigação.

Tratamento da hiposmia
O tratamento da hiposmia depende da causa identificada e deve ser individualizado. A seguir, apresentamos as principais abordagens disponíveis:
- Tratamento da causa de base: quando a hiposmia decorre de rinite, sinusite ou alergia, o controle dessas condições com medicamentos específicos (como corticoides nasais, anti-histamínicos e antibióticos, conforme indicação médica) frequentemente restaura o olfato;
- Cirurgia: indicada em casos de obstrução mecânica, como desvio de septo, pólipos nasais extensos ou tumores. A remoção do obstáculo permite a retomada do fluxo olfativo;
- Treino olfativo: técnica baseada em evidências, especialmente indicada para hiposmia pós-viral (incluindo COVID-19). Consiste em cheirar, de forma sistemática e diária, quatro odores distintos e intensos (como cravo, limão, eucalipto e rosa) por cerca de 20 segundos cada, duas vezes ao dia. O estímulo repetitivo favorece a neuroplasticidade e a regeneração das conexões olfativas. Os resultados aparecem gradualmente, geralmente após 12 a 16 semanas de prática regular;
- Corticoides sistêmicos: em alguns casos selecionados, o médico pode indicar um ciclo de corticoides orais para reduzir inflamação nas vias olfativas;
- Vitamina A intranasal: estudos preliminares sugerem que a aplicação tópica de vitamina A pode estimular a regeneração do epitélio olfativo em casos selecionados — ainda em investigação, mas já utilizada em alguns protocolos clínicos;
- Acompanhamento neurológico: quando a hiposmia está associada a doenças neurológicas, o tratamento da condição de base e o acompanhamento especializado são fundamentais para preservar ao máximo a função olfativa.
💊 Guia de opções de tratamento por causa
Selecione a causa provável para ver as abordagens mais utilizadas. Sempre consulte um médico para diagnóstico e indicação terapêutica adequada.
As informações acima têm caráter educativo. O tratamento deve ser sempre prescrito e supervisionado por um médico.
Quando procurar ajuda especializada
Procure avaliação médica se você apresentar redução ou perda do olfato que persista por mais de duas semanas, que tenha surgido sem causa aparente, ou que esteja associada a outros sintomas como dores de cabeça frequentes, alterações de memória ou dificuldades de equilíbrio. Esses sinais, quando combinados, podem indicar condições que se beneficiam de diagnóstico e tratamento precoces.
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Hiposmia exige atenção — não espere piorar
O olfato é um sentido essencial para a segurança, a nutrição e o bem-estar emocional. A hiposmia, quando não investigada, pode indicar condições tratáveis que, identificadas precocemente, têm melhor prognóstico.
Se você perceber que o seu olfato não está funcionando bem, não normalize o sintoma. Procure um médico especialista, descreva com clareza quando começou e como tem evoluído — essas informações são fundamentais para o diagnóstico correto.
Referências
1 – CALDAS, A.S.; FACUNDES, V.L.; MELO, T.M. Alterações e avaliação das funções do olfato e do paladar em laringectomizados: revisão sistemática. J Soc Bras Fonoaudiol., v. 23, n. 1, p. 82-88, 2011.
2 – Olfato e paladar: qual a relação entre esses dois sentidos?
3 – Hiposmia: conheça as principais causas e condições de tratamento.

















































