Os eicosanoides são substancias produzidas pelo nosso corpo que funcionam como mensageiros da inflamação. Em termos simples, eles avisam as células quando devem iniciar, manter ou encerrar um processo inflamatório[1]Calder PC. Eicosanoids. Essays in Biochemistry. 2020 Sep 23;64(3):423-41..
Esses compostos são fabricados a partir de gorduras poli-insaturadas presentes na membrana das nossas células, principalmente os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6. Os dois principais ácidos graxos ômega-3 envolvidos nesse processo são o EPA (ácido eicosapentaenoico) e o DHA (ácido docosahexaenoico).
Quando o organismo recebe um estímulo — como uma infecção, lesão ou reação alérgica — uma enzima chamada fosfolipase A2 libera esses ácidos graxos da membrana celular. A partir daí, o corpo os transforma em diferentes tipos de eicosanoides que podem aumentar ou reduzir a inflamação[2]Baker RR. The eicosanoids: a historical overview. Clinical biochemistry. 1990 Oct 1;23(5):455-8.
O tipo de eicosanoide produzido depende do ácido graxo de origem. Os eicosanoides derivados do ômega-6 tendem a ser pró-inflamatórios (estimulam a inflamação), enquanto os derivados do ômega-3 tendem a ser anti-inflamatórios (reduzem a inflamação). É esse equilíbrio entre os dois que determina o nível de inflamação no corpo.
Qual é o principal precursor dos eicosanóides?
O ácido araquidônico, um tipo de ômega-6, é o principal precursor dos eicosanoides. Ele dá origem aos mediadores inflamatórios mais potentes do organismo, que incluem:
- Prostaglandinas — regulam a dor, a febre e a inflamação nos tecidos;
- Leucotrienos — participam de reações alérgicas e inflamatórias nas vias respiratórias;
- Tromboxanos — estimulam a agregação das plaquetas (coagulação do sangue);
- Fator de ativação plaquetária (PAF) — amplifica respostas inflamatórias e alérgicas.
Esses mediadores derivados do ácido araquidônico possuem alto potencial inflamatório. Quando produzidos em excesso ou sem o contraponto adequado dos eicosanoides anti-inflamatórios (derivados do ômega-3), eles podem contribuir para processos inflamatórios crônicos.
Formação dos eicosanóides
Depois de liberados da membrana celular, os ácidos graxos seguem por duas vias enzimáticas principais para se transformarem em eicosanoides:
- Via da ciclo-oxigenase (COX) — origina prostaglandinas e tromboxanos. Essa é a mesma via bloqueada por medicamentos anti-inflamatórios como ibuprofeno e aspirina;
- Via da lipo-oxigenase (LOX) — origina leucotrienos, envolvidos em reações alérgicas e inflamatórias das vias aéreas.
Os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 competem por essas mesmas enzimas. Quando há mais ômega-6 disponível, o corpo produz mais eicosanoides pró-inflamatórios. Quando há mais ômega-3, a produção se desloca para eicosanoides anti-inflamatórios[3]Tassoni D, Kaur G, Weisinger RS, Sinclair A. The role of eicosanoids in the brain. Asia Pacific journal of clinical nutrition. 2008 Jan 1;17(S1):220-8..
Os eicosanoides anti-inflamatórios (derivados do ômega-3) contribuem para:
- Redução da vasodilatação excessiva (inchaço);
- Inibição da agregação plaquetária (prevenção de coágulos desnecessários);
- Modulação da dor e da febre.
Como o corpo produz eicosanoides
Diagrama simplificado das duas vias metabólicas
Tromboxanos
série 3
Protectinas
Os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 competem pelas mesmas enzimas (COX e LOX).
O equilíbrio entre eles determina se o resultado será mais inflamatório ou anti-inflamatório.
Função dos eicosanóides
A principal função dos eicosanoides é mediar os processos inflamatórios e sinalizar as células sobre a sua ocorrência. Eles funcionam como um sistema de alarme e reparo: avisam o organismo sobre agressões e coordenam a resposta de defesa.
O ácido araquidônico, principal precursor dos eicosanoides pró-inflamatórios, é obtido pelo organismo a partir do ácido linoleico (um ômega-6 essencial presente em óleos vegetais). Já o ácido linolênico (um ômega-3 essencial presente em sementes e peixes) dá origem ao EPA e DHA, que produzem eicosanoides anti-inflamatórios.
Ambos — ácido linoleico e ácido linolênico — são chamados de ácidos graxos essenciais porque o corpo humano não consegue fabricá-los. Eles precisam ser obtidos por meio da alimentação.
Qual a relação entre os eicosanóides e os ácidos graxos essenciais?
Os ácidos graxos essenciais ômega-3 e ômega-6 são a matéria-prima para a produção dos eicosanoides. Sem eles, o corpo não consegue fabricar esses mediadores inflamatórios[4]Sala A, Folco G, Murphy RC. Transcellular biosynthesis of eicosanoids. Pharmacological Reports. 2010 May;62(3):503-10..
Como o organismo não consegue sintetizá-los por conta própria, eles precisam vir da alimentação diária. A proporção em que consumimos ômega-3 e ômega-6 influencia diretamente o perfil de eicosanoides que o corpo produz — e, consequentemente, o nível de inflamação nos tecidos.
O ômega-9 (ácido oleico), embora seja uma gordura saudável, não é essencial (o corpo consegue produzi-lo) e não participa diretamente da síntese de eicosanoides. Ele oferece benefícios cardiovasculares por outros mecanismos.
Ômega-9

O ômega-9 é uma gordura monoinsaturada (com apenas uma ligação dupla na cadeia de carbono). Diferente do ômega-3 e do ômega-6, ele não é considerado essencial, pois o corpo consegue produzi-lo a partir de outras gorduras. Ainda assim, consumi-lo na dieta traz benefícios. Suas principais fontes alimentares são:
- Azeite de oliva;
- Azeitonas;
- Nozes;
- Macadâmia;
- Abacate;
- Castanha do Brasil.
O ômega-9 contribui para a saúde cardiovascular ao ajudar na estabilização dos níveis de colesterol (reduz o LDL e mantém o HDL). Seu principal representante é o ácido oleico, abundante no azeite de oliva extra-virgem.
Ômega-6
O ômega-6 é um ácido graxo poli-insaturado essencial, presente em óleos vegetais como o de soja, milho e canola. Seu principal representante é o ácido linoleico, que o corpo converte em ácido araquidônico — o precursor dos eicosanoides pró-inflamatórios.
Em quantidades adequadas, o ômega-6 é fundamental: ele participa da defesa imunológica e ajuda a reduzir o colesterol total. O problema ocorre quando o consumo de ômega-6 é muito superior ao de ômega-3, pois isso desloca a produção de eicosanoides para o lado pró-inflamatório.
Ômega-3
O ômega-3 está presente em peixes de águas frias e profundas — como sardinha, salmão, atum e cavala — além de fontes vegetais como sementes de chia e linhaça.
Enquanto o ômega-6 favorece a produção de eicosanoides pró-inflamatórios, o ômega-3 favorece a produção de eicosanoides anti-inflamatórios, como as resolvinas e protectinas. Essa propriedade anti-inflamatória é a principal razão pela qual o ômega-3 é tão valorizado para a saúde.
Na prática, a inflamação gerada pelos eicosanoides do ômega-6 precisa ser contrabalançada pelo ômega-3. Quando esse equilíbrio não existe — o que é muito comum na dieta ocidental moderna — o corpo permanece em um estado inflamatório persistente.
Comparação: Ômega-3 vs. Ômega-6
Inflamação crônica subclínica
Quando o consumo de ômega-6 é muito maior do que o de ômega-3 por períodos prolongados, instala-se uma condição chamada inflamação crônica subclínica. Trata-se de uma inflamação de baixo grau, silenciosa, que não provoca sintomas evidentes no dia a dia.
Essa inflamação persistente causa danos progressivos ao endotélio — a camada interna das artérias, responsável por regular o fluxo sanguíneo e impedir a formação de placas de gordura. Com o endotélio danificado, aumenta o risco de aterosclerose (acúmulo de placas nas artérias), hipertensão e outras doenças cardiovasculares.
É importante entender que não é apenas o colesterol alto que causa doenças do coração. A desproporção no consumo de ômega-3 e ômega-6 é um fator de risco independente que contribui significativamente para essas condições.
Na dieta brasileira moderna, as fontes de ômega-6 (como óleos de soja e milho) são muito mais acessíveis e consumidas em maior quantidade do que as fontes de ômega-3. O resultado é um desequilíbrio crônico que favorece a inflamação silenciosa.
Sua alimentação favorece a inflamação?
Marque os itens que se aplicam ao seu dia a dia. Quanto mais itens marcados, maior a chance de desequilíbrio.
Como equilibrar o consumo nas proporções corretas de eicosanóides Ômega-3 e 6
A boa notícia é que ajustes simples na alimentação podem corrigir o desequilíbrio entre ômega-3 e ômega-6 e reduzir a inflamação crônica. Veja as principais estratégias:
Aumentar a oferta de Ômega-3 na alimentação
A prioridade é aumentar o consumo de alimentos ricos em ômega-3 no dia a dia. A melhor alternativa é incluir peixes como sardinha, salmão, atum e arenque no mínimo 2 a 3 vezes por semana, conforme recomendações de sociedades de cardiologia.
Outra solução acessível é inserir sementes de linhaça e chia nas refeições. Elas podem ser adicionadas em iogurtes, saladas, sucos ou receitas de pães caseiros. A linhaça deve ser triturada (farinha de linhaça) para que o corpo consiga absorver melhor os nutrientes.
Guia prático: fontes de Ômega-3 na alimentação
ALA = ácido alfa-linolênico (ômega-3 vegetal). O corpo converte apenas 5-10% do ALA em EPA/DHA, por isso peixes continuam sendo a melhor fonte.
Reduza o consumo de óleos vegetais
Óleos vegetais ricos em ômega-6, como os de soja, milho e girassol, são os maiores responsáveis pelo excesso desse ácido graxo na dieta brasileira. Reduzir seu uso no preparo das refeições é uma das medidas mais eficazes para restaurar o equilíbrio.
Uma boa alternativa para cozinhar é o azeite de oliva extra-virgem, que é rico em ômega-9 (neutro do ponto de vista inflamatório) e pode ser usado em cozimentos de baixa a média temperatura. Para frituras ocasionais, o óleo de coco ou a banha são opções mais estáveis ao calor.
Aumente as porções de frutas, legumes e verduras

Os processos inflamatórios também são agravados pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, que geralmente contêm óleos vegetais refinados, açúcares e aditivos químicos.
Substituir ultraprocessados por alimentos naturais é uma das formas mais eficientes de reduzir a inflamação. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda o consumo diário de:
- 3 a 5 porções de frutas;
- 2 a 3 porções de legumes e verduras;
- 25 a 30 gramas de fibras (presentes em grãos integrais, frutas e vegetais).
Esses alimentos fornecem antioxidantes e compostos bioativos que complementam a ação anti-inflamatória do ômega-3 no organismo.
Cuidado com os suplementos de ômega-3
A suplementação pode ser útil quando a alimentação não fornece ômega-3 em quantidade suficiente, mas é importante observar alguns pontos:
- Escolha embalagens de cor escura ou opaca — o ômega-3 oxida quando exposto à luz e ao calor, o que pode reduzir sua eficácia e gerar subprodutos indesejáveis;
- Verifique a concentração de EPA e DHA no rótulo. Muitos suplementos contêm óleo de peixe, mas com baixa concentração dos ácidos graxos ativos. A soma de EPA + DHA deve representar a maior parte da cápsula;
- A proporção ideal entre EPA e DHA varia conforme o objetivo clínico. Para efeitos anti-inflamatórios gerais, suplementos com maior teor de EPA são frequentemente recomendados;
- Converse com o seu médico antes de iniciar a suplementação, especialmente se você usa anticoagulantes, tem distúrbios de coagulação ou está grávida.
Quando procurar um médico
O desequilíbrio entre ômega-3 e ômega-6 é silencioso e, isoladamente, não causa sintomas evidentes. No entanto, considere buscar orientação médica se você apresentar:
- Dores articulares ou musculares persistentes sem causa aparente;
- Fadiga crônica e recuperação lenta após esforços físicos;
- Níveis elevados de triglicerídeos ou marcadores inflamatórios (como a proteína C-reativa) em exames de sangue;
- Histórico familiar de doenças cardiovasculares.
Um médico ou nutricionista pode solicitar exames específicos, como o perfil de ácidos graxos, para avaliar a proporção de ômega-3 e ômega-6 no organismo e orientar ajustes dietéticos ou suplementação individualizada.
Referências Bibliográficas
| ↑1 | Calder PC. Eicosanoids. Essays in Biochemistry. 2020 Sep 23;64(3):423-41. |
|---|---|
| ↑2 | Baker RR. The eicosanoids: a historical overview. Clinical biochemistry. 1990 Oct 1;23(5):455-8 |
| ↑3 | Tassoni D, Kaur G, Weisinger RS, Sinclair A. The role of eicosanoids in the brain. Asia Pacific journal of clinical nutrition. 2008 Jan 1;17(S1):220-8. |
| ↑4 | Sala A, Folco G, Murphy RC. Transcellular biosynthesis of eicosanoids. Pharmacological Reports. 2010 May;62(3):503-10. |
















































