O que é Ciúme: Definições, Características e Tratamento

É natural que haja expectativa quando se trata da escolha de um parceiro amoroso, pois há a impressão de que o objeto de amor possa desejar alguém mais gratificante ou atraente, alimentando uma certa insegurança afetiva.

Atualmente, dois assuntos são colocados em voga quando é mencionado o assunto relacionamento
amoroso: ciúme romântico e infidelidade. O ciúme é um dos sentimentos mais comuns nos relacionamentos amorosos desde a antiguidade até os tempos modernos.

A escolha do parceiro amoroso pode acontecer a partir da seguinte compreensão: as semelhanças nos
atraem pela proximidade de aspectos em comum conosco, além de lembranças com alguém importante em alguma fase da vida.

Estudos do campo da psiquiatria e de outras culturas observam que há controvérsias na literatura acerca das peculiaridades do ciúme romântico e do ciúme patológico.

Também há vertentes que defendem o ciúme como uma manifestação genuína de amor e zelo, mesmo quando a combinação de categorias de emoções que complicam a aliança nos relacionamentos, utilizado como recurso de justificativa para exercer a prática da vigilância e controle em alguns casos.


Definição de Ciúme

Basicamente, a definição de ciúme é a ameaça frente ao relacionamento amoroso exclusivamente entre
duas pessoas, porém há três pontos importantes que embasam sua conceituação em si: a reação do ciúme ocorre frente uma ameaça que é notada; há um terceiro rival que pode ser real ou fruto da imaginação; qualquer resposta tem o objetivo de eliminar ou reduzir a perda do objeto de amor.

Ele é capaz de produzir, raiva, tensão, insegurança, desconfiança, angústia e baixa autoestima. Cientificamente também foi notado tipos de ciúme, entre os principais:

a) Ciúme Romântico é aquele que faz parte de todos os relacionamentos em maior ou menor grau, mas está principalmente aparente nas relações amorosas;

b) Ciúme Patológico é classificado como ciúme obsessivo pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM5) caracterizado pela falta de preocupação não delirante com o parceiro diante da prática de infidelidade, causando sofrimento significativo na vida do sujeito, que claramente não seja explicada por outro transtorno mental;

c) Ciúme Sexual é um tipo de ciúme que advém da insatisfação sexual de parceiros que tentam coibir o relacionamento ameaçando a infidelidade sexual;

d) Ciúme da Amizade tem sido algo negligenciado. Para fins sociais de manutenção de laços de amizades, há a ameaça de outro na amizade construída ou no valor da amizade ameaçado; forte sentimento de que está sendo substituído na relação de amizade; e vontade de afastar as amizades de outrem;


Ciúmes – homens e mulheres

Homens e mulheres sentem ciúme igualmente. Entretanto, os motivos pelos quais levam cada gênero a
obterem ciúme são diferentes.

Para as mulheres, o sentimento de ciúme está atrelado ao medo da traição, devido menor desejo sexual e sentimento de inferioridade. Já para os homens, o sentimento de ciúme aparece em consequência da fragilidade da saúde, com o pensamento do temor do abandono e medo da infidelidade.

Pesquisas indicam que pessoas solteiras possuem mais ciúme do que pessoas casadas. Já em termos de gênero, mulheres casadas relataram menos ciúme do que mulheres solteiras, ao passo que mulheres casadas afirmaram ter mais ciúme que homens casados.

ciumes amizade


Ciúmes e relação amorosa

A relação amorosa requer um grau de ciúme saudável e o grande desafio dos relacionamentos nesse
quesito é quando justamente obtêm-se traços paranoicos. O ciúme pode ser um sentimento provocado por meio de ações sedutoras do parceiro, e isso dificulta o jogo do relacionamento com crenças errôneas, por exemplo.

Em níveis drásticos, a pessoa releva um ato de violência ou posse contra si devido um ciúme motivado por amor. Quando o relacionamento amoroso tem contornos graves de ciúme, a relação se configura por meio ideias perturbadoras e disfuncionais, ruminações, dúvidas, pensamentos obsessivos sobre infidelidade e atitudes inaceitáveis ou bizarras.


Estudos sobre ciúme

Algumas pesquisas sugerem que o ciúme obsessivo transtorno afetivo possua semelhanças com o transtorno obsessivo-compulsivo, onde os sintomas intrusivos e disfuncionais podem ser vivenciados em excesso, como comportamentos de verificação, por exemplo: bolsas, celulares, questionamentos etc.), querendo afastar ou confirmar uma hipótese.

Todavia, um relacionamento considerado saudável é aquele onde a presença do ciúme tem intensidade
proporcional a algum tipo de risco que uma dada situação traz para a relação, ele precisa funcionar como uma medida de sinalização da segurança que se sente no contrato amoroso.

Quando o ciúme excessivo se manifesta de modo simbiótico, a convivência entre pares passa a ser em função um do outro, sendo portanto considerado uma relação doentia.

Sobre a manifestação do ciúme, as mulheres disseram ser mais responsivas fisicamente, emocionalmente e cognitivamente quando comparadas com os homens, utilizando-se de estratégias mais construtivas do que os homens. Geralmente, pessoas solteiras usam estratégias mais destrutivas comparadas com pessoas casadas.


Ciúme e outras questões de saúde mental

O ciúme está associado a várias questões de saúde mental: ansiedade, depressão, agressividade, baixa autoestima e neuroticismo.

O ciúme está geralmente associado a infidelidade amorosa, ou seja, a falta de comprometimento amoroso prejudicando relacionamentos. A infidelidade continua sendo o maior motivo de causa de separações entre casais nos relacionamentos amorosos.


Estratégias de tratamento

Exitem múltiplas estratégias de intervenções que podem auxiliar no tratamento do ciúme obsessivo. São
denominadas estratégias globais de tratamento utilizadas frente casos de ciúme problemático.

A Terapia de Aprimoramento de Relacionamento é classificada como a primeira linha de tratamento e visa melhorar o relacionamento de modo geral e caso seja necessário, propor ajuda com terapia sexual.

O terapeuta intervém justamente nos comportamentos relacionados ao ciúme referente a relação e a medida que, a aproximação acontece entre o casal, o terapeuta passa a recuar, buscando reconstruir a relação amorosa novamente.

Como ferramenta de trabalho, o terapeuta faz uso da tabela do tempo, onde existe horário demarcado para realização de acusações ou interrogatórios durante no dia.

Algumas técnicas são reconhecidas como instrumentos auxiliares de trabalho do terapeuta antes, durante e depois, sobretudo na formulação do problema na demanda de terapia do casal, logo na primeira sessão de contato, por exemplo, a violência praticada, deve ser uma questão de prioridade.

Sessões conjuntas podem ser realizadas quando previsto, considerando a utilidade das técnicas e necessidade do casal quando há ajuda semelhante.


Principais técnicas de tratamento

As principais técnicas abaixo são métodos individuais suplementares ao tratamento que incluem:

  1. Controle da Raiva: é utilizada em muitos casais que experienciam ataques de raiva verbal ou não verbal e podem precisar de ajuda para controlar a raiva impulsionada nas interações com o parceiro. Técnicas cognitivas e comportamentais são bem-vindas para esse caso.
  2. Assertividade e Treinamento da Comunicação: auxilia parceiros que adotam uma postura passiva ou se sentem incapazes de comunicar seus sentimentos no relacionamento amoroso. Técnicas da terapia comportamental de casal são indicadas.
  3. Dessensibilização: é mencionada a um paciente quando ele associa estímulos específicos relacionados ao ciúme com a pessoa amada (objeto, local, terceiro etc.). As técnicas comportamentais ajudam a pessoa gradativamente a tolerar os gatilhos, como a raiva, provocados por comportamentos ciumentos.
  4. Exposição e Prevenção de Resposta: associado ao tratamento de comportamentos obsessivo-compulsivo, tal técnica ajuda a fornecer pistas aos comportamentos relacionados ao ciúme do parceiro amoroso, por exemplo, checagem ou verificação, no qual ele está comprometido de manifestar abstenção durante um dado momento.
  5. Pensamento Automático: essa técnica é particularmente usada para a substituição de pensamentos de caráter obsessivo e indesejado na premissa de controlar os pensamentos ciumentos, intrusivos ou inapropriados.
  6. Terapia Cognitiva: as cognições do parceiro ciumento são o objeto de avaliação e foco da terapia para alcançar as mudanças desejadas.
  7. Inversão de Papéis: nessa técnica os parceiro são convidados a trocarem de papéis em uma cena de ciúme. O envolvimento com a atividade é muito importante e estar no lugar no outro possibilita enxergar o outro lado.
  8. Explorando Domínios de Exclusividade: técnicas de aconselhamento exploram as discordâncias sobre exclusividade assim como a terapia comportamental de casal pode ser um recuso importante no processo de negociação.
  9. Trabalho Comportamental nas Interações: envolve análise das interações do casal e a partir disso moldar novos comportamentos mais adaptáveis. Utiliza-se técnicas comportamentais, princípios de negociação, role-play e esforços para reciprocidade.
  10. Re-rotulando o Ciúme: o terapeuta trabalho em prol da reformulação do ciúme na vida do casal de maneira positiva, resgatando o ciúme romântico.


O tratamento psiquiátrico é conveniente em casos de ciúme quando a pessoa ciumenta mostra evidências para tal diagnostico.

O ciúme pode ser tratado farmacologicamente e em contrapartida exacerbar sintomas de outras doenças subjacentes, como a depressão, por exemplo.

depressao 2

O tratamento psicológico e/ou psiquiátrico são indicados nesse caso. A equipe multiprofissional deve estar preparada par lidar com este assunto. O trabalho de enfrentamento admitindo ser necessário ajuda se faz importante aos parceiros que possuem ciúme excessivo.

Falar abertamente ao seu parceiro de relacionamento o que sente e o que está passando no momento é de grande valia para o tratamento e para o casal na construção de uma relação saudável.

A confiança é um processo construído pelo casal durante o relacionamento envolvendo ambas as partes dedicação, compromisso e saúde mental.


Referências

ALMEIDA, T.; LOURENÇO, M. L. Ciúme romântico: um breve histórico, perspectivas, concepções correlatadas e seus desdobramentos para os relacionamentos
amorosos. Revista de Psicologia, v. 2, n. 2, p. 18-32, 1 jul. 2011.

ALMEIDA, Thiago de; RODRIGUES, Kátia Regina Beal; SILVA, Ailton Amélio Da. O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos.
Estudos de psicologia (Natal), v. 13, p. 83-90, 2008.

Demirtaş HA, Dönmez A. Yakin Ilişkilerde Kiskançlik: Bireysel, Ilişkisel ve Durumsal Değişkenler [Jealousy in close relationships: personal, relational and situational
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De Silva P. Jealousy in couple relationships: nature, assessment and therapy. Behav Res Ther. 1997 Nov;35(11):973-85.

Krems JA, Williams KEG, Aktipis A, Kenrick DT. Friendship jealousy: One tool for maintaining friendships in the face of third-party threats? J Pers Soc Psychol. 2021
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Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5 (American Psychiatric Association) 5ed. Porto alegre: Artmed, 2014.

Samad FDA, Sidi H, Kumar J, Das S, Midin M, Hatta NH. Subduing the Green-eyed Monster: Bridging the Psychopharmacological and Psychosocial Treatment
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Seo, K. T., Bervique, J. Á., & Rondina, R. C. (2005). Principais fatores desencadeantes de ciúme patológico na dinâmica de relacionamento conjugal. Revista científica
eletrônica de psicologia, 3(5).

STRAVOGIANNIS, Andrea Lorena da Costa. Contribuição do gênero, apego e estilos de amor nos tipos de ciúme. 2019. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

Adhila Carlos Oliveira de Espírito

CRP 06/109972
Psicóloga.
Experiência em Triagem, Atendimento e Pesquisa de Saúde Mental pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina. Atuação na Área de Psicologia com Avaliação e/ou Atendimento Psicológico e
Acompanhamento Terapêutico de Alta Complexidade em Equipamentos de Saúde de Nível Terciário ou Autônomo.
Colaboração em Pesquisa Científica de Projetos da Área da Saúde e Atividades Acadêmicas Correlatas, a saber: Medicina Preventiva, Psiquiatria e Psicobiologia.

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Adhila Carlos Oliveira de Espírito

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Experiência em Triagem, Atendimento e Pesquisa de Saúde Mental pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina. Atuação na Área de Psicologia com Avaliação e/ou Atendimento Psicológico e
Acompanhamento Terapêutico de Alta Complexidade em Equipamentos de Saúde de Nível Terciário ou Autônomo.
Colaboração em Pesquisa Científica de Projetos da Área da Saúde e Atividades Acadêmicas Correlatas, a saber: Medicina Preventiva, Psiquiatria e Psicobiologia.

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