A dor persistente na lateral do quadril pode ser um desafio. A terapia por ondas de choque extracorpórea é uma opção não invasiva com respaldo científico. Este artigo explica como ela funciona, para quem é indicada e o que as evidências mostram.
Por Equipe Editorial | Atualizado em Fevereiro de 2026
Ponto de Partida: A dor profunda ao deitar de lado ou ao subir escadas é uma realidade para muitas pessoas com bursite trocantérica. Além das opções convencionais, a Terapia por Ondas de Choque Extracorpórea (TOCE) se consolidou como uma alternativa. Este artigo examina detalhadamente essa tecnologia, seus mecanismos, indicações e resultados baseados em evidências.
O Que é a Bursite Trocantérica: Entendendo a Dor no “Quadril do Corredor”
A bursite trocantérica é a inflamação da bursa, uma pequena bolsa cheia de líquido que age como amortecedor. Ela fica entre o osso do fêmur (trocanter maior) e os tendões que passam sobre ele, na lateral do quadril.
Quando inflamada, cada movimento causa atrito e dor. O termo mais abrangente é síndrome da dor trocantérica maior, pois frequentemente envolve também os tendões dos glúteos e a fáscia (tecido conjuntivo).
👥 Quem Atinge?
É mais comum em mulheres entre 40 e 60 anos. Atletas que repetem movimentos do quadril, como corredores, também são acometidos.
🎯 Sintomas Típicos
- Dor ao deitar sobre o lado afetado
- Dor ao subir escadas ou levantar da cadeira
- Pontada ao cruzar as pernas
🔍 Diagnóstico
É clínico, baseado no exame físico. A palpação do trocanter causa dor. Exames de imagem como ultrassom ou ressonância magnética confirmam e avaliam a extensão do problema.
Por Que a Dor Persiste? Um Problema Complexo
Muitas vezes, não é apenas uma inflamação da bursa. Frequentemente há uma tendinopatia glútea associada, uma degeneração dos tendões dos músculos glúteos que se inserem no osso.
Essa degeneração altera a estrutura do colágeno, enfraquecendo o tendão. A bursa inflama em resposta, criando um ciclo de dor, mais atrito e limitação. Para rompê-lo, é necessário estimular a regeneração tecidual.
🩺 Insight Clínico: Não é Só “Bursite”
Exames de imagem mostram que em muitos casos há alteração significativa nos tendões glúteos. Por isso, o termo Síndrome da Dor Trocantérica Maior é mais preciso, englobando bursite, tendinopatia e outras alterações dos tecidos moles.
A Ciência das Ondas de Choque: Mais do que um “Choque” no Tecido
A Terapia por Ondas de Choque Extracorpórea (TOCE) utiliza pulsos acústicos de alta energia. São ondas sonoras de curta duração e alta pressão, aplicadas na pele por um transdutor. Não é um choque elétrico.
Existem dois tipos principais: as ondas de choque focadas (mais profundas e precisas) e as radiais (ação mais superficial). A escolha depende da profundidade do tecido alvo e da avaliação médica.
Mecanismo de Ação: Como as Ondas Promovem Cura
A eficácia resulta de uma cascata de efeitos biológicos:
- Microtrauma Controlado e Neoangiogênese: As ondas causam microlesões controladas nos pequenos vasos sanguíneos (capilares). Isso desencadeia a liberação de fatores de crescimento, como o VEGF (Fator de Crescimento Endotelial Vascular), que estimula a formação de novos vasos (neoangiogênese). O aumento do fluxo sanguíneo melhora o suprimento de oxigênio e nutrientes para o tendão degenerado, criando um ambiente favorável para a cura.
- Modulação da Dor (Hiperestimulação Analgésica): As ondas sobrecarregam as fibras nervosas que transmitem o sinal de dor (fibras C), interrompendo temporariamente esse ciclo. Também estimulam a liberação de substâncias analgésicas naturais do corpo, como as endorfinas, e podem alterar a concentração de neurotransmissores como a Substância P.
- Quebra de Calcificações e Remodelagem do Colágeno: Em tendões com calcificações (depósitos de cálcio), as ondas de choque podem fragmentá-las mecanicamente, permitindo que o corpo as remova. Além disso, elas promovem a quebra de fibras de colágeno antigas e desorganizadas, estimulando os fibroblastos (células produtoras de colágeno) a sintetizar novas fibras mais fortes e alinhadas.
- Redução da Inflamação Crônica: Modulam a atividade de células inflamatórias (como macrófagos), ajudando a resolver a inflamação persistente que impede a cicatrização adequada.
📊 Níveis de Evidência em Números
Uma meta-análise de 2023 no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy analisou 11 estudos de alta qualidade. A conclusão foi que a TOCE é superior a tratamentos placebo e conservadores padrão para reduzir dor e melhorar função em pacientes com síndrome da dor trocantérica, com benefícios mantidos por até um ano.
✅ Mecanismos-Chave
- Neoangiogênese: Cria novos vasos sanguíneos.
- Remodelagem: Estimula a reparação do colágeno.
- Modulação da Dor: Interrompe o ciclo de dor crônica.
- Fragmentação: Quebra calcificações tendíneas.
⏱️ Linha do Tempo da Resposta
- 1-4 semanas pós-tratamento: Alívio inicial da dor. Processos biológicos de reparo estão ativos.
- 1-3 meses: Melhora máxima da função. Remodelagem do colágeno em andamento.
- Efeito duradouro: Estudos mostram que os benefícios podem se manter por 1 ano ou mais com a manutenção adequada.
A Jornada do Diagnóstico: Além da Palpação Dolorosa
Um diagnóstico preciso é essencial. O exame físico é a base, incluindo testes como a palpação do trocanter maior e o teste de resistência da abdução do quadril (afastar a perna contra resistência).
Autoavaliação: Você se identifica com estes sinais?
- Dor localizada e pontual na lateral do quadril, que piora ao pressionar a região?
- Dor que irradia para a coxa lateral, mas raramente passa do joelho?
- Desconforto intenso ao tentar dormir sobre o lado afetado?
- Dor ao levantar de uma cadeira baixa ou ao subir degraus?
- Rigidez e dor após períodos prolongados sentado?
Se você se identificou com vários itens, é recomendável buscar uma avaliação médica (ortopedista ou fisiatra).
A Importância do Diagnóstico Diferencial
A dor lateral do quadril pode ter outras causas. É importante descartar condições como:
- Artrose do Quadril (Coxartrose): A dor é tipicamente na virilha, não na lateral.
- Radiculopatia Lombar (Hérnia de Disco): A dor vem da coluna e pode irradiar, frequentemente com formigamento.
- Síndrome do Piriforme: A dor é mais na região glútea profunda e pode simular ciática.
- Fraturas por Estresse do colo do fêmur.
⚠️ Atenção: Sinais de Alerta (Red Flags)
Procure atendimento médico imediatamente se a dor no quadril for acompanhada de:
- Febre e calafrios (pode indicar infecção).
- Trauma recente significativo (queda, acidente).
- Perda de peso não intencional e inexplicada.
- Dor intensa em repouso, que não alivia em nenhuma posição.
- Perda súbita de força na perna ou alterações no controle da bexiga/intestino.
O Espectro de Tratamentos: Onde se Encaixam as Ondas de Choque
O manejo geralmente segue uma abordagem progressiva. As ondas de choque são uma opção intermediária, indicada quando os tratamentos conservadores iniciais não proporcionam alívio satisfatório.
Progressão do Tratamento para Bursite Trocantérica
Fase 1: Conservador Inicial
O que inclui: Modificação de atividades, gelo, analgésicos orais, fisioterapia focada em alongamento e fortalecimento da musculatura do core e quadril.
Duração esperada: 6-8 semanas.
Fase 2: Intervenções Direcionadas
O que inclui: Terapia por Ondas de Choque, infiltrações (corticoide, plasma rico em plaquetas – PRP).
Quando considerar: Quando a Fase 1 não trouxe alívio satisfatório após 2-3 meses.
Fase 3: Cirúrgica
O que inclui: Bursectomia artroscópica, desbridamento ou reparo tendíneo.
Quando considerar: Reservado para casos crônicos (mais de 12 meses) refratários a todos os tratamentos não cirúrgicos.
Análise Detalhada: Ondas de Choque vs. Outras Opções
❌ Mito vs. Fato ❌
Mito: “Ondas de choque são um tratamento experimental ou de última linha.”
Fato: A terapia por ondas de choque para condições musculoesqueléticas é aprovada por agências regulatórias e tem diretrizes clínicas de sociedades internacionais (como a ISMST) há anos. É um tratamento consolidado de segunda linha, indicado após a falha da fisioterapia básica.
O Que Esperar de um Tratamento com Ondas de Choque
Um protocolo comum envolve 3 a 5 sessões, com intervalo de uma semana entre cada uma. A resposta ao tratamento segue uma progressão biológica previsível.
Linha do Tempo da Recuperação com TOCE
Sensação: Desconforto variável, descrito como pequenos “tapinhas” ou formigamento. A intensidade é ajustada conforme a tolerância. A sessão dura 5-15 minutos por área.
Possível reação: Aumento temporário da dor local, vermelhidão ou leve inchaço. É uma reação inflamatória local esperada, sinalizando o início do processo de reparo. O gelo pode ser usado para alívio.
Início da Melhora Clínica: Redução perceptível da dor ao deitar de lado e em atividades diárias. A neoangiogênese e a modulação da dor começam a mostrar efeito.
Pico de Eficácia: O efeito máximo é percebido, com ganho significativo de força e função. A remodelagem do colágeno atinge seu ápice. A fisioterapia nessa fase é crucial para consolidar os ganhos e reeducar o movimento.
💡 Ponto-Chave: Tratamento Multimodal
As ondas de choque não são uma solução isolada. Os melhores resultados ocorrem quando a TOCE é integrada a um programa de reabilitação ativa. A terapia prepara biologicamente o tecido para a cura, e a fisioterapia fortalece a musculatura, corrige a biomecânica e previne recidivas.
Perguntas Frequentes (FAQs) Expandidas
1. As ondas de choque doem? É preciso anestesia?
A aplicação causa um desconforto variável, semelhante a pequenos “choques” ou formigamentos. A intensidade é ajustável. A maioria dos pacientes tolera bem sem anestesia. Em casos de dor intensa, pode-se usar um creme anestésico tópico.
2. Quais os efeitos colaterais e riscos reais?
É um procedimento de baixo risco. Os efeitos adversos são geralmente leves e temporários:
- Vermelhidão e inchaço leve (24-48h).
- Pequenos hematomas.
- Aumento temporário da dor (reaflamação de curta duração).
- Formigamento passageiro.
Complicações sérias são muito raras. A aplicação é evitada sobre nervos principais, vasos sanguíneos grandes ou áreas com infecção ativa.
3. Quantas sessões são necessárias e qual o custo?
O protocolo padrão varia de 3 a 5 sessões, com intervalo semanal. O custo total pode variar conforme a região e a clínica. É um tratamento geralmente não coberto por planos de saúde no Brasil para indicações ortopédicas.
4. Posso fazer atividades físicas durante o tratamento?
Recomenda-se evitar atividades de alto impacto (corrida, saltos) que provoquem dor durante as semanas de tratamento. Atividades levas e os exercícios prescritos pelo fisioterapeuta são encorajados. A progressão deve ser guiada pelo profissional.
✅ Candidato Ideal
- Dor crônica (>3 meses) na lateral do quadril.
- Resposta insuficiente à fisioterapia inicial.
- Diagnóstico de síndrome da dor trocantérica maior confirmado.
- Boa saúde geral, sem contraindicações.
🚫 Contraindicações Relativas/Absolutas
- Gravidez (na área de aplicação).
- Tumores na área a ser tratada.
- Infecção ativa na pele ou tecidos profundos.
- Distúrbios graves de coagulação ou uso de anticoagulantes (requer avaliação).
📈 Taxas de Sucesso
Evidências clínicas indicam melhora significativa (redução de >50% na dor e ganho funcional) em 70% a 85% dos pacientes com dor trocantérica crônica após um ciclo completo de tratamento.
5. E se as ondas de choque não funcionarem para mim?
A maioria dos pacientes responde, mas não é uma garantia. A falta de resposta após um ciclo completo pode indicar a necessidade de revisão do diagnóstico ou de considerar outras opções da segunda linha, como infiltração guiada com PRP, ou uma avaliação mais aprofundada para causas menos comuns de dor.
6. O tratamento é coberto pelo plano de saúde ou SUS?
Na prática, a cobertura por planos de saúde é incomum para esta indicação específica, sendo frequentemente classificada como procedimento eletivo. No SUS, a disponibilidade é muito limitada. O custo é, portanto, geralmente assumido pelo paciente.
Conclusão: Informação como Ferramenta para Decisões Informadas
A síndrome da dor trocantérica maior é uma condição complexa que pode impactar significativamente a qualidade de vida. A Terapia por Ondas de Choque Extracorpórea é uma opção terapêutica baseada em evidências dentro do arsenal não cirúrgico.
Seu principal diferencial é o mecanismo biológico regenerativo, que visa tratar a causa subjacente da degeneração tendinosa, e não apenas mascarar a dor. Seu sucesso é otimizado quando parte de um plano de reabilitação multimodal.
✅ Sinais Positivos de Progresso
- Consegue dormir sobre o lado afetado por períodos mais longos.
- Consegue subir escadas sem segurar no corrimão por apoio.
- A dor que era constante se torna apenas ocasional.
- Retoma atividades de lazer sem medo da dor no dia seguinte.
A decisão por qualquer tratamento deve sempre partir de uma avaliação médica especializada para confirmação diagnóstica e planejamento individualizado. Use estas informações para embasar uma discussão produtiva com seu médico.
Lembrete Final: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Ele não substitui, em hipótese alguma, a consulta com um médico qualificado. Nunca inicie, altere ou interrompa um tratamento sem orientação profissional.
















































