Uma análise detalhada sobre como danos nos nervos podem levar à instabilidade e quais estratégias baseadas em evidência ajudam a manter a segurança.
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Introdução: Mais do que Sintomas Sensoriais
Para muitas pessoas com neuropatia periférica, a sensação de instabilidade ao caminhar é uma realidade constante. O problema vai além do formigamento ou dor nos pés e mãos.
O impacto mais significativo pode ser na função motora e no sistema proprioceptivo. Este é o sentido que informa ao cérebro a posição do corpo no espaço sem precisar olhar.
Este artigo explica a relação entre dano nervoso e perda de equilíbrio. Abordaremos os mecanismos, os riscos e, principalmente, estratégias práticas para reduzir o risco de quedas e manter a autonomia.
Dados sobre Risco de Quedas
Pessoas com neuropatia periférica apresentam um risco significativamente aumentado de quedas. Estudos indicam que o risco pode ser de 2 a 3 vezes maior em comparação com pessoas sem a condição, dependendo da gravidade e causa.
O Que É Neuropatia Periférica?
Neuropatia periférica é um termo que descreve danos aos nervos do sistema nervoso periférico. Esta rede conecta o cérebro e a medula espinhal aos músculos, pele e órgãos internos.
Pense nos nervos como fios elétricos. Eles transmitem sinais de sensação para o cérebro e comandos de movimento para os músculos. Quando danificados, a transmissão fica lenta, distorcida ou é interrompida.
Causas Comuns
A neuropatia pode ter diversas origens. As mais frequentes incluem:
- Diabetes Mellitus (Polineuropatia Diabética): A causa mais comum. Níveis altos de açúcar no sangue, ao longo do tempo, danificam os nervos e os pequenos vasos que os nutrem.
- Deficiências Nutricionais: Falta de vitaminas como B12 e B1, que são essenciais para a saúde dos nervos.
- Efeito Colateral de Quimioterapia: Certos quimioterápicos podem causar neuropatia como efeito adverso.
- Doenças Autoimunes: Condições onde o sistema imunológico ataca erroneamente os nervos periféricos.
- Idiopática: Em muitos casos, uma causa específica não é identificada após investigação adequada.
Mecanismos do Dano Nervoso
O dano pode ocorrer por diferentes mecanismos. Um deles é a desmielinização, que é a degradação da bainha de mielina. Essa camada isola o nervo, permitindo a transmissão rápida dos impulsos elétricos.
Na neuropatia diabética, a hiperglicemia persistente causa dano aos pequenos vasos sanguíneos. Isso reduz o fluxo de oxigênio e nutrientes para as fibras nervosas, levando a uma degeneração que começa nas partes mais distantes do corpo.
Padrão de Início
Os sintomas geralmente começam simetricamente nos pés. Isso ocorre porque os nervos mais longos, que vão até os pés, são os primeiros e mais severamente afetados.
Tipos de Fibra Nervosa
- Fibras Finas: Transmitem sensações de dor e temperatura.
- Fibras Grossas: Responsáveis pelo tato discriminativo, propriocepção e controle motor fino.
Fatores de Risco Importantes
Idade avançada, diabetes de longa duração (mais de 5 anos) e controle glicêmico inadequado aumentam de forma significativa o risco de neuropatia sintomática.
Como a Neuropatia Afeta o Equilíbrio
Manter o equilíbrio é um processo complexo que depende da integração de três sistemas sensoriais:
- Sistema Visual: Fornece informações sobre o ambiente e a posição da cabeça.
- Sistema Vestibular (no ouvido interno): Detecta movimentos e aceleração da cabeça.
- Sistema Proprioceptivo: Receptores nos músculos, tendões e articulações enviam sinais sobre a posição das pernas e pés.
A neuropatia periférica compromete principalmente a propriocepção. Quando os nervos que carregam essa informação estão danificados, o cérebro recebe dados imprecisos ou ausentes sobre a base de apoio.
Teste Clínico de Propriocepção
Um teste comum é o teste calcanhar-joelho-tíbia. O paciente, deitado e de olhos fechados, deve colocar o calcanhar de um pé no joelho oposto e deslizá-lo pela canela até o tornozelo. Dificuldade em realizar este movimento com precisão sugere déficit proprioceptivo. Isso mostra como o cérebro depende da visão para compensar a falta de informação dos nervos dos pés.
A Consequência: Pés que Não “Sentem” o Chão
Com a propriocepção prejudicada, o cérebro fica sem informações cruciais sobre:
- A textura ou inclinação da superfície onde se pisa.
- Pequenos desníveis ou obstáculos.
- A posição exata dos tornozelos durante o movimento.
Para compensar, o corpo passa a depender excessivamente da visão. Em situações onde a visão é limitada, como à noite ou ao se virar rapidamente, essa compensação falha. Os reflexos de correção postural ficam mais lentos, transformando um simples tropeço em uma queda potencial.
O Ciclo do Medo de Cair
A instabilidade pode gerar um medo intenso de cair. Esse medo, por sua vez, leva a pessoa a reduzir suas atividades físicas. A inatividade resulta em perda de força muscular, flexibilidade e condicionamento, o que aumenta ainda mais o risco de queda. Interromper este ciclo é um objetivo fundamental do tratamento.
Diagnóstico: Identificando a Causa e Avaliando o Equilíbrio
O diagnóstico envolve confirmar a neuropatia, determinar sua causa e avaliar seu impacto funcional específico na marcha e no equilíbrio.
Exames de Investigação
- Eletroneuromiografia (ENMG): Avalia a condução elétrica dos nervos e a resposta muscular. Pode diferenciar entre dano axonal (no corpo do nervo) e desmielinizante (na bainha).
- Testes Sensoriais Quantitativos: Medem com precisão os limiares de sensação a vibração, temperatura e toque leve.
- Biópsia de Nervo: Indicada apenas em casos selecionados e complexos para análise histológica.
Sinais que Indicam a Necessidade de Avaliação
- Quedas recorrentes ou episódios de quase queda.
- Dificuldade para caminhar no escuro ou em superfícies irregulares.
- Sensação de pisar em algodão ou de pés frios e dormentes.
- Falta de confiança ao andar sem apoio visual.















































