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Espaço individual na relação: por que importa

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro

Prejuízo persistente no sono, apetite, concentração, vínculos, trabalho ou autocuidado indica necessidade de avaliação e apoio estruturado.

Se chegamos ao ponto, em que se faz necessário, dizer da importância de respeitar o espaço de cada um dentro de um relacionamento, isso significa que, o modo como concebemos a ideia de relação, não pressupõe que um casal possa viver uma vida individual.

Tratamos já aqui, em outro texto, sobre a necessidade de cultivar uma vida própria, que não depende do parceiro ou parceira com os quais dividimos a vida.

Dividir a vida, inclusive, é frase que faz pensar. Pois dividir, é palavra que reflete a cisão entre a vida individual e a vida compartilhada com o outro.

Você percebe que o termo dividir a vida, suscita em nós a noção de que, em uma relação, é inevitável que mantenhamos nossa vida individual inteira? Uma vida sem corte, sem fração, sem dividir. Parece até egoísta escrever isso. Contudo, é mais egoísta e danoso, pressupor que é preciso dividir-se para compor com o outro.

E não é exatamente o que fazemos quando encontramos um par?

Penso em minhas próprias experiencias de dividir a vida, e também, nas outras equações que acompanhei de perto.

Em nossa sociedade, fomos introduzidos a um tipo de relação, que implementou em nossa subjetividade, a concepção de que para sermos adultos temos que conquistar determinadas coisas.

Não existe apenas a pressão de que sejamos bem-sucedidos profissionalmente. Isso também acontece no aspecto amoroso. Existem cobranças chegando de todos os lados. “Quando você vai ter filhos?”, “está na idade de casar”. Familiares, amigos, propaganda televisiva, música… Tudo isso nos coloca em situação de atenção: precisamos encontrar alguém.

Mas, será que precisamos mesmo?

Sem nem ao menos pensar sobre, vamos, pouco a pouco, sendo conduzidos a uma vida que procura dividir. O problema disso é que, na preocupação de encontrar e dividir a vida com alguém, esquecemos de somar com quem mais importa: o Eu.

Da importância de respeitar seu próprio espaço

Quando penso na ideia de espaço, sou remetida a ideia de algo vazio. como se fosse algo esvaziado de sentido. E nós não aprendemos a lidar com o vazio. Isso diz muito sobre mim, sobre você e sobre os outros.

Minha avó paterna, há anos atrás, me presentou com a roupa que vestiu em seu casamento. Nunca disse a ela sobre meu desejo de casar na igreja, até porque nunca o tive. Ainda assim, ela acreditou que aquele seria um bom presente. E foi.

Percebi que, quando mulheres, da idade dela, vestiam-se de branco e iam para a igreja fazer votos de amor, esse era um dos momentos mais importantes de suas vidas. O momento que marcava e instituía legalmente e religiosamente a divisão da vida.

Você já viu aquele topo de bolo de casamento, em que a noiva puxa o noivo pela gravata? Essa é uma bela representação para nos fazer pensar sobre a vida que se divide. A figura faz alusão a ideia de que o homem só casa porque é coagido pela mulher.

Escrevo isso porque, claramente, existe uma cobrança e um peso diferente, entre homens e mulheres, quando se trata de relacionamento. Se o homem, no topo do bolo do seu casamento, insinua querer fugir, a mulher é representada como quem faz do casamento a grande ocupação de sua vida.

E isso não é problema, desde que seja uma escolha consciente da própria mulher. Dificilmente é.

Complexa a tarefa de escrever sobre o espaço que é preciso dar ao outro em uma relação, quando, precedente à comunhão, o homem teve seu espaço respeitado enquanto indivíduo.

Enquanto que nós, mulheres, temos que ouvir aquela tia chata nos dizendo que ficaremos sozinhas se não encontrarmos alguém logo para dividir. Como se nossa vida só fosse ganhar sentido quando isso ocorrer.

Muito mais importante do que aprender a dividir, é aprender a respeitar nosso próprio espaço. Respeitar o espaço de nossa vida. Confundimos monogamia com impossibilidade de existência individual e assim, construímos relações nas quais apagamos a nós mesmos, para ser com o outro.

***

Quanto a obviedade do assunto, tenho apreço por um dizer de Fernando Pessoa:

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

E o quanto de nós nascemos. Conduzidos a ser com o outro, antes de aprendermos a ser só com a gente.

O amor é o que todos nós buscamos. Do jeito que for e com quem for. Homem com homem. Mulher com mulher. Mulheres e homens. Dentro de relações monogâmicas ou não. Todos queremos ser amados e todos queremos compartilhar a vida com alguém.

Contudo, isso nunca deveria ser acompanhado do entendimento de que estar em um relacionamento, pressupõe abandonar quem somos sozinhos.

Já vi muita gente, mudando muita coisa, para se adaptar no gosto do outro. Gente querendo caber em lugar que não faz bem, só para caber com alguém. Já vi gente que aguentou calado os abusos psicológicos que sofria, só para não precisar estar sozinho. Relações e pessoas fadadas a deterioração.

Tudo isso porque, essas pessoas não aprenderam sobre a importância de respeitarem seu próprio espaço. Essas pessoas somos nós, que não fomos ensinados sobre cultivar uma vida individual, independente de com quem formos compor depois.

Coisas simples como, descobrir o que faz feliz, o que gosta de ouvir, comer, o que acalma. Fazer e manter relações de amizade. Sair e se divertir apenas com os amigos. Sair e se divertir apenas consigo mesmo.

São coisas como essas que produzem individualidade, autoconhecimento e que não permitem que acabamos junto dos relacionamentos que acabam. Pois ainda temos a nós, os nossos gostos, as coisas e as pessoas que vieram antes do outro.

Dizendo mais ainda sobre o óbvio… Se, quando a pessoa com quem você compartilha a vida, quer aproveitar a vida dela própria sozinha, e isso te causa angustia ou incômodo, é porque você não entendeu ainda a importância de sua própria individualidade.

Priorizar a si, não deixar a vida que se tinha para trás só porque agora divide-se a vida com alguém, fazer coisas que independem dos nossos parceiros, não nos torna egoístas. Não significa que se ame menos. É apenas o sinal de estabilidade psicológica dentro de uma relação de dois.

Dois que não se dividem, mas se somam. Então, que possamos parar de dividir a vida. Que relacionamentos possam ser composição de vidas, nunca a cisão da vida individual que se tem.

Por fim, deixo o trecho de Holy, música de Jamila Woods[1] que nos ensina:

“Eu não estou sozinho,

Eu sou sozinho.

E eu sou sagrado.

Os dias ruins podem vir

O amante pode partir

[…]

Você é seu templo

Você é tudo o que tem”


[1] https://www.youtube.com/watch?v=t3MhH2WekcY

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

amor romantico
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

O cuidado pode combinar psicoterapia, ajustes de rotina, tratamento de sono, revisão de substâncias, suporte familiar e avaliação médica quando há depressão, pânico, risco ou sintomas físicos associados.

Fontes úteis

  • WHO: saúde mental
  • NIMH: saúde mental
  • MedlinePlus: saúde mental

Arquivado em: Psicologia Marcados com as tags: psicologia

Por que as pessoas mentem? Psicologia e relações

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro

Mentira pode aparecer como defesa, evitação, manipulação, medo de conflito ou tentativa de preservar imagem. O impacto real depende de frequência, dano, intenção, reparação e contexto. Quando vira padrão, afeta confiança, vínculo e saúde emocional.

As pessoas mentem por motivos diferentes: medo, vergonha, proteção, vantagem, hábito, conflito ou tentativa de pertencer. Entender a mentira exige olhar consequência, intenção e repetição, porque uma mentira ocasional não tem o mesmo peso de um padrão que prejudica relações.

Do sentimento ao plano

PontoPergunta prática
FrequênciaIsso acontece em dias isolados ou virou padrão?
ImpactoAfeta sono, estudo, trabalho, relações ou autocuidado?
ControleA pessoa consegue escolher respostas diferentes ou se sente travada?
Rede de apoioHá alguém confiável para conversar sem julgamento?
RiscoExiste ameaça, violência, autoagressão, abuso de substâncias ou ideação suicida?

Passos pequenos e concretos

  • Nomeie o problema em comportamentos observáveis, não em rótulos.
  • Escolha um limite ou rotina simples para testar por uma semana.
  • Reduza exposição a situações que aumentam sofrimento sem resolver nada.
  • Procure ajuda imediata se houver risco de violência ou autoagressão.

Quando pedir ajuda

Ajuda profissional faz sentido quando o sofrimento é persistente, limita a vida, aumenta uso de álcool ou remédios, ou aparece com desesperança intensa.

Em contextos de escola, trabalho ou família, registrar fatos concretos e buscar uma conversa mediada pode ser mais efetivo do que tentar convencer todos de uma vez.

Para o autor, a mentira lírica seria uma espécie de permissão, que dá a si próprio, ao contar uma história inofensiva, que tem como intuito tornar mais interessante a crônica contada.

Mas nem só de permissão poética vive a mentira. E isso a gente bem sabe.

Tanto quanto já fomos enganados por pessoas que mentem, também fomos nós, em algum momento da vida, os mentirosos. A mentira é uma daquelas coisas que fazem parte da vida humana. Tive certeza disso quando comecei a escrever esse texto.

Como de costume, antes de iniciar o processo de escrita, fiz uma daquelas buscas despretensiosas no Google. Na barra de pesquisa, digitei a palavra mentira. E eis que, para minha surpresa, o resultado da busca foi esse:

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Perceba que, algumas das palavras semelhantes a mentira são: conto, conversa, história. O que demonstra que a mentira está, de algum modo, correlacionada com o ato de falar/contar alguma coisa.

Na maior parte dos outros textos que li – textos de profissionais da área de psicologia – a mentira é abordada como algo preocupante. O que é coerente, visto que a mentira, em determinadas situações, pode ser patológica.

Considerando essas buscas, compreendi que a mentira aparece nas produções literárias, culturais e científicas de dois modos. Podendo ser classificada como banalidade, ou um sinal para termos cautela.

Assim, ponderando os dois lados da moeda, seguimos com o texto.

Quando a mentira machuca

Uma célebre e conhecida frase de Nietzsche, diz: “Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”.

E quando a mentira machuca? O que está contido na história ou fala de alguém que pode fazer doer em nós? Já parou para pensar que talvez não seja apenas o conteúdo da mentira que nos incomoda?

Acredito que o que faz doer, quando alguém nos mente, não é a mentira em si, mas a confiança que temos no outro, que é então quebrada pelo ato da mentira. Nossas relações interpessoais são constituídas de acordos. Tratos que fizemos e estabelecemos, mesmo quando silenciosos, para saber até onde se pode ir com determinada pessoa.

Os casamentos e namoros, por exemplo, são, antes de tudo, acordos. Em um casamento, comumente, existe uma espécie de deliberação sobre a monogamia. Na saúde e na doença, promete-se amor quando os votos são feitos. Nada é dito sobre a mentira, mas não porque não importe e sim porque é entendida através de outra ótica dentro das relações. Faz parte dos acordos silenciosos.

A mentira, quando cometida por alguém com quem mantemos um vínculo relacional, é então sentida como a cisão de um acordo. E é por isso que ela machuca. Ela pode até ser sentida fisicamente, como aquele embrulho no estômago que chega junto de palavras que sabemos conterem inverdades.

É ainda por seu oposto que a mentira machuca. Uma INverdade, a omissão da veracidade. Dói, inclusive, por cogitarmos acreditar, mesmo quando temos a certeza de que o que está sendo contado não é fidedigno a realidade.

Sobretudo, a mentira é sentida como traição. Traição de pacto, de acordo, de confiança. Por isso, a mentira não refere-se apenas ao momento no qual ela acontece. Ela reverbera na relação, chegando a nós como uma dúvida que se instala na psique.

Poucas coisas podem produzir um desassossego tão grande em nosso pensamento quanto a dúvida sobre o outro. O não saber, se ainda é possível ou válido confiar em quem nos mentiu, pois a confiança, que é base em qualquer relacionamento, encontra-se abalada.  

É com isso que a mentira opera. Não só com a dissimulação contida nas palavras que se profere, mas também com sentimentos e pensamentos. Existe mentira que conduz quem foi enganado a duvidar de si mesmo (já vimos isso antes aqui). Existe mentira que produz uma insegurança tão grande, que torna difícil não só a tarefa de confiar em quem mentiu, mas de confiar em outras pessoas e até mesmo em relações futuras.

Existe ainda a mentira que é mais grave do que os casos citados. A mentira que se utiliza em vista de manipulação e na prática de crimes, assim como, o estelionatário.

Isso nos mostra que a mentira é multifacetada, pode ser complexa ou comum, criminosa ou cotidiana. Mas é impossível viver em sociedade sem contar mentira.

As mentiras que contamos

Se existe a mentira que machuca, do outro lado, existe a mentira que contamos como forma de manter o convívio social. Aquele tipo de inverdade que é proferida pela relação que se estabelece com a pergunta, sabe?!

Nesses casos, opta-se, conscientemente, pela mentira, porque a opinião verdadeira acabaria sendo mais rude do que a própria realidade.

William Blake, famoso poeta e pintor, escreve que: “Uma verdade que é dita com má intenção derrota todas as mentiras que possamos inventar”. E o pensador Sófocles, complementa: “Não é bom dizer mentiras; mas quando a verdade puder trazer uma terrível ruína, então dizer o que não é bom também é perdoável”.

Esse para mim é o ponto nevrálgico da questão. Existem situações cotidianas, nas quais, uma verdade, quando proferida apenas pelo pacto social e moral, acaba produzindo um sentimento de desconforto muito maior a quem é submetido a tal opinião.

Sabe aquela pergunta que fazemos ao outro, intuindo que a resposta seja exatamente a que desejamos? Um exemplo clássico é quando somos convidados a opinar sobre uma roupa, corte de cabelo, uma refeição. A pergunta que é direcionada a nós é tendenciosa. Não é uma pergunta que busca pela verdade. O que se deseja é uma resposta polida, gentil.

Reflita. O quanto você deseja a verdade quando faz determinada pergunta?

Conheço muitas pessoas que tem um acordo severo com a verdade. E que, diferente do que acreditam, não são consideradas pessoas extremamente confiáveis ou verdadeiras. Uma fala permeada de opiniões grosseiras e de posicionamento pouco empático, ancorado no discurso de que está sendo sincero, pode piorar, e muito, a situação.

Assim como há mentira que machuca, há verdade que machuca também.

Reafirmo, para convivermos socialmente, às vezes, é necessário omitir a verdade. Isso não nos torna mentirosos, só seres humanos coexistindo, em sociedade, com suas diferenças.


[1]Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=R1IUt-CAgSw&t=19s

Resumo visual: padrão, intensidade e impacto

Em saúde mental, o mais útil é observar frequência, intensidade e prejuízo na rotina. Isso evita transformar uma emoção passageira em diagnóstico e também evita minimizar sofrimento persistente.

porque as pessoas mentem
PontoComo observarPor que ajuda
PadrãoQuando aparece, quanto dura e o que costuma disparar?Ajuda a diferenciar reação pontual de ciclo repetido.
ImpactoSono, trabalho, estudo, relações e autocuidado mudaram?Mostra se o problema está afetando funcionamento real.
ApoioHá risco, isolamento, uso de álcool/drogas ou pensamentos de morte?Indica necessidade de ajuda imediata.
  • Anote situações que pioram e aliviam.
  • Observe se o padrão se repete por dias ou semanas.
  • Busque ajuda urgente se houver risco de autoagressão.

Quando buscar apoio estruturado

SinalLeitura clínica
Sintoma persistentePede avaliação quando dura semanas ou volta em ciclos.
EvitaçãoMostra que o medo ou desânimo está comandando escolhas.
Uso de álcool ou remédios para suportar o diaAumenta risco e pode mascarar o quadro.
Pensamentos de morteExigem apoio imediato e rede de segurança.

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Fontes úteis

  • CDC: saúde mental
  • CDC: manejando estresse
  • MedlinePlus: saúde mental

Fontes úteis

  • NIMH: cuidar da saúde mental
  • CDC: bem-estar emocional
  • WHO: saúde mental

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Pessoas negativas: como conviver com elas?

17 de junho de 2022 by Eduarda Moro

Quando penso sobre a temática do texto – pessoas negativas; negatividade; pessimismo – sou remetida a um filme que assisti já há algum tempo. Her (2014), de Spike Jonze. Na obra cinematográfica acompanhamos Theodore, em busca de um par romântico.

Como conviver com pessoas negativas sem se desgastar tanto

Chamar alguém de “negativo” pode misturar muitas coisas: crítica constante, pessimismo, agressividade, sofrimento emocional, controle ou simples diferença de estilo. Em vez de tentar diagnosticar a pessoa, costuma ser mais útil observar comportamentos concretos, impacto na sua rotina e quais limites precisam ser comunicados.

Do incômodo ao limite

SituaçãoResposta mais útil
Reclamações repetidasReduza tempo de exposição e direcione a conversa para ações possíveis.
Críticas pessoaisNomeie o limite: “posso conversar, mas não aceito insultos”.
Manipulação ou culpaEvite justificar tudo; repita o limite com clareza.
Ambiente de trabalhoRegistre situações objetivas e busque mediação quando necessário.
Medo ou ameaçaPriorize segurança e procure apoio de pessoas ou serviços confiáveis.

Perguntas antes de decidir o que fazer

  • O comportamento é pontual ou virou padrão?
  • Depois do contato, você se sente culpado, com medo ou exausto com frequência?
  • Você já comunicou um limite simples e observou a reação?
  • Existe risco de violência, perseguição ou controle? Se sim, não lide sozinho.

Her, não se trata, propriamente, de uma trama sobre pessoas negativas. Contudo, a partir da saga do personagem principal, pode-se perceber a exacerbação do sentimento de melancolia, com a qual Theodore encara o ato de conhecer pessoas novas.

Desesperançoso – após ter vivido o fim de uma longa relação – com os últimos encontros que teve, ele então se permite experimentar uma nova categoria relacional, envolvendo-se com uma máquina.

Ou melhor, com um programa de inteligência artificial, instalado em seu computador. O programa é totalmente personalizado, conforme as demandas e exigências de cada usuário. O filme se desenrola a partir desse enredo. Não há como surpreender-se quando Theodore, se apaixona pela voz com quem conversa através da tela. Afinal, ele se apaixona por “alguém” feito especialmente para ele.

Nessa cena, em diálogo com sua amiga, Theodore, demonstra a empolgação com o novo amor que vive:

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Cena do filme Her

E complementa, dizendo: “- Tinha esquecido que isso existia”. Retratando o que foram seus últimos relacionamentos, e representando os vários desafetos que nós mesmos, de fora da tela, já vivemos, não é mesmo?!

Entretanto, os momentos de desesperança e melancolia vividos pelo personagem, só cessam quando encontra um par perfeito para compartilhar os dias.

Pessoas negativas: A “pessoa negativa” pode ser você

“É bom estar com alguém que se encanta com o mundo”, diz Theodore. O quanto isso nos fala… Percebem? Ao mesmo passo em que essa frase nos fala do outro, fala de um eu e do que ele espera. E quando a pessoa negativa é você?

Somos acostumados a entregar a incumbência de nossa felicidade ao outro. Ele deve nos fazer feliz, alimentar nosso ego, aumentar nossa autoestima. É para isso que serve uma relação, certo?! Na verdade, não!

O caminho mais fácil é esse, o de apontar o erro do outro. Deixando de perceber o quanto nós temos responsabilidade sobre nossa própria vida, e sobre o que permitimos que o outro faça conosco.

Tarefa complexa a de ser otimista e positivo. Principalmente porque, a certa altura da vida existe uma espécie de desacreditamento que toma conta da gente. Depois de tantos encontros que foram ruins, experiencias relacionais que deixaram marcas, a vida que simplesmente parece não colaborar, seja na instância amorosa, familiar ou profissional.

Ser adulto implica em vez ou outra, dar-se conta de que nem tudo vai ser como imaginamos (já falamos disso aqui). A probabilidade de você estar vivendo uma vida que não idealizou é grande. Falo da minha própria ao escrever essa última frase. E isso não quer dizer que sejamos negativos em pensamento. A questão é o que fazemos com isso.

Sem aquela conversinha de coach, que induz a uma positividade exacerbada, ou frases impactantes, tal como “você é negativo e por isso sua vida dá errado, mude o jogo”. Eu nunca entendi qual é o jogo que é preciso mudar.

Veja, o que quero dizer com isso é que, a vida e o modo como vivemos ela – falo aqui da vida humana, como um todo – pode nos prostrar vez ou outra, esgotando nossas fontes de contentamento e prazer. É para isso que precisamos nos atentar.

Entenda que tem coisas que não são passíveis de mudança. Mas muitas outras sim. A maneira como você encara um desafeto, um dia horrível no trabalho, a confusão de casa, uma discussão com um amigo querido… Todas essas coisas são intrínsecas a vida. E eu não vou fazer parte do clube que pede a você para encarar isso com bom humor e positividade.

Sugiro outra coisa.

Sugiro que, quando isso acontecer, você fique por um momento sozinho. Mas, sozinho consigo mesmo. Parando por um momento para assimilar e compreender de onde surge o sentimento de frustração, negatividade e toda aquela carga que vem junto quando algo dá errado.

Costumeiramente, temos pensamentos que se conectam a um acontecimento ruim. E tem coisa que é impossível sentir de maneira diferente. Contudo, não é só contraproducente manter-se em estado de negatividade e mal humor, como também, nos leva a um processo de autossabotagem.

 Se não é possível sentir de maneira diferente, inventemos então um jeito novo para contornar a situação.

Jacob Levy Moreno, psicólogo e criador da abordagem psicoterapêutica do Psicodrama, nos dá pistas de como fazer isso. Para ele, a espontaneidade e a criação são ferramentas essenciais do cotidiano, com as quais podemos operar no mundo em busca de uma vida mais ativa e saudável psiquicamente.

Moreno (1974, p. 76)[1], escreve que a espontaneidade “[…] é o que impele o indivíduo para uma resposta adequada a uma nova situação, ou uma nova resposta a uma situação antiga. Assim a criatividade está relacionada ao ato em si, e a espontaneidade ao aquecimento, a uma prontidão para agir”.

Ainda, para o mesmo autor[2] (MORENO, 1987, p. 42), uma “conduta desordenada e emocionalismo resultantes de comportamento impulsivo, afastam-se do trabalho de espontaneidade pretendido”.

Ou seja, situações que nos fazem encarar a vida com pessimismo e que acabam por resultar em comportamentos de autossabotagem, são sim corriqueiros. É preciso encarar tais situações de um outro ângulo, uma outra perspectiva. Utilizar de nosso conhecimento, sobre as coisas, sobre a vida, e sobre as coisas da vida, para responder, de um jeito novo, às circunstâncias que são intrínsecas a nossa existência.

Vamos viver muitos dias ruins. Vamos, ainda, acordar com mal humor e nos intoxicarmos com nossa própria negatividade. Daí a necessidade do autoconhecimento. É a partir dele que se faz possível modificar e transformar nossa própria vida e o cotidiano. Permanecer nos mesmos erros e perpetuar o momento reflexivo de autoflagelo só nos deixa ainda mais imersos no pessimismo.

Nem sempre o inferno são os outros. Ninguém é maquinaria dotada de artificialidades suficientes para viver a vida de bom humor. Caso contrário, relacionar-se com inteligência artificial seria mais acessível, já que habitam um espaço-tempo no qual, de fato, seria possível viver apenas de contentamento e positividade.  

Às vezes, o inferno somos nós. insistindo em alimentar pensamentos e posicionamentos negativos, em situações que se resolveriam mais facilmente a partir de outra abordagem.

Fontes úteis

  • MedlinePlus: mental health
  • SAMHSA: encontrar ajuda

[1]Moreno, J. L. (1974). The creativity theory of personality: spontaneity, creativity, and human potentialities. In I. A. Greenberg (Ed.), Psychodrama theory and therapy (pp.73–84). Nova Iorque: Behavioral publications

[2]Moreno, J. L. (1987). The essential Moreno: Writings on psychodrama, group method, and spontaneity. In J. Fox (Ed.). R

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