A adenomiose é uma doença benigna e não costuma evoluir para câncer. Existem relatos raros de câncer originado em focos de adenomiose, mas isso é uma situação excepcional, diferente do curso habitual da doença. Um diagnóstico de adenomiose no ultrassom, por si só, não significa lesão pré-cancerosa nem necessidade de retirar o útero para prevenir câncer.
A ressalva que importa na prática é outra: sangramento novo, fora do padrão ou após a menopausa não deve ser explicado automaticamente por uma adenomiose conhecida. Doenças diferentes podem causar sintomas semelhantes ou coexistir no mesmo útero.
O que é adenomiose e por que ela causa sintomas
O endométrio reveste a parte interna do útero. Na adenomiose, tecido semelhante a esse revestimento está presente na camada muscular, chamada miométrio. Isso pode acompanhar espessamento da parede uterina, cólicas intensas e menstruação volumosa. Algumas mulheres também têm dor pélvica, sensação de peso e desconforto na relação; outras não apresentam sintomas.
Ela não é a mesma doença que a endometriose, na qual o tecido semelhante ao endométrio aparece fora do útero. As duas podem coexistir, mas localização, exames e decisões terapêuticas não são idênticos. Essa distinção está detalhada no artigo sobre endometriose, sintomas e tratamento.
O que os estudos sobre câncer realmente mostram
É preciso separar três situações: adenomiose sem câncer, câncer do endométrio que aparece em um útero que também tem adenomiose e câncer que comprovadamente se originou dentro de um foco de adenomiose. Encontrar as duas doenças na mesma peça cirúrgica não prova que uma se transformou na outra.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 reuniu 37 pacientes com câncer originado em adenomiose, descritos principalmente em relatos e pequenas séries de casos. A maioria estava na menopausa. Esse tipo de publicação demonstra que o fenômeno existe, mas não permite calcular com confiança a probabilidade de transformação para todas as mulheres com adenomiose.
Esses casos raros não tornam a transformação em câncer uma evolução esperada da adenomiose. Também não fornecem uma estimativa confiável de risco individual: estudos que selecionam pacientes por já terem um tumor não acompanham todas as mulheres com adenomiose para saber quantas adoecerão no futuro.
Quais sangramentos precisam de investigação
Menstruações progressivamente mais intensas, sangramento entre ciclos ou após a relação merecem avaliação, mesmo quando já existe adenomiose. Entre as possibilidades estão pólipos, miomas, alterações do endométrio e doenças do colo uterino. O padrão do sangramento e a fase da vida orientam quais exames são necessários.
Depois da menopausa, qualquer sangramento vaginal deve ser investigado, mesmo pequeno ou ocorrido apenas uma vez. A causa frequentemente é benigna, como atrofia ou pólipo, mas é necessário excluir alterações pré-cancerosas e câncer. Um laudo antigo de adenomiose não encerra essa investigação.
Sangramento volumoso com fraqueza importante, tontura, desmaio ou falta de ar precisa de atendimento urgente. Dor pélvica muito forte ou diferente da habitual também não deve aguardar uma consulta de rotina.
Ultrassom, ressonância e biópsia respondem perguntas diferentes
O ultrassom transvaginal costuma ser o primeiro exame de imagem para avaliar a adenomiose; a ressonância pode complementar a investigação em situações selecionadas. Esses métodos mostram características da parede do útero e ajudam a distinguir outras alterações estruturais.
Quando o problema é sangramento anormal, pode ser necessário avaliar também o endométrio, por ultrassom, histeroscopia e coleta de tecido. A biópsia analisa células e estruturas ao microscópio; não é obrigatória para toda adenomiose nem pode ser substituída por um exame de imagem quando há indicação de investigar o revestimento uterino.
O Papanicolau e o teste de HPV são voltados ao colo do útero. Eles não servem para confirmar adenomiose ou excluir todas as causas de sangramento que surgem dentro do corpo uterino.
O tratamento costuma ter como alvo a dor e o sangramento
Uma adenomiose encontrada incidentalmente, sem sintomas relevantes, pode não precisar de tratamento. Quando há cólica ou fluxo intenso, as opções incluem medicamentos para dor e sangramento e tratamentos hormonais, inclusive o DIU hormonal. A intenção de engravidar e a resposta a tratamentos anteriores mudam a escolha.
A retirada do útero pode ser discutida quando os sintomas são importantes e persistem apesar de outras medidas, especialmente quando não há desejo de gestação futura. É uma decisão sobre benefício, riscos cirúrgicos e qualidade de vida; não uma consequência automática do medo de câncer.
Referências
- NHS — adenomiose: sintomas, investigação e tratamento.
- UCLH — informações sobre adenomiose e opções de tratamento.
- Raffone e colaboradores — revisão sistemática sobre câncer originado em adenomiose, 2023.
- NHS — investigação de sangramento após a menopausa.
- INCA — detecção precoce do câncer do colo do útero.
