Dormir com lente de contato aumenta o risco de inflamação e infecção
da córnea, mesmo quando a lente é vendida para uso prolongado. Uma noite
acidental não significa que haverá uma complicação, mas dor,
vermelhidão, sensibilidade à luz ou visão embaçada depois de acordar
exigem atenção rápida.
Por que o risco aumenta
durante o sono
A córnea não possui vasos sanguíneos e recebe boa parte do oxigênio
diretamente do ar. Com os olhos fechados, a oferta de oxigênio já
diminui; a lente acrescenta outra barreira. O ambiente mais úmido e com
menor troca lacrimal também favorece a aderência e a multiplicação de
microrganismos.
O problema mais importante é a ceratite microbiana, uma infecção da
córnea que pode formar uma úlcera e deixar cicatriz permanente. Segundo
os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, dormir
com lentes eleva várias vezes o risco de infecção ocular. Isso vale para
cochilos e para uso ocasional durante a noite, não apenas para quem
dorme com as lentes todos os dias.
E as lentes aprovadas
para uso prolongado?
Algumas lentes têm maior permeabilidade ao oxigênio e recebem
autorização para uso estendido. Essa característica reduz parte da falta
de oxigenação, mas não elimina o risco infeccioso. A indicação depende
do material, da adaptação, da superfície ocular e da avaliação feita
pelo oftalmologista.
Uma lente mensal comum não se torna uma lente de uso contínuo porque
está confortável. Também não é seguro prolongar a validade: “mensal”
descreve o período após a abertura, e não trinta usos separados. Quanto
mais depósitos de proteínas, maquiagem e biofilme se acumulam, maior a
chance de irritação e contaminação.
O que fazer ao acordar com a
lente
Quando não há dor importante, o primeiro passo é não arrancar uma
lente ressecada. Piscar algumas vezes e usar lágrima artificial sem
conservante pode permitir que ela volte a se mover. Depois que estiver
solta, a retirada deve ser feita com as mãos lavadas e bem secas.
A lente descartável deve ser eliminada. Lentes reutilizáveis só podem
voltar ao estojo após limpeza e desinfecção com a solução indicada para
aquele material; água, soro fisiológico e saliva não desinfetam lentes.
Se o olho permanecer vermelho ou áspero, a lente não deve ser recolocada
naquele dia. Óculos preservam a superfície ocular enquanto os sintomas
são observados.
Sintomas que mudam a
urgência
Leve secura que melhora logo após retirar a lente é diferente de dor
persistente. Avaliação oftalmológica no mesmo dia é indicada quando
aparecem:
- dor ou sensação forte de corpo estranho;
- vermelhidão que não diminui após a retirada;
- sensibilidade à luz;
- secreção;
- redução ou embaçamento da visão;
- um ponto branco visível na córnea.
Esses achados podem acompanhar abrasão ou ceratite. Colírios
anestésicos não devem ser usados em casa, pois mascaram a progressão e
podem lesar a córnea. Colírio com corticoide também pode agravar algumas
infecções. O tratamento correto pode incluir antimicrobiano em
intervalos frequentes, mas depende do exame na lâmpada de fenda.
Quando a lente parece presa
Uma lente gelatinosa pode dobrar e ficar escondida sob a pálpebra
superior, mas não consegue passar para trás do olho. Lubrificação,
piscar e massagem delicada sobre a pálpebra fechada podem trazê-la para
uma posição visível. Dor, dificuldade para localizar a lente ou
tentativas repetidas sem sucesso justificam avaliação presencial, sem
pinças, unhas ou cotonetes.
Se o material rasgou, a presença de um fragmento costuma manter a
sensação de arranhão. O exame identifica e remove o restante sem
traumatizar mais a superfície ocular.
Como evitar que aconteça de
novo
A medida mais eficaz é retirar as lentes antes de deitar, inclusive
em viagens e após consumo de álcool. Um estojo com solução dentro da
bolsa evita a decisão de dormir com a lente por falta de material. O
estojo deve ser esvaziado, limpo com solução própria, seco ao ar e
substituído regularmente.
Banho, piscina e água de torneira também merecem atenção: a água pode
carregar microrganismos, inclusive Acanthamoeba, associados a ceratites
difíceis de tratar. Lentes diárias são descartadas ao fim do uso; lentes
reutilizáveis seguem o método de fricção, enxágue e tempo de desinfecção
do fabricante. O conforto não serve como teste de segurança.
É possível
voltar a usar lente no dia seguinte?
Se o olho amanheceu inteiramente branco, confortável e com visão
habitual após a retirada, uma nova lente pode ser considerada depois de
um intervalo, nunca a mesma que foi usada durante o sono. Qualquer
irritação residual é motivo para permanecer com óculos. Em quem repete
episódios de vermelhidão ou percebe intolerância crescente, a adaptação
precisa ser revista: curvatura, diâmetro, material, filme lacrimal e
rotina de limpeza podem estar inadequados. O exame também procura
inflamação palpebral e pequenos defeitos do epitélio que não são
visíveis no espelho.
Quem também apresenta grau irregular encontra uma explicação em astigmatismo e suas
formas de correção; se a queixa principal for um crescimento sobre a
córnea, a leitura adequada é sobre pterígio e limites do
colírio.
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Referências
- Centers for Disease Control and Prevention. About contact lens wear
and care. https://www.cdc.gov/contact-lenses/prevention/index.html - Centers for Disease Control and Prevention. Corneal infections
associated with sleeping in contact lenses. https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/67/wr/mm6732a2.htm


